Espetinhos

12/12/2014

Saio em busca de uma lista de remédios perto de casa. Faltou um. Resolvo então andar os cerca de 1.500 metros entre o Acupe e o Largo da Cruz da Redenção, pela D. João VI, ao encontro de outras três farmácias e da garantia de que voltaria com a compra completa.

Sete da noite de sexta-feira, gente, muita gente, na volta pra casa, a fazer compras de última hora, do fim do dia, a beber, a comer, no vai e vem da mudança de turno das ruas de comércio, de botecos, de um tudo. Brotas é um bairro de um tudo, de muita gente nas ruas, de calçadas cheias. Este é o principal motivo da minha alegria nesta penúltima morada em Salvador antes dos dois metros quadrados definitivos.

Se um turista fizesse o mesmo percurso imaginaria que o espetinho –  no meu tempo diziam ser de gato – fosse nossa comida mais típica, apesar de quase uma dezena de baianas de acarajé além de pontos  de mingau, filas para beiju, carrinhos de milho cozido, cachorro quente. Comida é que não falta na rua.  Mas espetinho neste trecho é soberano, servido nas mesas da matriz e das duas filiais da rede Espetinho do Bolero e no Baú do Espetinho, todos lotados. E também nas esquinas, nas calçadas, lá está ele aqui e ali a queimar, sempre cercado de gente, de cerveja e do arrocha.

Não tem como evitar a lembrança da morte, da doença, mesmo com toda a vida nos passeios. Passo por duas funerárias, dois hospitais, muitas clínicas, faculdades da área médica. Alguns  pontos de ônibus concentram mais dores, de quem vem dos tratamentos, de quem acompanha tratamentos.

Se tem morte, tem igrejas,  muitas igrejas, católica, evangélica, pentecostal. A de Nossa Senhora de Brotas, a mais antiga, vazia e enfeitada, à espera de um casamento. Salões de beleza lotados, festa infantil num playground já animada. Frutas, todas que você imaginar, banana a preço de banana, a 1,99 a penca, na promoção da calçada, muitos mercadinhos.

Traio minha baiana e experimento o abará com pimenta da outra. E gosto mais, talvez pela novidade, motor das aventuras. Chego em casa, compra completa,  abro um vinho chileno barato e potencializo meu amor por Brotas.

 

 


Sem hora

16/11/2014

Cruzeiro

08/11/2014

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Com uma história na cabeça desde que Simone Prazeres  me contou, na semana passada.  Digna de um  conto, mas travei. Por isso  trago aqui ela crua, quero ajuda, aceitam-se versões.

Década de 1950, ele planejou durante anos um cruzeiro. Incutiu.
Tudo passou ao  segundo plano, tudo era em razão da viagem,  o navio partiria do Rio, ele embarcaria no porto de Salvador em direção às mulheres, à Europa.
Sonhou,  trabalhou, economizou, descuidou do corpo, arruinou os dentes.

Mas o dia chegou. Passagem comprada, ternos de linho comprados, chapéus, dentes novos, superiores e inferiores.Embarcou. Primeira noite, a festa do comandante, cercou quatro. Quase.

Mas bebeu, bebeu, bebeu. As mulheres se recolherem, a  lua apareceu, o mundo girou. Levantou e se apoiou no parapeito do navio, lançou tudo ao mar.Comida, dentes e sonhos.

Seguiu viagem, toda a viagem, trancado no camarote.

Imagem: http://bit.ly/1pCAD7u

Minha versão em construção

Cruzeiro

A vida é aquilo que acontece enquanto você planeja.”
John Lennon.

Debruçado sobre a balaustrada da Praça Castro Alves observa o movimento dos barcos na baía. Completa 35 anos na próxima terça-feira, véspera do embarque. (…)


O lugar

04/11/2014

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Aos 15 anos, vindo do interior de Conquista, pisei pela primeira vez no carpete do teatro meu chinelo de couro. Muitos shows do projeto Pixinguinha com a camisa azul e os colegas da ETFBa, fui me acostumando, me viciando nas suas escadarias, um dos lugares mais mágicos desta cidade. Naqueles dias vi e ouvi Cartola. Só por isso valeu. Depois vi nascer a OSBA. Um belo dia me vi trabalhando nas entranhas daquele gigante, em todos os sentidos. E cresci. Vi Gil cantar pela primeira vez sua recente A linha e o Linho. Outro dia vi nascer o Neojiba e me emocionei. Vi o teatro lotado, no Domingo no TCA, de gente de todas as partes da cidade ocupando aquele lugar especial antes restrito.
Domingo será mais um dia especial. Tomara que lote mais uma vez.


Seu filho, 13.

31/10/2014

Sai oficialmente da infância hoje, embora há algum tempo já ostente corpo, jeito, cara de adolescente.

Seu filho detesta exposição na internet e proíbe seu pai de tirar fotos. Publicar, nem pensar. Seu filho surpreende seu pai, não sua mãe que o conhece muito mais e está sempre elogiando suas qualidades, embora jogue duríssimo com as notas da escola. Outro dia seu pai precisou usar o computador de seu filho e tomou um susto. Ali na arrumação da tela, na escolha dos programas, na forma de se relacionar com a máquina estava uma pessoa desconhecida, e muito, muito especial, como todo filho.

Seu pai não presta, é um péssimo pai. Mas ama seu filho. Sabe disso.

Se você chegou até aqui e aguentou esta confusão, explico. André quando aprendeu a falar deduziu o seguinte. Se todo mundo dizia pra ele seu pai isso sua mãe aquilo, ele começou a me chamar de seu pai e a Soraya de sua mãe.

Parabéns, meu filho.

 

 


Promessas

27/10/2014

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Votei nulo. Não acreditei nas promessas de melhoras no país feitas por ele. Não acredito nas mudanças prometidas por ela, a imagem daquela galera ao fundo na coletiva, a turma aliada, sustenta com folga minhas dúvidas.
Mas vi nas ruas ontem uma grande festa desde cedo. Além do céu azul, do mar delicioso e dos aviões de carreira sobre o mar de Ipitanga a apontar necessidades de maiores viagens interiores.
Vivemos hoje num país onde, bem ou mal, as pessoas decidiram a política no voto, uma alma, um voto.
Minha alma pede mudanças interiores, primeiro. Tenho dúvidas sobre vitórias aqui também.
Como os políticos, mantenho as promessas.


Amigo de carteirinha e troféu

20/10/2014

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Agora tenho um troféu na minha estante.

Em mais de meio século de existência nenhum prêmio, nenhum troféu, nem bilhete na loteria, nem rifa das moças, nem nada. Vivia igual ao Vitória, sem nenhum título. Aliás, conseguia ser pior, nem vice era. O melhor que consegui na vida foi um jogo de panelas no terceiro lugar num programa de calouros num domingo, no cinema em Castro Alves, quando aos 12 anos respondi sobre “A Origem do Homem”. Até hoje quando ouço australopitecus ou homem de Java me lembro deste dia.

Mas voltando à noite de ontem, eis que finalmente minha vida de loser, como dizem os americanos nos filmes, finalmente teve um final feliz.

Fui laureado com o troféu Amigos da Picolino, a mais alta honraria deste circo instituição, lugar onde aprendo muito sobre erros, acertos, tombos, malabarismos, e, principalmente, a dar meus pulos nesta vida louca vida breve, vida imensa.

Todo TDAH tem um momento chamado de hiperfoco, quando canaliza todas suas energias para um fim. No meu interior chamam isso de incutimento, pior que doidice. Mas neste momento este incutimento tem gerado benefício para este projeto de pedagogia de vida que é o circo. Que seja assim.

Enfim, de verdade surpreendido, fiquei muito feliz, perdi a vergonha e subi para receber o prêmio ao lado de Clóvis, o capataz do circo, de quem já ouvi histórias incríveis do circo Vostok, onde ele trabalhou. E do dia em que fugiu com um circo. Um dia ainda conto isso aqui. Também recebeu a honraria a produtora Karine Paz, integrante da trupe que conduz toda essa loucura de administrar trocentas demandas tudo ao mesmo tempo agora da campanha ‪#‎SomosTodosGuerreiros‬.

Recebemos os títulos das mãos de duas generais vencedoras do Picolino: Carol Guedes e Luana Serrat.

Mas a guerra apenas começou, o tempo ruge e a sapucaia, como é mesmo Zé Wilker? A real é que a campanha ainda está abaixo da média de arrecadação diária para atingir a meta.

Portanto, vá lá e colabore, agora: http://www.kickante.com.br/campanhas/somos-todos-guerreiros-picolino-30-anos

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Olha a gente na tela da Record. Por erro de corte aparecemos nos últimos dois segundos desta matéria veiculada hoje pela manhã. Karina, esta mão que recebe o troféu da Palhaça Kerolzene,  não quis subir ao palco e recebeu o prêmio desde o picadeiro.


Queria ser jornalista

12/10/2014

Foi a coisa que mais quis hoje à tarde, quando testemunhei notícia merecedora de um jornalista. Estavam  ali à mão, a notícia, as fontes, o ambiente. Mas  me faltaram o inglês, o jornal, a agilidade.

Estavam ali sob a lona do Picolino turistas estrangeiros. Voaram de várias partes do mundo para Salvador e embarcariam no final da tarde em navio da National Geographic para um cruzeiro diferente.

No picadeiro, crianças da companhia Mirim da Picolino, quase todas do projeto Conexão Vida,  numa parceria mantida por estrangeiros, por italianos que fazem adoção à distância e proporcionam a elas aulas de circo no turmo complementar. Na plateia 99 turistas, pessoas que pagaram mais caro para fazer um turismo especial, acompanhados por especialistas em botânica, cultura, música, pássaros. Sim, eles pagam US$ 1.000,00 por dia para entender o mundo.

Eu é que não entendo. Há cinco anos me chamou atenção uma notícia dos jornais. Governador, secretários, prefeito e uma caralhada de aspones foram assistir ao Cirque du Soleil levantar lona. Isso mesmo que você leu. Não foi espetáculo, os caras deixaram suas ocupaçoes para ver a lona subir. Nenhum deles se dignava naqueles dias a visitar um circo com aparência mambembe em Pituaçu, onde um menino da Boca do Rio começou, e que estreava na Bahia naquela semana como artista no mesmo circo merecedor da atenção deles para assistir a lona subir.

Os turistas do National Geographic Explorer viajam na contramão dos nossos turistas,  que vão a Las Vegas ver o Soleil. Eles preferem vir a Salvador ver o Picolino. Talvez tenha mais mágica, mais esforço, mais cenas do impossível do circo ali no picadeiro à beira-mar em Pituaçu, com crianças e adolescentes de cotidiano nada fácil  mas que sobem com elegância no trapézio, dão saltos e cambalhotas,  se contorcem no limite, deslizam com alegria no alto dos seus monociclos gigantes, caminham sem medo sobre o fio do arame, manejam com muitos acertos os seus malabares.

Enfim, minha cabeça de aprendiz de jornalista tinha a seguinte pergunta. Por que diabos pessoas que poderiam ir a qualquer lugar para ver o melhor feito em circo no mundo preferem vir assistir ao Picolino, com lona estropiada, instalações precárias? Consegui fazer a pergunta a um casal, Bart e Kathleen Little-Astor, da Virgínia, EUA. A resposta está ainda sem legendas  neste vídeo, mas em essência eles dizem que preferem ver a vida de outra maneira.

Não estou cético sobre o olhar da minha cidade e do meu país para o Picolino. As coisas começam a se mover. O caminho escolhido pelo circo/escola, o de financiamento coletivo para uma nova lona e um trato no visual do circo decolou hoje e decolou bem. Veja aqui.  A campanha é um duplo salto  de trapézio sem rede. É acertar ou acertar. Espero daqui a 60 dias comemorar a notícia de que teremos lona e circo novos.

Com sorte de aprendiz, descobri agora no google que o cara que entrevistei é escritor, autor de best sellers, de um guia de vida para quem tem mais de 50 anos. Justo a fase em que me encontro. Tentando ser jornalista sem jornal e sem inglês.

Agradeço a Cristiana Damiano, bióloga paulista, uma das especialistas embarcadas no navio para a expedição, que segue para Abrolhos, Ilhéus, Rio Parati e Rio Grande do Sul. Ela foi tradutora das minhas perguntas para a entrevista.

Viva o Circo. Viva o Picolino.


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28/09/2014

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Fui em busca da filha e encontrei um olhar. Encontrei o tempo.
Parabéns  Luísa, pela imagem, por seu 28 de setembro.
Que seu tempo não voe, plane.


#SomosTodosGuerreiros

05/09/2014

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O Circo Picolino está em busca daqueles que passaram por sua lona, que participaram de alguma maneira destes seus quase 30 anos. Eu sou uma dessas pessoas. Há poucos jornalistas em Salvador que nunca tenham feito uma pauta da Picolino a partir de 1985. Foi por esta época que entrevisteiAnselmo e Verônica Tamaoki e desde então sempre olhei com simpatia aquela lona e o trabalho que se realizava ali. Anos depois, Virginia Yoemi me convidou para um espetáculo, destes de formatura de fim de ano, a partir daí fui a quase todos e um belo dia resolvi integrar a trupe como parceiro na divulgação. Atendo agora ao chamado de Anselmo também como pai de aluna da Picolino, uma escola diferente, bacana, astral, que deve continuar seu trabalho com uma lona nova, bonita e, com seu entorno recuperado. Estamos juntos, colados nesta campanha. Veja aqui: http://circopicolino.wordpress.com/


Domingo, no Parque da Cidade

24/08/2014

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Amanhece e tudo se perde

22/08/2014

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Muitas, muitas fotos deste amanhecer no Acupe de Brotas, pouco mais das cinco da manhã deste 22 de agosto de 2014 se perderam. Ficaram uma ou duas num álbum publicado no facebook. Também se perderam muitas fotos do dia a dia da casa, de uns passeios com a renca, das crianças comendo licuri no quintal da casa de Iaçu, de muitas cenas do cotidiano, da calopsita Lupi, que já se foi também.

Todas as imagens se apagaram por uma distração. Ao receber a sugestão de reinstalar o sistema no celular de um sujeito num estande no shopping para resolver um problema de não registro dos últimos telefonemas, esqueci completamente que com isso iriam embora também  as fotos. Nem os contatos telefônicos ficaram, embora o tal sujeito tenha dito que não os perderia.

Estou puto, mais chateado ainda porque não foram poucas as vezes em que posterguei acionar o salvamento automático em outro ambiente, gesto que me tomaria uns cinco minutos. Ainda postergo.

Só restou tomar o acidente como exercício de desapego, como ensinamento. Assim como as fotos, a vida também irá embora daqui a pouco, como as nuvens que já são agora mais claras, como eu e você , como a lua minguante da parte de cima da foto, como o dia já perto das seis, hora de acordar as crianças para a escola, .

Daqui a pouco é muito ou pouco tempo? quem vai saber?


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21/08/2014

Ómnibus  (Bestiario, em português)

Ler depressa, comer depressa, trepar depressa, viver depressa, nunca deu certo. E ao ler depressa este conto, perdi detalhe crucial, um dos fundamentais para viajar melhor neste ônibus tão estranho e tão igual aos que nos acostumamos a pegar em qualquer cidade, a qualquer tempo.

Se você pretende ler o conto, pare por aqui. E aproveita para ler ouvindo o texto original neste vídeo. Bom demais para o ritmo e o entendimento.

Se quiser saber sobre minha desatenção, não notei um detalhe: todos, todos os passageiros  carregavam flores. Só soube disso ao ler sobre o conto e ao reler com atenção. Tá lá dito com todas as letras, embora aos poucos, e neste trecho, explicitamente: “Es natural que los pasajeros miren al que recién asciende, está bien que la gente lleve ramos si va a Chacarita, y está casi bien que todos en el ómnibus tengan ramos.” 

Mas o que você tem a ver com minha pressa, o meu esquecimento, o que eu li?

Confesso que acho estupidez correr pra cá e escrever sobre cada um dos contos lidos.

Mas encaro como uma retribuição por  informações que me foram úteis ao me interessar por eles. É uma forma nova de ler, de compartilhar, de reunir e disponibilizar o que ajudou no entendimento. 

 

 

Falar em versão,  é impressionante a quantidade de releituras em vídeos do conto. Basta buscar por  “ómnibus cortázar” no youtube. Se fosse fazer um vídeo com releitura, trocaria as flores por smartphones.

Faltam 96: http://licuri.wordpress.com/2014/08/17/99-contos-argentinos-para-ler-antes-de-morrer/


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20/08/2014

3. Lejana (Bestiario, em português)

Lara/Diana, o duplo e o tal repertório.
Ler é prazer. E mais prazer depende de repertório? Se um texto se apresenta em camadas, são várias portas, avançar depende de sensibilidade e entendimento?

Em Lejana, ao contrário do dois anteriores, dependi de algumas chaves para ir um pouco mais além. Antes de ler, me avisaram que o assunto,  o tema central, é o duplo.

Já disseram também  que sensibilidade é informação concentrada. Desta maneira seria melhor  tocado pelo texto quem tivesse lido O Médico e o Monstro, de Stevenson; O Lobo da Estepe, de Hesse; O Monge Negro, de Tchekhov.

Mas minha principal referência de duplo é Irmãos Coragem, de Janete Clair.  Acompanhei as fantásticas mudanças de personalidade de Lara/Diana pela televizinha,  nos meus 11 anos de idade. Foi suficiente? Quem sabe?

O interessante é que estas referências são “descobertas” depois pelos leitores e críticos. Veja, nesta  entrevista, o que diz o próprio Cortázar:

-¿Por dónde empezamos?; ¿por el tema del doble? -aparece ya en un cuento tan temprano como “Lejana”, de Bestiario; la volvemos a encontrar en “Los pasos en las huellas”, deOctaedro.

-Sí, hay en mí una especie de obsesión del doble

¿Viene de la lectura temprana de Doctor Jekyll and Mister Hyde, de Stevenson, de “William Wilson”, de Edgar Allan Poe, o toda la literatura alemana que está habitada por el tema del doble?

No creo que se trate de una influencia literaria. Cuando yo escribí ese cuento que usted cita, “Lejana”, entre 1947 y 1950, estoy absolutamente seguro -y en ese sentido tengo buena memoria- esa noción de doble no era, en absoluto, una contaminación literaria. Era una vivencia.

El tema del doble aparece ya con toda su fuerza en ese cuento. Usted recordará que se trata de una “pituca” de Buenos Aires que por momentos tiene como una especie de visión de que ella no solamente está en Buenos Aires sino también en otro país muy lejano donde es todo lo contrario: una mujer pobre, una mendiga. Poco a poco se va trazando la idea de quién puede ser esa mujer y finalmente va a buscarla, la encuentra en un puente y se abrazan. Y es ahí que se produce el cambio en el interior del doble y la mendiga se va en el maravilloso cuerpo cubierto de pieles, mientras la “pituca” se queda en el puente como una mendiga harapienta.

Futuquei por aqui: http://clescudero.blogspot.com.br/2007/12/anlisis-de-lejana.html

Faltam 97: http://licuri.wordpress.com/2014/08/17/99-contos-argentinos-para-ler-antes-de-morrer/

 

 

 

 

 

 

 

 


Retardado, eu?

18/08/2014

Cortázar não se compara a Borges, fazer isso seria como  colocar na mesma galáxia É O Tcham e Pixiguinha, informa ldeIber Avelar.

Confesso que estava todo pimpão por entender no original e gostar de um cara reconhecido, até onde iam meus conhecimentos ontem, como dos melhores da literatura. Mas veio esta informação nova: Cortázar não é um grande escritor.

Estou pouco me lixando, também não sou um grande leitor. Acabou ficando melhor, pelo menos o motivo de gostar será apenas a  obra e não a a fama entre doutores.

Ainda bem que sou cronópio.

Das minhas frustrações nesta vida está a de não ter tido acesso a muitos dos dos clássicos da literatura. Queria poder ter lido no original e, de quebra, ainda tocar um instrumento. Fica pra outra vida. Nessa, me viro com o pouco que posso e meu TDAH deixa. E de vez em quando tento ouvir uma musiquinha.

No mais, sigo com pouca memória e pouca cultura, mas contemplado pelo google. Em poucos cliques em alguns dias tive acesso  a uma obra de um cara que continuo achando fantástico e a chaves a entendimentos que me tornam um pouco menos ignorante. Ou pelo menos me sentindo.

Mas com licença. A vida é curta e a lista de contos argentinos me espera. Borges tá na fila.

 

 

 


98

17/08/2014

2. Carta a una señorita en París (Português)

Bagunça, desorganização, insônia. Eu me vejo vomitando pequenos coelhos a vida inteira. E o conto trouxe à memória o dia trágico quando abri desconcertado a porta do apartamento que eu ocupava há quase um mês diante do dono que chegava de volta de um giro pela Europa. Atrás de mim, tudo  em frangalhos, como se 500 coelhos tivessem passado por ali.

Mas a história vai por muitos outros caminhos. Li pelo viés do humor. Mas nesta releitura em vídeo do conto, angustiante, uma das versões para o final que não me havia ocorrido na primeira leitura:

E aqui, um vídeo com a leitura do texto no original. Ouvi ao mesmo tempo em que lia a tradução e serviu para esclarecer algumas palavras não entendidas.

 

Faltam 98: http://licuri.wordpress.com/2014/08/17/99-contos-argentinos-para-ler-antes-de-morrer/


99 contos argentinos para ler antes de morrer

17/08/2014

CasaCortazar                 Casa na Rua das Pitangueiras, em Brotas, Salvador.

Casa Tomada, o primeiro da lista, via Saymon Nascimento, publicada neste site. Li o conto ontem durante uma assembleia de condomínio, local onde se fala  muito e se ocupa pouco a mente. O essencial entendi, mas reli traduzido e aí  incuti. Para quem viaja em casas antigas, o conto bate na veia. Depois fui ao google e vi que são muitos os vídeos, os estudos, as análises, enfim, muito se falou sobre Casa Tomada mas nada chegou perto do meu prazer em ler a história, seus detalhes, suas sutilezas. O texto me pegou logo na abertura:

“Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.(…)

E em afirmações como como essa:

(…) Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.(…)

Pouco do que li sobre o conto bateu com o que senti. Talves esteja aí o fantástico da literatura. E a intensidade com que um texto nos  impressiona  tem tudo a ver com o momento que se vive. Neste meu momento, o texto disse muito.

No encutimento, futuca daqui e dali, encontrei esta entrevista com Cortazar, feita em 1977 por um jornalista espanhol. Em 2 horas, fala da infância, do pai, da mãe, dos seus livros, de literatura, de política, enfim, um belíssimo documento.

 

Vamos então aos 99, transcritos deste post anterior:

100 Contos de Borges e Cortázar

Cuentos de Julio Cortázar

Bestiario (1951)

1. Casa tomada (Aqui em português)

***************************
2. Carta a una señorita en París
3. Lejana
4. Ómnibus
5. Cefalea
6. Circe
7. Las puertas del cielo
8. Bestiario

Final del juego (1956)

9. Continuidad de los parques
10. No se culpe a nadie
11. El río
12. Los venenos
13. La puerta condenada
14. Las ménades
15. El ídolo de las Cícladas
16. Una  flor amarilla
17. Sobremesa
18. La banda
19. Los amigos
20. El móvil
21. Torito
22. Relato con un fondo de agua
23. Después del almuerzo
24. Axolotl
25. La noche boca arriba
26. Final del juego

Las armas secretas (1959)

27. Cartas de mamá
28. Los buenos servicios
29. Las babas del diablo
30. El perseguidor
31. Las armas secretas

Todos los fuegos el fuego (1966)

32. La autopista del sur
33. La salud de los enfermos
34. Reunión
35. La señorita Cora
36. La isla al mediodía
37. Instrucciones para John Howell
38. Todos los fuegos el fuego
39. El otro cielo

Queremos tanto a Glenda (1980)
Cuentos de Jorge Luis Borges
Ficciones (1944)
El Aleph (1949)60. El inmortal
61. El muerto
62. Los teólogos
63. Historia del guerrero y la cautiva
64. Biografía de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)
65. Emma Zunz
66. La casa de Asterión
67. La otra muerte
68. Deutsches Requiem
69. La busca de Averroes
70. El Zahir
71. La escritura del Dios
72. Abenjacán el Bojarí, muerto en su laberinto
73. Los dos reyes y los dos laberintos
74. La Espera
75. El hombre en el umbral
76. El AlephEl informe de Brodie (1970)77. La intrusa
78. El indigno
79. Historia de Rosendo Juárez
80. El encuentro
81. Juan Muraña
82. La señora mayor
83. El duelo
84. El otro duelo
85. Guayaquil
86. El evangelio según Marcos
87. El informe de BrodieEl libro de arena (1975)88. El otro
89. Ulrica
90. El Congreso
91. There are more things
92. La secta de los treinta
93. La noche de los dones
94. El espejo y la máscara
95. Undr
96. Utopía de un hombre que está cansado
97. El soborno
98. Avelino Arredondo
99. El disco
100. El libro de arena

 

 


Adios Nonino

14/08/2014

Fmesseger - Cópia

Quem manda nesta porra? A cada 10 segundos recebo esta bendita mensagem, e ainda envolvem meus amigos. É aceitar ou aceitar. Nem o tal do livre arbítrio, esta grande fantasia humana, posso ter a ilusão de ter.

Pois bem. Me retei e vou devolver com a mesma moeda deles. Vou punir o facebook, inicalmente com 15 dias, como eles fazem com a gente. Vou zumbizar o meu perfil por duas  semanas, tal qual todos fizeram com o orkut. Abandono.

Se quando eu voltar eles continuarem, dobro o tempo.

Não quero usar o messenger e pronto final, como dizia Maria quando aprendia a falar.

Tal qual  aquela antiga lenda, meu gesto é semelhante ao da Inglaterra ao lamentar um cabo de comunicações rompido sob o Canal da Mancha: o mundo está isolado.

Deixo de recordação este belo tango argentino de despedida. Adios, amigos.

 

P.S Como não sobrevivo desconectado, continuo no coco pequeno http://www.licuri.wordpress.com e no twitter.com/MarcusGusmao


Admirável 2014

12/08/2014

Não deveria, mas ainda me espanto  ao ver um comentário na tela do computador abaixo da notícia da morte do ator Robin Williams: – verme.

O motivo? no programa Late Show, de David Letterman, o cara sacaneou com o Brasil ao dizer que o Rio de Janeiro  conseguiu a sede da Olimpíada à custa de strippers e meio quilo de pó. Vá lá, uma brincadeira clichê, mas como usuário de pó, tava brincando talvez com suas próprias seduções.

Mas verme? E não foi um nem dois comentários destroçando o sujeito. Foram muitos.

As caixas de comentários na internet exigem estômago. Num toque de mágica, toda o pensamento obscuro da humanidade surge ali exposto, transparente, com cor e cheiro, como um esgoto a  céu aberto. É preciso ter estômago para essa caixa de pandora sem nenhuma esperança.

Chico Buarque neste vídeo ilustra o espanto do artista diante das opiniões sobre ele na internet. Incrédulo, só consegue rir.

 


Porra é essa minha Bahia?

31/07/2014

Incutido com o caderno especial do Jornal do Commercio  A história de mim, concebido pela jornalista Fabiana Moraes, futuco mais sobre Pernambuco. E fica  claro. Nossos vizinhos estão mandando muito bem e bem melhor não só em  jornalismo como em cinema, em tecnologia da informação, na economia e na posição na tabela do Brasileirão para ficar nas coisas mais evidentes. Dizem as boas línguas, esta canção foi inspirada por um par de chifres aplicado em Petrolina, observado desde Juazeiro.


Para ler, quem sabe

24/07/2014

Via Saymon Nascimento

do site:

Buenos Aires: Aquí me quedo

http://aquimequedo.com.br/2014/07/16/100-contos-de-borges-e-cortazar-para-ler-online/

 

100 Contos de Borges e Cortázar

 

Cuentos de Julio Cortázar

Bestiario (1951)

1. Casa tomada
2. Carta a una señorita en París
3. Lejana
4. Ómnibus
5. Cefalea
6. Circe
7. Las puertas del cielo
8. Bestiario

Final del juego (1956)

9. Continuidad de los parques
10. No se culpe a nadie
11. El río
12. Los venenos
13. La puerta condenada
14. Las ménades
15. El ídolo de las Cícladas
16. Una  flor amarilla
17. Sobremesa
18. La banda
19. Los amigos
20. El móvil
21. Torito
22. Relato con un fondo de agua
23. Después del almuerzo
24. Axolotl
25. La noche boca arriba
26. Final del juego

Las armas secretas (1959)

27. Cartas de mamá
28. Los buenos servicios
29. Las babas del diablo
30. El perseguidor
31. Las armas secretas

Todos los fuegos el fuego (1966)

32. La autopista del sur
33. La salud de los enfermos
34. Reunión
35. La señorita Cora
36. La isla al mediodía
37. Instrucciones para John Howell
38. Todos los fuegos el fuego
39. El otro cielo

 
Queremos tanto a Glenda (1980)
 
Cuentos de Jorge Luis Borges
 
Ficciones (1944)
 
El Aleph (1949)60. El inmortal
61. El muerto
62. Los teólogos
63. Historia del guerrero y la cautiva
64. Biografía de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)
65. Emma Zunz
66. La casa de Asterión
67. La otra muerte
68. Deutsches Requiem
69. La busca de Averroes
70. El Zahir
71. La escritura del Dios
72. Abenjacán el Bojarí, muerto en su laberinto
73. Los dos reyes y los dos laberintos
74. La Espera
75. El hombre en el umbral
76. El AlephEl informe de Brodie (1970)77. La intrusa
78. El indigno
79. Historia de Rosendo Juárez
80. El encuentro
81. Juan Muraña
82. La señora mayor
83. El duelo
84. El otro duelo
85. Guayaquil
86. El evangelio según Marcos
87. El informe de BrodieEl libro de arena (1975)88. El otro
89. Ulrica
90. El Congreso
91. There are more things
92. La secta de los treinta
93. La noche de los dones
94. El espejo y la máscara
95. Undr
96. Utopía de un hombre que está cansado
97. El soborno
98. Avelino Arredondo
99. El disco
100. El libro de arena

Tocando em frente – Humberto Teixeira / Almir Sater

23/07/2014

Miguel vence nosso medo do escuro

15/07/2014

São 6 minutos e 45 segundos de suspense. Miguel conhece o caminho, mas possivelmente esta seja sua primeira vez sozinho. Sente medo, é estimulado, chamado de guerreiro. Choraminga, mas segue. E lá vai tateando, tocando pontos conhecidos. Vê os bichos, passa bem por eles, segue em frente. O caminho é longo, escuro, ele tem paciência. No retorno, mais suspense, escada de costas e sem corrimão.

Miguel vence o nosso medo do escuro. As estratégias da mãe e a parceria da vó ajudam muito, mas Miguel vai só. Não tem como não ir com ele. Aprendemos com Miguel. Aprendemos com a mãe de Miguel.

Ao ver o vídeo no facebook, uma brasileira que vive nos EUA resolveu iniciar anteontem uma campanha para tornar os caminhos de Miguel mais acessíveis. Pelo ritmo dos compartilhamentos e reações das pessoas, não vai demorar para que isso aconteça.

PS. Foi criada uma página para a campanha.

 

 

 

 


Suas ideias não correspondem aos fatos

01/06/2014

São muitas, muitas metralhadoras cheias de mágoa nas áreas dedicadas aos comentários nas telas dessa vida.

Aconteceu com meus amigos, aconteceu finalmente comigo. Abri, fugi da briga, caí fora, corri.  Mas a história ficou na minha cabeça, o espinho cravado na planta do pé, incomodando.

Volto então ao assunto.

Achei muito engraçado um vídeo,  gravado  possivelmente por um pai, de um criança chorando, protestando, não queria vestir a camisa do Brasil, queria jogar aquela camisa fola, quelia mesmo era a camisa do Bahia.

Gostei do vídeo por uma motivação atual, particular. Não estou com muito saco para esta copa, desinteressado mesmo, sem tesão para esta monocultura de assunto que varre o país nestes dias, ainda mais agora que o baba vai ser no meu quintal e tem briga e acusações pela posse da bola, dos holofotes, da festa.

Assim como o menino do vídeo, prefiro continuar com o meu Baêa, pelo menos serve pra eu ficar de pirraça com os amigos da tribo do vice, aquele que por sinal entrou ontem  na zona.

Me passaram o vídeo pelo uatiszap. Tentei saber de quem era, sou das antigas, sou do tempo de blog, de orkut, de facebook, costumo postar as coisas sempre citando a origem.

Mas não consegui, ali no telefone, no carro do trabalho, saber a origem. Pimba, postei no facebook.  A reação foi imediata,  muitos kkkkkk, muitos hahahahaha, os inimigos de time sacanearam, enfim estava bem divertido até que uma voz dissonante jogou um balde de texto azedo e frio sobre a festa:

Triste estes tempos em que expõem uma criança desta maneira e ainda acham graça.

Acusei o golpe. Foi no fígado.

A voz de fora daquela roda animada apareceu como acontece em filmes, quando surge alguém assim do nada, com a arma em punho, e surpreende um grupo fazendo algo errado.

Ou quando de repente aparece a mãe, ou a professora, enfim uma autoridade a ralhar com um bando que precisa de correção.

Pra piorar,  a voz era conhecida. Colega de faculdade, das antigas, a gente se vê raras vezes mas este mecanismo aqui nos torna acessíveis um ao outro a qualquer momento, sem aviso prévio, sem oi, olá como vai, eu vou bem e você, quanto tempo, pois é quanto tempo.

Matutei várias respostas. Do deboche, com um sonoro kkkkkkk, ao texto sério, cheio de argumentos. Senti vergonha, senti raiva e o resultado foi o pior: excluí vídeo, texto e comentários.

Mas não adiantou. Continuei pensando no assunto.

Ontem foi a vez de Nilson. O papo, novamente sobre copa, nasceu de uma brincadeira, de uma provocação, e de repente, não mais que de repente, olha ele lá, o texto dissonante, agressivo.

Quando se contesta um texto agressivo a resposta é sempre o argumento de que isso aqui é público, você não aguenta a discordância, se não aguenta não desce pro play, e por aí vai.

Pertenço ao grupo que defende  o direito  da condução e mediação do debate em sua tela. Ou seja, aqui onde eu iniciei a conversa quem decide sou eu, as medidas são minhas e as regras também.

Pesquisei, o vídeo tá no you tube, foi mostrado num programa esportivo, a família curtiu, enfim tinha um contexto familiar, foi tornado público e não vejo maldade nenhuma nele. Republico. Junto com outros dois que me vieram à mente enquanto buscava as palavras para escrever este texto.

Estou com o garoto, pelo direito de não vestir essa camisa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Música

27/05/2014

Playlist

00:00 – 01:00 – Infância
01:01 – 01:31 – No meio do caminho
01:32 – 02:46 – Confidência do Itabirano
02:47 – 03:17 – Quadrilha
03:18 – 04:45 – Os ombros suportam o mundo
04:46 – 05:46 – Mãos dadas
05:47 – 08:28 – Mundo grande

08:29 – 10:18 – José

10:19 – 14:10 – Viagem na família
14:11 – 17:32 – Procura da poesia
17:33 – 24:54 –  O mito
24:55 -27:35 –   O lutador
27:36 – 28:04 –  Memória
28:05 – 31:15 –  Morte do leiteiro
31:16 – 32:13 –  Confissão
32:14 – 33:27 –  Consolo na praia
33:28 – 34:18 – Oficina irritada
34:19 – 35:04 – Fazenda
35:05 – 41:19  Caso do vestido
41:20 –  Estrambote melancólico

 

http://drummond.memoriaviva.com.br/alguma-poesia/

http://drummond.memoriaviva.com.br/alguma-poesia/infancia/

http://letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade

 


Incutido

09/05/2014


 

 

 


Um bom lugar

27/04/2014

palacio - Cópia

Seu Ari, ontem neste lugar só faltou você. Pessoas, música, poesia. E tudo quase por acaso, do meu ponto de vista, é claro. Dizem, texto adjetivado e repetitivo perde a força. Mas eu preciso completar: pessoas fantásticas, música e poesia absurdamente boas e da mais alta qualidade, papo gostoso. Uma tarde de sábado inesquecível. Só faltou você.

E tudo quase por acaso, do meu ponto de vista, é preciso repetir.

Foi uma tarde de muitas designorâncias pra mim. Aprendi, por exemplo, que Sábado em Copacabana é de Dorival Caymmi. E não é que a letra cabe direitinho ali?

“Depois de trabalhar toda a semana
Meu sábado não vou desperdiçar
Já fiz o meu programa pra esta noite
E sei por onde começar”

Cheguei atrasado para a homenagem a Manoel de Barros, mas a ponto de ouvir o último poema. Bem sacaninha:

“Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.”

E as pessoas reclamam muito da falta de homenagens a Caymmi no centenário. Mas é nestes pequenos encontros, neste formato intimista é que as homenagens são mais verdadeiras.

E para ficar no lugar comum, Alexandre Leão deu um show, ali na voz e violão, botando o público pra cantar, falando sobre as músicas.

Gosto muito da casualidade destes eventos pequenos, sem muita pompa, sem ingresso, sem multidão. São uma boa forma da gente ter nosso imposto revertido em serviço.

E este formato parece mais com a vida cotidiana. Ali sentado, tomando um vento, olhando as árvores e diante de pessoas talentosas, produtivas, vivas. Depois um papo com os amigos, sem ter marcado, sem compromisso, falar mal da oposição, falar mal do governo, falar mal e bem dos outros, conversar sobre as crianças, sobre a vida.

Aqui em Brotas, no Engenho Velho, temos um espaço parecido e sinto a mesma coisa quando vou lá no Parque Solar Boa Vista. O lugar é ocupado pelas pessoas do bairro, tem sempre alguma coisa acontecendo.

Enfim seu Ari, ou Meu Rei, seu súdito aqui agradece e muito a tarde de sábado no seu, no nosso palacete. Estou acompanhando seu cronômetro, quando passar a maresia, quero ir de novo num sábado qualquer neste bom lugar pra gente jogar conversa fora.

 


A maldição da coruja

24/04/2014

Sou agnóstico mas busco Deus em tanta bala, tanta morte matada, mais de cem neste abril. Escuto pipocos, mais de cem. Conto as mães, mais de cem. Mais de cem é a  metade de mortes da boate incendiada no Rio Grande do Sul. E menos de um milésimo da atenção minha, sua, de todo o mundo.

Afora aqui e ali, os jornais silenciam, as pessoas silenciam. São todos “malas sujas”, gente que não presta, aprendi esta nova definição em Feira de Santana. E mala suja não é gente, não merece a minha e a sua empatia,  não é notícia. A não ser nos programas e sites e blogs  do chamado jornalismo abutre. É só dar um google  pra sua tela sangrar.

Mas acredito piamente na reverberação de toda esta dor. Ela volta pra gente, mais cedo ou mais tarde. Ela também nos cabe.

Também não acredito nos maus presságios das corujas. Mas Iaçu, cidade de menos de 30 mil habitantes, uma das muitas Macondos da Chapada Diamantina,  teve ontem mais um assassinato e duas crianças baleadas.

Mas os maus presságios de uma coruja  e uma piada do cantor de trio Bell sobre Iaçu repercutiram muito mais do que o assassinato e duas crianças atingidas por balas na Portelinha, conjunto habitacional com nome de bairro de novela, na  margem direita do Paraguaçu, perto da coruja.

E repercutiu muito menos ainda uma acusação de estupro, também na Portelinha, no início do mês. Acusação seguida de julgamento e morte do acusado dentro de uma cela da delegacia da cidade, rito sumário. Detalhe: o exame de corpo de delito, soube de fonte confiável, não confirmou o estupro, mas o trapo humano executado teve as pernas amarradas para caber no caixão.

E o  que eu e você temos a ver com isso?

Pressinto, creio que vai sobrar pra gente. Já sobrou. Sobrou conviver com a reverberação de toda essa dor, com a reverberação deste ritual praticado na delegacia por gente de 18, 20 anos. Ou pelo menos com a tal banalização, talvez mais grave ainda.

Estamos todos no mesmo barco. Eu, você, os moradores acusadores da Portelinha, o delegado de Iaçu, os jovens carrascos, as crianças baleadas. O barco é um só e muita gente não entendeu ainda.

Não disseram que estamos todos juntos nesta linda passarela de uma aquarela que um dia enfim descolorirá?

Tá acelerado este processo.


Infância em Macondo

17/04/2014

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Iaçu, em 17/04/2014.

Como tenho pouca imaginação, ao ler um livro faço a locação da história em lugares conhecidos. Macondo, por exemplo, fica em Tanhaçu, cidade da minha infância. As chuvas eternas, o sangue que escorria e escorria e escorria, escorria pelos morros do interior de Minas da minha infância.

Ao conhecer Iaçu, também tive a sensação de estar em Macondo, embora seja lugar comum essa comparação com cidades pequenas, calorentas e ermas.

Pois a morte de Gabriel García Márquez me pegou nesta tarde em Macondo / Iaçu. E me pegou mesmo, me trouxe a sensação de movimento, do mundo andando para o fim.

O fim do mundo é em câmara lenta no sumiço das pessoas, dos próximos e dos conhecidos.

De alguma maneira sou conhecido de Márquez. Eu o conheço, apresentado talvez pelo meu amigo irmão Josias Pires,  que não tem mais nenhum exemplar de toda a bibliografia simplesmente porque emprestou todos, sem retorno.

De alguma maneira conheço Márquez decifrado pelos amigos colombianos Ernesto Diaz e Dario Campos, a quem perguntava o significado de algumas palavras na tentativa de ler no original.

Mas sobretudo conheço pelos 6 ou 7 livros dele que li. Muito pouco, deveria ler todos, mas meia dúzia já é um recorde para minha pouca leitura.

Gosto do exagero de Márquez, da força dos seu exagero. Ficou na minha fraca memória para sempre a cena do encontro tardio do casal do Amor Tempo tempo do Cólera quando, num barco,  ele esperava tocar a mão  desejada na juventude mas encontra a flacidez da velhice, o amargo do hálito da velhice.

Sinto a morte de Márquez  também porque  tenho a convicção de que morremos na morte alheia. E a cada dia temos morrido mais, com mais frequência.

 


Em 37:57: “Todos tienen tres vidas: Una vida pública, una vida privada y una vida secreta.”

 


Mora na filosofia: um minuto de silêncio para nossa ignorância e para o cabrito que morreu

11/04/2014

Assim como na vida em carne, gordura e osso, é preciso prestar atenção em três qualidades da informação na internet antes de aceitar e passar pra frente: confirmar a autoria, checar a veracidade e tentar entender o contexto.

Claro que nunca há tempo para tudo isso e a barafunda se instala de mãos sempre dadas com a ignorância. E para complicar a vida e a internet, nem sempre o que um diz é razoavelmente próximo do que o outro entende.

Uma digressãozinha, me permita.

Quando eu era adolescente o artista queria dizer que para não rimar amor e dor é preciso morar, habitar na filosofia. Depois achei que isso era a gíria da época e mora na filosofia significaria saque na filosofia, como em é uma brasa, mora?

Mas como na vida em carne, gordura e osso, a dose e a forma de usar determinam se é veneno ou remédio.

E como remédio uso a internet agora nesta madrugada para continuar em dúvida mas mais feliz por ficar menos ignorante e aprender que morar na filosofia é de muito antes de minha nascença, é de 1955, da lavra de Monsueto em parceria com Arnaldo Passos.

Tudo isso é por conta da popozuda, da prova e do professor de filosofia e as várias versões para o assunto. 

Prefiro esta úlitma de um aluno. Vi o texto dele no facebook mas perdi. Aqui está uma parte: http://educacao.uol.com.br/noticias/2014/04/10/aluno-defende-professor-que-citou-popozuda-e-da-aula-de-filosofia.htm

Entrevista do professor a Cynara Menezes: http://socialistamorena.cartacapital.com.br/kubitschek-o-provocador-a-escola-publica-e-tao-mal-considerada-quanto-valesca-e-o-funk/

PS. No final da entrevista a Cynara tem a íntegra do texto do aluno. 

Palmas para o aluno, para o professor, para a Filosofia, para Monsueto e para a internet.

E um minuto de silêncio para nossa ignorância e para o cabrito que morreu.

 


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