
Fachada da casa onde nasceu Glauber Rocha, uma das poucas preservadas na Rua 2 de Julho, em Conquista.
Acompanhei de longe a discussão sobre o simbolismo do ano novo. Junto com Natal, São João e Carnaval, o réveillon forma o quarteto das festas absolutas, envolvem quem quer e quem não quer participar e geram a tal pergunta: e aí, vai passar onde?

Simpatia na mesa.
Os anos vão passando e confesso que passo a cada dia mais indiferente.
Mas o ano novo tem um simbolismo forte porque é conclusão de um ciclo, de uma volta completa em torno do sol. É como se fosse o aniversário de todo o mundo.

Balança espelho, espelho meu.
Passei em Iaçu com mesa farta e muita simpatia comandada por Reia, a irmã de Soraya. Romã, lentilha, arroz e dinheiro nos sapatos, numa de noite de muitos fogos. Sim, Iaçu tem também show pirotécnico, de 15 minutos ou mais.
E a trilha sonora de carros de som na rua: “Me dá a patinha…”
O ano novo me revelou também na feira livre da cidade, numa balança reflexo de um equilíbrio precário.
Tudo pendente pra algum lado: peso, orçamento, saúde, atenção aos meninos etc etc etc e tal.

O pequeno Hotel Lisboa era o imenso Hotel Lancaster
Peguei então André e fomos juntos, de ônibus, passar três dias em Conquista, para a casa onde me mudei quando estava na idade dele. Deste janelão da esquina observava nas madrugadas de sábado o burburinho da feira se formando, na Praça da Bandeira. O hoje Hotel Lisboa era então o Hotel Lancaster, e esta escadaria, então de marmorite, muito maior. Hoje tudo é pequeno, os corredores apertados, mas nos meus oito anos eram uma imensidão.

Túnel do tempo
Saía todo dia pela manhã bem cedo para fotografar. Descia a escada túnel do tempo, onde eu me sentava e ouvia de um primo mais velho a profecia aterrorizante: laaaaá no ano 2000, quando eu teria inimagináveis 39 anos, o mundo iria se acabar em fogo.
A nova previsão, 2012, me permite chegar a inimagináveis 51.

Jardim das Borboletas, agora Praça Tancredo Neves
Revi a praça caminho da escola, cujo viveiro de pássaros foi substituído por um lago com patos. Sobraram apenas as palmeiras imperiais mais altas ainda.

Uma das poucas residências das décadas de 50/60 ainda livre da demolição e das placas.
Conquista é uma cidade escondida sob as placas.
Não há como conter as alterações do cenário. Por isso, a única salvação, a possibilidade do registro da mudança está na imagem.

E ao refazer o caminho para a escola, fui garimpando registros, numa pescaria arquelógica que me remeteu àquelas manhãs de 1968/69.

Do antigo mercado só restou o telhado e as escadarias. Onde havia a feira, um cacete armado permanente. E a tradicional galinhota evoluiu, ganhou até adesivo fosforescente de segurança.

Fachada da década de 60 ganha as inevitáveis grades.

Uma das casas mais antigas da 9 de novembro, que me levava à Escola Anexa ao Instituto de Educação Euclides Dantas (IEED) e que hoje ostenta muros e grades inexistentes na época.

Hoje o IEED tenta recuperar o orgulho de uns dos mais tradicionais colégios públicos da cidade ao exibir nos muros os nomes dos seus 33 alunos que passaram nos vestibulares em 2009.

A partir de agora, um mix dos passeios fotográficos, começando pela (re)criação de Michelangelo, numa vesão fast food.

Ao voltar ao mercado, encontrei o escorredor de copos no modelo do retratado por Maria.
Na loja de produtos religiosos, uma imagem que conheci há uns três meses num mercado de Feira de Santana. É Ogum Xeroquê, entidade da Umbanda que retrata os dois lados dos conflitos humanos e religiosos. Olho para este rosto e lembro do símbolo Yin e Yang dos orientais.

Na feira de Conquista, a balança vazia continua a me lembrar do meu precário equilíbrio.

Na volta, mais um escorredor, no bar do entroncamento da BA 046 com a BR 116, que leva a Amargosa ou a Iaçu.

E sobre o bar, a vida continua…

Ainda em Conquista reproduzi uma das muitas fotos que minha mãe mantém nas paredes do seu pequeno apartamento construído numa entrada lateral do hotel. Ela e meu pai. Ao recortar a foto para colocar aqui, vi os controles da TV e vídeo.
Nestes dias de Conquista e agora novamente Iaçu, constato o quanto a televisão ainda é presente. Ela faz parte do cotidiano de minha mãe, que vive sozinha, e de seu Rubem, avô de Soraya, que vive hoje apenas com uma das netas, na casa que já abrigou uma pequena multidão.
Hoje veremos mais um BBB em família.
