Ontem riram de mim. Anteontem também.
Riram do meu espanto.
Conto então os pecados, sem nominar os santos:
Ontem fui o último a saber, depois até do corno. E o pior que eu senti no peito a facada como se fosse comigo. Todo mundo incrédulo, rindo da minha cara. Não sou amigo do cara, apenas o conheço de vista. É do tipo alegre, inteligente e bacana, assim como eu desejo ser. Tinha uma família parecida com a minha, e uma mulher com cara de santinha mas que dava, ao que consta sem esconder muito, para um sujeito consensualmente asqueroso. É mole?
Anteontem outro espanto ingênuo e semelhante. Meu queixo bateu no joelho ao saber de uma pessoa próxima da sua dificuldade para resolver um caso na justiça no valor de mais ou menos R$ 1 milhão. Depende de uma decisão de uma autoridade judicial, cuja assinatura custa R$ 150 mil.
Antes de continuar aqui a dar uma de porreta, a atirar pedras nos erros alheios, eu e você nos sentindo bacanas neste mundo porco, recorro novamente a um trecho de “Aos vícios”, de Gregório de Mattos:
[....]
A ignorância dos homens destas eras,
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não – por não ter dentes.
Quantos há que as telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receiosos?
Uma só natureza nos foi dada;
Não criou Deus os naturais diversos;
Um só Adão criou, e esse de nada.
Todos somas ruins, todos perversos,
Só nos “distingue o vício e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
[....]
Tradução: somos todos farinha do mesmo saco. Íntegra aqui
Por causa de um vestido curto, um vestido curto…
A música chiclete não sai da cabeça. No televisor do balcão da farmácia, esquina da Getulio Vargas com a Maria Quitéria, Kuelho dá entrevista ao jornal local da Globo. No twitter, informa que gravou também para o Fantástico.
Maria se encanta com a decoração de Natal de Feira de Santana e pede uma foto. A menina está febril e a ida à farmácia é para comprar um termômetro e antitérmico preventivos.
Daqui a pouco Irará, num programa raro com Soraya, sem os meninos. Já são oito da noite e o horário do show ainda não é conhecido. Futuco na internet e acho matéria com a informação (?) de que vai ser… à noite.
Saímos pouco depois das oito. Até o entroncamento de Conceição do Jacuípe, pela 324, é o caminho conhecido de sempre. O resto é incógnita. A luz da injeção acesa e o velocímetro quebrado tornam a viagem um pouco mais nervosa.
Mas o Corsa 99 modelo 2000 e IPVA 2004 não decepciona. Conceição do Jacuípe chega com praça entupida de gente e de carros de som, churrasquinho de gato, mesas nas calçadas. Reggae e pagode comem solto.
Mais um pouco de estrada e muitos quebra-molas, Coração de Maria. Mais pagode, mais carros de som, mais gente se diverte no sábado.
Muitos buracos adiante, o encontro com outro país, o país de Tom Zé. O país de Kuelho inclui Uniban, pagode e Geyse. O pais de Tom Zé é UNB, música atonal, experimental, e nudez permitida.
No país de Kuelho vimos as últimas cenas do Circo Espetacular, armado na praça de Irará, de onde vinham gritos. O circo estava quase cheio e o espetáculo no fim. Dei um carteiraço de circense. O Picolino me dá acesso aos dois mundos, do Soleil e do Espetacular.
Passava das dez, mas chegamos a tempo para a zona próxima ao gargarejo. Entra no palco então o auto-intitulado vagabundo para neutralizar a apresentação pomposa dos jovens organizadores.
Afora algumas interrupções para tradução cênica de letras, o show não fez concessões. Foi a sonoridade sofisticada de sempre. As maluquices conscientes de sempre. O som bacana de sempre.
O território avançado do país de Tom Zé, arrodeado de moradores de Irará, inclui um baseado acesso por um grupo de jovens forasteiros à nossa frente, que conhecia e cantava todas as letras.
O show seguia, entre velhos sucessos e a recém-criada, a do passinho sertanejo de Irará. A cidade comemora a volta do filho ilustre, no seu primeiro show com banda diante dos conterrâneos e 18 anos depois de um voz e violão logo depois da ressurreição patrocinada por David Byrne.
Parte da platéia assiste calada, num silêncio reverente, atento. De vez em quando uma expressão admirada com um sorriso: maluco.
E o maluco estrangeiro parece feliz com o reencontro, desde a primeira música. No palco, a alegria criativa de gente dos 16 aos mais de 70.
Tom Zé é sempre exemplo de juventude no que a palavra, mesmo gasta, tem de mais amplo.
Tom Zé é o artista brasileiro mais vivo, no sentido honesto da palavra.
Depois do show, dois bejus na praça, uma coca-cola e estrada novamente. O sono bateu. Mas uma breve carona a três remanescentes do reggae Conceição do Jacuípe em troca da informação de onde haveria uma pousada gerou a adrenalina suficiente para espantar de vez o sono.
Com o casal e o acompanhante dos dois no carro, bateu então o medo, a noção do gesto arriscado. Minutos depois, o trio inofensivo já desembarcado, veio a certeza de que sou mesmo maluco. Graças a Deus. E a este meu país binacional.
Diversão garantida checar como as pessoas chegam ao seu blog. Observe a tela de 00:20 de hoje deste coco pequeno.
Será que este primeiro curioso da madrugada ficou satisfeito com o que encontrou? Será que ele leu a charge? Será que entendeu? Será que gostou do comentário de que de vez em quando bate um vento frio, feito por Madame K?
Possivelmente tenha se picado no primeiro segundo.
Portanto estas estatísticas não medem muita coisa. Servem apenas como fonte para posts como esse. E quase nada mais, embora certamente muita busca tenha sentido e resulte em leitura mesmo.
Futucando mais, pincei 10 palavras ou grupos de palavras que resultaram em mais de cem acessos desde que me mudei aqui pro wordpress. Não informam qual buscador foi usado, mas fui ao google e tentei fazer o mesmo caminho usando as mesmas palavras, acrescentadas de + licuri.
Gosto de elevadores com portas sanfonadas. No Palacete das Artes tem um, possivelmente dos primeiros de Salvador, mas desativado.
Tem também um no cafofo, apelido carinhoso dado por minha mãe ao apartamento do Areal de Cima onde ela é hóspede da minha irmã, numa das mais belas vistas da baía e onde já desejei morar.
Ontem fui pegar minha mãe no cafofo e resolvi fazer imagens da porta do elevador. Mantive a câmara ligada e ela acabou revelando suas lembranças de Anselmo Duarte, que para mim era apenas o diretor de o Pagador de Promessas. E não ia além disso minha ignorância.
Minha mãe sempre faz as contas e se compara com os mortos da sua geração. É assim que ela se coloca diante da iminência de todos nós, mas que para ela tem mais iminência pela probabilidade. E só por isso, porque meu pai teve um AVC, morreria na semana seguinte mas passou muitos anos seguintes acompanhando enterro de parentes e amigos bem menos iminentes.
No vídeo ela compara também a idade de Anselmo Duarte com a de seu Rubem, avô de Soraya, de quem já foi parceira de baralho, em Iaçu.
Na saída, torcedores do Bahia, que assistiam ao jogo num boteco ao lado, comemoram mais uma derrota do Vitória.
Minha mãe vive o drama dos velhos. Pela necessidade da proximidade dos médicos e hospital, virou hóspede das filhas. Como todos os parceiros de idade, é teimosa. Não aceita acompanhamento, nem monitoramento dos remédios que toma. Está agora em Salvador porque há duas semanas baixou no hospital em Conquista depois de tomar em quatro dias seguidos comprimidos para osteoporose prescritos para intervalos de uma semana.
Garante que foi brindada com uma graça.
A orverdose, de fato, deixou a garota mais disposta. Parece que ativou também a memória.
Não é que funcionou? No último final de semana fui com André e Maria ao Parque da Cidade de Feira de Santana e tive de amargar a culpa por levar o pequeno pra casa com a perna arranhada. O parquinho público absolutamente abandonado – pelos administradores, não pelas crianças – exibia uma armadilha fatal em cada brinquedo. Pontas de madeira lascada e metal enferrujado eram o mínimo do risco.
Falar em solução seu Valera / Bocão, aproveito pra contar outra recente. A irmã da moça que trabalhava conosco teve diagnóstico confirmado de câncer de mama. O médico pediu então uma cintilografia, exame imprescindível para definir o tratamento.
Exame marcado pelo SUS, aquele sistema cuja qualidade é universal, segundo nosso presidente. Um mês depois, isso mesmo, um mês depois, a clínica informou que ainda não havia previsão.
Ligamos então para o repórter de plantão de A Tarde. Por coincidência, o cara tinha conhecimento de causa acima da média das redações. A mãe dele teve câncer.
Menos de meia hora,isso mesmo, menos de meia hora depois recebemos uma ligação da clínica com a informação de que havia uma desistência e o exame poderia ser marcado para o dia seguinte, no primeiro horário.
Se eu fosse estudante e tivesse paciência para o dialeto dos caras, perdão, para o discurso acadêmico, já teria meu projeto de mestrado na pós da Facom:
O paradigma Varela /Bocão sob uma perspectiva da análise do discurso midiático num estudo de caso com análise textual sobre os modelos e mecanismos que revelam a necessidade do sujeito versus a temporalidade no atendimento das reivindicações básicas do cidadão na construção do sentido de atualidade da prestação dos serviços públicos.
Tradução: pra resolver esta porra, tem que ligar pra Seu Valera.
Eles estão floridos há algum tempo. Mas desta vez invadiram meus olhos nestes dias de Feira de Santana. A cidade pela primeira vez me parece bonita. Graças aos ipês.
Feira é uma cidade estranha, pouco acolhedora. As praças estão abandonadas, povoadas por moradores de rua. A prioridade da prefeitura são os viadutos. Já são quatro e estão construindo o quinto. Certa vez João Ubaldo chamou Salvador de Los Ângeles de pobre. Feira está no mesmo caminho.
Mas os Ipês estão floridos. E nossa candidata a Los Ângeles de pobre do sertão está mais bonita.
Reuni 130 blogs do interior na esperança de montar um painel original.Só deu polícia, políticos e gillette press: http://tinyurl.com/ykabmfd19 hours ago