Para ler, quem sabe

24/07/2014

Via Saymon Nascimento

do site:

Buenos Aires: Aquí me quedo

http://aquimequedo.com.br/2014/07/16/100-contos-de-borges-e-cortazar-para-ler-online/

 

100 Contos de Borges e Cortázar

Cuentos de Julio Cortázar

Bestiario (1951)

1. Casa tomada
2. Carta a una señorita en París
3. Lejana
4. Ómnibus
5. Cefalea
6. Circe
7. Las puertas del cielo
8. Bestiario

Final del juego (1956)

9. Continuidad de los parques
10. No se culpe a nadie
11. El río
12. Los venenos
13. La puerta condenada
14. Las ménades
15. El ídolo de las Cícladas
16. Una  flor amarilla
17. Sobremesa
18. La banda
19. Los amigos
20. El móvil
21. Torito
22. Relato con un fondo de agua
23. Después del almuerzo
24. Axolotl
25. La noche boca arriba
26. Final del juego

Las armas secretas (1959)

27. Cartas de mamá
28. Los buenos servicios
29. Las babas del diablo
30. El perseguidor
31. Las armas secretas

Todos los fuegos el fuego (1966)

32. La autopista del sur
33. La salud de los enfermos
34. Reunión
35. La señorita Cora
36. La isla al mediodía
37. Instrucciones para John Howell
38. Todos los fuegos el fuego
39. El otro cielo

Queremos tanto a Glenda (1980)
Cuentos de Jorge Luis Borges
Ficciones (1944)
El Aleph (1949)60. El inmortal
61. El muerto
62. Los teólogos
63. Historia del guerrero y la cautiva
64. Biografía de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)
65. Emma Zunz
66. La casa de Asterión
67. La otra muerte
68. Deutsches Requiem
69. La busca de Averroes
70. El Zahir
71. La escritura del Dios
72. Abenjacán el Bojarí, muerto en su laberinto
73. Los dos reyes y los dos laberintos
74. La Espera
75. El hombre en el umbral
76. El AlephEl informe de Brodie (1970)77. La intrusa
78. El indigno
79. Historia de Rosendo Juárez
80. El encuentro
81. Juan Muraña
82. La señora mayor
83. El duelo
84. El otro duelo
85. Guayaquil
86. El evangelio según Marcos
87. El informe de BrodieEl libro de arena (1975)88. El otro
89. Ulrica
90. El Congreso
91. There are more things
92. La secta de los treinta
93. La noche de los dones
94. El espejo y la máscara
95. Undr
96. Utopía de un hombre que está cansado
97. El soborno
98. Avelino Arredondo
99. El disco
100. El libro de arena

Tocando em frente – Humberto Teixeira / Almir Sater

23/07/2014

Miguel vence nosso medo do escuro

15/07/2014

São 6 minutos e 45 segundos de suspense. Miguel conhece o caminho, mas possivelmente esta seja sua primeira vez sozinho. Sente medo, é estimulado, chamado de guerreiro. Choraminga, mas segue. E lá vai tateando, tocando pontos conhecidos. Vê os bichos, passa bem por eles, segue em frente. O caminho é longo, escuro, ele tem paciência. No retorno, mais suspense, escada de costas e sem corrimão.

Miguel vence o nosso medo do escuro. As estratégias da mãe e a parceria da vó ajudam muito, mas Miguel vai só. Não tem como não ir com ele. Aprendemos com Miguel. Aprendemos com a mãe de Miguel.

Ao ver o vídeo no facebook, uma brasileira que vive nos EUA resolveu iniciar anteontem uma campanha para tornar os caminhos de Miguel mais acessíveis. Pelo ritmo dos compartilhamentos e reações das pessoas, não vai demorar para que isso aconteça.

PS. Foi criada uma página para a campanha.

 

 

 

 


Suas ideias não correspondem aos fatos

01/06/2014

São muitas, muitas metralhadoras cheias de mágoa nas áreas dedicadas aos comentários nas telas dessa vida.

Aconteceu com meus amigos, aconteceu finalmente comigo. Abri, fugi da briga, caí fora, corri.  Mas a história ficou na minha cabeça, o espinho cravado na planta do pé, incomodando.

Volto então ao assunto.

Achei muito engraçado um vídeo,  gravado  possivelmente por um pai, de um criança chorando, protestando, não queria vestir a camisa do Brasil, queria jogar aquela camisa fola, quelia mesmo era a camisa do Bahia.

Gostei do vídeo por uma motivação atual, particular. Não estou com muito saco para esta copa, desinteressado mesmo, sem tesão para esta monocultura de assunto que varre o país nestes dias, ainda mais agora que o baba vai ser no meu quintal e tem briga e acusações pela posse da bola, dos holofotes, da festa.

Assim como o menino do vídeo, prefiro continuar com o meu Baêa, pelo menos serve pra eu ficar de pirraça com os amigos da tribo do vice, aquele que por sinal entrou ontem  na zona.

Me passaram o vídeo pelo uatiszap. Tentei saber de quem era, sou das antigas, sou do tempo de blog, de orkut, de facebook, costumo postar as coisas sempre citando a origem.

Mas não consegui, ali no telefone, no carro do trabalho, saber a origem. Pimba, postei no facebook.  A reação foi imediata,  muitos kkkkkk, muitos hahahahaha, os inimigos de time sacanearam, enfim estava bem divertido até que uma voz dissonante jogou um balde de texto azedo e frio sobre a festa:

Triste estes tempos em que expõem uma criança desta maneira e ainda acham graça.

Acusei o golpe. Foi no fígado.

A voz de fora daquela roda animada apareceu como acontece em filmes, quando surge alguém assim do nada, com a arma em punho, e surpreende um grupo fazendo algo errado.

Ou quando de repente aparece a mãe, ou a professora, enfim uma autoridade a ralhar com um bando que precisa de correção.

Pra piorar,  a voz era conhecida. Colega de faculdade, das antigas, a gente se vê raras vezes mas este mecanismo aqui nos torna acessíveis um ao outro a qualquer momento, sem aviso prévio, sem oi, olá como vai, eu vou bem e você, quanto tempo, pois é quanto tempo.

Matutei várias respostas. Do deboche, com um sonoro kkkkkkk, ao texto sério, cheio de argumentos. Senti vergonha, senti raiva e o resultado foi o pior: excluí vídeo, texto e comentários.

Mas não adiantou. Continuei pensando no assunto.

Ontem foi a vez de Nilson. O papo, novamente sobre copa, nasceu de uma brincadeira, de uma provocação, e de repente, não mais que de repente, olha ele lá, o texto dissonante, agressivo.

Quando se contesta um texto agressivo a resposta é sempre o argumento de que isso aqui é público, você não aguenta a discordância, se não aguenta não desce pro play, e por aí vai.

Pertenço ao grupo que defende  o direito  da condução e mediação do debate em sua tela. Ou seja, aqui onde eu iniciei a conversa quem decide sou eu, as medidas são minhas e as regras também.

Pesquisei, o vídeo tá no you tube, foi mostrado num programa esportivo, a família curtiu, enfim tinha um contexto familiar, foi tornado público e não vejo maldade nenhuma nele. Republico. Junto com outros dois que me vieram à mente enquanto buscava as palavras para escrever este texto.

Estou com o garoto, pelo direito de não vestir essa camisa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Música

27/05/2014

Playlist

00:00 – 01:00 - Infância
01:01 - 01:31 - No meio do caminho
01:32 – 02:46 - Confidência do Itabirano
02:47 – 03:17 – Quadrilha
03:18 – 04:45 – Os ombros suportam o mundo
04:46 – 05:46 – Mãos dadas
05:47 – 08:28 – Mundo grande

08:29 – 10:18 - José

10:19 – 14:10 – Viagem na família
14:11 – 17:32 – Procura da poesia
17:33 – 24:54 –  O mito
24:55 -27:35 –   O lutador
27:36 – 28:04 –  Memória
28:05 – 31:15 –  Morte do leiteiro
31:16 – 32:13 –  Confissão
32:14 – 33:27 –  Consolo na praia
33:28 – 34:18 – Oficina irritada
34:19 – 35:04 - Fazenda
35:05 – 41:19  Caso do vestido
41:20 –  Estrambote melancólico

 

http://drummond.memoriaviva.com.br/alguma-poesia/

http://drummond.memoriaviva.com.br/alguma-poesia/infancia/

http://letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade

 


Incutido

09/05/2014


 

 

 


Um bom lugar

27/04/2014

palacio - Cópia

Seu Ari, ontem neste lugar só faltou você. Pessoas, música, poesia. E tudo quase por acaso, do meu ponto de vista, é claro. Dizem, texto adjetivado e repetitivo perde a força. Mas eu preciso completar: pessoas fantásticas, música e poesia absurdamente boas e da mais alta qualidade, papo gostoso. Uma tarde de sábado inesquecível. Só faltou você.

E tudo quase por acaso, do meu ponto de vista, é preciso repetir.

Foi uma tarde de muitas designorâncias pra mim. Aprendi, por exemplo, que Sábado em Copacabana é de Dorival Caymmi. E não é que a letra cabe direitinho ali?

“Depois de trabalhar toda a semana
Meu sábado não vou desperdiçar
Já fiz o meu programa pra esta noite
E sei por onde começar”

Cheguei atrasado para a homenagem a Manoel de Barros, mas a ponto de ouvir o último poema. Bem sacaninha:

“Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.”

E as pessoas reclamam muito da falta de homenagens a Caymmi no centenário. Mas é nestes pequenos encontros, neste formato intimista é que as homenagens são mais verdadeiras.

E para ficar no lugar comum, Alexandre Leão deu um show, ali na voz e violão, botando o público pra cantar, falando sobre as músicas.

Gosto muito da casualidade destes eventos pequenos, sem muita pompa, sem ingresso, sem multidão. São uma boa forma da gente ter nosso imposto revertido em serviço.

E este formato parece mais com a vida cotidiana. Ali sentado, tomando um vento, olhando as árvores e diante de pessoas talentosas, produtivas, vivas. Depois um papo com os amigos, sem ter marcado, sem compromisso, falar mal da oposição, falar mal do governo, falar mal e bem dos outros, conversar sobre as crianças, sobre a vida.

Aqui em Brotas, no Engenho Velho, temos um espaço parecido e sinto a mesma coisa quando vou lá no Parque Solar Boa Vista. O lugar é ocupado pelas pessoas do bairro, tem sempre alguma coisa acontecendo.

Enfim seu Ari, ou Meu Rei, seu súdito aqui agradece e muito a tarde de sábado no seu, no nosso palacete. Estou acompanhando seu cronômetro, quando passar a maresia, quero ir de novo num sábado qualquer neste bom lugar pra gente jogar conversa fora.

 


A maldição da coruja

24/04/2014

Sou agnóstico mas busco Deus em tanta bala, tanta morte matada, mais de cem neste abril. Escuto pipocos, mais de cem. Conto as mães, mais de cem. Mais de cem é a  metade de mortes da boate incendiada no Rio Grande do Sul. E menos de um milésimo da atenção minha, sua, de todo o mundo.

Afora aqui e ali, os jornais silenciam, as pessoas silenciam. São todos “malas sujas”, gente que não presta, aprendi esta nova definição em Feira de Santana. E mala suja não é gente, não merece a minha e a sua empatia,  não é notícia. A não ser nos programas e sites e blogs  do chamado jornalismo abutre. É só dar um google  pra sua tela sangrar.

Mas acredito piamente na reverberação de toda esta dor. Ela volta pra gente, mais cedo ou mais tarde. Ela também nos cabe.

Também não acredito nos maus presságios das corujas. Mas Iaçu, cidade de menos de 30 mil habitantes, uma das muitas Macondos da Chapada Diamantina,  teve ontem mais um assassinato e duas crianças baleadas.

Mas os maus presságios de uma coruja  e uma piada do cantor de trio Bell sobre Iaçu repercutiram muito mais do que o assassinato e duas crianças atingidas por balas na Portelinha, conjunto habitacional com nome de bairro de novela, na  margem direita do Paraguaçu, perto da coruja.

E repercutiu muito menos ainda uma acusação de estupro, também na Portelinha, no início do mês. Acusação seguida de julgamento e morte do acusado dentro de uma cela da delegacia da cidade, rito sumário. Detalhe: o exame de corpo de delito, soube de fonte confiável, não confirmou o estupro, mas o trapo humano executado teve as pernas amarradas para caber no caixão.

E o  que eu e você temos a ver com isso?

Pressinto, creio que vai sobrar pra gente. Já sobrou. Sobrou conviver com a reverberação de toda essa dor, com a reverberação deste ritual praticado na delegacia por gente de 18, 20 anos. Ou pelo menos com a tal banalização, talvez mais grave ainda.

Estamos todos no mesmo barco. Eu, você, os moradores acusadores da Portelinha, o delegado de Iaçu, os jovens carrascos, as crianças baleadas. O barco é um só e muita gente não entendeu ainda.

Não disseram que estamos todos juntos nesta linda passarela de uma aquarela que um dia enfim descolorirá?

Tá acelerado este processo.


Infância em Macondo

17/04/2014

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Iaçu, em 17/04/2014.

Como tenho pouca imaginação, ao ler um livro faço a locação da história em lugares conhecidos. Macondo, por exemplo, fica em Tanhaçu, cidade da minha infância. As chuvas eternas, o sangue que escorria e escorria e escorria, escorria pelos morros do interior de Minas da minha infância.

Ao conhecer Iaçu, também tive a sensação de estar em Macondo, embora seja lugar comum essa comparação com cidades pequenas, calorentas e ermas.

Pois a morte de Gabriel García Márquez me pegou nesta tarde em Macondo / Iaçu. E me pegou mesmo, me trouxe a sensação de movimento, do mundo andando para o fim.

O fim do mundo é em câmara lenta no sumiço das pessoas, dos próximos e dos conhecidos.

De alguma maneira sou conhecido de Márquez. Eu o conheço, apresentado talvez pelo meu amigo irmão Josias Pires,  que não tem mais nenhum exemplar de toda a bibliografia simplesmente porque emprestou todos, sem retorno.

De alguma maneira conheço Márquez decifrado pelos amigos colombianos Ernesto Diaz e Dario Campos, a quem perguntava o significado de algumas palavras na tentativa de ler no original.

Mas sobretudo conheço pelos 6 ou 7 livros dele que li. Muito pouco, deveria ler todos, mas meia dúzia já é um recorde para minha pouca leitura.

Gosto do exagero de Márquez, da força dos seu exagero. Ficou na minha fraca memória para sempre a cena do encontro tardio do casal do Amor Tempo tempo do Cólera quando, num barco,  ele esperava tocar a mão  desejada na juventude mas encontra a flacidez da velhice, o amargo do hálito da velhice.

Sinto a morte de Márquez  também porque  tenho a convicção de que morremos na morte alheia. E a cada dia temos morrido mais, com mais frequência.

 


Em 37:57: “Todos tienen tres vidas: Una vida pública, una vida privada y una vida secreta.”

 


Mora na filosofia: um minuto de silêncio para nossa ignorância e para o cabrito que morreu

11/04/2014

Assim como na vida em carne, gordura e osso, é preciso prestar atenção em três qualidades da informação na internet antes de aceitar e passar pra frente: confirmar a autoria, checar a veracidade e tentar entender o contexto.

Claro que nunca há tempo para tudo isso e a barafunda se instala de mãos sempre dadas com a ignorância. E para complicar a vida e a internet, nem sempre o que um diz é razoavelmente próximo do que o outro entende.

Uma digressãozinha, me permita.

Quando eu era adolescente o artista queria dizer que para não rimar amor e dor é preciso morar, habitar na filosofia. Depois achei que isso era a gíria da época e mora na filosofia significaria saque na filosofia, como em é uma brasa, mora?

Mas como na vida em carne, gordura e osso, a dose e a forma de usar determinam se é veneno ou remédio.

E como remédio uso a internet agora nesta madrugada para continuar em dúvida mas mais feliz por ficar menos ignorante e aprender que morar na filosofia é de muito antes de minha nascença, é de 1955, da lavra de Monsueto em parceria com Arnaldo Passos.

Tudo isso é por conta da popozuda, da prova e do professor de filosofia e as várias versões para o assunto. 

Prefiro esta úlitma de um aluno. Vi o texto dele no facebook mas perdi. Aqui está uma parte: http://educacao.uol.com.br/noticias/2014/04/10/aluno-defende-professor-que-citou-popozuda-e-da-aula-de-filosofia.htm

Entrevista do professor a Cynara Menezes: http://socialistamorena.cartacapital.com.br/kubitschek-o-provocador-a-escola-publica-e-tao-mal-considerada-quanto-valesca-e-o-funk/

PS. No final da entrevista a Cynara tem a íntegra do texto do aluno. 

Palmas para o aluno, para o professor, para a Filosofia, para Monsueto e para a internet.

E um minuto de silêncio para nossa ignorância e para o cabrito que morreu.

 


A gente se vê por aqui

05/04/2014

Tenho vivido insônias rolando a barra do facebook. Sem falar nada, curtindo aqui e ali. Antigamente era a tv, ligada muitas vezes sem som. Observava as pessoas, o mundo na tela.
Aqui as pessoas se revelam. De uma maneira diferente do que imaginam se revelar. E eu também me revelo. Também de uma maneira diferente do que imagino. E nesse jogo de espelhos seguimos todos, com muitas impressões, mais perto ou bem mais longe da realidade.
Gosto, gosto muito de muitas pessoas daqui. Gosto especialmente das que se escancaram, se arreganham, são gente.
Não vou negar que na minha tela passa muita bobagem. Ninguém tem mais de 100 amigos no facebook impunemente. Encaro o cascalho com a esperança e a alegria de encontrar aqui e ali o melhor, o mais humano, o mais comovente, o mais belo da natureza humana, que muitas vezes nem é o mais belo, se é que você me entende.
Pode falar, pode rir de mim, mas aqui encontro literatura da melhor qualidade, poesia da melhor qualidade, fotografia idem, humor, música, gente também.
Isso aqui lembra a leitura de um papiro, de um pergaminho. Acho que nem cheguei na idade média. Um dia, quem sabe, renascerei.

No facebook


Cadeira

27/03/2014

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Calção, camiseta, havaianas. Fui até o cinema da UFBA buscar Luísa no estacionamento mas por conta de um desencontro acabei na antessala do cinema. Com a roupa que costumava assistir aula ali do outro lado do vale. O dobro da idade e quase o dobro do peso não pesaram e eu não me senti deslocado com esta roupa inadequada, como não me sentia na época de estudante. No cinema acontecia um debate depois da projeção do filme Iara e da sala saiu um candidato a reitor, meu contemporâneo. Estou velho, um contemporâneo pode ser reitor. Mas eu ali de calção e havaianas me sentia um aluno convidado, me sentia bem, de bem com a atmosfera. A universidade está um pouco mais miscigenada mas continua predominantemente branca. Encontrei André Santana, encontrei o artista gráfico Marcos Costa, eu me senti em casa apesar dos muitos anos depois. Agora Luísa tem aula ali. Fui um cara privilegiado, tive aula no primário numa escola pública, num curso técnico público, e numa universidade pública. Foi bom ver a universidade viva, com alma, com viço e ainda acolhedora. Como esta cadeira da antessala do cinema.


Chuva

27/03/2014

Foi à feira naquele sábado de chuva já desconfiada. A melhor amiga confirmou, sim estava sendo traída. Naqueles dias de 1930 no interior da Bahia, domingo era dia de missa. Mas ela separou as horas em metades e das 9 às 19h30 passou em revista todos os amigos e alguns inimigos do marido. Na segunda-feira, ainda chovia. Embarcou para o Rio de Janeiro, casou novamente e, segundo contam os netos, foi feliz e nunca mais traída.


Lúpi deambula

19/03/2014

Ele  veio para nossa casa como viemos ao mundo, sem nenhuma possibilidade de escolha.

Talvez pior porque de asas cortadas para não voar.

Se fosse humano, teria as pernas quebradas para não fugir.

Pior ainda, veio como compensação pelo veto a um cachorro. E veio doado pela segunda vez, esta é sua terceira casa.

Está muito bem tratado, tem atenção constante das crianças, reclama e quer ir atrás quando todos saem para a escola.

Mas quando o vejo caminhando pela casa, cambaleante, deambulando (obrigado Ângela Vilma), sinto culpa, como se eu fosse o furador dos olhos do Assum Preto.

Filosofia vai, filosofia vem, na mesa do almoço a discussão é se vale a pena aceitar Dóris, a parceira para Lúpi, omo forma de amenizar sua solidão de bicho igual. Na natureza, as calopsitas vivem em bandos.

Dóris já está prometida pela tia Conceição, mas a irmã maior argumenta que aceitar a parceira  é colaborar para a continuidade do negócio de aves presas e de asas cortadas.

O dilema é: resolve o problema individual de Lúpi e colabora com a continuidade deste tráfico de sofrimento animal ou sacrifica Lúpi pelo bem do futuro das calopsitas na terra?  


Lepo lepo

01/03/2014

Lepo lepo é o que mesmo? pergunta Cidinha Do Ó, ou Bel do Ó.

Respondo que tenho apenas pistas. Vamos a elas:

A letra me parece uma versão mais explícita de Beleza Pura, de Caetano, que por sua vez é uma versão de o Violeiro, de Elomar. Ou seja, Amor, nunca dinheiro; Dinheiro não, mas os mistérios; e Se ficar comigo é pelo meu lepo lepo. 

A coreografia sugere preliminares, um carinho lateral e viril da direita para a esquerda com retorno acompanhado de uma mexida. Digamos, duas lapadinhas, ou só uns tapinhas…

Elomar:
Apois pro cantador e violero
Só há três coisas neste mundo váo
Amor, furria, viola, nunca dinheiro
Viola, furria, amor, dinheiro não

Caetano:
Não me amarra dinheiro não!
Mas formosura
Dinheiro não!
A pele escura
Dinheiro não!
A carne dura
Dinheiro não!…

Psirico(Magno SantAnna / Felipe Escandurras):
Eu não tenho carro, não tenho teto
E se ficar comigo é porque gosta
Do meu ranranranranranranran lepo lepo
É tão gostoso quando eu ranranranranranranran o lepo lepo

 

Facebook 


Nildão, Claude Santos e Carybé

27/02/2014

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Encontros

E por falar em década de 80 andava eu pelo Campo Grande hoje pela manhã em busca de turistas chegantes para entrevistar e eis que vejo alguém em minha direção com um olhar de quem exercita pensamento, mirando todas as direções. Era Nildão. Estendi minha mão na cara de pau: – Seu amigo de facebook.

Para minha surpresa ele me reconheceu. Lembrei de uma entrevista que fiz na década de 80 sobre sua poesia escrita nas ciclovias. É muito bacana quando a gente encontra na rua gente que a gente vê todo dia no facebook. Sim, elas existem.

Sempre fui admirador da arte de Nildão e recebi hoje assim do nada em plena manhã um elogio de quem admiro, disse ele que eu escrevo bem. Disse a ele que até bem pouco não acreditava nisso, muito pelo contrário, ainda tenho dúvida, mas aceitei feliz o elogio.

Conversa vai e vem e Nildão comentou o desenho da minha camisa-farda do Carnaval, viu ali traços de Carybé. E apontou para a obra de Carybé nas pilastras e em um painel do edifício em nossa frente. Mesmo mergulhado na cidade, o olhar de Nildão consegue ser estrangeiro, olhar de quem nota o que já se tornou invisível para a maioria.

Nildão se vai depois de comentar sobre a possibilidade de ter algo de errado com uma sociedade que resolve se divertir em apenas uma semana do ano.

Mal recomeço a andar depois de fazer a foto deste post, que saiu meio esquisita, e esbarro com Claude Santos, este sim fotógrafo, e de quebra conhecedor de Canudos. Claude é um dos grandes artistas desta terra, homem também do audiovisual. Mas Claude a gente só encontra ao vivo, em cores e em preto e branco. O cara é meio arredio a internet.

Alegria pelos encontros. Carnaval é assim, mesmo quinta feira, mesmo 11 da manhã.

Sigo então em busca dos meus turistas, satisfeito com os encontro casuais com os artistas desta cidade.

PS

Resolvo revisar o texto há pouco, melhor não acreditar no elogio de Nildão. Tudo confuso, mais de 300 erros. Tento consertar. Melhor excluir e publicar de novo. A desculpa é que eu estava meio bêbado. E a vantagem da internet é a possibilidade da revisão constante.


Um dia quem sabe

27/02/2014

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Um dia quem sabe ainda leio Hermann Hesse, Stefan Zweig. Estive diante deles rapidamente hoje pela manhã numa pequena excursão afetiva por um dos espaços mais agradáveis de leitura desta velha Salvador, a biblioteca do ICBA. A maioria dos títulos é em alemão, mas o que sobra em português é suficiente e sobra para minha carência de leitura.

A rápida visita à biblioteca, mesmo fechada, me foi franqueada pela bibliotecária depois que pedi a ela uma breve visita à minha memória afetiva das décadas de 70 e 80. No ICBA vi peças, shows, ali comecei a ler alguns livros, mas sobretudo flanei, respirei um ar diferente, um ar necessário e em falta em outros espaços da cidade nas décadas de 70 e 80.

Quem sabe um dia eu resolva ser leitor. Voltarei então à biblioteca do ICBA.


Moro sobre um crime ambiental batizado com nomes de jardins botânicos europeus

13/02/2014
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Imagem do Google Maps em 13/02/2014

O Google está desatualizado. Esta imagem copiada hoje mostra uma das maiores áreas verdes do Bairro do Acupe de Brotas, sobre a qual desenhei a olho a poligonal vermelha. Nesta poligonal, em agosto de 2009, ou seja, há quatro anos e meio, começaram a erguer um condomínio residencial com seis torres de 25 andares cada.

A história da construção  me intriga e me motiva a buscar, com a ajuda de vocês destas tais redes sociais, algumas respostas para umas perguntinhas básicas.

Pausa para algumas informações.

No dia 31 de agosto do ano passado, a promotora Hortênsia Pinho solicitou que a Justiça determinasse a suspensão das obras, dos efeitos da licença ambiental concedida pela prefeitura, a proibição da comercialização dos apartamentos, a demolição parcial das construções e a reparação dos danos ambientais, em ação ajuizada no Ministério Público Estadual.

No texto da divulgação da ação , publicado no site do MP, também é dito que as denúncias de irregularidades ambientais foram apuradas pelo MP em 2009, “quando foi instaurado inquérito civil e feita posterior proposição às empresas de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). O objetivo do Termo era promover a restauração ecológica da área degradada, a elaboração do EIV, e custeio de projetos ambientais ou aquisição de área preservada com três hectares de Mata Atlântica, no valor de R$ 3 milhões.”

Como estou escrevendo este texto na varanda de um dos 600 apartamentos construídos, significa que moro sobre um crime ambiental ainda sem castigo para as empreiteiras Arc Engenharia Ltda.,Brotas Incorporadora Ltda, PDG Reality S.A. Empreendimentos e Participações, e Agra Empreendimentos Imobiliários, parceiras na empreitada.   Quem começou a obra executada pela Arc foi a Brotas Incorporadora, vendida para a Agra, vendida para a Agre, vendida para a PDG.

As empresas foram acusadas de infringir a legislação ambiental e urbanística municipal. Segundo o MP, “as torres foram erguidas em Área de Preservação Ambiental Permanente (APP) e em Área Arborizada (AA) protegida por previsão expressa no PDDU, o que resultou no desmatamento total da vegetação sem qualquer autorização e no aterramento ilegal de recursos hídricos de bioma Mata Atlântica. O terreno ocupado irregularmente corresponderia a mais de 36 mil metros quadrados de área construída, ou duas torres e meia do empreendimento.”

Ironicamente, o crime ambiental contra a nossa Mata Atlântica foi batizado de Pátio Jardins e cada uma das torres recebeu o nome de um jardim botânico Europeu:  Montpellier,  Paris,  Pisa,  PáduaBolonha e Basel.

Aí você me pergunta. Que diabos você quer futucando esta história? Você não está morando, gostando, feliz com sua vista para o que restou da mata?

Explico. Já que a merda foi feita pela metade, vamos entender o que aconteceu para evitar que se repita com o que restou da área verde. Sei que estou agindo como paises europeus ou EUA, que depois de destruir suas matas, querem preservar as matas dos vizinhos.

Mas se alguém não colocar um freio, não vai restar folha sobre folha.

Vamos às perguntinhas básicas:

Por que o MP investiga o caso desde 2009 e só depois de mais de quatro anos, depois da obra construída e do leite derramado resolveu ajuizar a ação?

Como foi obtida a licença da prefeitura já que a área é de preservação?

Em que pé está o processo?

Quanto da área remanescente é ainda de preservação?

Por que o IBAMA não se manifestou, já que no terreno havia nascentes?

O terreno pertencia às famílias de Urbino de Aguiar, que deu nome à rua lateral,  e dos ex-governadores da Bahia Luiz Viana e Luís Viana Filho.  Um morador da Rua Urbino de Aguiar conta que havia um projeto de uma avenida ligando o Ogujá ao Bonocô, mas que foi abortado por Luís Viana para preservar a área. Essa história é verdadeira? onde pode haver informações sobre a origem do terreno?

Alguéns para responder?

Veja se o Google Maps foi atualizado aqui.

Facebook: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10201385580618233?stream_ref=10

PS

Os antigos moradores espernearam mas não teve jeito. A OAS cravou outras 5 torres aqui perto, o City Park Brotas, com 671 apartamentos e acesso apenas em rua de 7 metros de largura para a Ladeira do Acupe. http://sos-acupe.blogspot.com.br/…/afinal-o-que-esta.


Solidariedade feminina

10/02/2014

023 (1)

Sou do tempo do discar. O 1 voltava rápido. O zero era uma eternidade no retorno com barulhinho de catraca contrariada, bem anos 70. Depois evoluí para a tecla, mesmo assim meu tempo é do telefone para telefonar. Máquina fotográfica pra fotografar. Filmadora pra filmar. Computador pra computar.

Comprei ontem uma máquina fotográfica e filmadora acompanhadas por telefone com duas linhas e um computador com acesso à internet e 16 gigas de memória.

Resisti bastante à mudança. Defendia e até me “exibia” com meu telefone peba. Mas meu erro fatal foi mudar do peba Nokia para o peba Alcatel. E quando você junta um peba Alcatel com a TIM o resultado pode ser desastroso.

A gota d’água aconteceu na sexta, quando no meio de uma conversa crucial com a chefia, a primeira demanda importante no retorno das férias, o Alcatel ficou mudo. A bateria acabava duas vezes por dia sem se dignar a avisar.

Mas o pior eram as ligações ignoradas. Nestes dias de muita pressa e muitíssima carência, não retornar uma ligação em 3 segundos pode ser interpretado como lerdeza ou desprezo.

Como não queria os amigos magoados e nem ser despachado do trabalho por incompetência,  fui em busca da marca Sansung. Já havia definido  também há muito meu futuro ingresso na tribo Androide. Tenho uma antipatia inexplicável por iPhone mesmo sem jamais ter usado um. Mas também uma simpatia absurda pelo Mac, um dia ainda terei um.

Entrei na loja perguntando pelo Sansung Duo. Mas fui na concorrência checar a novidade alternativa oferecida pelo primeiro vendedor. Voltei e saí com um Moto G nas mãos.

Como assim Moto G? Motorola não era aquele marca do tijolão da pré-história da telefonia celular?

Era, mas foi comprada pelo Google. Já havia ouvido falar vagamente sobre isso e do lançamento do aparelho no final do ano passado. Mas os dois vendedores me informaram os detalhes, da procura maior, do sistema operacional com garantia de atualização, da rapidez, da máquina que faz foto apertando em qualquer lugar da tela e da possibilidade de fotos em sequência, da bateria potente e toda a lista de vantagens na ponta da língua de todo vendedor.  Acreditei.

Mas pesaram mesmo na minha decisão duas palavras: Google e Androide.

Pode falar, pode rir de mim, até me chamar de besta, mas sou bastante grato ao Google, até fã.Teria largado há muito a profissão  caso não surgisse uma fonte de pesquisa como essa, rapidíssima e confiável quando bem feita. Além da quase ausência de memória, defeito grave em quem trabalha com comunicação, necessito sempre confirmar a existência de muitas coisas. E não tem ferramenta melhor para constatar a existência das coisas do que o Google.

Com a aquisição, resolvi praticamente todos os meus problemas de comunicação e ainda ganhei o bônus de passar a pertencer depois de séculos ao mundo desconhecido dos que usam Instagran e whatsApp.

Mas ganhei também três problemas:

Nunca me roubaram um celular peba. Devo ter sido muitas vezes revistado com os olhos e liberado. Com esse bonitão no bolso, corro sério risco de virar estatística nesta nossa guerrinha muitas vezes fatal pela posse de bugigangas tecnológicas. Soraya disse que na porta do Luís Viana, aqui perto, quase todo o dia ouve berros de alunos chorando a perda depois do ataque de pequenas gangs,  de tocaia nas cercanias do colégio.

O segundo problema é que estou com sérias dificuldade para operar  tanta tecnologia concentrada. André e Maria já são íntimos, já pegaram no bicho resolvendo tudo com seus polegares opositores afiados de nascença e se oferecem piedosamente para me ensinar a dar os primeiros passos. Ando tão  lerdo que demorei até para acertar a atender a primeira ligação.

O terceiro e mais grave é que perdi todos os argumentos para adiar a compra das  muitas coisas que faltam para a casa. Sempre fui contra prestações, mas o ser humano se trai no desejo e terei longos 10 meses sem argumentos.

O pior é que a contradição é mais visível do que eu pensava. Ao receber nossa primeira visita, de um casal amigo, Soraya teve a solidariedade feminina. Foi só eu encontrar uma oportunidade de me exibir com o novo aparelho para nossa amiga, testemunha  ocular da bagunça da casa por conta da ausência de suporte para as coisas, soltar imediatamente e quase indignada a perguntinha travada na garganta de Soraya há quase 48 horas:

E os armários?


Pidão, charmoso ou dotado de muita oxitocina?

09/02/2014

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Sei, você vai dizer que sou pidão. Mas voltei todo feliz  pra casa com esta jaca como troféu. Ganhei na padaria da esquina. Queria comprar, o cara disse que não estava à venda mas em seguida mandou a frase mágica, a alegria dos pidões: leva pra você.

Juro que não pedi, queria comprar. Há uma semana namoro as jacas dos pés carregados desta matinha aí da foto, remanescente do que sobrou do crime ambiental sobre o qual eu moro.

Tal como a Europa que devastou suas matas e resolveu preservar o resto do mundo, estou empenhado em preservar esta aí, que me garante o canto dos sapos, dos pássaros e uma noite mais escura e ventilada.

Mas voltando ao meu charme, o dono da padaria não resistiu à minha alta concentração de oxitocina no sangue, ou o tal hormônio da empatia, e eu estou aqui admirando tanto a moça que estou até com pena de comer. Vou comer sozinho porque os meninos não gostam e Soraya só aceita jaca dura.

É servido? É jaca mole. Ou você também só gosta de dura?


O sofá, a peça e a insistência

06/02/2014

Escrevo neste Licuri desde 2006 e sempre tive um retorno emocional absurdo com ele. Elogios, emoções reveladas, reencontro com velhos amigos, o saldo é azul , bem azul. Com o facebook então, o retorno tem sido ainda maior.

Certa vez cheguei a ter retorno financeiro. Escrevi um post sobre minha necessidade de arrumar trabalho extra para aumentar a receita combalida e logo em seguida recebi o convite para um frila, que resultou num bom desaperto no orçamento.

Nesta semana voltei a ter retorno material misturado com emocional.

Recebo a ligação com a proposta. Dona de um novo apartamento maior, daqueles que trazem a palavra mansão antes do nome,  quer passar para a frente por um preço simbólico e em prestações,  uma sofá e um buffet, que no meu interior conhecemos como peça.

Conhecemos a dona da oferta mas ela foi feita por uma pessoa mais próxima da gente e dela, interlocutora cheia de dedos.

E agora? E se a gente não gostar? e se não combinar com o que a gente pensa para a casa? Como recusar uma oferta dessa, depois da pessoa se disponibilizar a ir com a gente ver os móveis, abrir um tempo na agenda apertada de empresária e simplesmente ser desdenhada?

Soraya diz que a culpa dessas situações é da exposição permanente da nossa vida aqui. E é verdade, não adianta eu tentar me conter, faço parte da tribo do suicídio coletivo da privacidade, como já definiu o Boni.

A sorte é que gostamos dos móveis e da sugestão de transformações possíveis feitas pela própria dona. E da surpresa do texto do fechamento do negócio. O que seria venda virou doação.

A doadora disse que gostou do que tenho escrito sobre a nossa mudança de casa, gosta dos meus textos, não se manifesta mas se emociona, já chorou até com um deles.

Pronto. Estou remunerado pelo que escrevo, remuneração econômica e afetiva por conta dos elogios.

Ficamos meio boquiabertos com a proposta mas eu resisti pouco. Poderia insistir com o pagamento, mesmo simbólico.

A minha pouca resistência me fez lembrar uma história contada por Nilson, atribuída a um personagem de Brumado, mas na verdade é uma daquelas anedotas universais repetidas para ilustrar um comportamento típico.

A visita aparecia com a mesma conversa mole todo dia, faltando 15 minutos para o meio-dia. Mesa posta, a família se sentava e alguém convidava quase baixinho, entredentes. – Vamos almoçar?

A resposta vinha efusiva, quase contrariada: – Já que você insiste!


Morremos também

04/02/2014

Irritação. É este meu  sentimento diante da notícia de morte de pessoas próximas.
É irracional, sei, é tolo.
É como se irritar com o anoitecer de cada dia.

Minha irritação vem da constatação de que o morto leva parte da gente que fica. Ninguém morre sozinho. Cada parte da gente é  enterrada a cada perda.

Invejo a religião nestas horas. Invejo a fé das pessoas em futuros reencontros. A gente até permanece reverberando nas próximas gerações, nossos erros e acertos de alguma maneira influem no futuro. Mas a identidade de cada um, esta cara e este nome são combinações datadas. E o fim é o fim mesmo.

Desde os cinco anos viajava para Minas, para férias na casa de tio, tia e seis primos. Um deles, Ellizeu, morreu ontem num acidente de moto. Há muito não via Elizeu, talvez não o encontrasse tão cedo, mas havia sempre uma possibilidade que desde ontem não existe mais.

Da casa de oito pessoas, tio, tia e seis primos, só posso compartilhar hoje com três delas as lembranças sobre o peitoril onde se reuniam todos depois do jantar, sobre o arroz de pequi, as noites estreladas, o leite no curral, a gamela de coalhada, o rio, as mangueiras, os pés de jenipapo, as boiadas, as gavetas velhas com esporas de galo. Consigo ouvir a voz de tia Odete chamando lá de dentro: – Ô  Zeu…

Daqui a alguns anos, caso  permaneça mais tempo por aqui, poderei não ter nenhum dos oito daqueles dias de infância para compartilhar as lembranças. Talvez não seja a maior tragédia da longevidade ficar só. Tragédia mesmo é permanecer com as lembranças sem testemunhas.


Nossas caixas, nossa vida, um aceno

29/01/2014

O simples é o estado mais difícil. O simples requer clareza, desapego, funcionalidade, inteligência, combinação. Organizar  uma casa é como construir um texto. O alfabeto é o mesmo, as palavras as mesmas, o segredo está na combinação, na economia, na disposição.

Casa nova, desafio de arrumar. Com quase dinheiro nenhum. Na casa só caixas e móveis renegados. O desejo de Soraya seria começar do zero, cama de tatame, dura caminhada.

Mas somos cinco. Muito papel acumulado, muita tralha. O sanitário da primeira suíte da vida do casal está de caixa até o teto, sem previsão de liberação para uso. O que fazer?

Um aceno

Vimos primeiro a criança, colega das escolas dos meninos. Em seguida os pais, um casal de arquitetos conhecido de oi, oi e de alguns papos na praça e na escola. Eles em busca  lanterna na seção de ferramentas da loja de construção para o acampamento da pequena, a gente por uma chave de fenda adequada para desarmar uma estante.

Conversa vai, conversa vem, vai, vem e de repente o convite.

- Vamos lá em casa, é aqui perto, vocês vão ver como resolvemos.

Tomamos um susto com o convite. Abriram a casa para a gente, franquearam a intimidade, numa generosidade absurda.

Adepta do faça você mesmo, ela conseguiu com estantes de aço, destas de escritório, moduladas, mais caixas organizadoras, construir um ambiente bacana, absolutamente personalizado. Nada ali lembrava nada já visto nas lojas, quase tudo material simples, mas combinados com sofisticação.  Mesa e camas foram feitas de portas revestidas. Cada móvel, cada canto tinha a cara do casal. Um  apartamento pequeno como o nosso, mas absurdamente acolhedor. 

Pronto, é por aí. O problema é como fazer. Soraya leva jeito, mas sou absolutamente analfabeto em arrumação de casa. Não adianta usar os mesmos materiais se não há habilidade na combinação. Tivemos  com esse encontro um aceno da ajuda, de orientação, mas o corre-corre da mudança e a viagem para pegar os meninos no interior interrompeu o contato.

Retomaremos.

Tentar fazer é a única saída para quem tem pouco dinheiro e quer fugir da padronização. 

Esse Licuri agora só pensa em mudança e casa nova. Vamos quebrar esse coco.


Mudanças

28/01/2014

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Falar em mudança, relembro aqui texto antigo, publicado neste coco pequeno ainda no tempo do Uol Blog ( http://bit.ly/1mTaeuK ), em 27 de setembro de 2006, quando mudamos do Pau da Lima para a Pituba:

Felicidade na alma. Vou mudar. Gosto disso. Sou por natureza mutante de corpo, casa e alma. Lembro da primeira mudança aos seis anos, abraçado a dois travesseiros, atravessando a praça da Bandeira, do Hotel Maringá, onde nasci, para o Hotel Lancaster onde vivi até os oito anos, em Conquista. Depois fiquei viciado em mudança, experimentando sempre, voluntária e involuntariamente em mais de duas dezenas de endereços: Salvador, Castro Alves, Manoel Vitorino, Conquista, Salvador, Moscou, Salvador. O lugar onde vivi mais tempo é onde viverei até sexta. Fecho um ciclo de oito anos dos 45 de vida, com a chegada do segundo e do terceiro filho. Saio do apertamento próprio, cercado de verde e pobreza. Vou para o apertamento alugado, cercado de concreto e classe mérdia, como dizia o poeta revoltado de antigamente. Vou acampar ao lado da escola dos meninos. Estou me sentindo como o pai que sai do interior e vai para a capital levar os filhos para estudar. Os meninos perdem os amigos, o pai ganha a alforria do volante na Avenida Paralela engarrafada quatro vezes ao dia, e a mãe perde o sonho da reforma. Todos perdemos e ganhamos, como o macaco da cumbuca.

Em tempo: em vez do golpe de machado na testa do senhorio, tive vontade de tascar um beijo na careca dele depois do contrato assinado. Deu tudo certo, o resto era agonia.

 

Ilustração: http://bit.ly/1d6lpL9

 


Vistoria

28/01/2014

Meu senhorio se revelou uma pessoa chata, muito chata, desde o primeiro contato, há pouco mais de sete anos. Na época, tive ganas de virar Raskolnikof, quando ele desdenhou de nossa pressa de mudar. 

Nossa relação começou errada. Na ansiedade de alugar o apartamento, localizado perto das três escolas das crianças,  aceitamos tudo, um contrato que dizia estar o apartamento todo ok, com descrição de todos os itens no detalhe, até de um varal de alumínio.

Só que não estava. Os armários já apresentavam pó de cupim desde o começo, tudo ali era muito elegante e antigo, muito perfeito na década de 70. O tempo passou, a PDG me sacaneou e eu fui renovando o contrato sempre a favor do senhorio, não tinha argumentos, na hora h amofinava, enfim, sempre fui um péssimo negociador. O resultado é que depois deste tempo todo pagava o maior aluguel do prédio.

E agora, como entregar um armário de aglomerado destroçado, sem uma das portas, um armário do banheiro sem um vidro, um suporte de tanque de área de serviço todo despedaçado por um vazamento, um par de porta de box quebrada, piso arranhado, maçanetas soltas, portas quebradas? Enfim, tornar novo o velho só com mágica. Conseguida por Cardoso, marceneiro de Cajazeiras, sukgerido por Elias, um faz tudo especializado em pisos, indicado na lista de e-mails de novos vizinhos. Nesta lista, que além de amaldiçoarem a PDG em 9 de 10 mensagens, os moradores trocam também informações preciosas sobre prestadores de serviço.

Gastei mais no velho apartamento do que no novo, Cardoso fez mágica, recuperou os armários, trocou portas, arranjou até um velho vidro jateado, igual aos demais. Fui na Ladeira da Soledade e renovei as portas de box com se Antônio, com preço 1\3 menor do que na Barros Reis. Mas depois de todo este esforço, a tensão sobre a aceitação dos consertos permaneceu. Nem tudo ficou perfeito, uma gaveta foi esquecida e colada às pressas na véspera, por nós mesmos. 

9 horas em ponto de segunda chega ele com sua gravata, paletó maleta e contrato na mão. Começou dando parabéns por Luísa, viu o nome dela no jornal, na publicidade do Oficina. Disse que a filha também é arquiteta, em todos os encontros fala desta filha moradora da Áustria, um típico pai babão, mas nisso empatamos. Tem orgulho também do filho, que passou em primeiro lugar no concurso federal na frente de outros quatro mil candidatos. 

Entrou, começou a testar as janelas, se queixou da pintura que respingou no rodapé, fez várias perguntas, eu e Soraya, moídos pela faxina da véspera, começamos a pensar no pior.

A medida que a vistoria avançava, a interrogação aumentava. A conversa sobre filhos misturada a detalhes em falta não nos garantia se a reforma seria aprovada ou se teríamos mais uma dívida pela frente, sem falar do aluguel e condomínio do mês ainda em aberto.

Estávamos prontos para o pior. Fizemos o possível para não criar problema com o senhorio nem dor de cabeça para meu cunhado e fiador, uma pessoa correta que não merece ser importunada. Mas se aquele senhor fizesse mais exigências acionaríamos nossos advogados juniors porém competentes Dr. Victor ou Dr João, ambos de prontidão para reaver parte do prejuízo provocados em nossa vida pela  PDG.

Suspense no final, entreguei todas as chaves e esperei o pior. E aí?

- Tudo certo, cumpriram o contrato.

Alívio geral.

- E o aluguel deste mês, perguntei, na intenção de engatilhar um pedido de parcelamento.

- Vocês não me devem nada, sou um pessoa correta, e gosto de incentivar pessoas corretas como vocês.

E tirou dois cartões do bolso, onde se lê Manoel Vitorio da Silva, Advocacia e Consultaria. Se precisar de qualquer coisa, é só me procurar, considero vocês meus amigos, pessoas admiráveis e de bem.

Olhei para Soraya, quase marejamos, quase demos um beijo na careca do sujeito, quase pedimos perdão. Ele, que havia sido sacaneado pelo inquilino anterior, sempre foi inflexível conosco. Mas na última hora se revelou outro.

E se revelou outro  por ter transportado e plantado com as mãos as árvores da rua em 1972 (recentemente envenenadas), por prezar pelos jardins e pelas áreas comuns, enfim, se revelou, de verdade, uma pessoa que jamais havíamos conhecido nestes sete anos de embate. Uma pessoa muito bacana, não pelos R$1400 de presente, absolutamente não previstos no contrato nem na nossa mais otimista previsão, mas pelo gesto.

Um forte abraço Dr. Manoel Vitório. Estamos gratos, muito gratos por tudo. Até pela oportunidade de revermos nossos conceitos.


Só dou se for para beber

25/01/2014

O dia começou antes do amanhecer, ruas vazias, eu rumo à antiga morada para pegar as últimas caixas, resolver os últimos reparos nas coisas que capengaram em sete anos de uso e quase nenhuma manutenção. Na hora de entregar ao dono do jeito que encontrou é que a gente se dá conta do estrago.

Subo e desço umas 355 mil vezes as escadas, encho o carro com as últimas tralhas, mas cadê as chaves? Subo, procuro no apartamento inteiro. Desço, tiro tudo do carro, nada. Só restou procurar no porta-malas. Fechado.

Ando até a esquina e negocio com o chaveiro. 50. 40. 50. 40. R$45.

O cara abre uma sacola mais variada do que a instrumentação de um cirurgia, enfia daqui, pinça dali, torce daqui. E nada. Liga para o mestre. Recebe instruções. Nada. Chega o mestre de moto, meia hora depois. Abre outra sacola, mexe daqui, dali. Nada.

Ligo para Soraya e aviso que não vou poder levar a cunhada nossa hóspede, no curso, já são quase 8 da manhã. Ela sugere fazer uma cópia da chave com o miolo, justamente o que ele já estava fazendo. Esta minha cunhada está se perdendo como dentista. Devia ser chaveira.

Primeira vez que vejo uma fechadura dar 1xo no chaveiro. Em dois chaveiros. A ideia da dentista quase resultou. O problema é que o miolo da tampa do tanque de gasolina tem 2 segredos a menos. Vira daqui, lixa dali, finalmente o mestre consegue. A primeira coisa que vi no porta-malas foi a chave olhando pra minha cara, rindo, em cima de uma caixa.

Quase 9 da manhã de sábado quase perdida. Vou à Barros Reis em busca do conserto da porta de box quebrada e acabo na Ladeira da Soledade, se quisesse para hoje. Volto pra comprar mais tinta, o carpinteiro atrasa, nada parece dar certo.

Finalmente, 11 da manhã quase tudo resolvido. Paro então na barraca da esquina e lá só tem aquela cerveja aguada que deu nome feio à minha Fonte Nova. Mas nem tudo está perdido. O cara, ao ver minha aflição, me apresenta como alternativa duas últimas  garrafinhas de Heineken.

Depois do gole da sede, o dia começa a parecer perfeito, alguém já disse que a gente nasce com duas doses a menos. Ou duas garrafinhas de cerveja de verdade consumidas em 5 minutos num dia de calor.

Sigo mais feliz com dosagem certa. Encontro um trapo humano que pede qualquer moeda. Dou uma cédula de 2, o troco da cerveja, e recomendo: – Não vai comprar cachaça.

A caridade me torna mais cretino. Melhorei meu dia à custa do álcool e fico a exigir retidão de quem está um pouco pior.

Mas vou me tornar uma pessoa melhor. Dá próxima vez só dou se for para beber.


Luz, brisa, Brotas

18/01/2014

Fim de tarde de janeiro ilumina a Igreja de Nossa Senhora de Brotas. Ilumina todas as fachadas do asfalto sobre uma das principais cumeadas da cidade.

E seguimos para a nova casa satisfeitos com a luz e a brisa. Satisfeitos por escolher morar num lugar humano, com padarias, botecos, verdureiros, uma infinidade de portinholas de serviços.

Um lugar bacana, apesar do trânsito, apesar dos não-passeios.

Em Brotas brisa mesmo no sol de janeiro. E seguimos satisfeitos sob a luz e os novos ventos destes dias de mudança.

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O piso, a saga

14/01/2014

Nove da manhã de sábado, Ferreira Costa lotada, em 10 minutos tudo estaria resolvido. Encontramos o piso em promoção, na tonalidade urano bianco, recomendado pelo simpático e eficiente vizinho Maxwell para o chão batido dos quartos do apartamento incompleto.

Mas… dona Soraya queria pesquisar mais.

Lá fomos nós para a Avenida San Martin, debaixo de uma lua de quase 50 graus, ar condicionado quebrado. Nunca vi tanta loja de piso. Nenhuma tinha o que dona Soraya precisava e queria.

Lá pelas duas da tarde, com fome e torrados, chegamos à loja que garante ter de tudo. Só não tinha o tal piso. Olha daqui, olha de lá e, finalmente, com a ajuda da simpática vendedora Mônica, Soraya encontrou tonalidade certa, preço bacana, bianco bege, primo do outro. Uma beleza.

Quando estava quase fechando o carreto, minha econômica parceira sugere: por que a gente não leva? Dividimos o lote em dois e lá fomos nós com o possante 1.0 arriado, quase arrastando no chão, um sufoco pra subir a Ladeira da Cruz da Redenção mas eu me sentindo muito feliz, quase um João de Barro em direção ao ninho.

O problema é esse corpinho sarado transportar 13 caixas de 30 kg mais quatro sacos de argamassa do carro ao elevador, do elevador à sala, completamente encharcado de suor, coração pela boca.

Missão dada, missão cumprida.

Assim que a amostra do tal bianco bege é colocada na soleira, vem a expressão fatal: tá horrivel!

Tá muito diferente do da sala, tá escuro, o quarto pequeno vai ficar ainda menor.

- Vamos trocar Má?

Má é um apelido carinhoso, quando vem é porque a coisa vai ficar muito, muito  ruim.

Rodei a baiana, nem que vaca tussa e engasgue, vai ficar esse mesmo, foi você quem escolheu, agora assuma, não vou voltar, já combinei com o pedreiro segunda, às 8 da manhã, você sabe da minha dificuldade de lidar com pedreiros, já vai começar ruim. Não volto.

Voltei. Pesou na decisão a possibilidade de queixas e lamentos diários pelos próximos 355 anos.

Novamente piso da sala pro elevador, piso no carro, corpo encharcado de suor, coração pela boca, Ladeira da Cruz da Redenção abaixo.

Aqui, um parêntese. Por que diabos as construtoras não entregam todos os cômodos com piso? quem disse que eu quero ou tenho dinheiro para reforma?

Finalmente, de volta à loja, um pequeno porém. Tem o tal Urano Bianco igual ao do começo daquele sábado feliz às 9 da manhã. Mas acabou. Agora só no depósito. Ali, em Vida Nova, depois do aeroporto, já em Lauro de Freitas.

Daqui a pouco, às 7 da manhã desta terça-feira, o João de Barro segue para a segunda viagem a Lauro de Freitas, para pegar a segunda carga do Urano Bianco, já parcialmente assentado e aprovado.

- Ficou lindo, Má.


Agradecimentos

13/01/2014

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Ela só tinha uma bala de prata na agulha para enfrentar o monstro do vestibular. Era só UFBA. Por isso quase não dormiu nos dias da prova, acordou no meio da noite do primeiro dia para o segundo e foi para a nossa cama, dormir no meio, de sanduíche, como não fazia há muito, como fazia nas noites de medo quando era pequena. 

Eis que hoje o monstro amanheceu abatido pela bala de prata de minha lego-lego, no meio da testa. Parabéns nossa filha, eu e sua mãe, avós, tios, amigos,  estamos bestas e felizes.

E como o tiro certeiro resultou em podium de prata, num honroso segundo lugar no curso de Arquitetura, não tem como não fazer um agradecimento público aos parceiros fundamentais, os professores. Soraya tem na ponta da língua os nomes e as séries de cada um. E ela me ajuda no relembramento.

A lista  começa por Carmem  Marinho, a idealizadora do Crear, a primeira escola, a escola fundamental, a base de tudo, uma escola muito, muito especial.  Segue com Ilana, a primeira professora no Crear. Um dia Luísa chegou em casa, tinha três ou quatro anos, e nos revelou sua descoberta: – Acho que Ilana é uma fada disfarçada de professora. Depois veio Olga,  educadora de primeira, estudiosa e hoje dedicada à escola pública. Em seguida Kátia Borges, amiga de outros carnavais, alfabetizadora dos nossos três filhos, adorada pelos três. Devemos muito a ela.

Do Crear para a Lua Nova, a escola seguinte das nossas escolhas para os três, escolha acertada. Lá os agradecimentos vão para Lorena, depois Maria Clara e em seguida Geni Tapioca, também presente na vida dos três lá de casa. E também para Ana Manoela e Maria  Izabel, orientadoras sempre presentes.

No segundo grau a gente não conhece mais os professores, não tem contato, os agradecimentos então vão para todos, na pessoa de Lúcio, de física, professor do Oficina que encarna a figura do mestre encantador de alunos.

Enfim, parabéns Luísa.

Ao Bonfim!

Foto: Luísa no Crear.

PS. Soraya lembrou bem: “Agradecimento é fogo, sempre fica alguém de fora! Não posso deixar de agradecer a você, Solange Moura Moura, imprescindível na trajetória de Lulu. Você trouxe o encantamento pela Arte. Luísa ficou dividida até o fim ente as exatas, as artes e as ciências humanas. Encontrou o meio termo. Valeu!”


Como gostaria de ser fama, e como não consigo

04/01/2014

Clímaco Dias escreveu sobre a inveja de quem lê livros à sua escolha. Invejo quem lê livros inteiros.

E não é que hoje terminei um? Do começo ao fim.

Férias favorecem o namoro dos casados e a leitura de livros inteiros.

“Histórias de cronópios e famas”, de Cortázar, deixou Nilson incutido há uns cinco anos. Trabalhávamos juntos e o cara durante dias a fio classificou todos, absolutamente todos, à volta como cronópio, fama ou esperança.

Na semana passada, Luísa veio me mostrar um texto “O jornal e suas metamorfoses” num exemplar que ela havia ganhado de presente. Sequestrei o livro.

Confesso que não entendi umas partes, são muitas referências de um mundo fantástico, mas outras são brincadeiras com palavras, diversão garantida.

O que fica de um livro? Ficam pequenos trechos.

Como esse, do final da história da tia que tinha medo de ficar de costas:
Como gostaria de ser igual a ela, e como não consigo“.

Ou esse sobre uma “secretária” no trato com as as palavras e adjetivos:

Se me vem à boca um adjetivo prescindível porque todos eles nascem fora da órbita de minha secretária -e de certa maneira de mim mesmo-, já está ela de lápis na mão agarrando-o e o matando sem lhe dar tempo de colocar-se ao restante da frase e sobreviver por descuido ou por hábito.

Ou esse sobre a abstração:

…Da mesma maneira, se gosto de uma mulher, posso abstrair-lhe a roupa mal ela entrando no meu campo de visão, e enquanto fala de como está fria a manhã eu fico longos minutos admirando-lhe o umbiguinho.  Às vezes é quase doentia essa facilidade que tenho.

Nunca serei fama nem esperança. Veja  quem é você:

Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige à delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações. […]

Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: ‘que bela cidade, que belíssima cidade’. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.

As esperanças, sedentárias, deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vêm até nós”.


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