Minha peixa

07/11/2007

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Lembra daquele simpático e festejado  sétimo  morador  que desembarcou por aqui há um mês e meio, fez a alegria dos meninos e foi batizado de Fefé?

Revelou-se um grande fdp.

 
 

 

A idéia liquidava dois coelhos: dava companhia ao solitário e restabelecia a justiça, já que Maria não havia ido à escola no dia da festa com peixe no saquinho como lembrança. Uma semana depois da chegada do agora miseravão, partimos novamente para a loja de peixes.

É macho. Assegurou o vendedor ao ver o colorido  de Fefé, identificado como um colisa lalia,  nas fotos exibidas no display da máquina. As fêmeas são menores e não apresentam cores além do prateado.

Mas a loja só vende o casal. O gerente teve de ceder diante do argumento incontestável da venda casada, mas contra-argumentou que faz isso porque ninguém quer levar as fêmeas.  

Mais uma surpresa: Fafá só me custou R$ 1,50, ou 1,5% do investimento no aquário. A vida vale muito pouco também no reino das águas claras. 

E o pior estava por vir. Mal entrou na casa nova, Fafá foi imediatamente escurraçada. Levou várias carreiras e hoje se conforma em viver espremida entre o vidro e a bomba de ar, único lugar em que fica a salvo dos ataques do dono do pedaço.  

Na hora da comida, Maria já aprendeu a estratégia: colocar os flocos de ração pela fresta de entrada dos fios da bomba, bem no lugar onde fica a prisioneira, antes do ataque do marmanjo, adepto do primeiro eu em tudo.

E Maria torce: _ Vai,  come minha peixa, come logo!” 

O sujeito queria companhia?  Questionou o professor Clímaco, um cara que admiro pelo livre pensar, num encontro casual em que revelara ter lido o post da chegada de Fefé.

De fato, não perguntamos. Decidimos pelo peixe, com esta nossa velha mania humana de antropomorfizar o mundo, exigir dos bichos nossos valores, nossa moral. 

De repente é assim mesmo na vida dos colisas, de repente o que vemos como perseguição, sacanagem, injustiça, pode ser normal debaixo d`água.  

Ou talvez nós humanos sejamos também todos assim, naturalmente sacanas  e egoístas como este colisa,  conforme nos lembra Gregório de Matos, de quem guardo na memória apenas o seguinte, que ao meu ver resume muito da natureza humana: “Não mordem outros não, por não ter dentes”.

Sempre lembro deste verso quando estou diante de pessoas boazinhas.      

“…Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
Há bons, por não poder ser insolente,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.

Quantos há que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada      
De sua mesma telha receosos.
     
Uma só natureza nos foi dada:
     
Não criou Deus os naturais diversos,
     
Um só Adão formou, e esse de nada. 
     

Todos somos ruins, todos perversos,      
Só nos distingue o vício, e a virtude,
     
De que uns são comensais outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,      
Esse só me censure, esse me note,
     
calem-se os mais, chitom (silêncio), e haja saúde.”
  Íntegra no portrasdasletras.

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Uma resposta para “Minha peixa”


  1. Coitada da “minha peixa”! :)


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