O amor fora da linha
Sua voz grossa contrastava com o corpo magro. Negra, escova progressiva, falava baianês com sotaque italiano.
O guarda do portão de desembarque internacional não teve a menor dúvida: traveca, disse pelas costas.
Morou 12 anos na Itália, esperava ansiosa pelo ex-marido, que viria no vôo Milão-Salvador. Milão não, Milano, como ela prefere.
_ Moço, se não deixarem ele entrar eu quebro tudo aqui. Ameaçou.
Era ex-marido, mas o amor da vida dela.
A ansiedade era justificada. Este era o terceiro vôo internacional depois do que levou de volta na quinta sete espanhóis como gesto de reciprocidade diplomática do Brasil contra o tratamento de cachorro dado pela imigração Espanhola – no papel de porteiro e guarda-costas mais eficiente de Schengen - aos pobres, putas, estudantes, sonhadores, doutores ou quaisquer brasileiros a caminho da Europa.
Mas neste vôo não vinham espanhóis. Sobrou para um ítalo-americano que achou que o passaporte americano, sem visto, lhe dava direito a circular livremente por estas selvas. Voltou no mesmo vôo.
Mas ela, que ficou sentada de longe, observando a chegada da italianada que respondia aos gritos do receptivo de uma agência de viagens, levantou de repente, veio ao encontro do bello, ganhou abraços e beijos e saíram os dois agarradinhos, felizes da vida.
O amor é lindo e sobrevive fora da linha de Schengen.
