Tia Dete

11/05/2008

 

 

 

 

Peço licença à minha mãe e à mãe dos meus filhos para hoje falar de Tia Dete. Largamos Luísa ontem  na aula de circo e ao perambular pela Orla em busca de figurinhas de Ben 10 para André e das princesas para Maria, bateu uma vontade  forte de ver Tia Dete.

E eu pude fazer isso. Dei meia volta e fui em direção a Placa Ford, sem telefonar antes, com a intimidade dos meus cinco ou seis anos, quando ia à casa dela de Conquista para Rubim, depois de passar por muitos mata-burros a bordo do Jipão de tio Descartes.

Marejei ao chamar André, que tem a idade que eu tinha na época,  para apresentá-lo a Tia Dete deitada na cama, aos 88 anos com os joelhos destroçados pela artrose, acolhida pelo filho, nora, neta e bisneto. Aguarda com esperança uma cirurgia para voltar andando novamente para seu cantinho em Minas.

A voz rouca e o sotaque mineiro são os mesmos (dezzz, trezzzz, uai, mooooço). Antes de sairmos, chamou André, e, já na cadeira de rodas, tirou não sei de onde cinco reais e ofereceu, lembrando que era pra dividir com Maria.

Guarda o velho hábito mineiro de presentear as visitas. Quando meus pais e meus irmãos foram me buscar depois de uma das férias, os anfitriões ofereceram a cada uma das crianças um bezerro, tradição daquelas bandas. Lembro que anos depois estes presentinhos (que se transformaram em algumas cabeças) nos foram confiscados e quebraram o maior galho num momento crítico do combalido orçamento lá de casa.

Tiaa Dete tem o olhar triste. Teme o fim e assume sem o menor rodeio.

 “Dizem que tem vida depois da morte. Mas eu nunca vi nenhum voltar de lá”, diz com um sorriso maroto.

Concordo tia.

Parabéns  pelo aniversário desta semana, pelo seu dia de mãe de hoje. E obrigado por tudo.

 

Atualizado em 14 de julho: Tia Dete já não está mais entre nós. Fui ontem com minha mãe na casa de Inamar fazer uma visita surpresa a ela só então soubemos que todos estavam em Minas, desde o seu falecimento, em 28 de junho. Saudades, tia.

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Uma resposta para “Tia Dete”

  1. aeronauta Diz:

    Texto tão visceral, tão bonito… Você conseguiu me mostrar a figura humana que é tia Dete. Parabéns, Marcus.


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