Morar na janela. Na Rua? No chão? O cais e a volta no forte

08/06/2008

Luísa na escola, André na escola, Soraya na escola, cada qual na sua escola e sobrou a manhã de sábado para mim e Maria. Manhã livre para gastar no que der e vier. Deixamos André, deixamos Soraya em Brotas, Luísa foi sozinha. Fomos então em direção aos meus nove anos, ao Largo 2 de Julho dos meus nove anos, em direção à Mônica, irmã que mora em uma janela no Areal de Cima, numa das mais belas janelas da Baía de Todos os Santos. Mônica mora num lugar onde  eu sonhei morar, numa kitinete na Rua  Areal de Cima, num edifício do fim dos anos 50, início dos 60, com o nome na fachada em letra cursiva, numa elegância fake: Edifício Calábria. É um dos sonhos não concretizados, como ter uma Olivetti Praxis, uma Pentax 20 ou um Gurgel. Até possíveis agora, mas já  inúteis ou não cabem mais na minha vida. Quem sabe na velhice, se velho ficar, ainda more em uma janela debruçada sobre a baía?

Ao ser lembrada da última visita ao forte, Maria pediu um bis. Talvez pelo passeio de barco.

Na calçada do Elevador Lacerda três garotos dormiam na calçada. Nada sobre eles, nenhum forro. Maria  já vinha olhando e manteve o olhar  quando passamos. Voltou a cabeça pra trás e permaneceu olhando, arrastada, quase sem equilíbrio. Paramos. Ela soltou a minha mão, se virou completamente.

_ Por que eles estão dormindo aí?

_ Devem ter ficado acordado pela rua até tarde, aí ficaram cansados e dormiram.

_ Na Rua? No Chão?, perguntou novamente,  com forte entonação em rua e chão. Ficou sem resposta.

Continuou calada, eu também. Pensei que tivesse esquecido.

Passamos por dentro do Mercado Modelo, hordas de turistas de junho começam a chegar, todos devidamente assediados por vendedores de correntes, por ciganas, por uma tropa de garçons que perguntam a todo o momento se a gente quer sentar, se quer comprar, se quer isso e aquilo e eu vou me livrando com o clássico bordão: sou baiano, rei.

Meninos dormindo na calçada, vendedores pedintes, parte de um quadro previsível. Antes achava que eles espantavam os turistas. Já penso ao contrário. Atraem. Fazem parte da miséria que eles, de alguma maneira, querem ver. Pagam pra ver. Bahia sem capitães da areia? Não é Bahia.

Já na porta do  terminal de embarque paramos para uma água de coco. Maria pediu um batom. Eu também. Comemos batom e entre uma tragada e outra da água de coco, Maria comentou, assim, aparentemente do nada.

_Eu nunca vi pessoas dormindo na rua.

 
Sentados com as pernas penduradas eu e Maria, Maria e eu ficamos uns bons 15 minutos na ponta do cais móvel do forte (este em T aí em cima)  ao som de um reggae que vinha de um barco em manutenção e da  oscilação do pequeno cais, que aumentava quando passava um barco. Ficamos ali olhando os peixes e uma mancha de óleo transparente sob nossos pés.  O  marinheiro sumia e aparecia junto ao casco com óculos de mergulho e espátula. Foi Maria quem viu.
_ Olhe o homem lá. Vai aparecer.
_Olha três barcos! Três pra Maria, que tem três anos, significa quantidade. Havia muitos barcos na Baía.
Eu e minha caçula, somente  a gente, num programa raro, talvez único. Com Maria fiz uma coisa que nas únicas três vezes anteriores que estive no forte, todas de um ano pra cá, tive só vontade. Andar em torno da borda,  na parte de cima. Antes que você me julgue mais maluco do que eu sou, a borda tem uns 10 metros de largura, e mesmo que  seja um pouco inclinada para fora, caminhamos rentes à parte de dentro. Maria notou a diferença.
_ Aqui bate um ventinho.
Mas o passeio terminou antes do círculo se fechar. Assim como a terra, o forte não é absolutamente redondo, é achatado em um dos pólos. E este achatamento deu fim ao nosso passeio circular.

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2 Respostas para “Morar na janela. Na Rua? No chão? O cais e a volta no forte”

  1. Katia Borges Diz:

    Ai, Marcus, sabe que uma vez fui numa festa de Maurício Tavares, da Facom, que era num apartamento como o de sua irmã. Ficava no Areal e o único defeito era não ter garagem, mas a vista, inacreditável, compensava tudo. Sentado no sofá, vc podia ver o pôr-do-sol na Baía. Meu sonho de consumo nunca realizado. Bjs


  2. [...] fui avisado de que querem conversar comigo a respeito da “explicação” para Maria diante do espanto dela diante das crianças dormindo na rua. Fui taxado de, no mínimo, omisso diante da confusão da menina ao se deparar com a cena. Mas não [...]


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