Tigres, violões e bailarina

12/06/2008

Tinha muitos meninos e muitas meninas. Tinha um tigre e uma bailarina. E muitos violões. Assim Maria contou pra mãe o que viu no TCA ontem. Maria viu tudo o que não vi. Que bom. O espetáculo é concebido para ela,  para formação de platéia, e o mais importante é o que ela vê.

E aqui vai uma digressão. É sobre a passagem do tempo na fala das crianças. Elas de repente abandonam determinada palavra ou expressão e babau, nunca mais.  Até sábado, Maria falava tem três barcos para dizer que havia muitos barcos na baía. Ontem já incorporou o muitos, numa overdose de muitos. É como se agora tivesse prazer em usar o que aprendeu. Até outro dia trocava as letras no nome dos colegas, que chamava de Antonio Peleila, Frô e Sala. Sinto uma certa nostalgia quando eles mudam. Adorava ouvir Luísa falar galatixa em vez de lagartixa. André falava digantesco. Maria ainda fala Vom  Preço e Bela Vomecida.

Voltando ao concerto, não havia muitas crianças nem muitos pais. Apenas a parte de baixo ocupada com menos da metade. Pilhas de programas, impressos com qualidade, foram pro lixo. Um cenário bem cuidado, com folhas secas sobre o palco para simular o ambiente da floresta. Duas árvores cenográficas penduradas e com um belo efeito de iluminação sobre elas, chuva de bolas de soprar no final, figurino que incluía asas de passarinho para a flautista, roupas de época para a apresentadora sem falar no belo texto concebido especialmente para o espetáculo. Tudo combinaria com o teatro lotado. Mas como lotar mil quinhentos e cinquenta e quatro lugares numa tarde de quarta-feira? Quem levaria estas crianças ao teatro? Quem seriam estas crianças? As ricas têm mais o que fazer, as de classe média estão com as agendas entupidas e pais ocupados. As pobres não têm quem levar. Talvez a saída fosse o domingo pela manhã. Ou levar as escolas. 

Onde havia leão Maria viu tigre, no lugar de violoncelos, violinos e violas, viu violões. Nos movimentos da apresentadora, viu a bailarina. Tudo a  ver. André não viajou muito e gostou mais da parte do programa em que a gente deu uma parada no Porto da Barra para a colocar na água do mar os barcos de papel feitos por ele durante o concerto. Fizeram uma farra na areia num fim de tarde chuvoso de quase inverno.

Bem, e eu?

Não gostei do solo do violoncelo, o cisne.  Não bateu. A impressão era de que a violoncelista queria se livrar do serviço logo e deixou de visitar aquela ultima sonoridade, aquela última vibração arrancada do instrumento no limite de cada seqüência de notas. Não tenho ouvido musical, não sei quando alguém desafinou, não noto erros. Mas antes de postar aquele garoto fazendo o cisne, ouvi outras versões. Será que eu esperava ao vivo o que havia ouvido pelo som digital a toda altura do fone de ouvido? Será que já estou preferindo o som eletrônico ao acústico?

Mas esta falta de tesão já havia sentido na OSBA, em comparação com a vontade dos meninos do Neojibá. E havia poucos deles ontem no concerto. Talvez  o clarinetista, que faz o cuco. Coincidentemente, uma das partes bacanas do concerto para mim. E ele fazia apenas cu-co. Duas notas. Mas duas notas com vontade, com garra, com prazer.

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Uma resposta para “Tigres, violões e bailarina”

  1. aeronauta Diz:

    Maria é uma figura. Escreva mais sobre ela. Já consigo vislumbrá-la, linda, vendo não mais “três barcos” mas “muitos”…


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