Nós andamos iguaais,
nós andamos iguaaaais
prum lado, pro outro/pra frente, pra trás
nós andamos iguaais

Luísa trouxe esta brincadeira, um caminhada coreográfica, desafio para todos pisarem no mesmo passo, pé direito à frente, prum lado, pro outro, pra frente novamente e pra trás, aprendida por ela no Acampamento Verde de anos passados.
Assim partimos para a praia no domingo, péssimos aprendizes, mas felizes tal qual família de propaganda de margarina.
Claro que o pau quebrou muitas vezes na viagem, mas as fotos até agora foram feitas nas muitas “horinhas de descuido” , como disse um dia seu Guimarães, bem lembrado por Bethânia. Ou naqueles momentos da “vida inteira num segundo”, como canta o bardo Odair José na sua impagável A noite mais linda do mundo.
Interrompo aqui esta transmissão, como diria o ingresiástico Franciel, e paro de falar somente das flores. O assunto agora é lixo e a nossa capacidade de não enxergar o outro.

Junto à praia estavam estacionados dois ônibus (vieram em excursão de Salvador, dos bairros de Lobato e Tancredo Neves), caminhões, camiontes e tantos outros transportes coletivos. A praia “virgem” e deserta das fotos anteriores estava lotada no domingão.
Gentalha, gentalha, assim define os passageiros dos ônibus a dona de uma das 25 barracas que se espremem, umas coladas às outras, na faixa de praia liberada para o comércio.
Favela, diz o gerente de uma pousada próxima sobre as barracas.
Criminosos, diz o ambientalista sobre os donos de pousadas que teriam destruído o mangue e vegetação para ali colocar concreto.
No discurso de cada um deles, errado é sempre o outro. Ou seja, como diria dona Ludu, avó de Soraya, todo mundo é bom mas meu capote sumiu.
Meu amigo Josias, que muita coisa sabe há muito tempo, me falou um dia sobre uma palavrinha desconhecida, nem na moda ainda estava, a tal da alteridade. Entendi mais ou menos, mas ao juntar estas visões do outro recolhidas beira a mar, chego à conclusão de que tal plavrinha não passa de uma quimera da moda, irreal como a tal Liberté, Egalité, Fraternité – merci bocu, merci bocu Não há de que (obrigado Madame K, por ter me trazido de volta Ednardo).

A estrada chegou há 11 anos. No dia 28 de março de 1998 vi esta placa da foto acima novinha em folha. E fiquei espantado com uma estrada que rasgou o mangue, desviou rio em Jatimane e chegou até a areia da praia. Na época via carros trafegando pela praia e censurei. Iriam acabar com tudo.
A praia não acabou, mas também quase nada de bom foi feito. Parece que a interferência pública só foi a estrada mesmo. Ninguém organizou o baba, ninguém tomou conhecimento e o lixo da segunda-feira vira cartão de visita da praia.

Depois de 11 anos, os únicos benefícios aparentes é o acesso à praia das pessoas de Ituberá, a ponta do dinheiro para o pessoal da região de uma rave chamada Universo Paralelo, que acontece há nove anos durante 10 dias depois do Natal. A praia, perto dali, é isolada por seguranças (fala-se em três mil) e uma multidão (fala-se em 13 mil, 3 mil estrangeiros) se diverte com pulseiras compradas a R$ 350,00, ao som de música eletrônica, ininterruptamente. É quando paraíso natural e paraísos artificiais se encontram, sem traumas.
Bar da rave Universo Paralelo, único participante da festa encontrado
Há muito plástico nas areias das praias. Talvez daqui a alguns segundos geológicos (ou seja, milhões de anos) algum arqueólogo encontre por aqui imensos sambaquis de plásitco e batize nossa era de polimerozóica ou coisa parecida.
O lixo aparece em ondas, dizem que trazido pela corrente (sempre o outro), mas grande parte é produzida ali mesmo.
É ridiculo gente como eu. Recolhe o próprio lixo, fica em paz com a consciência, mas se esquece que o almoço na barraca, os restos da pousada, enfim a economia do lugar gerada pela nossa presença produz e joga ali na praia mesmo sobras e embalagens. Restos plásticos de festas, de passeios, de alegrias.
Mas vamos deixar de zanga. A era polimerozóica tem também seus momentos felizes, suas horinhas de descuido. Meus, seus, e de muita gente.
E o outrora censor viajou também na areia, rumo a Barra de Serinhaém. Mas isto é assunto para o próximo capítulo.









Detalhe da porta da igreja














hoje é dia de santos reis últimos minutos do dia de santo reis em iaçu não enxergo nada no teclado luzes apagadas apenas muriçocas na pele e outros insetos na tela iluminada do portátil enquanto leio os blogues alheios e vejo chegar a meia noite limite para postar na véspera de pegar novamente a estrada vicinal desta vez rumo ao litoral mas antes da viagem quero falar da ponte asfaltada sobre a madeira em vez de reforma e da morte de crianças pelo estado judeu informadas pelo jornal da globo e de mortes inesperadas








