Silêncio!

18/09/2009

Hospital Santa Izabel 01

Minha primeira lembrança  de  hospital é a imagem de uma moça branca, com quepe branco,  dedo indicador nos lábios e a palavra silêncio em letras vermelhas num cartaz colado em quase todas as paredes.

Lembro do cheiro forte de éter,  de minha mãe deitada na cama do Hospital São Geraldo, em Conquista, convalescente de um aborto espontâneo. Lembro disso hoje, mais de quarenta anos depois, aqui  ao lado dela, deitada, convalescente de um exame simples, mas que aos 79 e artérias comprometidas exige internamento mais demorado.  

Nasci no São Vicente, da Santa Casa de Misericórdia de Vitória da Conquista, pelas mãos de irmãs parteiras. Agora estamos no Santa Izabel, também Santa Casa de Misericórdia, e ela me conta que cheguei ao hospital já coroando. Nasci cinco minutos depois, sempre apressado. Este papo a gente teve às cinco da manhã.

Nada como necessidades médicas para tirar a gente da correria pra não sei onde e nos devolver a prosa sem pressa da madrugada de um hospital.
Sua companhia oficial é uma de minhas irmãs, a caçula mulher dos seis filhos. Estou aqui de turista, na segunda noite de acompanhante. Na primeira, dormi como uma pedra e nem ouvi as gozações da enfermeira a perguntar a ela quem acompanhava quem.

Hospital Santa Izabel 02

Mas esta noite, um Tupolev disfarçado de ar condicionado nas minhas costas, com pontuais decolagens e pousos forçados a cada 20 minutos, não me deixa dormir. Então rascunhei este post e botei a conversa familiar em dia. Minha mãe está na ala mais feia do hospital, num apartamento do segundo andar de um puxadinho, construído ao lado do prédio do século XIX, cercado por gradis forjados em Valença. Minhas andanças pelos hospitais de Salvador indicam que a tendência arquitetônica adotada pela maioria é o estilo puxadinho-caixote-asfixiante.

Na ala mais antiga e mais bela do hospital, estão as enfermarias, que conheci a caminho do refeitório. Seus corredores de pé direito alto, suas portas em arco, me lembraram um hospital para onde fomos levados os estudantes estrangeiros, recém-chegados a Moscou, também num setembro, em 1983, para os exames médicos. Eu, que havia sido deslocado pra longe, tive a sensação de ter sido levado a outra viagem, desta vez no tempo. Voltei no tempo também ao percorrer  os corredores do Santa Izabel.

Não gosto de hospital, ninguém gosta, mas prefiro os mais amplos, mais abertos. O único em que se respira nesta cidade é o Sarah, pensado para aproveitar a brisa, pensado para acolher e não encaixotar. De resto, o que impera é a arquitetura do caixote e do puxadinho. Será que um dia a arquitetura do Sarah vai chegar aos demais hospitais?

Hospital Santa Izabel 03

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5 Respostas para “Silêncio!”


  1. O que mata é o puxadinho e depois os puxadões. O Português hoje é um labirinto de labirintos. Com pontilhões e viadutos a ligar prédios. O Espanhol de minha infância possuía uma ala cujo “corredor” para os quartos era uma imensa varanda com vista para o mar. Havia ventilação natural neles todos – se não havia ar condicionado?. Construção preocupada com nascente versus poente, quase sempre no alto de um morrinho…
    E a mama? já recuperada, emcasa? Beijos

  2. Celso Diz:

    Marcus, espero que já esteja tudo bem com tua mãe. E fiquei feliz com a ótima notícia do resultado do exame! É só fazer manutenção amigão, cuidar do que entra pela boca (embora o mal seja o que sai dela) e se exercitar um pouco, não sei o que é mais difícil.
    Abs

  3. Bernardo Diz:

    ô marcus, dá um beijão aí na mama por nós, eu e vera.
    o que direi dos hospitais que varei em meus aprendizados médicos? que o espanhol é o rei dos labirintos/puxadinhos/esquisitices…
    viva o “meu” hospital, o velho “das clínicas!”

  4. Shirley Stolze Diz:

    Oi Marcus,muita saúde para a mama.Bjsss

  5. Nílson Diz:

    Tb fiz esse tour há pouco tempo, e tb tive a mesma sensação de asfixia. Não conheço o Sarah.
    Não vou recomendar, porque hospital não é nada que se recomende a ninguém, mas é, disparado, o ambiente hospitalar que conheço mais inteligente e humano.


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