Dois países

15/11/2009

Por causa de um vestido curto,  um vestido curto…
A música chiclete não sai da cabeça. No televisor do balcão da farmácia, esquina da Getulio Vargas com a Maria Quitéria, Kuelho dá entrevista ao jornal local da Globo. No twitter, informa que gravou também para o Fantástico.

Maria se encanta com a decoração de Natal de Feira de Santana e pede uma foto. A menina está febril e a ida à farmácia é para comprar um termômetro e antitérmico preventivos.

Daqui a pouco Irará, num programa raro com Soraya, sem os meninos. Já são oito da noite e o horário do show ainda não é conhecido. Futuco na internet e acho matéria com a informação (?) de que vai ser… à noite.

Saímos pouco depois das oito. Até o entroncamento de Conceição do Jacuípe,  pela 324, é o caminho conhecido de sempre. O resto é incógnita. A luz da injeção acesa e o velocímetro quebrado tornam a viagem um pouco mais  nervosa.

Mas o Corsa 99 modelo 2000 e IPVA 2004 não decepciona. Conceição  do Jacuípe chega com praça entupida de gente e de carros de som, churrasquinho de gato, mesas nas calçadas. Reggae e  pagode comem solto.

Mais um pouco de estrada e muitos quebra-molas, Coração de Maria.  Mais  pagode, mais carros de som, mais gente se diverte no sábado. 

Muitos buracos adiante, o encontro com outro país, o país de Tom Zé. O país de Kuelho inclui Uniban, pagode e  Geyse. O pais de Tom Zé é UNB, música atonal, experimental, e  nudez permitida.

No país de Kuelho vimos as últimas cenas do Circo Espetacular, armado na praça de Irará, de onde vinham gritos. O circo estava quase cheio e o espetáculo no fim. Dei um carteiraço de circense. O Picolino me dá acesso aos  dois mundos, do Soleil e do Espetacular.

Passava das dez, mas chegamos a tempo para a zona  próxima ao  gargarejo. Entra no palco então o auto-intitulado vagabundo para neutralizar a apresentação pomposa dos jovens organizadores.

Afora algumas interrupções para tradução cênica de letras, o show não fez concessões. Foi a sonoridade sofisticada de sempre. As maluquices conscientes de sempre. O som bacana de sempre.

O  território avançado do país de Tom Zé, arrodeado de moradores de Irará, inclui um baseado acesso por um grupo de jovens forasteiros à nossa frente, que conhecia e cantava todas as letras.

O show seguia, entre velhos sucessos e a recém-criada, a do passinho sertanejo de Irará. A cidade comemora a volta do filho ilustre, no seu primeiro show com banda diante dos conterrâneos e 18 anos depois de um voz e violão logo depois da ressurreição patrocinada por David Byrne.

Parte da platéia assiste calada, num silêncio reverente, atento. De vez em quando uma expressão admirada com um sorriso: maluco.

E o maluco estrangeiro parece feliz com o reencontro, desde a primeira música. No palco, a alegria criativa de gente dos 16 aos mais de 70.
Tom Zé é sempre exemplo de juventude no que a palavra, mesmo gasta, tem de mais amplo. 

Tom Zé é o artista brasileiro mais vivo, no sentido honesto da palavra.

Depois do show, dois bejus na praça, uma coca-cola e estrada novamente. O sono bateu. Mas uma breve carona a três remanescentes do reggae Conceição  do Jacuípe em troca da informação de onde haveria uma pousada gerou a adrenalina suficiente para espantar de vez o sono.

Com o casal e o acompanhante dos dois no carro, bateu então o medo, a noção do gesto arriscado.  Minutos depois, o trio inofensivo já desembarcado, veio  a certeza de que sou mesmo maluco. Graças a Deus. E a este meu país binacional.

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7 Respostas para “Dois países”


  1. ó que arrependimento de não ter ido ao Irará ver Tomzé!

  2. Chico Muniz Diz:

    Estive em Feira no sábado, mas não saí de casa – tempo de rever a família, compromisso doméstico, diversão idem. Mas me lembrei de reparar nos ipês. Já não estavam floridos e enfim soube por que jamais os vira: é que antes no lugar deles havia algarobas. Os ipês são relativamente novos na Av. Maria Quitéria, relativamente ao tempo que vivo longe de lá (mais de 30 anos) e sem poder observar as mudanças sutis na vida da cidade.

  3. Nilson Diz:

    Tomzé é sempre assim: o melhor show porque é feito de corpo presente, alma presente. E aí, já consertou o velocímetro???!!!

  4. Bernardo Diz:

    se eu soubesse do programa, me escalava de acompanhante pra ver tomzé, comer beju, fumar um charuto e pegar estrada de noite, uma das minha paixões.
    na próxima me chame, nem que seja pra comer macaxeira, dar zignal na puliça rodoviára e rir de nossas maluquices. contanto que tenha tomzé.

  5. Edu Diz:

    Tom Zé, o grande! Gostei muito desse post, do respeito, da reflexão, da maluquice.

  6. Celso Diz:

    Eu parei de ler no “programa raro com Soraya”. Nós temos muito em comum, você e Soraya, eu e Zezé. Um beijo pra Soraya e um abração nocê.

  7. detroi Diz:

    Convivo com a arte de Tom Zé desde os anos 90. Um amigo produzia shows dele e sempre estava eu lá, nos shows, nos camarins. E sempre a cada show eu tinha um novo insight, uma nova descoberta. Tom Zé é ouro de nossa cultura e inteligência! Adoraria ter ido ao show. Gus, você e sua patota são danados!


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