Hoje eu quero visitar meu pai, disse seu Rubem.
Ontem à noite ele lembrou do pai, lembrou da infância no Trapiá. O filtro do tempo se encarregou de decantar possíveis sofrimentos, possíveis tropeços. E e o pai, a mãe, a infância ressurgiram felizes.
E fomos hoje, com a filha Conceição, em direção à felicidade do passado mais que perfeito, a cada dia mais perfeito.
Tivemos sorte de peregrinos. De Iaçu a João Amaro foi fácil, pela margem esquerda do rio, menos usada e mais habitada, por uma estrada vicinal. Um vaqueiro indicou o caminho certo em duas bifurcações e o motorista de um caminhão carregado de lenha (foram três na curta viagem e isto é outro assunto, o resto de caatinga queimando nos fornos de cerâmica) resolveu a dúvida em outra encruzilhada.
Na estrada a memória voltava forte como na noite de ontem, e de outros dias recentes, quando lembrou do jogo de bola de meia, da brincadeira no quintal, no dia em que presenteou o pai com um rádio de ondas curtas e do espanto do velho ao escutar o locutor solenemente anunciar: - Aqui fala a BBC de Londres, em transmissão para o Brasil.
- É verdade, disse João Reis, onde o homem chegou. Um fala na Inglaterra e a gente escuta aqui!
Uma placa do progama luz para todos nos informa que estamos no município de Boa Vista do Tupim. Sempre ouvi seu Rubem dizer que nasceu em João Amaro. A memória não respeita as novas divisões geográficas.
No caminho, lembranças do mix total de minha renca, com ancestralidade Africana, Européia e Árabe há apenas quatro gerações. E de novo a sorte de peregrino nos colocou diante de um jovem que informou não mais existir a casa da fazenda e nos indicou três porteiras adiante. Na primeira encontramos Jurandir, filho do vaqueiro do Trapiá. Desmontou e se juntou a nós como guia.
Graças a Jurandir chegamos ao lugar exato da casa, onde em 9 de abril de 1921 nasceu o filho único de João dos Reis Almeida e Maria dos Santos Almeida, onde “sentiam-se felizes; densa caatinga, grande fauna, muita paz e muito amor”, como escreveu seu Rubem no dia dos 90 anos, no ano passado, numa caligrafia segura, sem erros e correções, de um sujeito que teve educação formal apenas até a quarta série primária.
Seu Rubem reconheceu os pés de amargoso, o poço hoje seco, que abrigava peixes e sanguessugas, as pedras dos morros onde caçava tatu, cotia, mocós e outros bichos. Não saiu do carro. Ficou observando, em silêncio.
Passei pela cerca, fui no ponto exato da antiga casa, de frente para um pé de amargoso ainda em pé e dois no chão, como esqueletos do tempo. Vivo ainda estava também o pé de umbu da sua época. A mangueira ao lado de um dos poços da casa é também esqueleto. O poço maior, também seco, reviveu a memória de Conceição, que sente o sabor de uma paçoca feita com as piabas pescadas com um cesto na lagoa.
Seu Rubem ficou silencioso a maior parte do tempo. Repetia agradecido, na volta, a oportuidade de realizar um sonho, de retornar ao lugar onde foi feliz e não havia voltado em mais de 50 anos. Mas Conceição disse a Soraya que ele não desceu porque ficou triste. Talvez esperasse encontrar a casa, mesmo diferente. Mais uma vez se confirma o conselho antigo, de que não devemos retornar ao lugar onde fomos felizes.
Enquanto fazia as fotos imaginava o menino correndo, o barulho das galinhas, ovelhas e outros bichos que fazem a trilha sonora de quem vive no mato, a fumaça subindo da chaminé, o som chiado do rádio de ondas curtas.
Se pela minha cabeça passou um filme, imagine na do seu Rubem.
Em dez folhas de caderno, seu Rubem agradeceu um a um filhos e netos pelo aniversário de 90 anos, em abril do ano passado.
Em frente da antiga casa, o pé de amargoso remanescente dos três.
Um dos pés de amargoso da porta da casa
A lagoa,o poço principal, que fornecia água para a casa. Hoje seco.




11/03/2012 às 07:09
Belo texto amigo! Sou de João Amaro, vivi minha infância neste lugar e fazendo essa leitura também compartilhei dos sons e das lembranças.
Conheço a família Reis Almeida, meu pai trabalhou muito tempo com José dos Reis Almeida que provavelmente devia ser irmão do João que menciona.
Abraços
Reinaldo Costa