Archive for the 'livros' Category

Infância em Macondo

17/04/2014

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Iaçu, em 17/04/2014.

Como tenho pouca imaginação, ao ler um livro faço a locação da história em lugares conhecidos. Macondo, por exemplo, fica em Tanhaçu, cidade da minha infância. As chuvas eternas, o sangue que escorria e escorria e escorria, escorria pelos morros do interior de Minas da minha infância.

Ao conhecer Iaçu, também tive a sensação de estar em Macondo, embora seja lugar comum essa comparação com cidades pequenas, calorentas e ermas.

Pois a morte de Gabriel García Márquez me pegou nesta tarde em Macondo / Iaçu. E me pegou mesmo, me trouxe a sensação de movimento, do mundo andando para o fim.

O fim do mundo é em câmara lenta no sumiço das pessoas, dos próximos e dos conhecidos.

De alguma maneira sou conhecido de Márquez. Eu o conheço, apresentado talvez pelo meu amigo irmão Josias Pires,  que não tem mais nenhum exemplar de toda a bibliografia simplesmente porque emprestou todos, sem retorno.

De alguma maneira conheço Márquez decifrado pelos amigos colombianos Ernesto Diaz e Dario Campos, a quem perguntava o significado de algumas palavras na tentativa de ler no original.

Mas sobretudo conheço pelos 6 ou 7 livros dele que li. Muito pouco, deveria ler todos, mas meia dúzia já é um recorde para minha pouca leitura.

Gosto do exagero de Márquez, da força dos seu exagero. Ficou na minha fraca memória para sempre a cena do encontro tardio do casal do Amor Tempo tempo do Cólera quando, num barco,  ele esperava tocar a mão  desejada na juventude mas encontra a flacidez da velhice, o amargo do hálito da velhice.

Sinto a morte de Márquez  também porque  tenho a convicção de que morremos na morte alheia. E a cada dia temos morrido mais, com mais frequência.

 


Em 37:57: “Todos tienen tres vidas: Una vida pública, una vida privada y una vida secreta.”

 

Como gostaria de ser fama, e como não consigo

04/01/2014

Clímaco Dias escreveu sobre a inveja de quem lê livros à sua escolha. Invejo quem lê livros inteiros.

E não é que hoje terminei um? Do começo ao fim.

Férias favorecem o namoro dos casados e a leitura de livros inteiros.

“Histórias de cronópios e famas”, de Cortázar, deixou Nilson incutido há uns cinco anos. Trabalhávamos juntos e o cara durante dias a fio classificou todos, absolutamente todos, à volta como cronópio, fama ou esperança.

Na semana passada, Luísa veio me mostrar um texto “O jornal e suas metamorfoses” num exemplar que ela havia ganhado de presente. Sequestrei o livro.

Confesso que não entendi umas partes, são muitas referências de um mundo fantástico, mas outras são brincadeiras com palavras, diversão garantida.

O que fica de um livro? Ficam pequenos trechos.

Como esse, do final da história da tia que tinha medo de ficar de costas:
Como gostaria de ser igual a ela, e como não consigo“.

Ou esse sobre uma “secretária” no trato com as as palavras e adjetivos:

Se me vem à boca um adjetivo prescindível porque todos eles nascem fora da órbita de minha secretária -e de certa maneira de mim mesmo-, já está ela de lápis na mão agarrando-o e o matando sem lhe dar tempo de colocar-se ao restante da frase e sobreviver por descuido ou por hábito.

Ou esse sobre a abstração:

…Da mesma maneira, se gosto de uma mulher, posso abstrair-lhe a roupa mal ela entrando no meu campo de visão, e enquanto fala de como está fria a manhã eu fico longos minutos admirando-lhe o umbiguinho.  Às vezes é quase doentia essa facilidade que tenho.

Nunca serei fama nem esperança. Veja  quem é você:

Quando os famas saem em viagem, seus costumes ao pernoitarem numa cidade são os seguintes: um fama vai ao hotel e indaga cautelosamente os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo se dirige à delegacia e lavra uma ata declarando os móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital e copia as listas dos médicos de plantão e suas especializações. […]

Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que estas coisas acontecem a todo mundo, e na hora de dormir dizem uns aos outros: ‘que bela cidade, que belíssima cidade’. E sonham a noite toda que na cidade há grandes festas e que eles foram convidados. E no dia seguinte levantam contentíssimos, e é assim que os cronópios viajam.

As esperanças, sedentárias, deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vêm até nós”.

Idiota

29/04/2013

01/05
Influenciado pela fama do escritor, de conhecedor da alma humana, fico atento ao começar a ler O Idiota. E logo o primeiro diálogo e a sua prévia prometem, quando descreve os dois personagens principais a bordo de um vagão de trem, um deles com roupa inadequada para a baixa temperatura e o rosto quase azul de frio:

“…O vizinho de cabelos negros forrada observou tudo isso, em parte por falta do que fazer, e por fim perguntou co aquele risinho indelicado no qual às vezes se manifesta com tanta sem cerimônia e desdém a satisfação humana diante dos fracassos do próximo:
Está frio?”

A continuação da cena já me faz me identificar com o personagem principal:
“Começou a conversa. Era admirável a disposição que o jovem (…) revelava para responder a todas as perguntas do seu vizinho (…) sem qualquer desconfiança do absoluto desdém, da inconveniência e da futilidade de outras perguntas”

Pronto, de cara, me vi o idiota.

Vi também celebridades e leitores de Caras. Dizem que clássico é tudo que sobrevive ao tempo. Nada mais atual do que a descrição do terceiro personagem da cena, um funcionário público que sabia da vida de todo mundo com certa importância, definido sabe-tudo:

Sabe “onde serve fulano de tal, quais os seus conhecidos, quais são as suas posses, onde foi governador, com quem é casado, de quanto foi o dote que recebeu pela mulher, quem são seus primos de primeiro grau, e de segundo (…) Em sua maioria esses sabichões andam com os cotovelos esfarrapados e recebem vencimentos em torno de dezessete rublos por mês.
Fala também do prazer das “celebridades” com este tipo de gente: “As pessoas, de quem eles conhecem todos os segredos, naturalmente nem imaginam que interesses os guiam, mas, por outro lado, muitas delas se sentem positivamente confortadas com esse conhecimento, que se equipara a toda uma ciência, ganham auto-estima e até a suprema satisfação espiritual.”

Segue.

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Visitamos os Pires ontem à tarde. Saí de lá com o livro debaixo do braço. Josias é assim. Quando morávamos na (re)pública casa do Garcia, Josias tinha todos os livros de Garcia Márquez. Tinha. Josias é assim.

- Resume aí, Josias.
- É um livro sobre um idiota. 

Parece uma resposta óbvia, mas não é.

Volto aqui a este coco pequeno quando terminar de ler, deus sabe quando. Possivelmente para dizer: É um livro sobre um idiota.

Ler pra mim é um desafio. Sempre largo o livro pelo caminho, termino poucos. Alguém já disse que é assim mesmo, a gente capta esta vida pelos fragmentos. Talvez seja esta a causa da minha superficialidade.

As crianças daqui de casa se divertem com um filme do Snoopy, no trecho em que  é colocada de forma engraçada esta dificuldade de leitura, especialmente dos clássicos russos.

(… a professora dá a tarefa de ler Guerra e Paz durante as férias. Durante o desenho inteiro, Charlie Brown carrega na mochila o colosso russo, pelo qual transitam 580 personagens. O livro era tão grande – e essa é a piada irresistível – que o personagem não conseguia evitar cair de costas, cedendo ao peso da mochila. Quando reclamou do número de páginas para o amigo Linus (o do cobertor), este, na mesma hora, disse que ele deveria se envergonhar. “Pense na mulher do autor, Charlie Brown, que teve de escrever à mão seis vezes o livro todo”. É um método diferente de incentivar a leitura do clássico sobre a insignificância do indivíduo na História: através da culpa.  ttp://www.gazetadopovo.com.br/blog/livros/?mes=201011).

Com culpa ou sem culpa, vou tentar mais uma vez. E tenho o incentivo da boa tradução de Paulo Bezerra.

Foto: http://bit.ly/ZJyp8m

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4758879966681&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

De todo o meu coração, sem um minuto a perder

21/04/2013

Soraya do sofá lê pra mim poesia pura em forma de documento, em forma de História: 

“Digo eu Izidoro Gurgel Mascarenhas, que entre os mais bens que possuo (…) sou senhor e possuidor de uma escrava de nome Ana (…) (recebida na herança) de meu Pai, Lúcio Gurgel Mascarenhas (…) e como a referida escrava é minha Mãe, verificando-se a minha maioridade hoje, pelo casamento de ontem, por isso achando-me com direito, concedo à referida minha Mãe plena liberdade, a qual concedo de todo o meu coração”

Livro de notas e escrituras 61, fol. 28v, 11/10/1869, Cartório do 1º Ofício Civil de Campinas. Citado por Robert Slenes, no livro História da Vida Privada no Brasil, volume II.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/4718379514195

O umbuzeiro

15/10/2012

Semílo

Não se avexe não, dezembro/janeiro teremos umbu.

(…) É a árvore sagrada do sertão. Sócia fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. Representa o mais frisante exemplo de adaptação da flora sertaneja. Foi, talvez, de talhe mais vigoroso e alto – e veio descaindo, ¬pouco a pouco, numa intercadência de estios flamívomos e invernos torrenciais, modificando-se à feição do meio, desinvoluindo, até se preparar para a resistência e reagindo, por fim, desafiando as secas duradouras, sustentando-se nas quadras miseráveis mercê da energia vital que economiza nas estações benéficas, das reservas guardadas em grande cópia nas raízes.
E reparte-se com o homem. Se não existisse o umbuzeiro aquele trato de sertão, tão estéril que nele escasseiam os carnaubais tão providencialmente dispersos nos que o convizinham até ao Ceará, estaria despovoado. O umbu é para o infeliz matuto que ali vive o mesmo que a “mauritia” para os garaúnos dos “llanos”.
Alimenta-o e mitiga-lhe a sede. Abre-lhe o seio acariciador e amigo, onde os ramos recurvos e entrelaçados parecem de propósito feitos para a armação das redes bamboantes. E ao chegarem os tempos felizes dá-lhes os frutos de sabor esquisito para o preparo da umbuzada tradicional.
O gado, mesmo nos dias de abastança, cobiça o sumo acidulado das suas folhas. Realça-se-lhe, então, o porte, levantada, em recorte firme, a copa arredondada, num plano perfeito sobre o chão, à altura atingida pelos bois mais altos, ao modo de plantas ornamentais entregues à solicitude de práticos jardineiros. Assim decotadas semelham grande calotas esféricas. Dominam a flora sertaneja nos tempos felizes, como os cereus melancólicos nos paroxismos estivais.(…)

Euclides da Cunha, “Os Sertões”, 1902.Pág 28.http://bit.ly/RZkh4X

Para ver as fotos

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.3818409615510.2140429.1135737937&type=1

Nilson Galvão e Kátia Borges

27/07/2012

Convite recebido e repassado. Vamos!
Mais no blog do lançamento: http://escorpiaoamareloeocidente.wordpress.com

Apedrejada primavera

07/04/2012

Ao arsenal de pedradas reveladas  por Claudio Leal, no Terra Magazine, acrescento mais duas depois da leitura neste feriado santo  de A Primavera do Dragão, a juventude de Glauber Rocha, escrito por Nelson Motta, presente de aniversário de Nilson e Gabriela:

“Yoná Magalhães… conseguiu um espaço na TV Bahia e começou a produzir  Teatro ao Vivo” .
Estamos no início da década de 60. A TV Bahia foi inaugurada em 1985…

“Na mesma região de Monte Santo, na desolada vila de Milagres, Ruy Guerra terminava as filmagens de Os fuzis”
Errinho de quase 400 km. Equivale a escrever  que a praia do Leblon fica ali na mesma região de Ouro Preto.

Sobre  trocentos erros apontados na matéria de Leal, que vão de troca de nomes, confusão de épocas e presenças de quem garante que não esteve, Nelson Motta argumentou que não alteram a narrativa do livro.

Mota esnoba os amigos de Glauber  e no subtexto das explicações pelos erros diz mais ou menos o seguinte: vocês são uns fracassados, não deram em nada nesta vida e ficam aí querendo roubar a cena do protagonista,  Glauber. Detalhe: na capa do livro, o nome de Motta é, pelo menos, quatro vezes maior do que o do protagonista.

O subtexto dos amigos de Glauber é o seguinte: Quem és tu, playboy carioca, a ousar a escrever sobre nosso mito, nosso Deus?  e ainda errar?

E agora a minha modesta opinião: gostei muito, muito mesmo, Soraya também. Gostei especialmente dos primeiros capítulos, sobre Conquista, e dos últimos, sobre a produção de Deus e o Diabo.   O livro flui, tem histórias deliciosas, belas fotos.  Humaniza o mito.  E, o mais importante, desperta na gente a vontade de ver ou rever  os seus filmes.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2991617746230&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Foto: daqui.

Calundu

04/02/2011


A frase da página 56 escolhida é o desfecho de um “crime”, cometido por um Zebu chamado Calundu, cena comum no sertão.

Boi bravo e vaca parida são medos da minha infância. O mais temido era o que vinha de careta no meio da boiada, na porta da casa da fazenda de tio Descartes, no Norte de Minas, para onde fui transportado novamente com a leitura de Sagarana.

Quem nunca viu uma boiada passar, é mesmo que tá vendo:
“Os cavaleiros se entremeiam na manada, falsando clivagens, fracionando o gado, para evitar embolamento. Num  pataleio dianho, fazendo espirrar lama vermelha, metem-se  pela rua principal. E quatro vaqueiros tocam adiante, dançando com os cavalos, trazendo-os nas esporas para ficarem firmes nos freios, e gritando com o povo, a impedir seja esmagada alguma pessoa ou criação.
Mulheres puxando meninos para dentro das casas. Portas batendo. Gente apinhada nas janelas. Cavalgaduras, amarradas em frente das vendas, empinando, quase rompendo os cabrestos. Galinhas, porcos e cabritos, afanados, se dispersando sem tardança. E os vaqueiros, garbosos, aprumados,  aboiando com maior rompante.”

Outro dia resumi aqui minhas nostalgias. E nelas os dias de férias em Minas vieram como uma enxurrada.  A chácara de mangueiras, Jenipapeiros e coqueiros,  a pesca de acari com saco de estopa no barranco do rio, o leite bebido quentinho no copo de alumínio na beira do curral de manhã cedo, as estrelas cadentes no céu estrelado.

Estas lembranças voltaram todas com a leitura de O Burrinho Pedrês, nas palavras do próprio Guimarães Rosa,  uma “Peça não-profana, mas sugerida por um acontecimento real, passado em minha terra, há muitos anos: o afogamento de um grupo de vaqueiros, num córrego cheio.

Lembrei que há muitos anos, na escola Técnica, havia lido a história, que me impressionou.

Compartilho os grifos desta segunda leitura, dos olhos de agora:

Resumo de um só dia
… a estória de um burrinho,   como a história de um homem grande, é bem dada no resumo de um só dia de sua vida.

Homens e burros
… Mas tinha cometido um erro. O primeiro engano seu nesse dia. O equívoco que decide do  destino e ajeita caminho à  grandeza dos homens e dos burros.

Preguiça de você
… Agora, Francolim, vá-s’embora, que eu já estou   com muita preguiça de você.

Picaretagem é antiga
…porque eu agora estou sabendo que eles lá são mestres de dar sal com enxofre ao gado, para engordar depressa, gordura de mentira, de inchação!

Credicard
O Curvelo vale um conto,
Cordisburgo um conto e cem.
Mas as Lages não têm preço,
Porque lá mora o meu bem…

Vingança
- Pois então, quando fui espiar o que a minha cachorra  Zeferina estava estranhando …
- Oh gués! Isso é nome de cachorro?
- Foi por vingança que eu pus, quando minha mulher   Zeferina me largou…

Que óte! Que ú!
- Mas, pulou no cangote do zebu?
- Que óte! Que ú! …  Você acredita que ela não teve  coragem?!

Suicídio
… Naquela hora, nem o capeta não era gente de chegar no guzerá velho-de-guerra. Nem toureiro afamado,   nem vaqueiro bom, Mulatinho Campista, Viriato mais Salathiel, coisa nenhuma… E, quem chegasse, era só mesmo por ter vontade de morrer suicidado sem querer …

Burro é burro?
… – Escuta uma pergunta séria, meu compadre João Manico: você acha que burro é burro?

Melhor levantar
… – Pois eu não. Nunca estive em escola, sentado não  aprendi nada desta vida. … (Major Saulo)

Cuidado
… – Pois eu juntei o bicho   com um terno de vacas mansas, montei no meu quartão castanho, e joguei um raminho de  cambará para trás: aquilo, o zebu me acompanhou, que nem um bezerrinho correndo   para o úbere da mãe… Eu falava: – Vamos para adiante,   assassino!… -Mas falava baixo, para ele não me entender…

Linguiça
…Longe dos outros,  deixado num extremo, no canto   mais escuro e esquerdo do telheiro, Sete-de-Ouros estava. Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de   obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda linguiça da vida.

Outras lágrimas
… E ele se abraçou comigo, feito um doido, e eu nem podia deixar que ele visse   minha cara, porque eu estava com os olhos cheios de outras lágrimas, também …

Leitura
… Porque seu Saulinho não sabia ler, mas gostava de receber cartas da mulher, e não deixava   ninguém ler para ele: abria e ficava só olhando as letras, calado e alegre, um tempão …

Entalado
- “Deixa o menino chorar suas mágoas, que o pobre está com a alminha dele entalada na garganta!”

Imagem: foto da capa da 34a edição. 

Sem espalhar não tem a menor graça

03/02/2011

Tudo era apenas uma brincadeira no facebook mas resultou num incutimento delicioso. Eis-me, de novo, diante de Sagarana, de João Guimarães Rosa.

A brincadeira, surgida numa página  italiana, vi no perfil de Leandro Fortes. É pegar o livro mais próximo, abrir na página 56 e transcrever a sexta frase.  Estava ali perto o livro, que  já veio a Iaçu umas três vezes, mas sempre voltava na mesma. Desta vez engrenou. Já estou na terceira novela, Sarapalha.

E como naquela velha piada sobre Sharon Stone – comer sem espalhar não tem a menor graça – aqui começo a trombetear a notícia do meu prazer com Sagarana.

Na verdade já havia lido alguns doscontos. Qualquer um com quase cinqüenta anos e um mínimo de escolaridade, em algum momento da vida esteve diante de Guimarães Rosa. Lembro que aos 17, viajando de carona por Minas, desviei um pouco o caminho só para conhecer Cordisburgo.

Alguém já disse que o mundo nos chega em fragmentos. Então enumero aqui os fragmentos do livro que mais me deram prazer, começando pela carta publicada no inicio do livro, dirigida a João Condé.

Graças a Deus

… Mirrado pé de couve, seja, o livro fica sendo, no chão do seu autor, uma árvore velha, capaz de transviá-lo e de o fazer  andar errado, se tenta alcançar-lhe os fios extremos, no labirinto das raízes. Graças a Deus, tudo é mistério.

Eterno

… Tinha de pensar, igualmente, na palavra “arte”, em tudo o que ela para mim representava, como corpo e como alma; como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno, principalmente.

Carochinha

… Já pressentira que o livro, não podendo ser de poemas, teria de ser de novelas. E – sendo meu – uma série de  Histórias adultas da Carochinha, portanto.

ideal do peixe

… Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por  completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições – no tempo e no espaço. Isso, porque:  na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquele sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe.

Amante

… De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira.

Full gas

…além dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?

Livro na íntegra: aqui
Imagem: aqui

Eu não sou cachorro não – playlist

07/08/2010

Finalmente peguei pra ler “Eu não sou cachorro não”, do meu conterrâneo, contemporâneo e do mesmo signo de peixes, Paulo César Araújo. É uma pena não o ter conhecido. Vivemos na mesma Vitória da Conquista, crianças, na década de 60. Ouvimos as mesmas  rádios Clube e Regional.

Soube do livro quando foi lançado,  em 2002 e ganhei no meu aniversário do ano passado.

Araújo  dedica seu livro a três persongens da cidade conhecidos de todos que viveram aquela época: a louca Lilita, que vivia enrolada em panos, uma espécie de mulher de roxo sertaneja, a Cafezinho, um louco manso e mendigo, que vivia com uma caneca a pedir café e ao poeta Alberto Davi com seu visual Jesus Criso.. Pra ficar completo, poderia incluir também Cabeção, um mendigo que repetia o mantra “Daaaá uma esmola pelo amor de Deus” com uma caneca de aluminio batendo no chão da Alameda Ramiro Santos.

O livro lança luz sobre  a produção da música rotulada como brega produzida nos dez anos de vigência do AI – 5, de 1968 a 1978, desprezada pela Intelligentsia mas presente na memória afetiva de praticamente todos os brasileiros, eu e ele incluídos.

Colcocaria Roberto nesta lista brega, mas parece que Paulo já planejava fazer um livro exclusivo para o Rei, infelizmente lançado à fogueira, felizmente vivo e multiplicado por e-mail na internet.

Enquanto vou lendo, vou fazendo aqui meu playlist do livro:

Waldcik Soriano -  Paixão de um homem , Carta de amor , Tortura de amor
Odair José - Cadê você , Deixe essa vergonha de lado , Eu vou tirar você deste lugar
Fernando Mendes – A desconhecida , Você não me ensinou a te esquecer , Cadeira de rodas
Paulo Sérgio – A última canção , No dia em que parti , Não Creio em mais nada
Diana – Por que brigamos? , Canção dos namorados
Euvaldo Braga – A cruz que carrego , Sorria, sorria
Agnaldo Timóteo - Os verdes campos da minha terra
Nelson Ned – Tudo passará
Altemar Dutra – Sentimental demais
Benito di Paula – Meu amigo Charles Borown, Do jeito a vida quer e Acaba a valentia de um homem

O livro de Maria

13/04/2010

E o de Paloma também.

Mônica, a mãe de Soraya, minha digníssima sogra, esta aqui do lado e não me deixa quieto. Eu agoniado tentando fazer a divulgação da III Mostra de Circo e ela toda hora me interrompe rindo:
Esta Maria pintou e bordou…

A Maria pintora e bordadeira é a   Guimarães Sampaio, que narrou suas travessuras em primeira pessoa, ou quase, nos seus Continhos para Cão Dormir 1 e 2.

Não queiras gostar de mim sem que eu te peça… Agora ela canta
De quem eu gosto, nem às paredes confesso.
Conheço esta, diz.

E Mônica se vê no livro. Se vê nas expressões alisando os bancos da ciência, se vê na época dos penicos debaixo da cama. Se vê no Vapor de Cachoeira,  se vê também como ex-tabagista inveterada.
Ave maria, tem tanta coisa que essa moça conta aqui, que eu vivi…
Fica engraçado quando ela começa a ler em voz alta e nas partes mais picantes enrola a língua, como quem canta uma música e esquece um trecho.

Mônica se vê também em todos os remédios citados. Ela também briga contra caranguejos há oito anos e viaja os quase 300 km de Iaçu pra cá, as vezes os 120 km de Feira,  para encontrar o seu idolatrado oncologista  Renato Coelho, anjo da guarda.

Mônica é fã de Maria e de Nilson também. É uma leitora da P55. Apresentei a ela também o livro de Paloma, Tio Tomás.

E eu? Eu gostei muito dos dois livros. Dos Continhos, gostei até mais do 2, ainda mais escrachado.

Do livro de Paloma gostei especialmente de como a irmã mais velha quebra a fantasia do menor. O livro é muito claro e limpo, honesto com as crianças.

Enfim, era pra ter escrito este post há tempos. Graças a minha sogra,  veja só,  tenho o prazer de escrever agora.

P.S. Depois da leitura do post para aprovação,  a sogra pede: bota aí que eu acho ela encantadora.
Eu também.

P.S 2 E Mônica segue lendo em voz alta, acompanhada agora de Soraya nas gargalhadas.

P.S 3 E liberou geral. Explica embolando  gargalhadas o que é aga-tesas ( de ouvir falar, é claro)  para os inocentes Marcus e Soraya, agora mais escolados.

P.S 4…

É hoje!

09/03/2010

Em nome dos filhos

04/03/2010

Conheci Jorge Amado de longe, na fundação que leva o seu nome. Já tava meio cansado e ficou ali dando ibope para uma cerimônia de marketing. Zélia eu vi de mais perto, numa palestra na Escola de Letras na UFBA. Sou fã dos dois. O Jorge escritor eu conheço desde o início da adolescência, quando li Mar Morto e em seguida quase todos os outros, enfileirados.

Zélia eu conheci adulto e foi também com uma sequência de outros  livros lidos, depois de Anarquistas. Zélia me  surprendeu pela escrita leve e concisa, quase pequenos contos concatenados. 

Certa vez fui a um lugarejo da Ucrânia e na biblioteca de uma família tava lá, um livro de Jorge Amado. Eu me senti representado como brasileiro.

Nos quase dois anos em que morei na antiga CCCP, ficava impressionado como muitos soviéticos sabiam quase toda a escalação da seleção brasileira de 82  e conheciam, de ler e não de ouvi falar, a obra de Jorge Amado. 

Foi nesta condição de fã dos pais que conheci hoje Paloma Jorge Amado na casa de Maria, quando gravamos este vídeo acima para o hotblog do lançamento dos livros das duas.

E fiquei sabendo por Paloma o porquê dela trazer o nome Jorge Amado.

Quando postei esta semana o release sobre o lançamento do livro numa lista de jornalistas,  seu nome  gerou um comentário malicioso,  atribuindo a ela própria uma alteração psterior para usufruir da fama. Paloma achou  graça e contou o real motivo,  que revela um gesto bacana do pai:

 Jorge e Zélia vinham de outros casamentos, numa época em que a lei no Brasil não permitia ao homem desquitado registrar  filhos de novos relacionamentos. O nome foi então a saída encontrada para confrontar a lei  burlar a lei e  compensar a ausência da paternidade no registro dos dois filhos: Paloma Jorge Amado e João Jorge Amado.  Simples assim.

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