
André, de bermuda preta, no Campo Grande em 2006
(mesma estrada, mesmo carro, mesmas pessoas com o acréscimo da sogra, viajei hoje segunda-feira desde Feira de Santana e o fim-de-semana lá me tirou o show de Tom Zé aqui, disseram que foi muito bom. Mas como dizia a Cecília, é isto ou aquilo. Lá teve aniversário da vó Conceição dos meninos, os primos, os tios, o bisavô e cachorros, muitos cachorros. E neste ritmo família, inicio aqui a republicação de três posts sobre os miúdos, redigidos em seqüência há dois anos. Abaixo, o primeiro, numa segunda-feira, Feira de Santana, 26 de agosto de 2006)
Dia amanhece nesta segunda-feira, Feira de Santana-Salvador. Os cincos viajantes balançam as cabeças na cadência das ondulações e buracos da BR 324. Uns sonham acordados, outros dormem. O silêncio trafega sobre o ruído contínuo do motor. De repente um grito:
-Atacaaaar!
Algumas ordens ininteligíveis são dadas e o guerreiro magricela vira a cabeça para o lado e continua sua batalha em silêncio. Quem ainda estava dormindo acorda com as gargalhadas. Só não o guerreiro magricela que continua em sonho profundo. Naves? Cavaleiros? Ninjas?
Este Budegão vive a guerrear desde que nasceu. Primeiro nos seus primeiros cinco dias de apitos e picadas da UTI neonatal. Depois no semi-abandono após os quatro meses da licença maternidade com mãe e pai trabalhando o dia todo. E depois a eterna busca de espaço, sanduichado entre duas mulheres.
Vive imprensado nos seus menos de cinco anos, entre a cabeça cheia de palavras e argumentos da 10 anos Lego-Lego e os olhos azuis ainda mais cintilantes na idade engraçada da Pachuluca de ano e meio.
E o guerreiro navega em busca de atenção. Sofre, porque não deu a sorte de herdar a memória da mãe. Herdou a vaga lembrança do pai. E como o pai, busca em frases recuperar as palavras esquecidas ou ainda não aprendidas. Esmalte vira aquela tinta que pinta unha de menina. Como o pai, das músicas só sabe o refrão.
Viajo segunda-feira, Feira de Santana, viajo segunda-feira, Feira de Santana, repete ao infinito, repetindo o pai que também avança muito pouco no refrão da canção de Tom Zé.
Do pai quer herdar a barriga. A mãe não cansa de elogiar os seus olhos amendoados cor de mel, sua cabeça de muitas fantasias. Já domina os plurais mas ainda se aperta nas pronúncias: álgum de sigurinha, caneta de hidropon. Uma coisa grande vira digantesca. Sabe tudo sobre seus super-heróis e como eles quase não anda, vive pela casa aos saltos. Quando tinha três anos, Lego-lego quis saber o seu signo:
Sou Libra e você?
Sou Homem-Aranha, respondeu com convicção.
Foi por esta época que a mãe um dia explodiu e clamou aos céus:
_ Eu não agüento mais. Minha vida é cuidar de menino.
Budegão, que até então estava invisível na cena, murmurou em protesto:
_ E de menina também!
(Sobre os comentários de então: mudei de idéia sobre a inveja e ainda devo o livro a Nilson)