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Passar uma chuva em Itapuã

23/12/2009

Atendo ao apelo da multidão de quatro ou cinco e-amigos que notaram ausência e volto para provar a necessidade de se tomar mesmo cuidado com os desejos. Eles podem se realizar. Então senta que lá vêm palavras e fotos para ilustrar a manhã de ontem, na volta para um mergulho com Luísa à mesma praia aonde havíamos ido domingo, quando pudemos caminhar de Placaford ao Farol de Itapuã. André e Maria já haviam sido devidamente despachados para Feira, onde Soraya também se encontra desde anteontem e nos espera hoje para seguirmos amanhã ao destino de sempre: a hospitalidade de seu Rubem Reis, em Iaçu.Mas voltando à chuva em Itapuã.
Passei as últimas semanas vendo o céu sem um fiapo de nuvem e elas resolveram se reunir para me saudar ontem.
Este retorno ao coco pequeno abandonado foi motivado pela  tal pinaúna, escrita com um a a mais no título do post anterior. Eu resolvi não consertar só para jogar luz sobre a elegância dos meus amigos, delicados revisores pelo método da repetição, recomendado para analfabetos, distraídos e crianças. Ou seja, eu ao cubo.
Voltei ontem à praia com a intenção de fotografar uma pinaúna viva.  Havia ficado mais curioso porque ao jogar ouriço do mar no Google descobri que até Aristóteles se encantou com o bicho e deu nome aos seus dentões, ou aparelho raspador, capaz de fazer buracos nas rochas. E que a Science divulgou anos atrás um estudo de um grupo de cientistas decifradores da sequência do genoma do bicho, que confirmou sua semelhança conosco, os metidos humanos. Ou seja, a simpatia não é vã. Trata-se de um primo ancestral . Preferiu morar perto da areia quando os nossos vovôs répteis resolveram se mudar para o sertão.O primo ancestral, ou melhor, o belo esqueleto do primo ancestral  jaz na estante ao lado da certidão fotográfica de casamento, de uma caninha portátil e de uma cabaça-boneca com o pescoço partido, como vocês podem ver numa das fotos publicadas aqui. Mas  o primo ouriço deverá ir para Americana, para a casa do outro primo Chorik, que demonstrou interesse em vê-lo de perto. Tentei o endereço para fazer surpresa mas como não consegui, apelo então aqui para o próprio japa me enviar por e-mail gusmaomarcus@gmail.com. Tem grandes chances de chegar lá farelo de cálcio, mas tentarei.Descoberta: a praia onde havíamos chegado pela areia domingo fica bem em frente à praça em homenagem a Vinícius de Moraes, onde há uma vaga na mesa do poeta para fotos de turista. Fizemos várias, mas resolvi me despedi logo antes que ele se engraçasse pro lado de Luísa. Veja por que aqui.O curioso é que eu não pisava nas areias do Farol de Itapuã havia mais de 30 anos. Soraya e Luísa simplesmente não conheciam o farol de perto. A real é que a Itapuã cantada por Caymmi e Vinícius não existe mais. O que vimos na caminhada desde Placaford no domingo foi lixo e casas com muros quase dentro da água. Mas, olhando bem, há ainda muito o que ver, como este poema abaixo, colado no muro da casa onde viveu o poeta.Com boa vontade e uma segunda-feira de praia vazia dá para ainda fazer uma foto  tipo cartão postal, num trecho que ainda se salva um pouco, próximo ao farol. Caymmi, Vinícius e a alma desta Bahia de todos os santos começam a aparecer com um olhar mais atento para o chão da praia, quando ficam mais  evidentes os sinais. A chuva caiu e passou.Antes de voltar para casa, uma parada na Picolino para uma boa notícia. Em março teremos a III Mostra de Artistas Circenses da Bahia.

Enquanto conversava com Anselmo sobre os detalhes da divulgação da mostra, Luísa esperava com a máquina na mão e tirou estas últimas três fotos. Nesta última, a bolinha artesanal de malabares, perdida  depois das apresentações do último final de semana. Aqui está o segredo do meu sumiço daqui deste coco pequeno. Minha atual viagem febril agora é o blog da Picolino e o facebook da Picolino, criado há 15 dias e  já com mais de de 1000 pessoas inscritas.

Luisa fez também foto do painel sobre Jailton, o mais famoso artista que já passou na Picolino, hoje na trupe  do Soleil. Jailton é uma espécie de símbolo da Picolino, o cara que foi mais longe, mas existem muitas histórias incríveis nestes 25 anos da escola. Elas serão relembradas em 2010.
Portanto, eis a dica. Se aqui não estiver, estarei sob a lona.

Gregório explica

20/11/2009

Ontem riram de mim. Anteontem também.
Riram do meu espanto.
Conto então os pecados, sem nominar os santos:

Ontem fui o último a saber, depois até do corno. E o pior que eu senti no peito a facada como se fosse comigo. Todo mundo incrédulo, rindo da minha cara. Não sou amigo do cara, apenas o conheço de vista. É do tipo alegre, inteligente e bacana, assim como eu desejo ser. Tinha uma família parecida com a minha, e uma mulher com cara de santinha mas que dava,  ao que consta sem esconder muito, para um sujeito consensualmente asqueroso. É mole?

Anteontem outro espanto ingênuo e semelhante. Meu queixo bateu no joelho ao saber de uma pessoa próxima da sua dificuldade para resolver  um caso na justiça no valor de mais ou menos R$ 1 milhão. Depende de uma decisão de uma autoridade judicial, cuja assinatura custa R$ 150 mil.

Antes de continuar aqui a dar  uma de porreta, a atirar pedras nos erros alheios, eu e você nos sentindo bacanas neste mundo porco,  recorro novamente a um trecho de “Aos vícios”, de Gregório de Mattos: 

[....]

A ignorância dos homens destas eras,
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.

Há bons por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não – por não ter dentes.

Quantos há que as telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receiosos?

Uma só natureza nos foi dada;
Não criou Deus os naturais diversos;
Um só Adão criou, e esse de nada.

Todos somas ruins, todos perversos,
Só nos “distingue o vício e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.

[....]

Tradução: somos todos farinha do mesmo saco. Íntegra aqui

Quem sobe nos ares não fica no chão,

10/08/2009

Nós vamos invadir sua praiaquem fica no chão não sobe nos ares

A foto ao lado é da finalização do terceiro quadro do painel Nós Vamos Invadir sua Praia, que conta a história de Jailton Carneiro. Tive o privilégio de acompanhar a criação dos quadros, um dos primeiros assuntos do recém-criado  circopicolino.org.br .

Escola Picolino de Artes do Circo + Rede de Pontos de Cultura da Bahiacontinhos para cão dormir & caixa-preta são parcialmente os responsáveis por meu sumiço deste coco pequeno. Vivo incutido com os três e pensando seriamente em retomar os abandonados 416 Destinos e Pequenas estórias de viagens e acontecimentos.

Pensando seriamente mesmo, porque tive um insight, acompanhado de uma pequena satisfação. Há poucos dias, diante de um convite para uma vivência onde se compartilhariam conhecimentos, fiquei com a velha angústia de não dominar nenhum ofício, a angústia de não saber fazer nada de palpável nesta vida.

Descobri então que tenho feito ultimamente muito uma coisa: transformar informação em conteúdo e colocá-lo rede.

E tudo começou quando aceitei ser professor por um dia e  tudo vai continuar, espero não queimar o filme falando antes, com uma viagem à Chapada, para repassar este conhecimento. E pode continuar numa oficina na Picolino… Enfim, não aprendi a fazer pão mas estou aprendendo a inventar blogues.

Mas este incutimento a a urgência do calendário me retiraram o que mais gosto de fazer, ficar futucando na blogolândia. Acho que é melhor retomar pé do deste meu lado direito do blog e esquerdo do peito.

P.S: Se você não entrou no poema lá de cima, entre agora aqui para entender esta angústia de macaco velho com a mão na cumbuca.

Bandeirolas – Adenor Gondim

20/06/2009

Bandeirolas  junho de 1990 - Cachoeira Bahia  foto - Adenor Gondim

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07/05/2009

Salvador chove todo ano há quase meio milênio. E a cidade ainda encara a chuva como uma grande novidade. Mas daqui a alguns dias o sol, o grande culpado, volta a brilhar e todos esqueceremos.

Ano que vem a surpresa: Oh! Chuva. Novamente lamentar a tragédia, contar as vítimas. E elas voltaram a ser contadas ultimamente depois de mais ou menos uma década de trégua, por conta de algumas obras de contenção de encostas.

A chuva cai sbre todos, embora mate os pobres. No Itaigara, com IDH superior ao de  países nórdicos, carros submergem. Nas encostas e pirambeiras, gente é soterrada ou carregada pelas águas de maio.

E a cidade segue crescendo desordenadamente, sem controle algum, tanto nos bairros pobres como nos ricos (não à toa que uma das fotos de alagamento mostra o novo caixote -shopping da cidade, na Paralela).

E  Como as chuvas se repetem com regularidade, meus textos e vídeos sobre elas também.

Acima, o terceiro vídeo da série “O mar quando quebra na praia”, gravado ontem e hoje. E abaixo, alguns textos meus sobre a mesma  chuva de sempre:  2006 e 2008.

E aqui vou colecionar outros sobre o mesmo assunto.

Atualizado em 07/05

Franciel  ( o texto apareceu, achado pelo próprio. Valeu!)
Bernardo
Maria

Aeronauta

Atualizado em 7 e 8 ; 05

E aqui a trilha sonora da chuva… porque a chuva continua

P.S importante. Estas não são necessáriamente uma lista das  minhas músicas preferidas. Ou não eram. Porque conhecer, conhecer mesmo, de gostar e de  poder cantar [alguns (poucos)  trechos] só  Águas de Março e Chove Chuva.  E já ouvi algumas vezes I’m singing in the rain, sempre na tela. Outras posso ter ouvido uma vez na vida, mas não me lembrava. A maioria nunca ouvi mais gorda. O bacana do google e do youtube é isso: desde hoje gosto de todas. Ou como disse mais ou menos o outro, a cultura é indispensável  à ignorância.











Sapatadas

17/12/2008

voltaire-fraga

Ao folhear o livro A Fotografia na Bahia (1839-1936), presente duplo de Maria Sampaio, eu me dei conta de que a recente sapatada de Tom Zé em Caetano tem um valor simbólico e universal muito maior do que a mágoa e o ressentimento do enterrado vivo e ressuscitado, graças a David. A sapatada de Tom Zé traz a mágoa daqueles que são preteridos, que não alcançam o reconhecimento, embora mereçam muitas vezes  até mais do que os glorificados.  Talvez Voltaire Fraga também lançasse seus sapatos sobre Verger. Eu lançaria os sapatos de  Lazzo  sobre Carlinhos Brown. Os de Claude Santos sobre o júri do salão do MAM. Os de Zé Dantas sobre Luiz Gonzaga.

Será que só há lugar para poucos no reconhecimento e na fama? Será que nossas manias de classificações nos tornam cegos diante da pluralidade?

Até 20  dias atrás, eu era completamente ignorante sobre Voltaire Fraga, que morreu em 2006 mendigando apoio ao governo, que lhe foi negado.

Ainda sou. Mas por que o mesmo ignorante aqui sabe bem mais e já viu bem mais imagens de Verger?  Verger sempre esteve “na mídia”, como diria o amigo gay de Marcinha.

Vejo Verger em Voltaire. Vi quando Ana Beatriz me mostrou o catálogo da exposição que está em cartaz na Pinacoteca de São Paulo, vi quando Maria Sampaio me mostrou o livro que traz cinco fotos obras-primas dele e no texto dela sobre ele, que está também no seu outro blog, “alguém escreveu” .  Espero poder conhecer mais para ver também Voltaire em Verger.

E você caro e raro leitor, em quem atiraria seus sapatos e os sapatos alheios? Não vale dizer que não atiraria em ninguém. Este post é dedicado aos xiitas e aos ressentidos e não aos bonzinhos.

Mais fotos aqui.

Chegamos, sobrevivemos.

12/11/2008

18h55

A partir deste histórico momento, esta rádia, parafraseando o meu amigo Franciel, passa a transmitir direto e em cores desde o Planalto Central. Saímos mais de cem baianos em três ônibus naquela longínqua terça-feira, ontem, 10 horas da manhã de Salvador. Desembarcamos agora há pouco, às 18h10,  depois de 32 horas de navegação asfáltica, com muito sofrimento, transtornos, atrasos, e como sou um cara otimista, com muita alegria. No hotel, na beira do Paranoá. gente de tudo que é canto do país, de todo o tipo. É a tal diversidade desta grande teia.

Vou contar do fim para o começo.

Daqui a pouco coloco as fotos dos japoneses baianos encantados com a praça dos três poderes. Se a Bahia acabar aí, dá pra recompor a civilização, pois nas caravelas veio gente de Alagoinhas, Rio de Contas, Central, Paulo Afonso, Itapetinga, Canavierias, Ilhéus, Salvador, Itaparica, Heliópolis, São Francisco do Conde, Santa Brígida, Caetité, Rio do Antônio, Pedrão, Itabuna, Castro Alves, Santo Amaro, São Felipe, Maracás, Lençóis, Morro do Chapéu, Palmeiras, Seabra, Iraquara, Lapão,  Brumado, Barra, Bom Jesus da Lapa, Ibotirama,  Cocos, Santa Maria da Vitória, Jandaíra…  UFA.

Volto daqui a pouco.

19h25

Veja só o que a proximidade do poder não faz com o humor de uma criatura. Quem diria que estes japoneses acabaram de chegar de 33 horas de estrada?

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