

Fizemos a pergunta algumas vezes e ninguém sabia informar onde ficava o metrô na cidade. Até que alguém: ah, subter? ali.
Estava fascinado com as novidades e andar naquele metrô com cara de cinema anos 20 já havia valido a viagem. A Praça de Mayo era bem menor e mais chfrim que a nossa imaginação, mesma impressão que teve Bernardo recentemente.
As avenidas largas, os colegiais com paletó e saias, os suporte para prender os carros nos estacionamentos de rua, os ônibus cujos motoristas eram também cobradores, famílias passeando a noite pelo calçadão da Calle Florida eram as primeiras imagens absolutamente novas, que me davam pela primeira vez a sensação de estar no exterior, este lugar tão distante de nós brasileiros, mais ainda brasileiros pobres.
Os cartazes de propaganda eleitoral de Alfonsin eram maioria nas paredes e muros da cidade e calorosas discussões políticas eram vistas a cada esquina, como se estivessem discutindo futebol. Tudo novidade pra mim.
“A grana deu certinho” escrita no postal talvez tenha sido uma forma de tranquilizar a mãe. Não fosse a generosidade de Alexandre, que dividiu os dólares dados a ele pela família, o bicho ia pegar. Ainda mais no dia seguinte, na hora de embarcar. Pra mim inexistia taxa de embarque, tudo estaria incluído na passagem. Não estava. E mais uma vez os dólares de Alexandre vieram em meu socorro.
Alexandre e Zau eram os outros dois “baianos” contemplados com a bolsa para a Patrice Lumumba. Na verdade, Alexandre era gaúcho mas vivia com Zau e os dois foram indicados juntos. Qual o critério para ganhar a bolsa? Este mesmo, o universal QI. E quem indicava eram membros do PCB, o partidão. Zau era cunhada de Paulo Miguez, então um dos quadros do partido na Bahia. Hoje Miguez é professor da Universidade Federal do Recôncavo.
Eu fui terceirizado. Na verdade a bolsa era para Josias Pires, colega desde os 15 anos na Escola Técnica e morador como eu de uma casa república no Garcia, bem estilo anos 80. Ele não quis ir e me indicou. Quem trouxe as “vagas” foi George Gurgel, então recém-formado do curso de Geologia da Lumumba. Na Festa do Bomfim de 2007 eu o entrevistei como pré-candidato a prefeito de Salvador pelo PPS.
Estava no fim de um curso de jornalismo na UFBa, curso que não levava muito a sério, principalmente porque meu negócio nunca foi escrever. Eu queria (e ainda quero) ser fotógrafo e a viagem poderia ser um trampolim para um curso de fotografia na então Alemanha Oriental. Este era o meu plano infalível do Cebolinha. Como veremos adiante, não deu certo.
A bolsa havia sido prometida para 1º de setembro de 1982. Mas a burocracia, marca registrada dos comunistas, só confirmou mais de um ano depois, em meados de setembro de 1983 com um telefonema e um ultimato: em 15 dias você deve estar em Buenos Aires para pegar a passagem e embarcar.
Mesmo faltando apenas um ano pra me formar, resolvi recomeçar o curso de jornalismo na Lumumba.
Distribuí meus poucos discos e livros, peguei um ônibus até Conquista e de lá, via via BR 101, até São Paulo, onde fui acolhido pela prima Nete. Por Pouco não perdia o embarque na rodoviária em direção a Buenos Aires.
Na noite anterior fui abordao pela polícia, e levei um baculejo porque estava parado, contemplativo, em frente ao portão do Cemitério da Aclimação, de chapéu preto tipo fedora (emprestado da coleção da minha prima) e um casacão daqueles usado por Antônio das Mortes, comprado na Feira de Conquista.
Desde criança, em Castro Alves, sempre gostei de admirar cemitérios. Não gosto da idéia de morrer, mas gosto de cemitérios antigos.
Mais detalhes destes dias na versão de Alexandre nestes dois posts:
http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/adeus-aos-trpicos_04.html
http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/sada-clandestina-do-brasil.html