
Complexo Escolar Polivalente de Castro Alves. Aos 11 anos, mais uma vez no papel de declamador oficial de Vozes D'África
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…
Qual Prometeu tu me amarraste um dia…
E por aí seguia no meu destino de declamdor de Vozes D’ África.
Passei um bom tempo achando que um dia Deus, de fato, prometera amarrar a África. Só anos depois, ao estranhar o título da peça Prometeu Acorrentado, a ficha caiu. Não tinha a menor idéia do que significava o “tomba ressupino”, destino do cavalo estafado do beduíno, mas estava lá eu emocionando velhinhas, tirando onda como menino prodígio do interior.
Era um 06 de julho de 1971. Aos dez anos, lançava meu brado retumbante em praça pública na pequena Castro Alves, no palanque armado ao lado da estátua do Poeta no dia do centenário da sua morte. De tempos em tempos, o garoto era chamado a repetir o feito, como nesta foto na sala de aula, provavelmente em 1972.
Alguns meses depois da glória, com problemas nas notas e no comportamento, entreouvi de uma professora: – Elogiaram demais este menino. Veja no que deu. De fato, nunca consegui decorar mais nada, tratei de me desvencilhar da imagem de CDF. Comecei a brigar com Deus a partir deste poema. Nunca me relacionei bem com elogios.
Era tão refratário que cheguei a suspeitar de assédio quando um professor de física me disse numa festa, já meio bêbado, que uma definição minha sobre a Teoria da Relatividade havia sido a resposta mais genial que ouvira em toda sua vida. Este pretérito-mais-que-perfeito degringolou. Dois semestres depois fui reprovado em física e só não repeti o semestre do curso técnico em Geologia porque mudaram o currículo e não havia turma. E fui eliminado no vestibular para Geologia em Ouro Preto na prova de matemática.
Elogios sempre me deixaram encabulado, arredio. Desde quando me entendo. O diabo é que as críticas sempre calaram fundo. Nunca entendi muito bem esta expressão, mas calar fundo parece conter a intensidade do que eu quero dizer.
Parte da culpa por não digerir bem os elogios atribuo ao meu pai. Talvez para valorizar, por insensibilidade, por brincadeira sádica (herdei um pouco disso), ou pela mesma dificuldade em aceitar, quando ouvia elogios dirigidos a mim sempre desmerecia: – Esse aí? que nada! Esse não é de nada. Gordo sacana, que Deus o tenha.
O fato, ou seqüela, é que passei a associar elogio a gozação. Sempre achava que as pessoas estavam sendo falsas por um motivo qualquer ou curtindo com a minha cara. – Esse aí? Não é de nada. A sentença ou maldição paterna continuou a reverberar vida afora.
Aí amadureci, aumentei minha nano auto-estima que convive com um ego imenso (paradoxo?) em algumas frações de milímetros e comecei a aceitar – quando tinha certeza que não era gozação – como a maioria aceita. Ou seja, sempre com a ressalva do tipo generosidade sua, exagero seu, bondade sua, e por aí vai. Foi assim no começo deste Licuri, principalmente no suicidado primeiro Licuri, quando respondia sempre aos comentários elogiosos ao texto com um enfático menas, menas!. Foi assim mais recentemente quando Inamar, um primo que tenho em alta conta, colocou um dos meus textos no nível dos de Hemingway. É mole?
O elogio me trava também. Outro dia recebi no trabalho a incumbência de redigir um texto de 15 linhas para um folder. O diabo é que a empreitada veio junto com um elogio. Batata. Passei cinco horas de relógio [hora de relógio é a unidade de tempo mais precisa e enfática já inventada em todo o mundo] em cima do computador e o texto só saiu depois de uns 15 e-mails de cobrança e uns 30 telefonemas avisando que o tempo havia acabado e que haveria multa pesada na gráfica.
O pessoal que me convocou para participar da primeira edição de uma nova revista, que será lançada no próximo mês pela Unifacs, arrancou os cabelos. Junto com a pauta – um perfil de uma uma figura brasileira de projeção internacional – veio o maldito elogio. A entrevista fluiu, o sujeito é magnífico, mas na hora de fazer o texto… A labuta me custou pelo menos 20 dias e o fim antecipado das férias. Na verdade fiz a matéria em um dia, talvez um pouco mais, mas no último do último, último mesmo, agora último, olhe lá, é o último dia do prazo. Os 19 anteriores foram dedicados à postergação, agravada pelo maldito elogio ou gozação.
Mas mudei de fase novamente. Resolvi enterrar de vez a modéstia, ou a falsa modéstia, e aceitar todos os elogios sem absolutamente nenhuma ressalva. Acreditar piamente em todos. E transferir toda a minha incredulidade para as críticas. Estas sim, serão ignoradas, desqualificadas e bloqueadas de agora em diante.
E começo esta nova fase com o elogio da Aeronauta ao texto do post da foto dos meus avós, mãe e tios, que está aí logo abaixo. Sem mais rodeios, ela simplesmente disse que meu texto estava no nível de A Câmara Clara, de Roland Barthes. Sem mais rodeios e completamente crédulo, embora só conheça Barthes de fama, respondi obrigado, assim, íntegro, sem ressalvas, verdadeiro, acompanhado de uma declaração de felicidade, também sincera. Com Nilson a mesma coisa. Agradeci e aceitei a reverência. Pronto, está criada a terapia da aceitação irrestrita do elogio. Vou lançar um livro de autoajuda com a fórmula e deixar o tal de O Segredo no chinelo.
E pode elogiar também a foto abaixo. Já estou preparado.

Em Vitória da Conquista, com um ano e seis meses