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É hoje

06/06/2009

 

Mônica em geremiasClique na foto para ver o álbum.

Estréia de Mônica na peça Jeremias, na Sala do Coro do TCA.

Merda pra você, mana.

Vá entender, mas é desta forma estranha que o povo de teatro deseja sorte uns zon zotro.

A bela foto da procissão é de Haroldo Abrantes, furtada do portal A Tarde. Mônica é a última do lado direito, com o xale na cabeça. Faz o papel da mulher de Jeremias, o ator Antônio Fábio, ajoelhado ao seu lado.

P.S

Mundo Pequeno. Descubro agora o blog da autora do texto da peça, Adelice Souza.
Ela nasceu em Castro Alves, numa cidade e numa rua que fazem parte das cidades e das ruas da minha infância.

Um minutinho só

18/04/2009


Filme de Maurício Lídio Bezerra, estudante de comunicação da Ufba,  vencedor da categoria celular, do Grande Prêmio **** do Cinema Brasileiro. Os asteriscos são o nome de uma operadora de extorsões, como absolutamente todas as que operam enfiando a faca e prestam serviços porcos neste Brasil varonil.  Mas o filme é bacana. Em um minuto o cara construiu uma bela(?) história.

P.S: leia mais sobre Maurício e sobre a premiação no blog Cultura Digtal Bahia.

Valha-me meu Santo Antõnio da Anta Gorda

23/01/2009

Depois de chorar o Chorik que se mandou, apenas por uns tempos, espero, foi a vez de constatar o fim da Menina da Ilha.  Paulo Galo já havia parado e Maria Fabriani não posta desde o primeiro Advento do ano que passou.  Blog é um negócio cíclico, como época de gude e arraia e de tudo o mais nesta vida.

Mas ainda tenho gás e estou aqui me coçando para contar a tal viagem, nascida de uma entrevista com um médico de 85 anos. Na verdade a mãe de tudo é Soraya, que vinha  sugerindo há algum tempo uma viagem de férias, não seria  tão caro assim, poderíamos achar uns chalezinhos em conta para acomodar todo mundo. E achamos.

A última viagem da renca de férias, noves fora Natal e São João para Iaçu, Conquista e Minas, foi há seis anos para Igatu e Andaraí, quando Maria sequer existia. Teve o reveilon do ano retrasado, na Ilha, com  Marcinha, mas foi uma coisa rápida. Ano passado passei janeiro trabalhando.

A  tal entrevista foi decisiva. O sujeito já viajou o mundo, todos os destinos exóticos imagináveis  e na última pegou o transiberiano, se picou para a Mongólia. Acampou numa tenda mongol com direito a xixi ao relento do frio de rachar Gengis Khan.

Então pensei  cá com meus botões, dinheiro não tenho para ir tão longe mas tenho uma barraca e uma renca. Por que não?

Pensamos inicialmente em  Camamu e Barra Grande, mas optamos pelo Pratigi, onde estive há dez anos a trabalho, na inaguração da estrada. Mergulhei  naquele mar com roupa e tudo e prometi um dia voltar lá. Voltei.

Tenho algumas destas promessas ainda na cabeça.

Ia a trabalho, passava um, no máximo dois dias, e sonhava, e prometia voltar  com mais calma e com os meus. Nunca havia cumprido sequer uma destas promessas. A Cachoeira de Tremembé, também no Baixo Sul, Gentio do Ouro, próximo a Xique-Xique,  o Parque Estadual das Sete Passagens, em Miguel Calmon, Correntina, no Oeste, são alguns destes destinos sonhados.

Viajei com a Viagem do Elefante na cabeça, resultado da leitura de presentes de fim de ano. Uma amiga recomendou, com o devido esclarecimento de que era best seller mas era muito bom. Não tenho preconceito com best-sellers. Pra mim tem a vantagem adicional de poder ser lido até o final. Gosto de Saramago, do português de Portugal, que é a mesma coisa sem ser, como o ditado sobre o bom entendedor, para quem até meia palavra sobra.

Lá pelas tantas, ao explicar um deus indiano, ele se refere a um deles que não se preocupava em ter filhos, posto que era imortal. Ao ver Luluthica ansiosa para acordar de madrugada e ir ver o sol nascer, eu me senti meio que continuado nela.

A viagem me colocou mais perto deles e de Soraya. Nos colocou a todos um perto do outro. Demasiadamente perto muitas vezes. Era briga todo dia, mas era grude também.

Já falei sobre o primeiro dia, no post do dia 07, quando saímos às 8h30 da manhã de Iaçu para Ituberá , do licuri em direção ao dendê, com o Vale do Jequiriçá no caminho. Acrescentei no post antigo duas fotos que não entraram naquele dia por dificuldades na lan house.

A Cachoeira dos prazeres, no Rio Jequiriçá, foi ocupada bem ao modo  de quase tudo neste país.  De um lado invadiram os pobres, com seus quiosques movidos a churrasco e arrocha. Na outra margem,  o melhor hotel da região também não se acanha de quase cair dentro d´água para dar conforto e proximidade aos seus clientes. Mas eu não vim aqui para me queixar. A água estava boa e limpa, e ter uma cachoeira no juízo, despencando na cabeça, de fato  é um dos prazeres desta vida.

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Auta Maria

16/09/2008

 

O passar do tempo é também contar ausências nas fotos. Nesta acima, de exatos 25 anos, na porta da igreja do casamento de Stael e Marcelo, já são duas. No centro, de vestido azul,  está Auta Maria, que herdou o nome das nossas avó e  bisavó. A mesma Auta da segunda foto, parecida com a  minha Maria, de mão dada com meu tio e padrinho João, ao lado de minha irmã visitante Rita, num destes sertões onde eles moraram.

 

Na primeira foto Stael fala alguma coisa a ela, que se foi no final de 1993, 10 anos depois. Na extremidade direita  está Álvaro Vasconcelos, atrás de Josias, de braços cruzados. Alvinho também já não está entre nós. Era natureba radical e preferiu não enfrentar o tratamento de um câncer só descoberto já na metástase e se foi em menos de dois meses. Alvinho era uma figura, um dos mais sabidos da turma da Escola Técnica. Deixou duas filhinhas lindas.

 

Dizer que Auta se foi é amenizar uma tragédia. Ela estava numa fase de retomada da vida, feliz, em Porto Seguro, com um salão de beleza. Defendeu e deu guarida a uma funcionária que estava sendo assediada pelo padrasto e acabou morta com um tiro pelas costas, dentro de casa.

 

Lembrei de Auta ao desarrumar uma grande caixa em busca das fotos do casamento de Stael. Auta é filha de minha tia e madrinha Alzira. Quando criança, nossas famílias dividiram a mesma casa em Conquista antes deles irem para São Paulo e a gente para Castro Alves. Passei muitas férias na casa de tia Alzira em Jequié ou nos diversos sertões por onde eles andaram.

 

Auta foi velada na capela do Hospital onde nasci, o São Vicente. Ela tinha os olhos azuis do nosso avô. Lembro que saí pelas ruas próximas a buscar um tecido de tule para cobrir seu rosto.

Terapia da aceitação irrestrita do elogio

18/08/2008

Complexo Escolar Polivalente de Castro Alves. Aos 11 anos, mais uma vez no papel de declamador oficial de Vozes D'África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…
Qual Prometeu tu me amarraste um dia…

E por aí seguia no meu destino de declamdor de Vozes D’ África.

Passei um bom tempo achando que um dia Deus, de fato, prometera amarrar a África. Só anos depois, ao estranhar o título da peça Prometeu Acorrentado, a ficha caiu. Não tinha a menor idéia do que significava o “tomba ressupino”, destino do cavalo estafado do beduíno, mas estava lá eu emocionando velhinhas, tirando onda como menino prodígio do interior.

Era um 06 de julho de 1971. Aos dez anos, lançava meu brado retumbante em praça pública na pequena Castro Alves, no palanque armado ao lado da estátua do Poeta no dia do centenário da sua morte. De tempos em tempos, o garoto era chamado a repetir o feito, como nesta foto na sala de aula, provavelmente em 1972.

Alguns meses depois da glória, com problemas nas notas e no comportamento, entreouvi de uma professora: – Elogiaram demais este menino. Veja no que deu. De fato, nunca consegui decorar mais nada, tratei de me desvencilhar da imagem de CDF. Comecei a brigar com Deus a partir deste poema. Nunca me relacionei bem com elogios.

Era tão refratário que cheguei a suspeitar de assédio quando um professor de física me disse numa festa, já meio bêbado, que uma definição minha sobre a Teoria da Relatividade havia sido a resposta mais genial que ouvira em toda sua vida. Este pretérito-mais-que-perfeito degringolou. Dois semestres depois fui reprovado em física e só não repeti o semestre do curso técnico em Geologia porque mudaram o currículo e não havia turma. E fui eliminado no vestibular para Geologia em Ouro Preto na prova de matemática.

Elogios sempre me deixaram encabulado, arredio. Desde quando me entendo. O diabo é que as críticas sempre calaram fundo. Nunca entendi muito bem esta expressão, mas calar fundo parece conter a intensidade do que eu quero dizer.

Parte da culpa por não digerir bem os elogios atribuo ao meu pai. Talvez para valorizar, por insensibilidade, por brincadeira sádica (herdei um pouco disso), ou pela mesma dificuldade em aceitar, quando ouvia elogios dirigidos a mim sempre desmerecia: – Esse aí? que nada! Esse não é de nada. Gordo sacana, que Deus o tenha.

O fato, ou seqüela, é que passei a associar elogio a gozação. Sempre achava que as pessoas estavam sendo falsas por um motivo qualquer ou curtindo com a minha cara. – Esse aí? Não é de nada. A sentença ou maldição paterna continuou a reverberar vida afora.

Aí amadureci, aumentei minha nano auto-estima que convive com um ego imenso (paradoxo?) em algumas frações de milímetros e comecei a aceitar – quando tinha certeza que não era gozação – como a maioria aceita. Ou seja, sempre com a ressalva do tipo generosidade sua, exagero seu, bondade sua, e por aí vai. Foi assim no começo deste Licuri, principalmente no suicidado primeiro Licuri, quando respondia sempre aos comentários elogiosos ao texto com um enfático menas, menas!. Foi assim mais recentemente quando Inamar, um primo que tenho em alta conta, colocou um dos meus textos no nível dos de Hemingway. É mole?

O elogio me trava também. Outro dia recebi no trabalho a incumbência de redigir um texto de 15 linhas para um folder. O diabo é que a empreitada veio junto com um elogio. Batata. Passei cinco horas de relógio [hora de relógio é a unidade de tempo mais precisa e enfática já inventada em todo o mundo] em cima do computador e o texto só saiu depois de uns 15 e-mails de cobrança e uns 30 telefonemas avisando que o tempo havia acabado e que haveria multa pesada na gráfica.

O pessoal que me convocou para participar da primeira edição de uma nova revista, que será lançada no próximo mês pela Unifacs, arrancou os cabelos. Junto com a pauta – um perfil de uma uma figura brasileira de projeção internacional – veio o maldito elogio. A entrevista fluiu, o sujeito é magnífico, mas na hora de fazer o texto… A labuta me custou pelo menos 20 dias e o fim antecipado das férias. Na verdade fiz a matéria em um dia, talvez um pouco mais, mas no último do último, último mesmo, agora último, olhe lá, é o último dia do prazo. Os 19 anteriores foram dedicados à postergação, agravada pelo maldito elogio ou gozação.

Mas mudei de fase novamente. Resolvi enterrar de vez a modéstia, ou a falsa modéstia, e aceitar todos os elogios sem absolutamente nenhuma ressalva. Acreditar piamente em todos. E transferir toda a minha incredulidade para as críticas. Estas sim, serão ignoradas, desqualificadas e bloqueadas de agora em diante.

E começo esta nova fase com o elogio da Aeronauta ao texto do post da foto dos meus avós, mãe e tios, que está aí logo abaixo. Sem mais rodeios, ela simplesmente disse que meu texto estava no nível de A Câmara Clara, de Roland Barthes. Sem mais rodeios e completamente crédulo, embora só conheça Barthes de fama, respondi obrigado, assim, íntegro, sem ressalvas, verdadeiro, acompanhado de uma declaração de felicidade, também sincera. Com Nilson a mesma coisa. Agradeci e aceitei a reverência. Pronto, está criada a terapia da aceitação irrestrita do elogio. Vou lançar um livro de autoajuda com a fórmula e deixar o tal de O Segredo no chinelo.

E pode elogiar também a foto abaixo. Já estou preparado.

Em Vitória da Conquista, com um ano e seis meses

Itaquaraí, Bahia, 29 de julho de 1937.

14/08/2008

São meus avós, Auta e Antônio, rodeados pelos 10 filhos. Minha mãe é a sorridente, de tiara, na frente da matriarca.

Imagem rústica, sem retoques, de uma família pobre, nobre, sertaneja. Pai, mãe e dez filhos. Pela expressão da mãe, com o cenho franzido, dá pra sentir a labuta.

Esta foto me impressiona. Como num clique ao contrário, ela captura a minha atenção e passo da condição de observador para a de observado.

A foto me vê. Ela me devolve o olhar de tios com quem convivi, que me acolheram e cuidaram de mim em muitos momentos da minha infância.

Talvez esta imagem seja tão tensa e intensa porque levou 20 anos para ser feita. Era a primeira e foi a única de toda a família reunida. São muitos momentos resumidos em um só, que traz todos os outros subentendidos.

Era um dia solene, com a novidade de um fotógrafo na pequena vila sertaneja. Era festa, uma jornada de batizados, casamentos, confissões e catequese. A filha caçula, no colo da irmã, tinha 20 dias e houve resistência da mãe em levar a pequena para a rua, para o tempo.

Auta, ainda com 41 anos incompletos, vivia o último resguardo, aquele que completou a família, depois de 20 anos de uma rotina de um parto vingado a cada dois anos, além de outros dois filhos que morreram pequenos e mais um aborto espontâneo de gêmeos. Naquela casa, sem energia elétrica, sem água encanada e com fogão a lenha, houve sempre cueiros no varal e criança aprendendo a andar e a falar por duas décadas.

Antônio, aparentemente mais relaxado – dos homens não se exige tanto – traz um meio sorriso e a elegância da gravata para ocasiões especiais. Parece um sujeito bem-humorado. Há pouco havia completado 42 anos.

Tomo um susto ao constatar que este cara aí da foto é mais novo do que eu.

Além do esmero das roupas, os sapatos chamam a atenção. Alguns foram comprados especialmente para a ocasião. Eles revelam o cuidado, o carinho dispensado a cada filho, o capricho de quem não dispões de muito, mas vai no limite para dar o mínimo de conforto e dignidade à família. 

E dignidade é a palavra que define esta imagem, que caiu em minhas mãos como uma herança valiosa há cerca de três anos. Uma fortuna afetiva que aqui compartilho.

 

(P.S peço perdão aos poucos leitores antigos do Licuri por repetir  foto e  texto, publicados nas duas versões anteriores deste coco pequeno. Tocado pelas imagens de memória afetiva da Aeronauta e de  Maria Sampaio  fui também em busca dos meus)

 

 

Acarajé e charque

18/06/2008

Mônica
Minha irmã Mônica Gedione, atriz e estudante de teatro, resolveu aderir ao Yakult. Foi lá que peguei esta foto de sua performance “Joana dos Alagados”, envolvida numa camisa de charque e bezuntada de dendê, num trabalho escolar de teatro essencial.
Bota essencial nisso.

Cínico

14/06/2008
Este blog tem alguns leitores silenciosos e vigilantes que me acionam sempre ao ler algo preocupante, merecedor de esclarecimento ou puxão de orelha ao vivo. Outro dia recebi um telefonema: Você esta bem? Tou ótimo. É porque li no seu blog…
Desta vez fui avisado de que querem conversar comigo a respeito da “explicação” para Maria sobre crianças dormindo na rua. Fui taxado de, no mínimo, omisso diante confusão da menina ao se deparar com a cena inédita e estranha para ela.
Nâo tentei explicar simplesmente porque não sei.
O que leva crianças a dormirem na rua, na calçada sem forro e sem cobertor, num dia chuvoso? Não tenho explicação.
Outro dia saí do filme o pianista e vi uma criança na chuva pedindo dinheiro na sinaleira. Fiquei mal. Associei a vida desta criança à daquela massacrada ao tentar voltar ao gueto por um buraco no muro.
Cenas como essas ainda me chocam, mas a diferença é que agora tenho convicção de que não tenho explicação. Quero evitar coisas óbvias do tipo que país é este, ou que pais são esses.
Crianças dormindo na calçada vão além do meu entendimento. Não acredito em Deus, tampouco tenho fé nos homens e na humanidade.
Sou um cínico fracassado. Constituí família, coisa que não combina com um cínico. Não queria ter filhos. Até os 34 anos era adepto de Brás Cubas, não queria transmitir o legado da minha miséria material, da minha anemia espiritual e da minha fragilidade emocional. Por um golpe de sorte, fui premiado três vezes e eles têm-me feito menos pior.
Quanto à Maria e seu espanto, ela ainda terá a oportunidade de tentar entender.

Morar na janela. Na Rua? No chão? O cais e a volta no forte

08/06/2008

Luísa na escola, André na escola, Soraya na escola, cada qual na sua escola e sobrou a manhã de sábado para mim e Maria. Manhã livre para gastar no que der e vier. Deixamos André, deixamos Soraya em Brotas, Luísa foi sozinha. Fomos então em direção aos meus nove anos, ao Largo 2 de Julho dos meus nove anos, em direção à Mônica, irmã que mora em uma janela no Areal de Cima, numa das mais belas janelas da Baía de Todos os Santos. Mônica mora num lugar onde  eu sonhei morar, numa kitinete na Rua  Areal de Cima, num edifício do fim dos anos 50, início dos 60, com o nome na fachada em letra cursiva, numa elegância fake: Edifício Calábria. É um dos sonhos não concretizados, como ter uma Olivetti Praxis, uma Pentax 20 ou um Gurgel. Até possíveis agora, mas já  inúteis ou não cabem mais na minha vida. Quem sabe na velhice, se velho ficar, ainda more em uma janela debruçada sobre a baía?

Ao ser lembrada da última visita ao forte, Maria pediu um bis. Talvez pelo passeio de barco.

Na calçada do Elevador Lacerda três garotos dormiam na calçada. Nada sobre eles, nenhum forro. Maria  já vinha olhando e manteve o olhar  quando passamos. Voltou a cabeça pra trás e permaneceu olhando, arrastada, quase sem equilíbrio. Paramos. Ela soltou a minha mão, se virou completamente.

_ Por que eles estão dormindo aí?

_ Devem ter ficado acordado pela rua até tarde, aí ficaram cansados e dormiram.

_ Na Rua? No Chão?, perguntou novamente,  com forte entonação em rua e chão. Ficou sem resposta.

Continuou calada, eu também. Pensei que tivesse esquecido.

Passamos por dentro do Mercado Modelo, hordas de turistas de junho começam a chegar, todos devidamente assediados por vendedores de correntes, por ciganas, por uma tropa de garçons que perguntam a todo o momento se a gente quer sentar, se quer comprar, se quer isso e aquilo e eu vou me livrando com o clássico bordão: sou baiano, rei.

Meninos dormindo na calçada, vendedores pedintes, parte de um quadro previsível. Antes achava que eles espantavam os turistas. Já penso ao contrário. Atraem. Fazem parte da miséria que eles, de alguma maneira, querem ver. Pagam pra ver. Bahia sem capitães da areia? Não é Bahia.

Já na porta do  terminal de embarque paramos para uma água de coco. Maria pediu um batom. Eu também. Comemos batom e entre uma tragada e outra da água de coco, Maria comentou, assim, aparentemente do nada.

_Eu nunca vi pessoas dormindo na rua.

 
Sentados com as pernas penduradas eu e Maria, Maria e eu ficamos uns bons 15 minutos na ponta do cais móvel do forte (este em T aí em cima)  ao som de um reggae que vinha de um barco em manutenção e da  oscilação do pequeno cais, que aumentava quando passava um barco. Ficamos ali olhando os peixes e uma mancha de óleo transparente sob nossos pés.  O  marinheiro sumia e aparecia junto ao casco com óculos de mergulho e espátula. Foi Maria quem viu.
_ Olhe o homem lá. Vai aparecer.
_Olha três barcos! Três pra Maria, que tem três anos, significa quantidade. Havia muitos barcos na Baía.
Eu e minha caçula, somente  a gente, num programa raro, talvez único. Com Maria fiz uma coisa que nas únicas três vezes anteriores que estive no forte, todas de um ano pra cá, tive só vontade. Andar em torno da borda,  na parte de cima. Antes que você me julgue mais maluco do que eu sou, a borda tem uns 10 metros de largura, e mesmo que  seja um pouco inclinada para fora, caminhamos rentes à parte de dentro. Maria notou a diferença.
_ Aqui bate um ventinho.
Mas o passeio terminou antes do círculo se fechar. Assim como a terra, o forte não é absolutamente redondo, é achatado em um dos pólos. E este achatamento deu fim ao nosso passeio circular.

Avós

10/02/2008

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Avós maternos de Obama, em álbum publicado pelo Chicago Tribune. Ando interessado na família do cara, que foi criado cercado de muito carinho. Os pais se separaram quando ele era criança, mas ao que parece ele se deu muito bem com o padastro e continuou se relacionando com os avós maternos. (atualizado em 11/02)

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Esta é a avó de Barack Obama, fotografada no Quênia por um jornal sueco e que ilustra um post de Maria, no blog Montanha Russa.  

 

E abaixo um post da Aeronauta sobre a avó dela diante da morte do avô.  

 

Quando meu avô morreu, minha avó teve um comportamento considerado estranho, principalmente por sua cunhada, irmã de meu avô, que não gostou nem um pouco do que viu.
Era noite quando chegamos lá na roça. Eu abraçava minha mãe e não acreditávamos naquilo tudo: a casa cheia, uns candeeiros clareando a imensa sala, e muita gente chorando. Minha avó foi nos receber na porta, assim como ela estava fazendo com todas as pessoas que chegavam. E também repetiu o que dizia desde que ali entrou a primeira pessoa: “Parem com essa besteira de chorar, gente! Que chororô que nada! Todo mundo um dia vai morrer! Hoje foi ele, amanhã sou eu, depois serão vocês! Entrem, entrem, mas nada de choro, nada de choro!” A repetição empolgada do “entrem, entrem”, fazia parecer que ela abria as portas para uma festa. Claro que achei estranho, mesmo sabendo que minha avó sempre foi tirada a engraçada, quase seca para a vida, fazendo desdém das coisas, mas naquele dia ela ultrapassava todos os limites.
Fomos para o quarto: eu, mãe, minha tia, minha prima… Mãe estava mal, chorava muito. E minha avó, depois de receber as últimas pessoas que chegavam, entrou com um rompante no quarto que estávamos e tratou logo de explicar como meu avô morreu: “Assim, ó, de repente, sem quê nem pra quê! Depois dei banho, tá lá todo limpinho, cheiroso, ninguém pode dizer que não cuidei!” Dizendo isso, foi se sentando na cama junto com a gente, sem uma lágrima no olho, numa excitação juvenil: “Deixem eu falar pra vocês o que sofri com esse véi a vida toda!” Daí abriu sua vida, contou tudo, desde o casamento até aquele dia. “Ah, minhas filhas, esse véi nunca prestou, não é porque morreu que eu não vou contar tudo”. E abriu mesmo o verbo: todas as traições, os filhos que ele teve fora do casamento, as pensões para as outras que ela sempre lhe obrigou a pagar… “Na primeira traição desmanchei o jirau e nunca mais dormi com ele! E digo mais, minhas filhas: tomara que não tenha ninguém na família que puxe a este homem!”
Assim foi a noite toda: minha avó, lavando a alma, contou o que queria com muita graça, e nós não conseguimos deixar de não rir. Até mãe chegou a rir numa determinada ocasião, mesmo com o rosto inchado de chorar.
Na casa todos comentavam aquele comportamento de Dona Calu. Que coisa! Nem uma lagrimazinha! “Esse véi foi ruim demais, minhas filhas, e que Deus lhe perdoe!”, ela repetia. Minha tia-avó (irmã de meu avô),diante de todo esse teatro, se sentou na cozinha e ficou lá com a cara amarrada de ressentimento. No outro dia, bem cedo, acordamos com as ladainhas tiradas, na sala, por minha avó bastante animada. As rezas eram tristes, mas ela alteava no tom e a coisa perdia um pouco a dramaticidade. Na hora do adeus final, foi ela quem ordenou aos filhos fazerem uma fila para darem a benção ao “véi” que estava partindo. “E os netos também, têm que vir”, ela gritou. Lá fui eu na fila. Minha irmã fingiu que ia, aproveitou a distração de minha avó e não foi não, se escondeu no meio do povo. E a ordem continuava: “Dêem a bênção e beijem a mão dele!” Todos obedeciam. As pessoas presentes buscavam lágrimas nos olhos dela e, nada achando, murmuravam entre si: “Como é que pode? Que velha dura é essa?
A fila dos parentes todos se despedindo foi grande. Isso levou mais ou menos uns trinta minutos. Depois ela voltou ao comando: “Tampem o caixão, está na hora!” Na porta, uma caminhoneta com o fundo aberto esperava. O cemitério era longe, o enterro seria acompanhado de carro. Os filhos pegaram o caixão e foram saindo, colocando-o, a seguir, na caminhoneta. Minha avó no batente da porta olhava, com o olho seco. Fecharam a caminhoneta. O motorista ligou o carro. Minha avó no batente da porta olhava para tudo aquilo, dura. Depois mexeu no lenço da cabeça e começou um choro longo, doloroso, entrecortado de soluços.” 

(Blog Aeronauta, 4 de dez 2007)  

 

Mãe dos meus filhos

13/05/2007