
Já ia pela metade de Crime e Castigo quando me deparei com Misto Quente, de Bukowiski, numa versão pirata e on-line. Li e fiquei impressionado com a crueldade de um pai. Vou capengando pelas agruras de Raskólnikov e começo também a ler Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, motivado pela estréia da peça na próxima semana, dirigida por Marfuz. Estou também na metade de uma biografia de um personagem de um perfil que vou fazer como frelancer para uma revista nova.
Sou assim. Quando não estou bem da cabeça, leio. Foi assim quando eu não estava bem da cabeça e fora do mundo entre 1988 e 2000. Lembro que comecei a aterrissar quando, sem ter o que fazer na vida, criei um cartão na biblioteca dos Barris e li uns 10 livros em pouco mais de um mês. Lembro que dos 12 aos 15 ou dezesseis lia mais. Como tenho pouca memória, retenho pouco do que leio. Uma cena, uma situação, acho que o que fica de fato, se é que fica, está lá no inconsciente. Mas o que faço mesmo é deixar muitos livros pela metade.
Juliana Cunha fez um texto para a revista da Metrópole, sobre um livro que defende a idéia como a leitura é fragmentada, chega aos pedaços. E sobre a incapacidade de se ler tudo e as mentiras sobre o que lemos. Lemos pedaços de livros, orelhas, ouvimos falar. Como de resto na vida: editamos o que vivemos, o que desejamos viver, editamos e vamos vivendo também de fragmentos.
Queria muito ter habilidade com línguas. Sou um fracasso. Nunca consegui aprender inglês. Um ano e dez meses na Rússia não me deixou apto a ler os russos no original. A convivência com latinos também não adiantou muito na minha não fluência em Espanhol.
Tento, com a ajuda de traduções, ler Crime e Castigo no original e testemunho a farsa que é uma tradução da tradução, o que eleva ao quadrado a máxima tradutori, traitori. Paulo Bezerra traduziu do original. Menos mal. Mas Cláudio de Castro, na coleção Biblioteca Folha, deve ter traduzido do inglês ou francês. Aí ficou difícil.
Veja só a diferença nas primeiras linhas do romance.
Paulo Bezerra
Ao cair da tarde de um início de julho, calor extremo. Um jovem deixou o cubículo que subalugava de inquilinos da travessa S., ganhou a rua e, ar meio indeciso, caminhou a passos lentos em direção à ponte K.
Saiu-se bem, evitando encontrar a senhoria na escada.
Seu cubículo ficava bem debaixo do telhado de um alto prédio de cinco andares, e mais parecia um armário que um apartamento.
Cláudio de Castro
Era um maravilhoso entardecer de julho, extraordinariamente cálido, um rapaz deixou o quarto que ocupava no sótão de um vasto edifício de cinco andares no bairro de S*** e, lentamente, com ar indeciso, se encaminhou para a ponte de K***.
Teve a felicidade, ao descer, de não encontrar a senhoria, que morava no andar inferior.
Original
В начале июля, в чрезвычайно жаркое время, под вечер, один молодой
человек вышел из своей каморки, которую нанимал от жильцов в С-м переулке, на улицу и медленно, как бы в нерешимости, отправился к К-ну мосту.
Он благополучно избегнул встречи с своею хозяйкой на лестнице.
Каморка его приходилась под самою кровлей высокого пятиэтажного дома и походила более на шкаф, чем на квартиру.
De onde Castro tirou o adjetivo maravilhoso? Quente pra caralho seria mais perto da realidade. Pior, da frase abaixo, que vem em seguida, usou apenas a informação de que o cubículo, que traduz por quarto, ficava no sótão de um edifício de cinco andares. Trocou alto por vasto, que são coisas distintas, e sonegou o restante, a informação que o cubículo mais parecia um armário que um apartamento. Esta visualização do ambiente é fundamental para entender o lugar onde o sujeito vivia.
Agora você talvez entenda o motivo de ter largado algum dos romances russos pela metade.