Interrompo aqui, extraordinariamente, esta série sobre as férias para registrar um comentário enviado hoje ao post Sapatadas por Alex Baradel:
Prezada Maria Sampaio,
li artigo sobre Voltaire Fraga no “Muito” e confesso que gostaria de conhecer melhor a obra dele. Onde é possivel ver mais fotos desse fotógrafo? (além da exposição em São Paulo?)Estou muito interessado por Pierre Verger e sua obra, e não entendo que mal Pierre Verger fez em relação a Voltaire Fraga para a senhora parecer tão amarga contro Verger (é apénas porque Verger é mais conhecido que o Voltaire Fraga? E porque Verger é francês de nascimento? Ele se comportou mal por alguma coisa?).
Li no Muito que Verger teria copiado a obra do Voltaire Fraga. Me interesse muito em saber se os dois fotógrafos se conheceram, fotografaram junto, como o Verger tomou conhecimento da obra fotográfica do Voltaire Fraga, etc…
Agradecendo.”
Repassei o comentário para Maria, mas resolvi dizer o seguinte:
Monsieur Alex Baradel,
Enviei seu questionamento e perguntas a Maria Sampaio. Como foram dirigidos a ela, cabe a ela responder. Mas como eu também sou fã de Verger, de Maria e de Voltaire, me autorizo a responder a algumas de suas questões.
Li a matéria da Muito, um ótimo trabalho do repórter Vitor Pamplona, e não me recordo da afirmação de que Verger teria copiado Voltaire. Também é injusta a atribuição de amargura a Maria. Tai, quem conhece um pouco Maria sabe que amargura é um sentimento distante, muito distante dela.
Não conheço nada desabonador em Verger. Ao contrário. A única pessoa de quem ouvi falar mal de Verger foi eu mesmo. E explico: vi numa exposição sobre sua obra uma linha do tempo em que na primeira foto ele aparece garotinho, de paletó, com a família, na França. E na última, com uma bata africana, já sarcedote. Ou seja, Verger nasceu francês e morreu afro-baiano. Pensei.
Tempos depois assisti a um documentário (aqui relatado) com depoimentos de Arlete Soares sobre sua relação com Verger, de amiga e produtora.
Acontece o seguinte. A última atitude de Verger foi passar em vida a sua obra para o controle de franceses. Minha nova dedução: o cara na verdade nasceu e morreu europeu. Pensando em proteger seu trabalho, confiou apenas nos seus iguais.
Diante da morte, não confiou seu trabalho aos neguinhos que tanto retratou e amou. Acabou se repetindo a velha história do branco que vem, se locupleta (não é só de bens que a gente se locupleta) e depois dá uma banana para os selvagens, que são, na maioria das vezes, objetos.
Falo tudo isso com nenhuma amargura ou rancor contra Verger, um grande artista. Continuo fã deste artista europeu.