
Taí um sonho de consumo.
Mais hoje quero falar sobre outra coisa. Sobre os virtuais livros de Maria e Nilson. Veja aqui

Taí um sonho de consumo.
Mais hoje quero falar sobre outra coisa. Sobre os virtuais livros de Maria e Nilson. Veja aqui
Alegria grande. Vi há pouco um comentário num post recente, um poema de Nilson Pedro. Era de Luiza Meira, que embarcou conosco no passeio de trem, como convidada de Franciel, um cara cujo sucesso do blog gerou até uma legião de francietes. Cliquei no link com o nome e shazam… é esta imagem que você vê acima. Ouça também. Hoje a tarde estive a ouvir idéias interessantes de quatro escritoras, ao lado de uma escritora e fotógrafa, Maria Sampaio.
Poetas, escritores, musicistas, fotógrafa. Continuo platéia do mesmo jeito, mas estas pessoas estão ao alcance num clique e também acessíveis na vida real. Eu os conheço e eles me conhecem. Somos contemporâneos, eu os vejo também pessoalmente e isto me torna uma pessoa importante, isto me alegra.
Tudo isso para falar sobre blog e esta atividade de escrever coisas diárias nesta tela que você lê. Este negócio aqui me conecta ao mundo, a pessoas bacanas, pessoas especiais. Como naquela propaganda da loja de sanduíche, amo muito tudo isso.

Não se cria um deus num quarto
de dormir; um poema, sim.
Não se cria um estado debaixo
do chuveiro; um poema, sim.
Não se vai a Marte num piscar
de olhos, mas se vai num poema.
Não se conjuga a beleza e o horror
com um gesto apenas; mas isso se faz
com um poema. Ninguém se rende à
história, mas ao poema, sua carne
alucinada.
Poema de Nilson Pedro, do Blag.
Gostei da humanização, de saber que o poeta correu atrás para terminar a bela casa. Da entrevista de Toquinho, de saber que Tarde em Itapuã quase vira trilha sonora pra vender casa (se fosse hoje, com este boom imobiliário, certamente viraria. E se a Paralela ou o Cabula fosse perto de Itapuã correria novamente o risco de virar na atualidade).
E por falar em humanização, a matéria da Madame me instigou e eu fui pesquisar. Cheguei à conclusão de que quanto mais ele vivia, mais corria atrás da fonte da juventude, não só na escolha do parceiro Toquinho, 33 anos mais novo, como das musas e parceiras.
Sua terceira mulher Lila, tinha 19 anos e ele 43. Quando observava o doce balanço a caminho do mar da garota de Ipanema, ela tinha 15. Só observou, pelo que pouco sei.
Sua quinta mulher era 30 anos mais nova e a sexta 26. No dia do aniversário de 57, casou com Gessy, de 31. Cinco anos depois troca a baiana por uma argentina 40 anos mais nova e finalmente se derreteu quando a 19 anos Gilda Mattoso lhe pediu um autógrafo, que resultou no último casamento, ela com 23, ele com 63. Portanto, vale o que cantou o outro poeta, o do do sertão: certo mesmo é o ditado do povo.
Sendo mais poético, diria que sempre foi fiel e viveu intensamente tanto o Soneto da Fidelidade como o Soneto da Separação. Ou atendeu vida afora, sem pestanejar, aos desejos de A mulher que passa escrito em 1933, quando tinha 20 anos. Um site interessante: aqui.
“O carrossel”, de Mark Gertler
Todo mundo mesmo…
Eu me queixo:
corro atrás
do meu eixo.
Eu me mexo,
quando não dá,
remexo.
Tô gostando. Alguém mais entra nesse carrossel?
Não consegui entrar nesse carrossel,
tinha um seixo no meio do caminho:
que é a falta de inspiração,
ou de vocação.
E eu sou o seixo
me falta o eixo
quebro a cara, o queixo
e assim sigo, me deixo
pelo menos do limo não me queixo.
(não, não virei poeta. ganhei uma)
http://sustologias.blogspot.com/
Flanando pela rede, encontrei o soneto A cópula, de Manuel Bandeira. Apesar do título circunspeto, o restante é pura sacanagem. O texto redondo, a rima perfeita, a precisão das palavras passaram cinza nos meus olhos e eu enxerguei ali apenas a inocência da moça escolhida pelo poeta em Passárgada.
Será que a cinza nos meus olhos foi a marca Manuel Bandeira? Se o poema fosse anônimo eu o teria lido desta forma?
A primeira vez que ouvi o nome do poeta foi numa antiga propaganda que habita a minha memória, cuja lembrança é apenas um agradecimento final: Obrigado Manuel Bandeira!
Aconteceu também com os poemas de amor natural de Drummond. São pornográficos, são eróticos, não bons? Teve gente que meteu o pau. Mas duvido que uma editora publicasse os mesmos versos de um iniciante. Putaria de artista velho e reconhecido é arte. Como Dirceu Villa, ignoro a fronteira entre pornográfico e erótico. Ambos podem ser bons ou ruins.
Baianão
Da poesia que trafega nas fronteiras discutíveis entre o erótico e o pornográfico, vamos aos palavrões. O que me fascina neles é a possível inocência, a depender do contexto e da boca de onde saem.
Na minha meteórica carreira em marketing político, passei dois meses em Jequié há três anos, na campanha para prefeito. Meu candidato ficou em quarto lugar, numa cédula eleitoral que continha quatro candidatos.
Mas a experiência valeu porque não levei calote, pratica comum dos derrotados políticos, fiz ioga e boas caminhadas matutinas até a torre de TV, de onde se descortina uma bela vista do vale do Rio de Contas.
Em Jequié conheci Baianão e por terceiros uma história que circula em várias versões, que comprovam a graça, a sinceridade e ingenuidade que podem estar contidas numa das frases imperativas mais populares do planeta.
Seguinte:
Baianão, tipo conhecido em toda a cidade, é uma daquelas figuras do povo que gravitam o cotidiano dos chefes políticos do interior. Um cabo eleitoral da intimidade do poder, pau pra toda a obra. Baianão estava numa festa quando partiu o salto do sapato da primeira dama do Estado, mulher do então governador da Bahia Lomanto Junior. Baianão acionado, em minutos estava de volta com o sapato reconstituído.
- Quanto foi Baianão?
- V’tomar no cu, dona Detinha! Vou cobrar um negócio desse da senhora?, bradou em alto e bom som.
Até hoje, quando alguém tenta remunerar serviços ou favores de amigos em Jeguié ouve-se a mais famosa frase de Baianão.
Faço então um extrato de Leminski …
…
já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma
morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
…
as coisas estão pretas
uma chuva de estrelas
deixa no papel
esta poça de letras
…
… mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
Poema de Luísa.
Atualizado em 26/07/2008
Post de 14/06/2007 no Licuri Uol. Os comentários estão aqui.