Posts Tagged ‘Salvador’

Passar uma chuva em Itapuã

23/12/2009

Atendo ao apelo da multidão de quatro ou cinco e-amigos que notaram ausência e volto para provar a necessidade de se tomar mesmo cuidado com os desejos. Eles podem se realizar. Então senta que lá vêm palavras e fotos para ilustrar a manhã de ontem, na volta para um mergulho com Luísa à mesma praia aonde havíamos ido domingo, quando pudemos caminhar de Placaford ao Farol de Itapuã. André e Maria já haviam sido devidamente despachados para Feira, onde Soraya também se encontra desde anteontem e nos espera hoje para seguirmos amanhã ao destino de sempre: a hospitalidade de seu Rubem Reis, em Iaçu.Mas voltando à chuva em Itapuã.
Passei as últimas semanas vendo o céu sem um fiapo de nuvem e elas resolveram se reunir para me saudar ontem.
Este retorno ao coco pequeno abandonado foi motivado pela  tal pinaúna, escrita com um a a mais no título do post anterior. Eu resolvi não consertar só para jogar luz sobre a elegância dos meus amigos, delicados revisores pelo método da repetição, recomendado para analfabetos, distraídos e crianças. Ou seja, eu ao cubo.
Voltei ontem à praia com a intenção de fotografar uma pinaúna viva.  Havia ficado mais curioso porque ao jogar ouriço do mar no Google descobri que até Aristóteles se encantou com o bicho e deu nome aos seus dentões, ou aparelho raspador, capaz de fazer buracos nas rochas. E que a Science divulgou anos atrás um estudo de um grupo de cientistas decifradores da sequência do genoma do bicho, que confirmou sua semelhança conosco, os metidos humanos. Ou seja, a simpatia não é vã. Trata-se de um primo ancestral . Preferiu morar perto da areia quando os nossos vovôs répteis resolveram se mudar para o sertão.O primo ancestral, ou melhor, o belo esqueleto do primo ancestral  jaz na estante ao lado da certidão fotográfica de casamento, de uma caninha portátil e de uma cabaça-boneca com o pescoço partido, como vocês podem ver numa das fotos publicadas aqui. Mas  o primo ouriço deverá ir para Americana, para a casa do outro primo Chorik, que demonstrou interesse em vê-lo de perto. Tentei o endereço para fazer surpresa mas como não consegui, apelo então aqui para o próprio japa me enviar por e-mail gusmaomarcus@gmail.com. Tem grandes chances de chegar lá farelo de cálcio, mas tentarei.Descoberta: a praia onde havíamos chegado pela areia domingo fica bem em frente à praça em homenagem a Vinícius de Moraes, onde há uma vaga na mesa do poeta para fotos de turista. Fizemos várias, mas resolvi me despedi logo antes que ele se engraçasse pro lado de Luísa. Veja por que aqui.O curioso é que eu não pisava nas areias do Farol de Itapuã havia mais de 30 anos. Soraya e Luísa simplesmente não conheciam o farol de perto. A real é que a Itapuã cantada por Caymmi e Vinícius não existe mais. O que vimos na caminhada desde Placaford no domingo foi lixo e casas com muros quase dentro da água. Mas, olhando bem, há ainda muito o que ver, como este poema abaixo, colado no muro da casa onde viveu o poeta.Com boa vontade e uma segunda-feira de praia vazia dá para ainda fazer uma foto  tipo cartão postal, num trecho que ainda se salva um pouco, próximo ao farol. Caymmi, Vinícius e a alma desta Bahia de todos os santos começam a aparecer com um olhar mais atento para o chão da praia, quando ficam mais  evidentes os sinais. A chuva caiu e passou.Antes de voltar para casa, uma parada na Picolino para uma boa notícia. Em março teremos a III Mostra de Artistas Circenses da Bahia.

Enquanto conversava com Anselmo sobre os detalhes da divulgação da mostra, Luísa esperava com a máquina na mão e tirou estas últimas três fotos. Nesta última, a bolinha artesanal de malabares, perdida  depois das apresentações do último final de semana. Aqui está o segredo do meu sumiço daqui deste coco pequeno. Minha atual viagem febril agora é o blog da Picolino e o facebook da Picolino, criado há 15 dias e  já com mais de de 1000 pessoas inscritas.

Luisa fez também foto do painel sobre Jailton, o mais famoso artista que já passou na Picolino, hoje na trupe  do Soleil. Jailton é uma espécie de símbolo da Picolino, o cara que foi mais longe, mas existem muitas histórias incríveis nestes 25 anos da escola. Elas serão relembradas em 2010.
Portanto, eis a dica. Se aqui não estiver, estarei sob a lona.

Silêncio!

18/09/2009

Hospital Santa Izabel 01

Minha primeira lembrança  de  hospital é a imagem de uma moça branca, com quepe branco,  dedo indicador nos lábios e a palavra silêncio em letras vermelhas num cartaz colado em quase todas as paredes.

Lembro do cheiro forte de éter,  de minha mãe deitada na cama do Hospital São Geraldo, em Conquista, convalescente de um aborto espontâneo. Lembro disso hoje, mais de quarenta anos depois, aqui  ao lado dela, deitada, convalescente de um exame simples, mas que aos 79 e artérias comprometidas exige internamento mais demorado.  

Nasci no São Vicente, da Santa Casa de Misericórdia de Vitória da Conquista, pelas mãos de irmãs parteiras. Agora estamos no Santa Izabel, também Santa Casa de Misericórdia, e ela me conta que cheguei ao hospital já coroando. Nasci cinco minutos depois, sempre apressado. Este papo a gente teve às cinco da manhã.

Nada como necessidades médicas para tirar a gente da correria pra não sei onde e nos devolver a prosa sem pressa da madrugada de um hospital.
Sua companhia oficial é uma de minhas irmãs, a caçula mulher dos seis filhos. Estou aqui de turista, na segunda noite de acompanhante. Na primeira, dormi como uma pedra e nem ouvi as gozações da enfermeira a perguntar a ela quem acompanhava quem.

Hospital Santa Izabel 02

Mas esta noite, um Tupolev disfarçado de ar condicionado nas minhas costas, com pontuais decolagens e pousos forçados a cada 20 minutos, não me deixa dormir. Então rascunhei este post e botei a conversa familiar em dia. Minha mãe está na ala mais feia do hospital, num apartamento do segundo andar de um puxadinho, construído ao lado do prédio do século XIX, cercado por gradis forjados em Valença. Minhas andanças pelos hospitais de Salvador indicam que a tendência arquitetônica adotada pela maioria é o estilo puxadinho-caixote-asfixiante.

Na ala mais antiga e mais bela do hospital, estão as enfermarias, que conheci a caminho do refeitório. Seus corredores de pé direito alto, suas portas em arco, me lembraram um hospital para onde fomos levados os estudantes estrangeiros, recém-chegados a Moscou, também num setembro, em 1983, para os exames médicos. Eu, que havia sido deslocado pra longe, tive a sensação de ter sido levado a outra viagem, desta vez no tempo. Voltei no tempo também ao percorrer  os corredores do Santa Izabel.

Não gosto de hospital, ninguém gosta, mas prefiro os mais amplos, mais abertos. O único em que se respira nesta cidade é o Sarah, pensado para aproveitar a brisa, pensado para acolher e não encaixotar. De resto, o que impera é a arquitetura do caixote e do puxadinho. Será que um dia a arquitetura do Sarah vai chegar aos demais hospitais?

Hospital Santa Izabel 03

Caridade

30/08/2009

DSC08715

Cesto de doações de livros usados no Bom Preço da Pituba: catálogo H. Stern e o livro de informática Usando o MS DOS (sim, aquele sistema das letras verdes, anterior ao Windows).

Quase

13/08/2009

Ontem voltei aos meus cinco anos. Luz, muita luz. Cor, todas as cores. Som, o violino ainda reverbera. Movimento. Corpos em movimento, num mix perfeito da babel humana. Realismo fantástico em cena. Dor e alegria. Tudo absurdamente sincronizado, roçando o limite da possibilidade humana. Quidam é um espetáculo do corpo. Não, não é por acaso que eles carregam o título de melhores. E eles são, de fato, os melhores do mundo. Conseguem ser quase tão bons quanto o Tihany dos meus cinco anos. Veja aqui.

Mais:  circopicolino.org.br

Caminho da roça

20/06/2009

caminho da roçaDSCcaminho da roça 205183Br 324 hoje pela manhã.  115 km em 2 horas e meia.
Bem melhor do que as cinco  horas do ano passado.

Aeropost

22/05/2009

1 Cruzeiro de São Francisco2 Terreiro3 ladeira4 pelô6 guarda chuva

Saí hoje em busca da Aeronauta e da sua sombrinha fustigadas pelo chuva e pelo vento. Ainda não foi desta vez.

Os paineis e o arcaz

17/05/2009

Arcaz da Sacristia

Só pelo arcaz teria valido a pena. Só pela palavra arcaz teria valido a pena. Gosto de palavras antigas e novas para mim. Arcaz acaba de ser uma delas. Talvez a conhecesse, mas não encaixada, ornamentada com o objeto que ela traduz. E os dois juntos, palavra e objeto, formam um par imperdível de se conhecer. Só não gosto de palavras amputadas, e paineis é uma delas. É muito estranho escrever paineis sem acento.

Mas voltando, o meu encontro com o arcaz da sacristia da Catedral Basílica começou a ser marcado quando corri atrás dos tais paineis por conta da especulação sobre sua autoria

Aliás, nem precisava correr tanto, eles estavam aqui ao alcance da minha mão, na estante, no livro sobre a Catedral Basílica,  de autoria de Fernando Machado Leal, com fotos de Haroldo Alvim, Bauer Sá e José Carlos Almeida, que recebi durante uma cerimônia chapa branca relacionada à reforma da catedral. Ná época não tive olhos pra ver. Um dos paineis publicados no livro é este da Apresentação de Jesus ao Templo,  reproduzido abaixo.

Apresentação de Jesus ao Templo

E só tive olhos para enxergar o livro, sábado, um dia depois de ter visto os  16 paineis ao vivo, a  dois quarteirões de onde trabalho, na catedral onde entrei muitas vezes para assistir a concertos, mas, como a maioria dos baianos, desconhecia a sacristia.

E a busca dos tais paineis resultou bem divertida, na companhia de Ernest Bows, um sujeito de fala fácil, que  trabalha com turismo  no Terreiro de Jesus. Ele, que conhece e se dedica a pesquisar a história  dos monumentos do Centro Histórico, é dos que suspeitam  que os quadros, pintados sobre placas de cobre, seja do pintor italiano Caravaggio.

Diz que a datação dos paineis  está sendo feita na Itália por uma empresa de restauração e que no próximo dia 1º de julho terá a resposta. Vamos aguardar.

Os paineis estão dispostos oito de cada lado do altar. São pequenos, aproximadamente 60×30cm, sobre o arcaz na sacristia que recebeu a seguinte descrição do padre Alexandre de Gusmão, em 1694:

“A sacristia é iluminada a oiro e ornada de pinturas, abundantemente provida de objetos de culto, sobretudo vasos de prata, cálices, castiçais, píxides, e lâmpadas, que tudo pesa mais de 350 libras (…)  um arcaz de magníficas gavetas notáveis pelos lavores de casco de tartaruga e marfim e auricalco doirado. O recosto da parede está revestido de lâminas, pintadas em Roma, da Vida de Nossa Senhora…” (Leite, História da Companhia de Jesus na Bahia, tomo V. p. 127-127, citado por Fernando Leal)

As imagens impressionam, e não por acaso 11 delas ilustram o livro de Leal. Mas além da descrição de Gusmão, de que teriam sido pintadas em Roma e que retratavam a vida de Nossa Senhora, a única outra  referência aos painéis no livro  é que eles foram  pintados sobre chapas de cobre e inicialmente eram recobertos por cristal.

Clique na foto do arcaz, passe o mouse sobre a imagem que vai surgir e veja toda a sacristia, reproduzida neste site, dica de Ernst. Para ir direto à sacristia, sSe seu computador tem um treco chamado quicktime, clique aqui: http://www.jeanart.it/sito/pano/quicktime_vr/sacristia-central_neu.html  . Se não conseguir, tente por este tal de java: http://www.jeanart.it/sito/pano/java/sacristia-central_java.html

Se é na Ribeira, eu vou!

16/05/2009

novo_cartaz2[1]

Os colegas de repartição Taiane Oliveira (uma das organzadoras) e Wladimir Cazé (participante)  convidam.
E eu vou!

Atualizado no domingo. Não fui… a chuva não deixou.

Socorro, Lelé

15/05/2009

Lelé

Estive duas vezes com João Filgueiras de Lima, o Lelé. A  primeira vez foi na década de oitenta, para uma matéria sobre propostas de Gil para o Centro Histórico e para Salvador, quando o futuro ex-ministro era presidente da Fundação Gregório de Mattos, publicada em 13 de Abril de 1987. Na matéria tem uma foto de uma maquete para o antigo Aeroclube, uma estrutura leve, suspensa por cabos, criada por Lelé.  A idéia dele era bacana, aproveitava a brisa e o sol, dialogava com a orla.

Como todos sabem, a aeroclube virou o que virou: um caixote esquisito  e um ponto de encontro para sexo  remunerado, nada contra, desde que não fosse só isso.

Mas voltando ao que interessa, estive com Lelé pela segunda vez em junho do ano passado e passei com ele quase uma tarde inteira no Sarah, encontro que me marcou e me deixou mais animado com a vida, com a humanidade, com as possibilidades coletivas, embora o prórpio Lelé transmitisse um certo desencanto.

Pois bem, lembrei de Lelé ao ler ontem a entrevista com o secretário de Desenvolvimento Urbano, Habitação  e Meio Ambiente  de Salvador, um tal Eduardo Abreu. Não sabia se ria ou chorava ao ler as propostas do sujeito, em entrevista a Mary Weinstein. Ria ou chore aqui.

De volta novamente ao que interessa, coloco aqui, como registro e contraponto, o  resultado daquele encontro com Lelé, publicado na Revista da Unifacs. Como a matéria não está disponível na rede, trancrevo o e-mail enviado por mim com a matéria original,  publicada em outubro do ano passado:

O arquiteto português Eduardo Souto de Moura, estrela internacional do Arquimemória 3, encontro que reuniu  na Bahia especialistas em arquitetura e memória, em junho passado, fez questão de duas visitas na sua curta estadia em Salvador: ao Centro Histórico e ao arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé. Foi embora decepcionado com um e encantado com o outro.

A visita de Moura repetiu uma rotina freqüente no dia a dia de Lelé. Receber arquitetos, professores e estudantes de todas as partes do mundo no seu quartel general, o Centro de Tecnologia da Rede Sarah. O Centro funciona na mesma área do  Hospital Sarah Salvador, edificação que sintetiza sua obra, e que lhe valeu o grande prêmio da Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Engenharia de 1988, em  Madri.

Num giro pelo hospital, instalado numa colina rodeada de vegetação remanescente da Mata Atlântica, Lelé  mostra as aplicações práticas das suas idéias, inventos e soluções inovadoras na concepção de um hospital. Conquista o interlocutor com doses altas de ceticismo, temperado com um humor ácido, às vezes auto-depreciativo, muita  simpatia  e humildade.

Lelé trabalha numa saleta austera mas agradável, de não mais que 10 m², paredes de argamassa armada e pé direito alto para dar passagem ao ar e à luz natural, dois elementos fundamentais nos seus projetos. A sala fica no Centro de Tecnologia da Rede Sarah, onde são projetadas e construídas estruturas inusuais, em argamassa aramada, ferro, aço, plástico e fibra de vidro, além de móveis e equipamentos hospitalares, que saem de sua prancheta e das de sua equipe diretamente para os hospitais da Rede Sarah,  que se integrarão aos nove existentes hoje no país, e para prédios públicos construídos com a mesma tecnologia.

Chega a ser meio desengonçado, 1,83 metros de altura, esguio, mãos compridas. Poderia ter seguido a profissão de atleta ou de pianista. O apelido veio da semelhança física com jogador Lelé, atacante do Vasco da década de 40. Queria seguir os passos do pai, que era músico tocava piano em sessões de cinema mudo.  Casualmente, como gosta de repetir, virou arquiteto. Casualmente conheceu Niemayer e participou da construção de Brasília.

Casualmente, um acidente automobilístico com a mulher, em 1963, o levou a um internamento no  hospital de Base de Brasília e  fez cruzar o seu destino com o do cirurgião  Aloysio Campo da Paz. Médico e arquiteto conceberam um novo conceito para  arquitetura hospitalar, que resultou nas inovações da Rede Sarah de Hospitais do Aparelho Locomotor, uma de ilha de excelência no atendimento público de saúde no país.

Casualmente o destino também lhe trouxe a Salvador e não casualmente a cidade convive hoje com a marca de sua inventividade. Reconhecido internacionalmente, representou o Brasil em sala especial na Bienal de Veneza de 2000. Recebeu o grande Prêmio Latino-Americano de Arquitetura da 9ª Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires, em 2001. É professor emérito da Universidade de Brasília e Doutor Honoris Causa pela  Universidade Federal da Bahia.

Ainda não sabe, mas um grupo de arquitetos brasileiros articula sua indicação para o prêmio Pritzker, uma espécie de Nobel da Arquitetura. Mas se você lhe pedir um balanço de vida, diz com tranquilidade. “Extremamente fracassado”. Sonhou alto. É da geração do pós-guerra, empenhada em construir utopias. E seu grande sonho, uma arquitetura a serviço do coletivo, está hoje na contramão. “Sonhamos,  criamos muitas utopias. Utopias construídas em cima de um avanço social. Todas elas fracassaram”

Mesmo cético, Lelé ainda vê a possibilidade de saídas para a enrascada ambiental  que a humanidade se meteu e esta saída está nas idéias dos jovens. Não é chegado a badalações mas fica feliz com a admiração dos jovens pelo seu trabalho. “Fico muito feliz quando eu vou a uma universidade para discutir  minhas experiências. Para mim,  o que me dá uma certa vontade de viver e de continuar é o convívio com as pessoas jovens, principalmente com  aqueles grupos que estão ávidos para  procurar soluções, discutir, mesmo que não aprovem o que fiz. Isto me agrada muito.”

Para Lelé e para todos os que enfrentam o caos urbano,  a cidade do Salvador está inviável, como a maioria das metrópoles desprovidas de transporte público eficiente. O foco nas soluções individuais gerou o colapso vivido diariamente pelos soteropolitanos enjaulados nos engarrafamentos cotidianos.

Dentre seus sonhos para Salvador estava  o “Veículo Leve Sobre Trilhos”, ou VLT, uma espécie de bonde que trafegaria sobre os canteiros centrais das avenidas de vale. O projeto, do final da década de oitenta,  foi atropelado pela descontinuidade administrativa e ressuscitou como Metrô de superfície, que não é nem uma coisa nem outra. Não gosta e não quer falar sobre o assunto, mas classifica a obra como aberração, que não vai resolver a questão do transporte público. Construção  tardia, o metrô de Salvador nasce sem ter para onde crescer. “Os metrôs que funcionam hoje no mundo cresceram junto com as cidades, sob as cidades. Como você vai expandir na superfície, furando montanhas e derrubando casas?”

Soluções  para a melhor  circulação das pessoas nas cidades é um assunto que também interessa a Lelé, que desenvolveu um bondinho para diminuir a distância percorrida por pacientes cadeirantes e seus acompanhantes  do alto do hospital até o ponto de ônibus.  Em vez do carro, eles descem pelo bondinho e percorrem um trecho entre as árvores, numa espécie de passeio numa trilha entre árvores nativas da mata atlântica. A solução poderia diminuir distâncias e facilitar o acesso de  comunidades urbanas de Salvador, em áreas com topografia semelhante.

Curiosamente, uma das soluções criadas para as conexões do  VLT sobreviveu e é hoje o seu xodó. Uma idéia simples acolhida  pela cidade, presente em todas as grandes avenidas: as passarelas para pedestres, coloridas, cobertas, com estruturas leves em ferro e argamassa armada. A idéia inicial era ainda mais completa, com alternativas de conexões em seus cogumelos de sustentações,  que poderiam ser escadas ou elevadores para cadeirantes.

Normalmente a voz de Lelé, baixa e pausada, sobe um tom quando o assunto é passarela. Em sua mesa estão os croquis de mais um conjunto delas, que se integrarão ao projeto viário do Estádio de Pituaçu para atender a grande demanda de público em dias de jogos em direção à avenida Paralela.

É impossível conceber hoje a ligação entre o Iguatemi, a estação de transbordo, também de sua autoria, sem as passarelas. Há inclusive um projeto para um novo conjunto para aquela área, que ficou ainda mais sobrecarregada com a inauguração do templo da Igreja Universal. A implantação depende da iniciativa da prefeitura.

Os projetos de Lelé exigem uma certa cumplicidade de quem usa. São mais econômicos, gastam menos energia elétrica, principalmente com a diminuição do uso de ar condicionado, que num hospital pode representar um custo 10 vezes menor  no consumo de energia e gerar um conforto ambiental maior. Mas há resistências. Com o argumento de que trabalham com processos, e que o vento espalha as folhas, os funcionários do Tribunal de Contas da União mandaram vedar as saídas de ar e colocaram ar condicionado em todas as salas. O mesmo aconteceu com o prédio da prefeitura, projetado com um sistema central sobre o teto, mas que com o primeiro defeito, foi substituído por aparelhos individuais.

O discurso ecológico não se dispõe a pagar a cota individual quando o assunto é mudança de hábitos. “O problema é cultural, as pessoas de um modo geral querem individualizar suas tarefas. O problema das cidades, por exemplo, é agravado porque em cada veículo  cabem cinco pessoas, mas a maioria usa  o veiculo individualmente”. Sua presença no Sarah faz com que as coisas funcionem como projetadas. Lá a circulação de ar funciona perfeitamente. Os amplos espaços de convivência, transformam o ambiente num lugar que nem de longe lembra os corredores apertados e o cheiro característico de um hospital convencional.

Lelé argumenta que a luz natural é mais benéfica e confortável. “Não há uma iluminação artifical que seja superior a esta luz difusa que estamos usando aqui, diz em sua sala. Ela é muito mais agradável, sob todos os pontos de vista ela é muito mais humana. A luz artifical tem uma vibração incomoda, mas a gente se adapta e acaba desprezando uma coisa que e melhor por uma outra pior.

O ar, capturado do ambiente externo por galerias na base do prédio do hospital circula por saídas reguláveis em todos os ambientes e sai pela parte superior, em estruturas aerodinâmicas. A sensação térmica é de quem está sob a brisa da sombra de árvores.

Para Lelé  a saída ainda possível está na educação e na aplicação de princípios ecológicos. “Eu vejo o risco enorme que a humanidade está correndo, de   destruição do próprio planeta. Na escala que estamos consumindo os recursos naturais vai durar muito pouco”. Entende a arquitetura como uma atividade coletiva. Lembra que só em algumas tribos esquimós a construção da moradia é uma atividade individual. E lembra que as soluções coletivas existem em todas as culturas, como a dos  índios xavantes, que encontram soluções engenhosas de conforto ambiental em suas construções,  na escala correta, com um conforto ambiental adequado.

Vê hoje duas vertentes na arquitetura. A espetacular, do grande discurso, da grandiloqüência como símbolo do desenvolvimento.  E uma outra, que busca ser útil à comunidade como um todo, atuar em programas mais econômicos, com sentido coletivo. A primeira, mesmo que não busque resposta para as cidades tem imperado.

Lelé nasceu no Rio em 1932. Dois anos depois de formado pela Faculdade de Arquitetura, da Escola Nacional de Belas Artes, seguiu para trabalhar na construção de Brasília, sob a coordenação de Oscar Niemayer. Seus primeiros trabalhos em Salvador são a igreja, a balança e as plataformas do Centro Administrativo da Bahia, no início da década de 1970. Além do Hospital Sarah, também é de sua autoria o prédio da prefeitura, a Estação da Lapa, o complexo de delegacia dos Barris, a Estação de Transbordo do Iguatemi e a sede do Tribunal de Contas da União.

Como trabalhava para prefeituras e governos, o final de cada mandato significava a interrupção e o abandono de projetos, pelo hábito dos políticos de apagarem marcas do antecessor. Foi assim no final da década de 80, depois do fracasso dos Cieps no Rio, quando Moreira Franco não quis dar continuidade ao projeto de Brizola. A história se repetiu em Salvador, quando Fernando José não quis dar continuidade ao projeto da Fábrica de Equipamentos Comunitários, a FAEC, iniciado na gestão de Mário Kértesz.

O fim da FAEC custou o sonho de uma fábrica de cidades com todos os equipamentos estruturais como escolas, creches, passarelas e infra-estrutura, o emprego de centenas de operários e a dor no coração de Lelé, traduzida por um infarto que resultou na  implantação de quatro pontes de safena e uma mamaria. Mas só foi sair do hospital para enfrentar novo desafio. Convidado pelo amigo Darcy Ribeiro partiu para o novo sonho dos Ciacs, novo tombo. Só encontrou um porto seguro contra  interrupções e distorções da sua obra com os projetos da Rede Sarah.

A decepção do arquiteto português com o centro histórico, citada no início deste texto, foi  revelada com um certo pudor educado em entrevista ao jornal A Tarde. Moura afirmou que o Pelourinho lhe  parecia falso, como uma espécie de cenário para turista,  “um bocadinho embalsamado”. A idéia é compartilhada por Lelé. Junto com Lina Bo Bardi planejou interferências em que se respeitava a arquitetura original, mas com intervenções no interior dos imóveis que possibilitassem moradia e vida social. E lembra que a pintura original sobre argamassa e base de cal não tem nada a ver com os tons berrantes, aplicadas nas fachadas pela reforma recente. E faz uma comparação semelhante à do colega  português: “O pelourinho é uma ave empalhada, com olho de vidro, sem vida”.

Caravaggio na Bahia?

14/05/2009

Estava a fazer um release hoje sobre o Centro Antigo de Salvador  e esbarrei por acaso numa informação que pode ser notícia quente. Como não estou em jornal resolvi repassar a novidade pelo twitter, meu  mais recente brinquedo eletrônico. Vamos ver no que vai dar:

Catedral Basílica de Salvador avalia 26 painéis que podem ser de autoria do pintor italiano Caravaggio(1573-1610)

Atualizado em 15/05

Correção. Os painéis são 16. Veja-os aqui na Sacristia da Catedral Basílica, são 8 de cada lado da imagem central. Abra o arquivo e passe  o mouse sobre a imagem.

Em quicktime:

http://www.jeanart.it/sito/pano/quicktime_vr/sacristia-central_neu.html

Ou Java:

http://www.jeanart.it/sito/pano/java/sacristia-central_java.html

Pronto, emborquei

11/05/2009

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A pedidos, emborquei o alguidar, já seco, quebrado e deslocado do lugar onde estava, quase uma semana depois.  O sol, o grande culpado,  já brilha novamente.