
Semana passada finalmente fui ver Policarpo na Sala do Coro, com direção de Marfuz, e ganhei a viagem. Caiu bem a alternância de texto e folguedos, que tornou o espetáculo ao mesmo tempo denso e leve. Cobrinha dá um show como Policarpo, o cenário tem uma solução criativa na disposição dos livros, o ritmo também é bom. As cenas da loucura de Ismênia sob o jogo de fita e a do delírio de Policarpo com as saúvas são daquelas que ficam na memória da gente.
Falar em loucura, fui em busca do tema na obra de Lima Barreto. Mulato, filho de louco, alcoolista e com um texto que incomodava, acabou mesmo no hospício. Não gosto de fazer apologia à loucura tampouco aos loucos, tem gente que gosta. Vi de perto o monstro e posso garantir que ele é bem feio. A loucura é solidão, é a incapacidade de compartilhar delírios.
Vá ver Policarpo. Garanto que você, além de não perder também a viagem, vai se diveritir e refletir sobre nossa locura, individual e coletiva.
E na sexta saí com os olhos molhados de riso e o fígado leve de O Indignado, culpa de Frank Menezes, dirigido por Guerreiro. Ele mesmo não resistia e parecia se divertir com os próprios cacos. As cenas que demonstram e explicam como funciona uma licitação e o comportamento do funcionalismo público, com base nas leis de Murphy, de Gerson e do mínimo esforço são impagáveis. Eu, como Barnabé, assino embaixo do texto de Simões.
É um monólogo, mas a gente nem se toca de que só há um cara no palco. Em alguns momentos, o fôlego de Menezes lembra p daqueles propagandistas com um microfone enrolado num pano e uma cobra elétrica na mala, que falam horas, fazem rir, vendem quilos de pomadas milagrosas nas feiras sertanejas e não deixam a peteca cair durante uma manhã inteira. Sempre achei que muita gente comprava pelo espetáculo. Também recomendo o Indignado. Desopila e faz pensar.
E a trilogia de boas peças freqüentadas na companhia de Soraya e Luluthica nas últimas semanas começou com A Gaivota, que já não posso indicar porque não está mais em cartaz. Mas graças a esta peça eu saí na Muito. Ainda não foi como capa, mas fiz minha estréia, no papel daquele que cochilava enquanto outros e a Madame sonhavam acordados diante da arte do grupo Piolin.
Concordo com todo o texto. Mas aqui me defendo em um ponto. Não foi o ritmo da peça que me fez dormir. Quem tem insônia braba entende o que aconteceu comigo naquela sexta-feira. Pode ser o melhor filme do mundo, a melhor peça, o melhor show. Quando o acúmulo de noites pouco dormidas atinge determinado ponto, babau. Pelo menos, em público, eu não ronco.