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São Sebastião de Cairu

07/03/2009

Os homens até hoje gostam de se achar os primeiros, antes deles só donzelice. Talvez venha daí essa história de dizer que as praias são virgens. Mas as praias que circulam as terras da Ilha de Boipeba guardam muitas marcas de amor e dor e o povoado de São Sebastião, mais conhecido como Cova da Onça, a história de marujos que esbarraram nos seus corais e ali ficaram, não se sabe se por encantamento ou necessidade. E deixaram seus descendentes.

As tripulações grega e espanhola de pelo menos dois naufrágios ali por perto [um deles deu nome à ponta dos Castelhanos e se relaciona à lenda que explica a origem da Igreja da Graça, contada por Câmara Cascudo]  podem explicar a presença maior da população branca no povoado, incomum no litoral da Bahia, muito mais no Baixo-Sul.

Impossível visitar este passado e não esbarrar também nas marcas e histórias deixadas pelos missionários religiosos. A Cova da Onça, onde não tivemos  tempo de ir, é uma espécie de caverna ou gruta ocupada  pelos Jesuítas. A partir daí a história carece de exatidão. Uns dizem que ali se guardavam  ouro e pedras preciosas, outros que o túnel ia dar em Boipeba Velha, lenda semelhante às que existem em Salvador sobre ligações subterrâneas entre igrejas.

O certo é que na cova havia algo de valor. Suspeito terem sido sacras, deixadas lá quando empombaram com os Jesuítas e eles foram convidados a se retirar, por conta de querelas ultramarinas.

O marujo desmemoriado aqui perdeu o bloco de anotações, sobrou apenas o endereço do site de Jonas Nascimento  http://www.covadaonca.i-ssa.com/ morador do povoado, onde há um relato da histdória de ocudpação da Ilha.

Mas me impressionou  uma história  ouvida de pelo menos dois moradores, e que não vi em site algum, sobre um suposto desembarque noturno, na década de 1960, de pessoas que se diziam militares. Foram até à cova, dinamitaram uma das passagens e de  lá voltaram carregados, ninguém sabe de quê.

Se os Jesuítas esconderam o ouro ou se  levaram as imagens, até hoje ninguém pode até hoje afirmar, o certo é que deixaram a devoção a São Sebastião de Cairu.

Estávamos almoçando com o grupo de turistas que veio no barco com a gente, quando os fogos pipocaram, avisando que lá no cais vai chegando a procissão marítima. Larguei Soraya, meninos e prato na mesa e fui fotografar. Clique na primeira imagem pra ver um filmete curto com o som da bandinha.

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Em Moreré, gigolô de renca se dá bem

04/03/2009

Sabe aqueles meninos engraçadinhos na sinaleira, pais por perto, a desafiar o nosso racional que ordena não ceder pra não viciar o cidadão? Às vezes a gente não resiste.  Pois é, descobri na viagem que também  uso esta técnica, de seduzir pela graça das crianças. Inicialmente era inconsciente, mas depois de constatar o sucesso da presença deles nas situações de necessidades como atolamento, negociação dos pacotes de refeições e diárias, comecei a manipular os cenários.Paulo Bono me ajuda a assumir esta  realidade adiposa] e esforçado, as crianças lindas como nas propagandas de banco, a mercê da criatura, e dão logo um jeito de colaborar  ou ceder para resolver. Assim foi em Moreré. Chegamos à noite e sem tempo nem energia para procurar um lugar pra ficar, seguimos a indicação de Rubem, artesão que vive no Capão e conhece o lugar (é interessante este fluxo bicho-grilo Chapada/Moreré). Fomos  então para a Pousada Moreré, a mais antiga do lugar, cujos donos são nativos. Desconto conseguido, dormimos todos num quarto que daria bem para um casal, mas não para uma renca.

Fabiana, filha do dono, ao ver nosso desconforto, fez uma proposta decente. O cunhado dela tinha a solução no fundo do restaurante da pousada. Conversa vai, conversa vem e nos instalamos numa casa de dois quartos, mobiliada do cortinado ao pano de prato, incluindo também gás, sal, detergente, além de gatos e  mangas no quintal. Tudo isso por R$ 60 a diária, com direito também  a companhia de crianças para brincar com  meninos. O que se assucedeu nestes dias  você acompanha neste resumo fotográfico abaixo:

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É bom chegar a lugares desconhecidos à noite. Ao amanhecer a gente se vê como numa peça de teatro, quando a luz se acende num ambiente absolutamente novo. Vi esta mudança de cenário a bordo de uma das canoas ancoradas na praia.

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Maré vazante

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Pousada Moreré

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Já em companhia de Luísa, caminhamos em direção à direita e por este caminho chegamos a Bainema, lugar sonhado por Soraya e que valeu a insistência dela em conhecer.

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Por todo canto, principalmente pela manhã bem cedo, a gente se encontra com estas figuras assustadas e ariscas, a alegria dos meninos.

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Mais tarde, toda a renca se reuniu em Bainema

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A performance deste estrangeiro entoando mantras provocava muitos risos e brincadeiras entre nativos e turistas. Era uma espécie de sino a saudar o nascer e o pôr-do-sol. Figura bonita e de paz. Doido manso, na visão dos nativos.

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Novo amanhecer no cenário presente em 9 de 10 fotos de quem vai a Moreré.

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Aportada no mangue, uma das caravelas exibe sua cauda fatal, protagonista de uma cena digna de filme iraniano. Gritos lancinantes, garoto sai da água desesperado e logo uma roda de crianças e adultos se forma ao seu redor. Gritos e mais gritos. Quem já foi queimado por caravela sabe o tamanho da dor, que não passa. Mas logo aparece o avô. Para acalentar? Que nada, chinelo na mão, aplica uma sova no coitado pela desobediência de ter ido ao mar mesmo com o alerta de vento e da presença da frota lilás. Detalhe: a avó, desavisada, havia autorizado o banho.

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Só na tarde do segundo dia tomamos o rumo da esquerda, onde ficam as famosas piscinas naturais de Moreré.

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Assim encontramos a nova morada.

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No terceiro dia partimos num passeio para Cova da Onça, povoado secular da outra ponta da ilha e aí novamente a sedução dos meninos ajudou nas negociações. R$ 50 para cada casal de turistas. Com mais R$ 20, incluímos os nossos três passageiros extras e seguimos a bordo do Ilha de Moreré para nossa aventura de um dia. Inicialmente os meninos super animados na proa, com a cara nos respingos e o corpo pra cima e pra baixo no balanço do mar. O que aconteceu minutos depois você acompanha no próximo capítulo porque a fita em série que se preza tem que acabar no melhor pedaço.

Médico é 99% diagnóstico

10/02/2009

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Retomo o oitavo/nono dia,  ao acampamento esperado por André e detestado por Maria. Ao acordar de madrugada molhada pelo xixi habitual, a menina reclamou: “Eu quero voltar pra minha casa de verdade”.

Tudo havia sido planejado na véspera, Soraya escolheu a sombra de uma amendoeira a 2 metros da linha da maré alta. Acertamos a infra/refeição com dona Lourdes, a dona do restaurante mais famoso do pedaço, onde conhecemos moqueca de camarão com banana (R$ 25), com direito a cerveja,  refrigerante e sobremesa ao preço final (R$40) mais feliz e mais barato do que uma rodada de Mc pra nossa renca de cinco.

Este post foi pensado também como serviço, na base do quanto custa. Mas dinheiro é  a coisa mais relativa do mundo, mais do que fio de cabelo – pouco na cabeça e muito na sopa.

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Ou como disse o filósofo Zé Pretinho, 73 anos, o piloto desta canoa acima e abaixo, a Dama de Ouro, “quem tem, tem tudo. Quem não tem, tem nada”, na melhor definição que já ouvi sobre desigualdade.

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Luísa foi designada gestora financeira da viagem. Peguei o que restou (?) das economias dos últimos frilas do ano, avancei no limite do cheque e reuni R$ 2.000 para a empreitada. R$ 200 por dia seria uma fortuna para um mochileiro como eu. Mas para uma renca de cinco, Chorik sabe o que é isso, é preciso mesmo contratar gestora financeira. O dinheiro deve dar conta da gasolina, da passagem de barco, de trator, de barco de novo, da água, muita água mineral, do gasto eventual com farmácia, além das três refeições  e da dormida para cinco.

O treino de Luísa na função de gestora para a apresentação de fim de ano da escola foi útil, mas teve incentivo: Seriam 10 dias, R$ 200 para cada dia. O que a gente conseguisse economizar, seria aplicado em mais dias de  praia. Conseguimos viajar 15 dias.

Graças ao Chalé Sabiá, e à Luísa mão de vaca e seu  veto à moqueca de lagosta, já estávamos no oitavo dia de viagem com finanças dos cinco primeiros. E só precisamos almoçar “em casa” um único dia, quando o macarrão caiu muito bem. O problema de macarrão e cuscuz, quem é pobre sabe disso, é a repetição.

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Já craque na arte de andar na areia, transformei o fora da estrada 1.0 num conversível porta-malas  para os meninos e partimos em direção à Barra do Serinhaém, o mesmo rio da cachoeira Pancada Grande. Desta vez não teve atolamento (na ida) e paramos para curtir novamente o banco abandonado e o banco de areia da curva divisa entre mar e rio. Clique na imagem abaixo para ter um 360º do lugar.

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Serinhaém, pela dificuldade de acesso por terra, tem jeito de ilha, tem ainda alma de aldeia de pescadores presente no imaginário dos mochileiros das décadas de 70/80. Tem a alma que Morro de São Paulo, por exemplo, já perdeu há muito tempo. E tem praça com crianças, tem nativos disponíveis para longas conversas, e muitos, muitos pacientes de Dr. Bernardo.

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Uma delas é Lorena,  esta penúltima à direita na foto acima, feita por Luísa. Perdi o papel com o nome da mãe, parturiente de Bernardo. O mais interessante é que ele não fez o parto, mas  para a mãe é como se tivesse feito, porque acertou na lata. De plantão, fez o exame de toque e avisou: vai pra Ituberá porque o menino nasce em 3 horas. Providenciou um barco, seguiu viagem mas encontrou uma médica (suponho que destes recém-formados que buscam no interior apenas o dinheiro fácil do PSA PSF (correção feita Dr, convite declinado)– não agravando a todos) que mandou a moça de volta. Dito e feito, nas três horas previstas pelo Dr, o menino quase nasce na rua. Para ela, e para mim, médico é 99% diagnóstico. O resto é detalhe.

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 Passamos então parte do dia de bobeira na praça, meninos enturmados e brincando a valer. A noite trouxe o por-do-sol  na porta da nossa barraca e se fosse eu poeta como Nilson faria também uns versos para o nascer do sol também.

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Deu tudo certo, barraca desarmada, novamente retorno na maré vazante, nova parada no banco de areia e novo… atolamento.  

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Partimos então para Torrinhas, já na Ilha de Cairu, onde o  fora de estrada 1.0 venceu bem os seis quilômetros de buracos e ladeiras em estrada de terra no trecho final , e descansou no estacionamento a R$ 5.00 a diária. De Torrinhas seguimos para Boipeba num barquinho pô-pô-pô-pô e de lá num trator para Moreré, segunda etapa da viagem e próximo capítulo. No caminho pelo Rio do Inferno, avistamos  uma igreja verde, coisa que não existe no sertão, porque dona Ludu, avó de Soraya, quando queria duvidar do futuro matrimônio  de uma moçoila, dizia: ela vai casar sim, mas numa igreja verde.

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E no sétimo dia…

04/02/2009

Em vez de se quietar no paraíso, a descansar como em todos os outros dias, resolvemos ir em busca de mais aventura pela praia, a bordo de um fora da estrada 1.0. Se não fosse a mão de deus e o empurrão de homens de boa vontade, o transportador de renca azul teria o mesmo fim de um ônibus carregado de crente, tempos atrás. Andar na praia de carro é igual a comer caranguejo. A depender do jeito que você trafega nas fronteiras de risco, é uma delicia ou dá merda. Pausa para reflexão: por que crente gosta tanto de tragédia?

Não foi bem uma tragédia, porque entre mortos e não feridos, sobrou todo mundo, aleluia. Mas o ônibus, contam, antes de ser rebocado como ferro velho ficou uns dias na praia absolutamente triturado, sem um vidro nem um banco para contar a história, como a testemunhar a força das águas.

Carregado com mil dicas recolhidas no dia anterior, algumas tábuas para desatolar, e o pavor secreto dos irresponsáveis, o outrora censurador de quem anda de carro pela praia partiu em ritmo de aventura, inicialmente cauteloso, mas em seguida a 80, 100 por hora, nos trechos mais abertos e completamente desertos. Uma parada aqui para acompanhar uma puxada de rede, outra ali para curtir um banco de areia e tirar foto num banco solitário, a viagem de 20 km resultou deliciosa.

Acontece que eu sou baiano, acontece que a placa indicativa de fim de linha havia sido derrubada naquele dia pela maré. Passei direto pelo ponto de entrada, justamente depois da curva entre o mar aberto e a foz do rio, quando a proximidade da água, antes segura, agora é é zona de risco.

Seguindo a regra de toda fita em série que se preze, deixo a história aqui no melhor pedaço: Barra de Serinhaém, no oitavo dia, quando voltamos novamente, desta vez para acampar.

dsc042121Puxada de rede na estradadsc043911Na rede vêm também os pequenos, no meio do sargaço.dsc046682Arraia se afoga com ar. Deu vontade de virar vegetariano.dsc044912Se toda ocupação fosse assim. Na praia, só o banco.dsc044602Atrás das árvores deve estar a casa do dono do bancoplaca-na-praia1Causa…dsc04235Consequência…dsc04277O crédito destas duas últimas  divido com Maria Sampaio.dsc04276

Pra não dizer que só falei de flores

31/01/2009

Nós andamos iguaais,
nós andamos iguaaaais
prum lado, pro outro/pra frente, pra trás
nós andamos iguaais

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Luísa trouxe esta brincadeira, um caminhada coreográfica, desafio para todos pisarem no mesmo passo, pé direito à frente, prum lado, pro outro, pra frente novamente e pra trás, aprendida por ela no Acampamento Verde de anos passados.

Assim partimos para a praia no domingo, péssimos aprendizes, mas felizes tal qual família de propaganda de margarina.

Claro que o pau quebrou muitas vezes na viagem, mas as fotos até agora foram  feitas nas  muitas “horinhas de descuido” , como disse um dia seu Guimarães, bem lembrado por Bethânia. Ou naqueles momentos da “vida inteira num segundo”, como canta o bardo Odair José  na sua impagável A noite mais linda do mundo.

Interrompo aqui esta transmissão, como diria o ingresiástico Franciel, e paro de falar somente das flores. O assunto agora é lixo e a nossa capacidade de não enxergar o outro.

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Junto à praia estavam estacionados dois ônibus (vieram em excursão de Salvador, dos bairros de Lobato e Tancredo Neves), caminhões, camiontes e tantos outros transportes coletivos. A praia “virgem”  e deserta das fotos anteriores estava lotada no domingão.

Gentalha, gentalha, assim define os passageiros dos ônibus a dona de uma das 25 barracas que se espremem, umas coladas às outras, na faixa de praia liberada para o comércio.

Favela, diz o gerente de uma pousada próxima sobre as barracas.

Criminosos, diz o ambientalista sobre os donos de pousadas que teriam destruído o mangue e vegetação para ali colocar concreto.

No discurso de cada um deles, errado é sempre o outro. Ou seja, como diria dona Ludu, avó de Soraya, todo mundo é bom mas meu capote sumiu.

Meu amigo Josias, que muita coisa sabe há muito tempo, me falou um dia sobre uma palavrinha desconhecida, nem na moda ainda estava, a tal da alteridade. Entendi mais ou menos, mas ao juntar estas visões do outro recolhidas  beira a mar, chego à conclusão de que  tal plavrinha não passa de uma quimera da moda, irreal como a tal Liberté, Egalité, Fraternité –  merci bocu, merci bocu Não há de que (obrigado Madame K, por ter me trazido de volta Ednardo).

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A estrada chegou há 11 anos. No dia 28 de março de 1998 vi esta placa da foto acima novinha em folha. E fiquei espantado com uma estrada que rasgou o mangue, desviou rio em Jatimane e chegou até a areia da praia. Na época via carros trafegando pela praia e censurei. Iriam acabar com tudo.

A praia não acabou, mas também quase nada de bom foi feito. Parece que a interferência pública só foi a estrada mesmo. Ninguém organizou o baba, ninguém tomou conhecimento e o lixo da segunda-feira vira cartão de visita da praia.

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Depois de 11 anos, os únicos benefícios aparentes é o acesso à praia das pessoas de Ituberá, a ponta do dinheiro para o pessoal da região de uma rave chamada Universo Paralelo, que acontece há nove anos durante 10 dias depois do Natal. A praia, perto dali, é isolada por seguranças (fala-se em três mil) e uma multidão (fala-se em 13 mil, 3 mil estrangeiros) se diverte com pulseiras compradas a R$ 350,00, ao som de música eletrônica, ininterruptamente. É quando paraíso natural e paraísos artificiais se encontram, sem traumas.

dsc04507Bar da rave Universo Paralelo, único participante da festa encontrado

Há muito plástico nas areias das praias. Talvez daqui a alguns segundos geológicos (ou seja, milhões de anos) algum arqueólogo encontre por aqui imensos sambaquis de plásitco e batize nossa era de polimerozóica ou coisa parecida.

O lixo aparece em ondas, dizem que trazido pela corrente (sempre o outro), mas grande parte é produzida ali mesmo.

É ridiculo gente como eu. Recolhe o próprio lixo, fica em paz com a consciência,  mas se esquece que o almoço na barraca, os restos da pousada, enfim a economia do lugar gerada pela nossa presença produz e joga ali na praia mesmo sobras e embalagens.  Restos plásticos de festas, de passeios, de alegrias.

Mas vamos deixar de zanga. A era polimerozóica tem também seus momentos felizes, suas horinhas de descuido. Meus, seus, e de muita gente.

E o outrora censor viajou  também na areia, rumo a Barra de Serinhaém. Mas isto é assunto para o próximo capítulo.

Duas luas

27/01/2009

_Olha pai, tem duas luas. Uma lua assim – disse Maria, girando o dedinho indicador num duplo círculo para a direita. E tem uma lua assim, repetiu o gesto. Desculpa aí a baba, mas tem definição mais lindinha para auréola lunar?

dsc04051-copia3Igreja do Jatimane

E a lua foi a nossa companheira de tarde/noite do dia seguinte, o quarto dia,  um sábado iniciado com um uma ida à feira de Ituberá para providenciar frutas, um bis na Cachoeira de Pancada Grande, quando o acaso nos levou a uma plantação de guaraná. Soraya apostava numa subida alternativa aos milhões de degraus para se chegar ao alto da cachoeira, porque ele vira um pessoal subindo, e eu teimava. Não havia.

dsc03932-copia3Fruto do guaraná

Pois havia. Mas antes de encontrar a tal subida, também feita a pé, pegamos uma direita errada e fomos parar numa plantação de guaraná. Os frutos pareciam olhos a nos espreitar. São impressionantes a cor e o formato. Deco lembrou então da história contada por Kátia Borges, no Crear, sobre uma lenda indígena. A semente original seria os olhos de um menino.

dsc040352Ponte da saici

Voltamos já noitinha, e lá estava ela novamente por trás da igreja do Jatimane, um vilarejo quilombola. Há dez anos, na abertura da estrada, o povo vivia da colheita da piaçava e da pesca. Tinha uma fita cassete gravada com a mais antiga moradora do lugar e dei de presente para Soraya, apaixonada por história oral. Ela promete encontrar a fita e me emprestar para eu ouvir novamente.

dsc04047-copia3Ponte da Saici, a leste, um pouquinho depois

Hoje o turismo já mudou o perfil do lugarejo, onde não há ainda pousada mas se vê várias placas para aluguel de casas. Quase ficamos hospedados no primeiro andar do restaurante de Jajá, onde, na beira do riacho, são  servidos peixe defumado e galinha da terra. Um dos ilustres fregueses é o Dr. Bernardo.
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Travessia

26/01/2009

Encontro a tarde em Salvador, trânsito calmo de domingo, encontro postes com reclames de Carnaval, encontro a casa vazia, cheia de contas debaixo da porta. Jet leg de férias traz os versos de Milton e Brandt, da casa que não é minha, do lugar que não é meu. Não achei a menor graça em voltar.

Esqueci o controle do portão da garagem e domingo não tem porteiro, esqueci o celular e não tenho nenhum número na cabeça, esqueci que havia desconectado o telefone e passo um tempão tentando resolver a não conexão da internet.

Queria ter me esquecido.

Mas a vida é bela e continua. A renca ficou mais uma semana em Iaçu e eu retomo à rotina sozinho com a minha bagunça.

Ficam aqui registradas três imagens do terceiro dia de viagem, dia inteiro de praia do Pratigi, do amanhecer com chuva ao anoitecer de véspera de lua cheia (as TRÊS duas últimas fotos foram feitas por Luísa).

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Azul e branco

23/01/2009

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Não comungo da concepção católica de Deus mas tenho uma grande simpatia por templos católicos. E os do Baixo Sul são especialmente bem localizados, na maioria das vezes no alto de colinas,  na maioria das vezes com grandes escadarias como este de Ituberá na foto acima. E também  na maioria das vezes  azul e branco como a maioria dos barcos que navegam por aqueles braços de mar e ilhas.

Porta da igreja matrizDetalhe da porta da igreja

Se eu fosse pintar um quadro do Baixo Sul eu também pintaria em azul e branco. Tudo ali é céu, mar e espuma . E ainda tem de quebra o verde da vegetação exuberante e variada. As matas invadem as cidades, os mangues invadem as águas.

Clique na imagem para ver e ouvir a cachoeira em movimentoClique na imagem para ouvir e ver a cachoeira em movimento.

Acordamos no segundo dia de viagem na intenção de Pancada Grande, a cachoeira. Estive também ali a trabalho há uma década e pra minha surpresa o entorno da cachoeira mudou para melhor. Na época só havia os escombros da casa de máquina da velha hidrelétrica e muito lixo deixado pelos visitantes.  Se não houvesse a intervenção que houve talvez estivesse coalhada de barzinhos , churrasqueiras e muito arrocha como a cachoeira dos Prazeres, no Rio Jequiriçá.

Mas a Michelin, aquela do boneco gorducho, e dona do pedaço, se penitenciou do fedorzão que joga nos ares da entrada de Ituberá com sua usina de borracha e criou uma pequena reserva no entorno da cachoeira. Os carros dos visitantes são barrados numa zona de contenção a cerca de quinhentos metros da queda d´água e os visitantes caminham por um corredor de mata. Perfeito.

No final da manhã chegaram mais alguns banhistas. São aqueles pontinhos sessenta metros abaixo.
Os pontinhos à esquerda são banhistas que chegram no final da manhã

Como chegamos cedo, num dia de semana, tivemos o privilégio de sermos os únicos banhistas naquele início de manhã. O tempo passou rápido e a gente teve que voltar às pressas para fechar a diária do hotel antes do meio dia e partir para Pratigi para arriscar camping, pousada ou o tal chalezinho sonhado por Soraya.

E não é que o tal chalezinho  rolou?  Quarto exclusivo para o casal, meninos amontoados em bicamas na sala, bar americano, geladeira grande, relógio, fogão, escorredor, suporte de  garrafão de água mineral,  kit cozinha, rede na varanda e chuveiro quente, quintal, lavanderia, chuveirão  e um mercadinho perto.  Tudo isso por R$ 50 o dia. Pra quem estava preparado para gastar quase isso num camping, o sentimento foi de ter encontrado um cinco estrelas.  Tudo isso acompanhado da simpatia de Dona Lenice e de sua irmã Emília. Telefones para reservas:   (73) 9988 1598/ (71) 3249 2839.

Chalé SabiáChalé Sabiá

Deu ainda tempo para  um mergulho. Voltamos já noite, curiosos com a sugestão de Dona Lenice de um passeio pela praia a Barra do Serinhaém. As duas últimas fotos foram feitas no dia seguinte, mas reproduzem bem os programas e a alegria deste segundo dia de viagem.

Maria no PratigiMaria no Pratigi

Valha-me meu Santo Antõnio da Anta Gorda

23/01/2009

Depois de chorar o Chorik que se mandou, apenas por uns tempos, espero, foi a vez de constatar o fim da Menina da Ilha.  Paulo Galo já havia parado e Maria Fabriani não posta desde o primeiro Advento do ano que passou.  Blog é um negócio cíclico, como época de gude e arraia e de tudo o mais nesta vida.

Mas ainda tenho gás e estou aqui me coçando para contar a tal viagem, nascida de uma entrevista com um médico de 85 anos. Na verdade a mãe de tudo é Soraya, que vinha  sugerindo há algum tempo uma viagem de férias, não seria  tão caro assim, poderíamos achar uns chalezinhos em conta para acomodar todo mundo. E achamos.

A última viagem da renca de férias, noves fora Natal e São João para Iaçu, Conquista e Minas, foi há seis anos para Igatu e Andaraí, quando Maria sequer existia. Teve o reveilon do ano retrasado, na Ilha, com  Marcinha, mas foi uma coisa rápida. Ano passado passei janeiro trabalhando.

A  tal entrevista foi decisiva. O sujeito já viajou o mundo, todos os destinos exóticos imagináveis  e na última pegou o transiberiano, se picou para a Mongólia. Acampou numa tenda mongol com direito a xixi ao relento do frio de rachar Gengis Khan.

Então pensei  cá com meus botões, dinheiro não tenho para ir tão longe mas tenho uma barraca e uma renca. Por que não?

Pensamos inicialmente em  Camamu e Barra Grande, mas optamos pelo Pratigi, onde estive há dez anos a trabalho, na inaguração da estrada. Mergulhei  naquele mar com roupa e tudo e prometi um dia voltar lá. Voltei.

Tenho algumas destas promessas ainda na cabeça.

Ia a trabalho, passava um, no máximo dois dias, e sonhava, e prometia voltar  com mais calma e com os meus. Nunca havia cumprido sequer uma destas promessas. A Cachoeira de Tremembé, também no Baixo Sul, Gentio do Ouro, próximo a Xique-Xique,  o Parque Estadual das Sete Passagens, em Miguel Calmon, Correntina, no Oeste, são alguns destes destinos sonhados.

Viajei com a Viagem do Elefante na cabeça, resultado da leitura de presentes de fim de ano. Uma amiga recomendou, com o devido esclarecimento de que era best seller mas era muito bom. Não tenho preconceito com best-sellers. Pra mim tem a vantagem adicional de poder ser lido até o final. Gosto de Saramago, do português de Portugal, que é a mesma coisa sem ser, como o ditado sobre o bom entendedor, para quem até meia palavra sobra.

Lá pelas tantas, ao explicar um deus indiano, ele se refere a um deles que não se preocupava em ter filhos, posto que era imortal. Ao ver Luluthica ansiosa para acordar de madrugada e ir ver o sol nascer, eu me senti meio que continuado nela.

A viagem me colocou mais perto deles e de Soraya. Nos colocou a todos um perto do outro. Demasiadamente perto muitas vezes. Era briga todo dia, mas era grude também.

Já falei sobre o primeiro dia, no post do dia 07, quando saímos às 8h30 da manhã de Iaçu para Ituberá , do licuri em direção ao dendê, com o Vale do Jequiriçá no caminho. Acrescentei no post antigo duas fotos que não entraram naquele dia por dificuldades na lan house.

A Cachoeira dos prazeres, no Rio Jequiriçá, foi ocupada bem ao modo  de quase tudo neste país.  De um lado invadiram os pobres, com seus quiosques movidos a churrasco e arrocha. Na outra margem,  o melhor hotel da região também não se acanha de quase cair dentro d´água para dar conforto e proximidade aos seus clientes. Mas eu não vim aqui para me queixar. A água estava boa e limpa, e ter uma cachoeira no juízo, despencando na cabeça, de fato  é um dos prazeres desta vida.

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Água

07/01/2009

Cá estamos a renca em Ituberá (Bernardo, cadê você, viemos aqui só pra te ver) depois de um dia inteiro de viagem desde Iaçu para percorrer 287,4 km de  lajedos,  morros, vales cachoeiras, rios, brigas de meninos no carro, gritos, choros, alegria de viajar e muita, muita água,. Porque baixo-sul da Bahia significa água. A lan house vai fechar e eu aqui só tenho tempo de fazer este relato fotográfico bem viagem família. Fica o registro e o custo de ter perdido A Favorita, só para nãp deixar de postar. Ontem teve uma cena antológica de Líliam Cabral a relatar apavorada a perspectiva de sexo com o novo namorado depois de anos e anos de donzelice monogâmica.  Amanhã o programa é mais água: cachoeira de Pancada Grande pela manhã  e a tarde rumamos para Pratigi para nosso acampamento meso-selvagem. Será que lá dá pra assistir A Favorita? E Maysa?

Rumo a Lajedo Alto

Rumo a Lajedo Alto

Cerca viva da fazenda Santo Antônio da Anta Gorda

Cerca viva da fazenda Santo Antônio da Anta Gorda

Vale do Jequiriçá

Vale do Jequiriçá

Deco

Cachoeira dos Prazeres, Rio Jequiriçá.

Cachoeira dos Prazeres, Rio Jequiriçá.

 

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Rio Graciosa

Rio Graciosa

Taperoá

Taperoá

As Três Marias

31/12/2008

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Dizem que não se deve voltar aos lugares das lembranças. Com razão, porque a gente nunca volta ao mesmo lugar. Imagens, sons, cheiros, cores, atmosfera, normalmente decepcionam na proporção direta das expectativas. Mesmo assim gosto de voltar aos lugares e às pessoas. Nesta viagem de Natal, o roteiro  Iaçu-Conquista-Iaçu me levou a lembranças da infância: às roças dos tios, na estrada Conquista-Anagé, e à cidade de Tanhaçu, para a casa de Tia Lurdes.

A casa e o terreiro acima, em foto desta semana, me trazem as férias da infância, quando brincava com os primos, próximos a este pé de eucalipto, onde recolhíamos os pequenos peões/sementes.  Era acolhido pela madrinha, tia Alzira, e nas madrugadas acordava nesta casa, debaixo dos cobertores, com a propaganda dos cobertores das casas Pernambucanas, num diálogo musical entre uma dona de casa e o frio:  - Quem bate? – É o frio!  - Não adianta você bater, que eu não deixo você entrar… Ali perto, na roça de tio de Assis vi pela primeira vez a Via Láctea nas noites sem luar do sertão.

Ao passar por Tanhaçu, veio na memória uma viagem de trem, desde Castro Alves. Minha primeira aventura, primeira vez que viajei sozinho, com 12 ou 13 anos, pendurado na escada do último vagão e intrigado com a perseguição das Três Marias, que me seguiam. E chegaram comigo. Lembro que em Tanhaçu acordei certa vez de madrugada para tentar ver a tal Estrela Dalva e vi. Ou acreditei ter visto.

Anos depois aprendi a ver no céu os planetas a algumas constelações. Gosto muito de planetários mas na nossa triste Bahia só existe um, em Feira de Santana.

Anteontem coloquei as crianças menores no carro e segui para fora da cidade, o suficiente apenas para chegar a um ponto escuro e apagar os faróis para que eles vissem o céu e as estrelas.  E lá estavam novamente as Três Marias.

Elas me seguem até hoje.

Um 2009 de céus estrelados para todos nós!