Perdeu, nostalgia.

08/02/2016

Sempre defendi que o melhor Carnaval é qualquer Carnaval com os hormônios dos 20 anos. A BaianaSystem me mudou de ideia ontem, na Castro Alves. Aliás, comecei a mudar sexta, ao encontrar Riachão subindo a ladeira do Pelô serelepe, a bordo de quase 95. Reformulo a ideia, o melhor Carnaval é quando o som bate junto com o coração e faz você pular, faz você cantar, faz você dançar, faz você amar. Hoje.
Playsom, playsom. Já ouviu é déjà vu.
E tive um déjà vu ontem ao descer a Castro Alves no mesmo local onde lá no começo dos 80 ouvi pela primeira vez os tambores do Olodum, onde amanhecia com Armandinho. A Baiana colocou tudo isso numa panela, juntou todos os ritmos e serviu no presente, e juntou gente, e chamou gente, e misturou todo mundo, fez renascer a praça. Balançou o chão da praça, da Carlos Gomes.  Ano passado desci com eles e me senti intruso, no meio daquela meninada. Ontem não, estava misturado ao bolo, que só aumenta.

Até sexta não tinha pretensão de ir pra rua. Mas aí Paulinho da Viola chamou, fomos. Aí o Ilê chamou, fomos. E emendamos com a Rumpilezz, com o Gandhy, com a Baiana. A rua tá muito boa, a Praça tá muito boa. Hoje.
Perdeu, nostalgia.

PS. O melhor é que ficou registrado. A partir de -0:28.

Baiana

 


Al-manākh

27/01/2016

Desde criança gosto de almanaques e suas informações curiosas e inúteis. Ao assistir Cosmos (não mexam com o meu Netflix) voltei a sentir aquele prazer Macabéa, de admirar e exibir conhecimento rádio relógio: a palavra desastre tem na raiz astro e deriva dos maus presságios provocados pelos cometas, a plêiade tem sete estrelas e a mais brilhante delas se chama Alcione, que por sua vez começa pelo famoso al, revelador da origem árabe. Falar nisso, o google informa, “La palabra “Almanaque” viene del árabe al-manākh (ciclo anual)…”


João-de-barro

26/01/2016

– Ele dá quanto para ajudar a criar o menino?
– Duzentos reais. Mas eu não ligo porque ele tá construindo a casa.
– Epa, o amor está no ar.
– Que nada, eu quero é sair do aluguel.

(Leitura feminina: – Mentira, ela ainda é a finzona dele.)

 


Conta-gotas

23/01/2016

Publica. E passa a contar o retorno. Como quem conta gotas de mel espremido do favo entre os dedos, os tragos antes de prender a respiração, os sopapos da pelve.
Quer mais, como o artista a contar os lugares já ocupados antes do espetáculo de quarta-feira, as notas no chapéu depois da apresentação. Com a mesma ansiedade do pai a esperar o toque de Brown no botão vermelho do The Voice Kids.
Conta, como um menino feliz conta e reconta suas bolas de gude amealhadas, sua coleção de figurinhas, suas estrelas de estimação. Ou como um menino com frio, a contar as parcas moedas numa noite de sinaleira. Dá um like aí, tio.


O licuri e o diabo

22/01/2016

O menino queria, queria muito, ser o anjo da procissão em Iaçu.

– Onde já se viu anjo homem? Argumentou o padre, irritado.

Dia da procissão, o estouro diante da menina anjo, toda de branco. Nas pernas, o sangue brotava de vários pontinhos vermelhos provocados por estilhaços de licuri.

Pólvora socada no coquinho oco,  bomba construída e acionada pelo anjo. Devidamente excomungado pelo padre.

 

 


Arroz com feijão

22/01/2016

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Às vezes queremos ser ou parecer arroz. Mas não adianta, as transparecias desenganam. E o feijão aparece mais, bem mais do que imaginamos.

Aqui nas tais redes sociais é também assim. A pessoa tem toda a intenção, toda a crença, toda a certeza de postar arroz.  E muitos passam batidos, leem arroz, veem arroz e compartilham como se fosse arroz.

E nesse arroz com feijão a gente segue, crente que tá abafando.

Imagem: aqui

 

 

 


Médico

19/01/2016

10 horas da noite de ontem, uma mulher e um senhor vão de farmácia em farmácia na Graça em busca de um tranquilizante. Ele faz as vezes de motorista,  de segurança, a cidade está violenta. Sempre atencioso, às 10 da noite, depois de um dia extenuante de trabalho. Na hora de comprar o remédio é preciso uma prescrição específica para o genérico, único disponível. Ele prontamente puxa o receituário e prescreve novamente. As atendentes olham curiosas aquele médico e aquela mulher ali, 10 da noite, em busca de um tranquilizante. Eram 10 horas da noite e o médico acabara de fazer sua última visita do dia no Hospital Português,  ouviu pacientemente e consolou sua paciente oncológica que desabara no choro. Sua paciente de mais de 14 anos de batalha. Ele se prontifica a ir com a filha dela  em busca do tranquilizante, de farmácia em farmácia, na Graça, às 10 horas da noite.
Dizem que age assim, cotidianamente, com funcionários, colegas, pacientes.
Dr. Renato existe?


Passu japiassoca assu

07/01/2016

Silencio

-Oh, Ney Matogrosso!, disse Soraya, rolando a tela.
-Que foi, morreu? perguntei.
-Não, tem show dele…

Ando assim, com o pensamento meio Dassanta, a personagem de Elomar parceira inseparável da veia da foice.

A velha da foice é uma conhecida minha recente. Passou longe da minha vida na infância e adolescência, mesmo tendo sido premiado com quase 20 tios e mais de 60 primos.

Talvez por isso tenha cultivado por muito tempo o sentimento de imortalidade, pra mim e pro mundo. A morte habitava os livros, os jornais, a música, a história. As lembranças mais fortes de hospital eram de uma operação de fimose aos 10, 11 anos ou  quando ia visitar os irmãos quando nasciam e ficava impressionado com o cheiro e as caras das moças pedindo silêncio.

Mas de um tempo pra cá, a fila tá andando rápido, as visitas ao cemitério em procissão são frequentes, as visitas aos hospitais idem, as más notícias por telefone também, melhor encarar.

A esperança é que todos nós, assim como Dassanta, nos transformemos pelo menos em  pássaros das asas amarelas, Passu japiassoca assu.

 

 

 

 

 

 

 

 


Três da madrugada

04/01/2016

Sem título
Torquato Neto

…noite alta madrugada
na cidade que me guarda…

Torquato Neto / Carlos Pinto

À espera do dia (in)útil, tropeço na voz de Gal  nesta poesia de Torquato Neto.
Pra quem gosta de ruas, de madrugadas, tudo e nada.

Gal Costa, 1973

Carlos Pinto, 1973

Vereônica Sabino, 1993

Nouvelle Cuisine, 1995

Lu Horta, 2013

Márcia Castro, 2014

Patrícia Mellodi e Zeca Baleiro, 2014

 

Sobre a música e Torquato Neto: http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2012/11/torquato-neto-as-tres-da-madrugada.htm

 


Família, Familha, boatos e apedrejamentos

29/12/2015

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A moça amarrou o cabelo para mostrar a tatuagem nas costas. Foi mostrada pelas costas, alvo de chacota em sites de tatuagem desde 2014 e recentemente, com o incêndio no museu da língua portuguesa, renasceu como piada no facebook: encontrada a suspeita!

Impossível ficar indiferente à foto. Dá agonia, da pena, dá ginge. Mas aí surge uma dúvida. E se não for Português? Uma rápida googlada tradutora informa: Familha é família em catalão. Fico com esta possibilidade.

(P.S: infelizmente  errei, confiado no google tradutor. Vem da Espanha – no comentário de Marcia Cristina Rocha, no facebook, e no inbox, por consulta a Neyse Cunha Lima) – a informação de que família é família aqui e na Catalunha). Então, vale ainda mais a última frase deste texto)

A foto tem todos os ingredientes e descaminhos de boatos, ironias e apedrejamentos na internet.

Boato, porque é verossímil. A gente escreve família mas fala familha, sobrou pra quem tem pouca leitura, ou seja, a maioria de nós, brasileiros. 

O mais grave é o apedrejamento. Num dos comentários da foto alguém ainda riu da qualidade da bolsa da moça. E assim caminha a desumanidade. Saiu fora do padrão, pau.

Como desejo de ano novo, quero ficar mais atento ao que leio, rio e reproduzo.

 

Foto: http://bit.ly/1mgIojl

 

 

 


Top five 2015

10/12/2015

Dezembro gastando, tempo de fazer listas do feliz ano velho. E como boa parte das nossas vidas transcorreu diante desta tela, seguem os meus escolhidos:

1- Sensacionalista

Disparado, o melhor da internet que chegou aos meus olhos. Dá em chico e em francisco sem dó nem piedade. Isento e de verdade.

2 – Jout Jout Prazer

Com vídeos aparentemente despretensiosos, esta garota dá seu recado e segue ganhando o mundo.

3- Clímaco Dias

Escolha dura, entre amigos. Mas Clímaco manda muito bem nas ideias, no humor, com a família, com as divas. um autêntico prosa boa.

4 – Helder Reis

Fotos, fotos, fotos. Inacreditáveis fotos.

5 – Tia Má 

Descoberta recente, o mais divertido guia de comportamento masculino/feminino com delicioso sotaque baiano.

E sua lista Bê?

 


Espelho

22/11/2015

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Fui ao centro hoje e resolvi retornar aos territórios de memória pessoal da cidade. Passei pela casa do Garcia. Não foi uma boa experiência. Gradeada, suja, descascada, não combina com a memória filtrada e cheia de luz daquele lugar de pulsar dos vinte anos.
Olhei pra fachada e me vi no espelho. Atualizado.
Futucando neste coco pequeno achei este texto sobre aqueles dias:

A casa do Garcia e as paulistas

22/07/2010

1981, 1982. A casa era comprida, de rua a rua, da Conde Pereira Marinho à Protestantes, no Garcia. Os quartos e banheiro ficavam diante de um corredor, seguido de uma sala, uma pequena cozinha e um quintal. Última casa da rua, tinha muitas janelas para o vale. A população de moradores era flutuante. Havia um núcleo mais ou menos fixo, mas a rotatividade era grande. Uns trabalhavam, outros estudavam e trabalhavam, tinha quem não trabalhava e nem estudava. Quase todos na faixa dos 20 anos.

Nos quartos, colchões, tatames, araras e baús de vime. Na sala, estante de pranchas de madeira sobre blocos de argila sustentava uma pequena biblioteca, aparelho de som e muitos LPS. The Wall, do Pink Floyd, talvez seja a trilha sonora daquela casa, junto com Trem das Cores, de Caetano.

Tinha também uma gata que se chamava Leila Diniz. E muito incenso.

Num sábado de Verão, alguém chegou com duas garotas conhecidas naquele dia na praia. As meninas iam voltar para o interior de São Paulo porque o dinheiro estava acabando e elas não tinham como continuar as férias hospedadas no Othon. Claro, foram convidadas a continuar em Salvador, hospedadas na casa do Garcia.

Tudo ali era novidade para elas. As namoradas que dormiam na casa, as portas quase permanentemente abertas, inclusive a do banheiro, os papos, enfim, estavam com juízo de meninas do interior de São Paulo e filhas de militares completamente retorcido.

Mas a porrada veio forte à noite, quando resolveram conhecer o Zanzibar, aquele mesmo onde os orixás acenaram com o não/sim. O bar ficava ali pertinho e dava para ir a pé. Numa só noite, viram de perto o que só conheciam de ouvir falar: dois homens se beijando, um grupo fumando maconha e Gilberto Gil.

https://licuri.wordpress.com/2010/07/22/a-casa-do-garcia-e-as-paulistas/

 


E nós?

21/11/2015

As mangueiras de Brotas são imunes às crises. Espremidas entre paredes, cercadas de cimento, seguem cheias, repletas, carregadas. Como os lírios do campo, tão nem aí. Fizeram a sua parte. Estão prontas para janeiro.


14

31/10/2015

Meu Deco faz 14 hoje. Maior do que eu, garoto bonito e muito na dele. Parabéns, filho!


De cima

30/10/2015

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Hoje voltei ao circo Picolino, voltei a integrar uma ficha técnica de um espetáculo de artistas formadas pelo circo, na função de propagandista, máximo que consegui até hoje do sonho de ser trapezista.

E o melhor do circo acontece lá em cima, para onde se dirigem os olhos e os queixos arriados da plateia.

Feliz com este retorno. No circo só havia picadeiro e plateia, o circo está nu mas ali brotando coisas, trabalhos. E em breve, esta é a grande notícia, chegará uma nova lona.

Portanto, senhoras e senhores, respeitável público, assumo meu posto no megafone e engrosso o coro: vem aí  Histórias Contadas de Cima.


Safra

22/10/2015

A menina desde ontem está encafifada, incutida, incomodada, aperreada, não fala em outro assunto desde que apareceu sua primeira espinha, no queixo. Coloca o dedo, cobre, acha que aquele ponto é a direção de todos os olhares.

Mas  hoje entra no carro radiante, depois da aula. Descobre em quatro colegas a mesma espinha, no mesmo lugar da sua. Voltou a pertencer ao mundo.


20

28/09/2015

Dedico esta página musical a minha Luísa que a partir de agora cabe inteirinha na canção.


Eclipse, tempo, insight

28/09/2015


Retratos

12/09/2015

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“Era uma noite maravilhosa, uma noite tal como só é possível quando somos jovens, caro leitor”.
Esta é a abertura, bela abertura, do conto pretendido para leitura nos momentos de espera antes de receber na veia doses de radioatividade para tirar um retrato do velho coração descompassado.
São duas doses, dois retratos, mas o conto ficou pelo caminho. As conversas no pequeno cubículo com paredes grossas de chumbo, onde se reúnem homens e mulheres não jovens agora radioativos, tomaram conta da manhã. Uns com muitas falas, talvez os mais medrosos, outros no silêncio atento enquanto aguardam a vez.
Estirado debaixo da grande máquina fotográfica de coração eu me sinto um modelo do século retrasado diante do daguerreótipo, sem direito a  mexer nem uma unha, respiração contida. Tomara que este treco evolua como as máquinas de retrato de gente pelo lado de fora.
“Chegou bem amor? Ainda bem, te amo”, diz o médico ao celular enquanto aguardo todo conectado a fios e espetado por uma seringa por onde entrará a segunda dose radioativa durante uma caminhada na esteira. Nesta mesma semana tentei me despedir da médica que me fez um outro retrato do coração, daquela vez sonoro e transmitido diretamente para uma tela de TV. Mas não consegui nem ouvidos nem olhos,tão ligada ela estava à tela do seu espertofone.
É preciso esclarecer que a atenção aos telefones não invadiu o momento da realização dos exames. Estes gestos não me incomodam, vejo-os apenas como sintomas de um tempo, um tempo em que nascem também muitas novas palavras, como essa, espertofone,  até outro dia desconhecida.
Pretendo chegar ao final da leitura do conto na continuação da investigação médica. É um texto pequeno, Noites Brancas, de Dostoiévski. São apenas 97 páginas, quase um bilhete se comparado aos seus grandes clássicos.

 


Adeus, meu prezado!

10/08/2015

Ele se vai aos poucos, sem alarde, sem angústia, sem dor. O coração desacelera, o pulso cai devagar até o corpo ficar completamente em silêncio e frio.  Talvez as palavras mais sinônimas de morte sejam silêncio e frio.

Em volta a vida pulsa. No choro, na dor, no corre-corre para as providências dos adultos. As crianças, o cachorro, o papagaio também participam de alguma maneira do redemoinho, é um momento de quase transe para todos.

Uma morte à moda antiga, em casa, de uma forma a cada dia mais rara. Seu Rubem, meu querido amigo de 94 anos, que me chamava de meu prezado, muitas vezes de meu filho, avô de Soraya, bisavô da minha renca,  foi embora cercado de cuidado, de carinho, dos filhos, netos e bisnetos.

Enterrado ontem em João Amaro, ao lado de sua Ludu. Também numa tarde ensolarada de domingo.
Não casualmente Dia dos Pais.

___

Aqui umas histórias desta convivência: https://licuri.wordpress.com/?s=Rubem+Reis


Não te perdoo por te trair

31/07/2015

Sem título

Ela tem 20 anos, cuida da casa e do filho de 2, em Cariacica, Espírito Santo. Ele tem 33 e é mecânico. Estavam juntos havia cinco anos mas 15 dias se passaram sem um toque, sem um chamego, sem cama.

15 dias é muita desatenção.

Ela então foi à luta e em uma semana tirou por duas vezes o atraso, com  outro, a última vez num domingo, quando os três se encontraram. Ele tentou jogar a moto em cima da moça, ela se esquivou.

Em casa, ela mandou ver de faca, caneta, até tampa de fogão. Brigaram mais uma vez, terminaram na  delegacia.

Na foto do jornal ela veste uma camisa onde se lê  Love Story. É ouvida e  liberada pelo delegado porque ele não quis prestar queixa.

A história está nas páginas do jornal A tribuna, de Vitória. E como bem lembrou  minha amiga Ana Lívia,  a moça não perdoou por  trair.

É a realidade tecendo mais uma trama, superando ficção. Se Gilberto, o corno de Nelson Rodrigues, assume a culpa e pede perdão por ser traído, se o traidor de Chico Buarque, em Mil Perdões, perdoa por trair, nossa heroína não pede desculpa e nem pede perdão.


Não vou me adaptar

21/07/2015

Na Rádio Educadora, Arnaldo Antunes prevê: Não vou me adaptar.

A tarde é de julho de 2014 mas a melodia cheira a anos 80,  lá se vão três décadas.
E a velha canção pós-adolescente cai hoje novamente como um luva nesta pré-terceira idade:

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia…

A cada frase, mais atual…

No espelho essa cara já não é minha…

Não vou! Me adaptar!
Não vou! Me adaptar!

Não Vou Me Adaptar
Titãs

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia

Será que eu falei o que ninguém dizia?
Será que eu escutei o que ninguém ouvia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar

Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
Mas é que quando eu me toquei
Achei tão estranho
A minha barba estava desse tamanho

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar

Não vou!
Me adaptar! Me adaptar!
Não vou! Me adaptar!
Não vou! Me adaptar!


…e eu me sinto melhor colorido

29/06/2015

Sem título

Eita ignorância e falta de memória. Talvez por isso goste tanto da internet, onde diminuo a ignorância e a lembrança é sempre estimulada pelas checadas quase a minuto no google, prótese de memória, HD perdido.

Quando ouço alegria é a prova dos nove, minha cabeça repete musicalmente e a tristeza seu porto seguro.

Até hoje pela manhã, quando li a coluna de Xico Sá sobre o fiasco da seleção na Copa América para ser informado e lembrado que a frase é do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.

É a segunda vez que o manifesto me pega.

Ao me deparar com a frase Só não interessa o que não é meu numa colagem de um tapume do metrô de São Paulo fiquei incutido, fotografei. Também descobri depois  que a fonte era o  manifesto. Santa Ignorância.

sampa2

Fiquei em dúvida quando vi na sexta-feira a campanha deflagrada pelo facebook para mascarar as fotos dos perfis com o arco-íris. Entro ou não entro na brincadeira? Fiz o que muita gente deve ter feito, chequei quem entrou. Gostei de quem vi, vesti meu arco-íris e segui a parada.

Passei então a acompanhar a pipoca na panela. A TL foi praticamente tomada pelas alterações das fotos de perfil. E pra todo mundo que passava eu dava um alô com polegar e era retribuído. Foram 208 acenos de volta. Isso me deixou feliz e me lembrou aquele momento da missa onde o padre ordena e todo mundo se abraça, em clima era de confraternização. Ou os encontros de Carnaval.

Começaram a surgir também as brincadeiras de bom e de mau gosto. E os argumentos mais ou menos  elaborados. Modinha, comportamento de manada, inocentes úteis do marketing do facebook, melhor seria combater a fome no mundo e por aí vai. Não vou chover no molhado. Tá tudo muito bem rebatido duas vezes pelo professor  Wilson Gomes aqui e aqui  e por Rafael Sampaio aqui.

Difícil saber o tamanho do impacto desta campanha. Pra mim pelo menos serviu para reler o manifesto e ouvir novamente Geléia Geral. Toca Torquato:


Curta pra quebrar melhor

26/06/2015


faceO coco pequeno é também página.


Oh! telefonista, a palavra já morreu?

25/06/2015

Nos últimos dias me dei conta da presença de Fernando Brant na adolescência, vida afora. Tentei fazer lista de 10, não consegui diminuir destas 23: Beco do Motta, CaxangáPonta de AreiaConversando no BarSan VincenteCanção da AméricaCanoa, CanoaCredoFeira ModernaGente que Vem de Lisboa/Peixinhos do marItamarandibaMaria MariaMaria SolidáriaMilagre dos PeixesO Medo de Amar é o Medo de Ser LivreO Que Foi Feito DeveráOutubroPaisagem da JanelaPaixão e FéPara Lennon e McCartney, Roupa NovaSentinelaVevecos, Panelas e Canelas.
Ops! Faltou Travessia


Joanita

22/06/2015

“Joanita havia completado dezenove annos, e d. Maria que se casara aos quinze, julgava aquella idade já um tanto elevada para uma menina casadoira.”
Que fim levou Joanita? Qual o desfecho da sua história na página 4 de O Combate, que circulava  aos domingos pela manhã, naquele domingo do São João de 1935? *

As palavras  amareladas no papel ressuscitam hoje  para os meus olhos e os de algumas dezenas de pessoas na página de fotos antigas de Conquista em cristal líquido.  No tempo de Joanita, o texto era  grudado no papel em tinta, na forma do linotipo, os l e os n eram algumas vezes dobrados e com ph se escrevia physionomicos.

A alegria de quem produz um texto, qualquer texto, é ser lido.

Produzo então aqui alegria póstuma e presto  homenagem a este escritor anônimo da primeira metade do século passado numa pequena cidade do sertão.

Que fim terá levado o autor do texto?

P.S: por sugestão de Paulo Galo, lanço aqui o desafio.
A moça vai resistir às pressões da mãe para a aceitar a corte dos “cow-boys”. Ou vai optar por um pretendente “civilizado”?
Enquanto não localizamos a página 4 de O combate, quem se arrisca a completar a história de Joanita?

Joanita1

Texto completo joanita

O S. João de Joanita

Joanita era o encanto da fazenda Páo d’Arco. Não era dessas moças que se fazem bellas, mediante  os enfeites, os atavios da moda, os recursos da arte. Ignorava a maquillage. Despresava o baton.  Sabia’se formosa, dessa formosura natural, cambiante a apenas ás variações do nosso clima  voluvel.
Bem nova ainda fora mandada á Capital, a estudar, interna, no Collegio dos Perdões.
Aos dezeseís annos, achava’se prestes a collar o gráo de alumna mestra, quando lhe morreu o pae.  A viuva d.Maria Vieira, não podera supportar mais, a ausencia da filha unica.
Joanita teve que voltar aos seus penates, sem o diploma de professora. Era o carinhoso genitor  quem fízera questão de um diploma qualquer para a sua adorada filhinha.
-Eu quero minha filha, disséra d. Maria, aos parentes, qundo do fallecimento de seu esposo. Graças  a Deus, temos com que viver. Ella não precisa de nenhuma carta. Eu é que preciso della. Não  poderei viver assim isolada.

*
* *

A inconsolavel viuva entregando a administrração da fazenda, a direcção de todos os seus negocios, a um irmão dedicado, Paulo Vieira, passara a viver quasi unicamente para a filha, que lhe recordava, pelos traços physionomicos, a imagem do defunto esposo.
Comtudo desejava casa-la. Joanita havia completado dezenove annos, e d. Maria que se casara aos quinze, julgava aquella idade já um tanto elevada para uma menina casadoira.
Os pretendentes é que não faltavam. A Fazenda Páo d’Arco era um castello encantado, onde uma pequenina castellã ou fadazinha, attrahia pela sua belleza magica, toda a “nobreza” das enstancias circumjacentes.
E os jovens fazendeiros, por mais esforços que fizessem não podiam desencantar a fada, encantando-lhe o coraçàozinho…
*
* *
Era dia de S. João.
Sentadas ambas na varanda da bella vivenda, d.Maria dissera a filha:
-Porque não acceitas o Everaldo Gomes? Um rapaz que está em boas condições, e que pode fazer’te feliz?
– Não, Mamãezinha. Não me fale num moço que me vem fazer a corte, vestido com um gibão e perneiras de couro! Julgam estes senhores que basta o seu porte de “cow-boys” para conquistar, num olhar, a nossa admiração!… Eu nunca me habituarei a um marido assim. Prefiroum homem civilizado, ainda que seja pobre.
_ Faça o que quizeres, minha filha. Creio, entretanto, que com essas ideias, ficarás para tia. A Bahia, civilizou’te talvez mais do que o necessário… Mas, eu não ponho obstaculos á tua linha de conducta… Seja como quizeres…

CONT. NA 4. pag.

 

Joanita

* Publicado em https://fotosdevitoriadaconquista.wordpress.com/1935/06/23/o-sao-joao-de-joanita/

Conquista na época de Joanita:

rua-grande-1939

Foto: https://fotosdevitoriadaconquista.wordpress.com/1939/09/06/rua-grande-automoveis-postes/

face


Aula

18/06/2015

Sentei num banco de espera, comprei uma paçoquita e puxei assunto. Há alguns anos houve uma campanha para ajudar na sua  cirurgia e aproveitei para saber do resultado. Normalmente calado e concentrado no atendimento aos clientes, me espantei com sua fluência, clareza, e tranquilidade para falar sobre o assunto.

Sabe tudo sobre seu tratamento. Contou como fazia religiosamente a cada seis meses o acompanhamento do PSA. Numa dessas, deu alto. Passou também a fazer biópsias regulares, seis meses PSA, seis meses biópsia. Mas não dava nada. Até que um dia deu e veio a decisão médica. Melhor tirar. Atendeu prontamente à indicação, tirou. Não precisou de procedimento adicional, tava bem no começo. “Tirei logo para resolver, depois não tive mais nada”, diz com uma ponta de alegria e total confiança em tudo que foi feito.

Não economiza resposta. Em alguns minutos soube detalhes de seus 73 anos de vida, como começou a trabalhar de motorista de trator e de caminhão no interior, como foi rebaixado a cobrador nos primeiros meses em Salvador por falta da carteira de habilitação. Tirou a carteira mas deixou a vida de motorista de ônibus para vender balas e doces. Um negócio que combina mais com sua natureza.

Jamais conheci alguém tão resolvido com rotinas médicas. Frequento aquele lugar há quase 15 anos e em todo este tempo poderia ter aprendido mais com o baleiro.


Joinha$

15/06/2015

god-likes-this

Você passa muito tempo na internet porque está infeliz ou está infeliz porque vive na internet?  Nem uma coisa nem outra, penso eu. Como bem ensina o professor Antonio Nery, o problema não são as drogas mas as pessoas.

Já está bem claro que o X da questão  não está  na coca nem na coca-cola, nem no cigarro ou no baseado, no álcool ou no rivotril, tampouco no Bono ou na Nutella.  São todos inertes e inocentes.

O problema, como sempre, está em nós.

Fui a uma reunião de escola com pais, destas que costumam comparecer alguns gatos pingados, estava entupida, nunca vi tanta gente. O assunto era internet. Estamos todos perdidos, pais, filhos, professores. Quem souber a saída, por favor aponte.

A droga do facebook é um pouco mais pesada, complexa, nem tão inerte, nem tão inocente. É uma droga social.
A matéria de capa da Superinteressante deste mês,  assinada por Alexandre de Santi, dá uma pequena noção da força deste “doce” tecnológico. Somos 59 milhões de brasileiros conectados ao f azul e branco todos os dias, numa rede de 1,4 bilhão de almas em todo o mundo. Uma droga que rende muito dinheiro.

Muito interessante também o box do editor Bruno Garatonni, que criou uma página nonsense, com o título Sdftyu459868 e sem nada publicado mas conseguiu  184 likes ao pagar R$70 ao Facebook.

Na matéria, relatos de experiências que demonstram a infelicidade aguçada pela exposição da felicidade alheia, já que, em tese, as pessoas tendem a mostrar ali seus melhores momentos. Por que não eu? seria a pergunta desencadeadora do amargo na boca diante da foto e relato da viagem, do sucesso, da alegria alheia.

Talvez não por acaso, o post mais acessado neste Licuri seja sobre a inveja. Talvez seja este um dos sentimentos mais destrutivos e autodestrutivos também. O veneno e o ódio destilados nos comentários na rede são testemunhas desta sombria manifestação humana.

Mas enfim, tem coisas boas por aqui também. Como alguém já disse, a diferença entre o veneno e o remédio está na dose.
Qual a sua dose?

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Cachorro com pena

11/06/2015

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Luísa sempre sonhou com um cachorro. Chegou a desenvolver o desejo de ser veterinária talvez por conta desta paixão frustrada. Um dia, finalmente, venceu a resistência de Soraya e ouviu a promessa. Teria um quando não houvesse mais fraldas em casa. André deixou as fraldas junto com a notícia da chegada de Maria. Promessa retirada.

Para não dizer que nunca havia entrado outros bichos na casa, vieram os peixes. Não por vontade, mas pela imposição de um saco plástico com o condenado dentro, lembrança de  festa de aniversário. Presente que resultou sempre na busca por aquário, bomba, apetrechos e, principalmente, companhia para o solitário. Teve de tudo em uma das empreitadas. Brigas conjugais no aquário, tentativa de fuga ou suicídio – nunca ficou esclarecido o que aconteceu para o peixe amanhecer um dia no chão, no meio da sala. Enfim, longas histórias todas com final infeliz, contadas aqui, aqui e aqui.

A cantilena por um sexto morador na casa continuou com a mudança para o novo apartamento, no início do ano passado, coro reforçado por Maria. Mas foi André quem incutiu, queria ter uma calopsita. Pesquisa daqui, pergunta dali, estávamos quase comprando uma  quando Lupi entrou na nossa vida, por coincidência. Vivia em Feira de Santana solto numa casa, até que nasceu uma criança e ele foi doado para a família  da tia avó das crianças. Lá precisou ser engaiolado por conta de uma tentativa de homicídio praticada  pelo cachorro da casa.

Lupi recuperou a liberdade em Salvador. Oficialmente era de André, mas foi adotado integralmente por Maria. Ele pressentia e anunciava a chegada da menina, para sair tínhamos de correr e bater a porta antes dele pular para o corredor. Maria ia  com ele no ombro à loja comprar ração ou ao supermercado. Se ficasse com a gente na porta e ela entrasse, danava a gritar chamando pela menina.

A foto mostra bem a relação. Maria dorme, ele aguarda.

Um dia voou, foi parar na mata ao lado do prédio. Foi um Deus nos acuda.Mas aquela  fuga teve um final feliz. Lupi foi recuperado e voltou à sua rotina de cachorro com asas. Um dia, fui me desviar dele e pisei no bicho. Escapou por milagre. Num outro, recebi a ligação de Soraya avisando que havia sumido, desde cedo, não havia mais canto da casa a ser revirado.  Dei a notícia todo preocupado à menina na escola e ela nem tchum. Ao chegar, bastou um chamado dela  pra gente ouvir um pio como resposta de dentro do forro do sofá.

Mas a tragédia não tardou. Logo com ela, Maria. Ao levantar do sono, seu pé encontrou o apoio no fiel companheiro que esperava ali, colado como sempre.

Foi em prantos até o veterinário. E lá se desesperou com a confirmação da morte. Vi o que nunca havia visto, um profissional  experiente marejar diante da dor da menina.

Lupi foi enterrado no Parque da Cidade por toda a família, naquela mesma tarde, na trilha onde Maria aprendeu a andar de bicicleta, ao lado de um banco conhecido, onde tiramos fotos em anos diferentes.

O retorno para casa foi de absoluto silêncio. Choros diários antes de dormir e ao acordar. Até que o tempo passou. Cicatrizou  a ponto de eu ser liberado finalmente  para contar esta história aqui.


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09/06/2015

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Também sou hipocondríaco na internet. E se eu pegar este vírus do facebook?

Estava buscando uma desculpa pra voltar de vez para este coco pequeno, encontrei duas. Aqui eu tenho memória e como fazer buscas. Aqui não tem vírus.

O problema do blog é o silêncio. Se você muda uma foto do perfil no facebook é como sair pelado na rua. Todo mundo nota e se sente na obrigação de se manifestar. Uma foto pelado aqui talvez não gere nem comentário.

Então a solução, já tentada em vão, é publicar aqui e levar pra lá. La vou eu de novo então.

Gosto muito deste pequeno coco. Foi aqui que comecei lá pelos idos de junho de 2006, no Uol Blog, numa lan house em Iaçu. Depois de testar uns textos com uns amigos, impulsionado pelo comentário desqualificador e elogioso de um deles “foi você mesmo que escreveu isso?”, criei coragem.

Apaguei o blog em agosto, num surto de vergonha,  mas no dia seguinte criei novamente. Isso aqui é sem retorno.

Foi aqui que fiz amizades online, muitas.

Depois veio o orkut, o facebook e mais recentemente o zapzap.

O zap é a universalização da rede. Por ele me comunico com a pessoa que trabalha conosco, com a família em Conquista, com a família em Iaçu, com o pessoal do  trabalho, das escolas dos meninos,  com o pessoal do prédio. O zap reúne tudo de bom e ruim de todas as redes. Falta apenas me acostumar com os muitos,  muitos bons-dias, as muitas carinhas, dedões, orações e kkkkkkkkkkkkas.

No zap todo mundo se revela mas é um desnudamento para parentes e pessoas próximas ou relativamente próximas. Aqui é o desnudamento para todos. E não raro me envergonho do que escrevi. Basta passar o tempo.

Mas tem o outro lado, o contato, a troca, a sensação boa da loucura, da indignação, da alegria e das descobertas compartilhadas.

Então, se alguém perguntar por mim, diz que eu tô por aqui. De novo.

Foto: com Soraya, no Bar do WhatsApp, em Iaçu, no último dia de 2014.


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