Mineirinho

A fila do Aristides Maltez em noite de chuva e vento na D. João VI talvez seja o pior dos desejos ao pior dos inimigos.

E ao passar por lá  nestas madrugadas de caminhadas de ida e volta do Acupe à  Cruz da Redenção, matutei talvez a única explicação para sua existência desta forma.

Quando criança, ficava impressionado com as ataduras sujas e com crostas de secreção expostas pelos mendigos. Hoje entendo que ali havia uma contradição: curar e ocultar a  ferida faria bem a todos mas  prejudicaria a arrecadação das doações dos passantes.

A gestão do Aristides Maltez, talvez até inconscientemente, age como estes mendigos. Esfregam na cara da sociedade a fila desumana, formada inexplicavelmente também por pacientes em tratamento, boa parte vinda do interior, com suas máscaras, sondas, muletas e aflições expostos por horas e até um dia e uma noite no sol e na chuva à espera de uma ficha de atendimento.  É como se o HAM gritasse: olha o tamanho e a importância do nosso trabalho, vejam como fazemos o bem a estas pessoas desamparadas, o que seria delas sem o nosso trabalho.

Mas a gestão do HAM não é um mendigo, a filantropia do hospital é sustentada por verbas do SUS, Estado e município, além de doações de empresas e cidadãos, amparadas também por benefícios fiscais. É pouco pro tamanho da demanda? É, mas é também  dinheiro público. Gostaria de saber em que percentual.  Portanto, o que custa usar telefone ou  internet e os contatos já feitos com os pacientes  para resolver a fila?

P.S. Por conta destes textos recorrentes sobre o HAM tenho recebido manifestações de solidariedade e até receitas caseiras para o combate ao câncer. Circulou em Iaçu a informação de que eu estava internado, quem sabe em estado terminal.
Não, não é o caso. Pelo menos não ainda, nunca se sabe o que nos aguarda.
Mas o motivo deste incutimento talvez possa ser explicado por uma piada de mineiro, já contada aqui.

O mineirinho chamou o compadre para assustar as moças que estavam banhando nuas no rio com a notícia que ali havia jacarés,  só para assistir ao corre-corre nuelo das meninas.
O compadre retrucou:
– Uaí, nesta idade você nunca viu muié nua não?
– Já vi e foi muitas. Mas acostumar não acostumo não.

Faz é tempo que também não me acostumo com esta fila:
Já é 2019 na fila do HAM
HAM! HAM! HAM! HAM!
“É a fila da morte.”
O céu, as grávidas, o quartzo, a fila no Aristisdes Maltez e o mineiro

 

 

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Já é 2019 na fila do HAM

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“É gente de toda paragem do mundo”, diz a moça A.,da cidade de Araci, uma das mais tagarelas e bem-humoradas da fila, já perto do Vale do Bonocô. Estamos numa das transversais da D. João VI, a centenas de metros da portaria do Hospital Aristides Maltez, na Avenida D. João VI.

O mutirão de hoje é de marcação da consulta de mastologia para 2019. Todas já são pacientes do hospital, muitas estão ainda em tratamento, como B., que em 2016 fez mastectomia e ainda toma uma medicação oral diária. Mas para marcar a consulta com o mastologista precisou madrugar na fila do mutirão.

C. sente uma vertigem, as vistas escurecem, segura na minha mão e diz que vai desmaiar. Fico meio catatônico, sugiro ligar par o SAMU, ela resiste, imediatamente é cercada pelas mulheres com água, garrafa de café, bolachas, tudo ali à mão, nas sacolas e bolsas. Alguém aparece com um banco. A fila anda, ela recuperada segue com o grupo, agradece a solidariedade.

D. disse estar despreocupada com o tempo. Deixou uma dobradinha pronta, a casa foi arrumada anteontem, ganhou estas horas de alforria para vir para a fila.

B. teve o diagnóstico em outubro de 2016, quando, de posse de um relatório médico, foi direto para o tratamento no HAM e em dezembro fez a cirurgia. Gostou do atendimento, embora se queixe que a cada exame de imagem teve de ir para a regulação e esperar em média três meses. E não entende como sendo paciente precisa voltar ao mutirão para ser atendida por um mastologista.

C. já recuperada do susto do quase desmaio, diz ter vindo cedo da Estrada da Rainha para a fila porque o cartão está prestes a vencer. E se vencer perde o direito e será obrigada a voltar para a triagem. Mesmo pálida e fraca, ri das tiradas bem-humoradas, como uma que grita “chegamos!… no pé da ladeira”.

A. veio no carro da prefeitura, que todos os dias, de segunda a sexta, sai de Araci às duas da manhã para trazer pacientes para os diversos hospitais públicos de Salvador. Hoje fez uma viagem extra, por conta do mutirão. Durante a semana, praticamente toda a Bahia se perfila em ambulâncias, ônibus e vans pela extensão da avenida. Não existe marcação por telefone nem internet. Só na fila da triagem ou do mutirão, como hoje.

Desde 2013 acompanho esta fila do HAM, hospital filantrópico de referência no atendimento aos pacientes de câncer pelo SUS. Sempre de fora, sempre bradando, sem entender por que tem de ser desse jeito. Hoje resolvi chegar mais perto, ouvir as pessoas. E continuo sem entender. E as perguntas são muitas. A fila certamente é um sintoma, o resultado da demanda maior que a disponibilidade de recursos.

Ainda quero criar coragem para seguir em frente, ouvir o hospital, ouvir o SUS, ouvir médicos. Alguém deve ter uma explicação boa pra isso.

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Por enquanto, vou registrando:

https://licuri.wordpress.com/2016/11/23/ham-ham-ham-ham/

https://licuri.wordpress.com/2013/09/14/e-a-fila-da-morte/

https://licuri.wordpress.com/2015/01/12/o-ceu-o-sol-a-subestacao-as-gravidas-o-feldspato-a-fila-no-aristisdes-maltez-e-o-mineiro/

A cratera de Matarandiba

planta final matarandiba

Por dever de ofício, acompanho os jornais diários, sites de notícias e noticiário na TV. E como fiz curso técnico em Geologia, fiquei ainda mais intrigado com a notícia da descoberta de uma cratera de 71,7 metros de comprimento, 27,7 de largura e 45,4 de profundidade, em junho, por moradores da Ilha de Matarandiba, entre Itaparica e o continente, região de manguezal, na foz do Rio Jaguaripe.

Mas o que saiu na imprensa não responde a muitas perguntas óbvias. Resolvi pesquisar mais, já que o noticiário que vi se limita a usar como fonte apenas a empresa Dow Química, que atua como mineradora na ilha e parece ter mais interesse em se eximir de responsabilidades e ganhar tempo, em vez de esclarecer as causas do que está acontecendo. Ontem, a Dow Química divulgou  a ampliação da cratera em 6 metros no comprimento e 3,3 na largura apenas no mês julho.

Busquei então um geólogo e ele foi incisivo: a situação é crítica, há riscos sérios de ampliação e propagação da cratera e é preciso a intervenção mais efetiva de instituições como CREA, Instituto de Geociências da UFBA e INEMA para exigir mais estudos, esclarecimentos e providências. Estes órgãos podem ouvir  profissionais de geologia, geografia, oceanografia e geofísica para elucidar  o que está acontecendo.

Vejamos:

Há 46 anos, a empresa extrai do subsolo sais de sódio e potássio, conhecidos também como salgema. Para dissolver o minério, que está em profundidades superiores a mil metros, é injetada água no subsolo, que retorna à superfície na forma de salmoura.

Levada por um duto de 51 km de extensão, nos assoalhos das baías de Todos os Santos e de Aratu, para a planta industrial de Candeias, a salmoura é utilizada como matéria-prima para a produção de cloro, soda cáustica e outros insumos industriais.

A cratera surgiu a 1,1 km do povoado, próximo da represa construída para acumular a água utilizada na extração do minério (veja mapa do google acima).

Ao contrário de outras minas de subsuperfície, onde são construídos pilares de sustentação, nada é colocado para sustentar o vazio subterrâneo surgido depois da dissolução do mineral no subsolo.

Recentemente, houve também deslizamento de terra numa praia da ilha, fato nunca antes registrado pelos moradores e que pode ter também relação com o surgimento da cratera.

Será que vamos precisar de mais uma tragédia envolvendo uma mineradora para ter mais respostas das instituições interessadas?

Vídeos e matérias sobre o assunto
Atualizado em 17/08/2018

Registro  mais recente, no Jornal A Tarde, de 14 de junho

a tarde

http://atarde.uol.com.br/bahia/noticias/1984813-cratera-em-matarandiba-registra-aumento-e-chega-a-quase-78-metros

Matéria publicada pelo G1 em 13/06

g1 13 06
https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/cratera-gigante-misteriosa-com-quase-50-metros-de-profundidade-surge-na-ba-e-preocupa-moradores-medo.ghtml

 

Vídeo publicado em 14/06. Entrevista de Gil Santos com o morador Jonata, da Vila de Matarandiba, que descobriu a cratera durante uma caçada com um amigo.

Vídeo publicado em 14/06. Entrevistas de Gil Santos com moradores. São mostradas as rachaduras surgidas em casas da Vila de Matarandiba.