Mortes

25/08/2016

Em junho foi Ana, em julho Clodoaldo e hoje  Paulo. Agosto do ano passado, Rubem. Outro dia  mais longe Maria, Márcia, Ludu, outro mais longe ainda, Álvaro, Auta, Dedé.

Primeira vez diante da morte, aos quatro anos, fui levantado por um adulto para ver o rosto do meu avô Antônio no caixão. Associei morte a algodão nas narinas. Depois desse dia foram mais de 20 anos de trégua, vida sem algodão,  éramos todos imortais.

Mas de um tempo pra cá esmaeço  a cada morte. Quem morre é quem fica, a morte leva com os outros  nossa memória, partes da gente.

Mas tudo é um pouco ainda mais cruel. Ontem, por acaso,  vi o filme Invasões Bárbaras. O diálogo do professor em estado terminal e sua jovem parceira nas doses de heroína, usada como lenitivo, comprova:

– O que você tanto amava?
– Tudo. Vinho, livros, música, as mulheres. (…)
– Ainda é um grande sedutor? – Não, não mais. Com a idade não é a mesma coisa.
– Você ainda gosta de vinho? – Infelizmente não. Não com o meu fígado.
– As viagens? – Hoje em dia há turistas por toda a parte.
– Não é o presente que você não quer largar… É o seu passado. Essa vida já está morta.

 

 

 

 


Nostalgia

16/08/2016

Do tédio dos domingos. De beber em avião. De larica. Dos rios da Chapada. De um macaquito vinho do primeiro encontro. Da alegria do primeiro filho. Da noite do nascimento dos três. Da descoberta da 5ª de Tchaikovsky, primeiro vinil Grammophon comprado na Carlos Gomes. Da boleia de caminhão, na carona. Da cidade de Tiradentes. Das escadarias do TCA. Da estante de madeira e blocos da casa do Garcia. Do cheiro de murta da Leovigildo Filgueiras às duas da manhã. De estrada. Do restaurante Grão de Arroz. Do disco de Mautner. Do sonho de mudar o mundo. De uma paulista entre amigos. De uma paulista a dois. De confiar em todo mundo. De chorar copiosamente. Do Rio Neva. De ver as luas de Júpiter e os anéis de Saturno. De vento frio na cara. Do planetário de Moscou. De receber uma carta coberta de selos. Dos círculos na água formados pelo impacto da chuva no jardim aos cinco anos. Da primeira insônia aos seis, depois do Circo Thiany. Do quintal do Hotel Maringá. Da busca por estrelas cadentes na fazenda de Tio Descartes, nas noites sem lua das Minas Gerais. Do arroz de pequi. De mata-burro nas estradas. Do gosto de jenipapo, de gemada e de manga no pé. Do cheiro de gaveta velha cheia de tranqueiras mais velhas ainda. Da gamela  de coalhada  na despensa e do leite espumando no curral, no copo de alumínio com açucar. De pescar acari com saco no barranco do rio. De álbuns de fotografias, com papel transparente, cantoneiras e cordão. De Vick Vaporub, das feiras do Parque de Exposição de Conquista. Da seda azul do papel da maçã. Do quarto do Hotel Lancaster. Da feiraa da Praça da Bandeira. Do Cine madrigal. Da luz que apagava às 10 em Tanhaçu, depois de três avisos. Da padaria, do balcão e da sanfona do primo Aldinho na venda de tio Deoclides. Do balcão da loja de tecidos do tio Ruguinha.De São João. Da Iemanjá num quadro da sala de tia Lurdes. Da cama do Hotel Livramento. Da Via Láctea no céu da roça de tio De Assis. Do cheiro de sargaço do primeiro banho de mar, em Amaralina. Do gosto de picolé salgado pelas ondas e do sanduíche de sardinha no Porto da Barra, seguidos do almoço de domingo com macarrão e pudim de sobremesa. De vela na lata em forma de lanterna quando faltava luz em Castro Alves, pelas ruas com a meninada. Da música O Divã numa vitrola vermelha. De plantar alface. De chacretes. Do banho da vizinha, no quintal. De picolé premiado. De tampinha premiada. Da cachoeira de Mané Roque. Do encontro com Raul Seixas no alto-falante, numa tarde chuvosa, em Conquista. De pescar traíra com anzol. De comer licuri. Do polivalente de Castro Alves. De dirigir um caminhão 608D na madrugada, aos 14. Da camisa azul da ETFBA. Das escadas do Centro Cívico. Do bar do Bio.  De Cássia Eller ao vivo, numa noite quente no Ad Libitum. Do ICBA. De tênis Mal Estar. Do boqueirão em Minas Gerais. Da Pentax que jamais tive. Deste tal pretérito, a cada dia mais perfeito. Mas, principalmente, do tempo em que éramos todos imortais.

 

 

(Terceira versão, para o Licuri de bolso).


Presente gera presente. E riscos.

14/08/2016

Luísa deu de presente de aniversário  a Soraya um curso de fazer caderno.  E hoje recebo de presente, neste dia dos pais, um caderno quase livro da aluna aplicada. No tamanho 9x13cm, o caderno livro é tão bacana que dá pena riscar.A

Tem até epígrafe luxuosa de Nildão.
girado para a esquerda

Mas páginas em branco do miolo são um convite ao risco.
eeeeesquerda
Vou arriscar.


Bola da vez

05/08/2016

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4 razões iniciais para gostar do Pokémon GO
1) É 0800, pelo menos no desembolso. Perdi a conta de quantas vezes morri em 20, 30 dinheiros para joguinhos na internet. Acho que terei uma trégua.
2) Os meninos andavam arredios a idas aos parques. Já se animaram para dar voltas de bicicleta ou caminhar para chocar ovos e conseguir os bichos neste final de semana.
3) A conversa com os dois meus e os outros dois de amigos na carona solidária nunca esteve tão animada. Eu incluído.
4) Eles se interessam mais pela geografia da cidade. Tiram os olhos das telas e começam a  se ligar na paisagem.

Há três dias que o assunto entre eles é monotemático. Pra não ficar de fora, pedi que me explicassem. E André começou bem do começo:
– Tinha um jogo, antes de eu nascer, que se chamava Pokémon.
Explicações dadas, reforçadas pro comentários de Maria, aprendi um pouco mais do pouco que sabia. Aprendi que tem ginásios onde travam batalhas entre jogadores, estações onde buscam as bolas para captura. E que são cerca de 250 tipos de bichos, cada um com características e habilidades variadas.Isso talvez seja mais do que os personagens de Cem Anos de Solidão. Mas a informação final jogou uma pá de cal no meu interesse. O celular que uso está obsoleto para entrar na brincadeira. Somos dois.

 

Foto:  Pikachu,  capturado por Maria no ano passado numa feira de cultura japonesa.

 

 

 


Serra abaixo

04/08/2016

A primeira visão de Vitória da Conquista quando se vai pela BR-116 em direção a Minas é do alto da Serra do Periperi. No acostamento da estrada, por volta de 1969, descíamos a bordo de patinetes construídas sobre três rolamentos como este da foto.

Embarquei de volta a esse tempo da infância dos 8/9 anos ao ir em busca da peça para o conserto do motor da máquina de lavar.

Ouço o barulho do metal sobre o asfalto do acostamento da Rio-Bahia. Ele só é superado pelo ronco dos motores dos caminhões e carretas FNM, Scania e Mercedes quando passam rente, vencendo vagarosamente a serra.

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Crianças presidiárias

03/08/2016

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Nem sei se neste aglomerado, ao lado da Empresa Gráfica da Bahia, no Retiro, existem facções. O que chama a atenção na imagem é a ausência de áreas de convivência, em ruas praticamente porta com porta. Coloque então conflitos armados aí dentro, realidade de muitos locais semelhantes nesta cidade, e você terá uma vaga noção de como anda o cotidiano de milhares de famílias em Salvador.

Ontem foi a vez de Franklin Silva Santos, de 17 anos, mais uma baixa “civil” desta guerra. Morreu porque vivia em território inimigo. Morreu para que outro que também morreu sem saber o motivo, no domingo, fosse vingado.

Talvez você seja capaz de discorrer longamente sobre o Estado Islâmico, sobre o conflito na Síria. Mas seguramente, como eu, saiba muito pouco sobre Bonde do Maluco, Katiara, Caveira, Comando da Paz.

Provavelmente, assim como eu, saiba ainda menos sobre o medo de crianças e adolescentes que vivem como presidiários em suas casas, por conta do toque de recolher, realidade cotidiana destes lugares.

Reduzir todos estes exércitos à denominação simplista de “traficantes” talvez resolva apenas nossa dificuldade de entendimento desta realidade.

Mas o buraco, seguramente, é mais embaixo. E sangra todo dia.

 


Notícias de Salvador, notícias do front

03/08/2016

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Começo o dia de trabalho numa geral pelas notícias de Salvador, via google. E dou de cara com essa, de ontem. E marejo. Já havia visto ontem o filme da chegada da motocicleta, da saída da motocicleta. No intervalo, os tiros. Mas o olhar do garoto hoje me pega. Tem um quê do olhar do meu filho. Leio o lamento dos pais. O que ainda cabe na definição tragédia hoje? E fico aqui, marejado e impotente. Reclamar de quem? Reclamar de quê?


Miseras

24/07/2016

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A primeira notícia bomba que recebi pela internet foi a morte da princesa Diana, pelo UOL, em agosto de 1997. Era um domingo, estava em casa e liguei imediatamente a TV para confirmar e acreditar. Naquele tempo, notícia para ser notícia deveria estar no impresso, na TV ou no Rádio.

Hoje, quase 20 anos depois,  recebi também  no domingo uma notícia bomba pela internet, pelo  WhatsApp. Também não acreditei. Ou seja, a internet continua com a credibilidade baixa.

Como estava na rua, liguei o rádio na Band News e ouvi de Humberto Sampaio a confirmação em rede nacional: havia um sujeito ameaçando se explodir junto com a Unijorge, na prova da OAB.

Tudo isso para dizer que, mesmo sem credibilidade, os grupos do  WhatsApp foram hoje minha principal fonte de informação sobre esta  bomba piada do dia. Vá lá, não deveria ser piada porque envolve a tragédia pessoal de um transtornado mental, mas virou tragicomédia por conta da histeria coletiva alimentada pelo  que vai pelo mundo.

Primeiro vieram os áudios das pessoas que estavam no local, o vídeo da correria, o texto do juiz que negociou a rendição, tudo fonte primária, e,  finalmente, as fotos do sujeito com sua fantasia de homem bomba recheado de bala de gengibre, estas  distribuídas pelas SSP.

O print do Instagram publicada aqui me chegou  também pelo   WhatsApp. Ele chama a atenção pelo espírito de deboche na porta da universidade, mesmo ainda quando não se sabia com certeza se uma pessoa poderia se explodir. Sim, estamos em Salvador e o  ato terrorista virou evento com direito às hashtag #eufui, #eutava. Como bem comentou uma amiga, faltou pouco para aparecer a turma do isopor com água e cerveja.

Não sei se turbinadas pelas galhofa em torno do exagero do Ministro da Justiça naquela presepada com nossos terroristas de internet para mostrar serviço ao mundo, as piadas foram a melhor parte do lado comédia desta história.

Como o motivo divulgado para o ato de desespero do nosso homem bomba seria já  ter tentado 11 vezes sem sucesso passar no teste da OAB, logo apareceram os alertas para o perigo potencial da  torcida do Vitória,  com  frustração semelhante há 117 anos.

A melhor foi o recado do Estado Islâmico, em legítimo baianês: “Alá  mandou você tomar vergonha na cara e estudar pra o exame sua misera”.

Mas tudo isso  mesmo é pra dizer: juízes aloprados, suas miseras, inventem de bloquear saporra nunca mais.


“Com que rosto ela virá?”

14/07/2016

A morte, surda, caminha ao meu lado, aceitou Raul. A morte está também na Sonata Nº2 de Chopin, mais visível no terceiro movimento. Estou assim, na contemplação e no encontro da  beleza na morte, esta inevitável. Ela anda nos cercando. Os mais antigos colocam uma pedra nesta conversa. Vamos de música.

 


O medo é uma merda

03/07/2016

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Hoje senti medo da minha Piedade, da minha Carlos Gomes, da minha Castro Alves. Nunca, em décadas, havia sentido o que senti hoje. Temo muitas coisas, temo o futuro, temo as contas no fim do mês, temo a pressão alta, temo a balança, o ódio político, a ignorância, temo brochar, a falta de assunto no elevador, mas as ruas desta minha cidade inaugurei temer somente hoje.

Era um medo acumulado, já instalado e não notado. O gatilho havia sido disparado há mais ou menos um mês. A praça da Piedade tomada de moradores de rua, dois deles brigando, e eu indiferente, orientava Maria como fotografar melhor a fonte luminosa, os heróis da Conjuração Baiana, no cumprimento de uma tarefa escolar.

O celular foi arrancado da mão da menina num  bote rápido e certeiro. Sem pestanejar – pra que diabos fiz isso até agora não sei – parti no encalço do sujeito aos berros de pega, pega. Já voltava ofegante, humilhado e puto como a gente se sente nestas horas, quando alguém gritou: pegaram. O cara acabou no chão, com uma pistola apontada para a cabeça e o pé de um policial à paisana sobre as costas.

Fui  obrigado a seguir para a delegacia para cumprir o ritual do flagrante. No ponto em que as coisas chegaram, não havia mais como negociar a devolução do aparelho e liberar o sujeito. Segui com três policiais e o cara choramingando, pedindo clemência na mala da viatura, enquanto no rádio começava Vitória e Atlético MG.
– Fique quieto rapaz, se o Vitória tomar um gol aqui você vai ver o que é bom.
Passei a torcer pelo Vitória, pelo menos até a chegada à delegacia.

O gordo valentão que partiu pra cima de um miserável que arrisca ter que matar, ferir, apanhar, ou morrer por causa de uma porcaria de celular hoje percorreu as ruas do centro acuado. Não teve coragem de  caminhar  e fazer fotos como sempre. Descer do carro para ir ao Centro Cultural da Caixa com Soraya e Maria foi uma operação calculada, precedida de checagem de quem vinha, de quem ia. Ir depois ao Cine Glauber Rocha tomar um café, outra operação cercada de atenção.

Apesar da realidade gritar o contrário, nunca senti medo nas ruas. Sempre me achei parte da cidade.Morei na Senador Costa Pinto, no Largo 2 de Julho, me sentia imune, um sujeito da área. Achava estranho o texto de um amigo que certa vez me disse que seu grande prazer de ir à Europa não era visitar museus, catedrais, concertos. Era simplesmente andar tranquilo pela rua, sem medo de ser assaltado.

É uma pena ter que me render à realidade,  algum temor  é até útil como prevenção.

Mas talvez o medo seja pior que a violência consumada, porque é uma violência latente, permanente, corrosiva. O medo é uma merda. 

 

 

 

 

 


Há vida nas luas de Júpiter?

27/06/2016

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Vou na minha contramão e na de textos amigos para elogiar o facebook.

Na minha contramão porque rolar a tela muitas vezes é nauseante e repetitivo.

Na contramão de amigos por entender que assim como a verdade está no vinho, ela aparece aqui também com suas cores mais fortes, seus sentimentos mais intensos, suas falsidades mais reveladoras. Seus porres homéricos.

Complicado discutir a verdade. Mas os pedaços de verdades acessíveis aos olhos no rolar da tela matam a curiosidade sobre parte do mundo lá fora.

Pode não ser um bom alimento. Um hambúrguer, por exemplo. Mas se é o que temos para o momento, vamos de comida rápida. Com os olhos. Mas muitas, muitas vezes, aqui são servidos pratos elaborados por chefes de cozinha. E eu os como com os olhos e com a alma.

Poderia citar vários exemplos mas prefiro evitar a injustiça do esquecimento.

Aqui, para o bem e para o mal, a gente se alimenta da comida alheia, do fogo alheio, das cinzas alheias. Da verdade aparente do dia a dia do outro, como fita em série, como novela, como série Netflix. Com a vantagem da vida real. Ou quase.

Aqui seguimos os fragmentos das verdades alheias.  Sempre do lado de fora da tela, como num binóculo de ópera, num buraco da fechadura, numa objetiva de uma máquina fotográfica, num telescópio apontado para uma das luas de Júpiter. Ou para a janela do prédio vizinho.


Quem, quem a não ser o circo?

21/06/2016
Foto_Monica Jurberg
                                                   Foto: Monica Jurberg

Luana, criança, brinca por ali, no jardim da Escola de Teatro da UFBA. Eu entrevisto seu pai, Anselmo, e sua mãe, Verônica, sobre a escola de circo criada por eles. Estamos em 1986 ou 1987. Nem me lembro se a pauta vingou.

Lembro que anos depois estava eu com Luísa no colo, ao lado de Soraya, assistindo a um espetáculo da Escola Picolino, em Pituaçu, me surpreendendo pela primeira vez. Desta segunda lembrança, lá se vão quase 20 anos.

Pelas arquibancadas da Picolino já passou foi gente.

Hillary Clinton, por exemplo, deixou sua imagem ali numa foto com a boca aberta, que correu mundo, diante das crianças da Picolino, naquela época, muitas do Projeto Axé.

Passou também muita gente que nunca havia ido a um circo. Outro dia encontrei no meu trabalho uma senhora que tinha viva na memória aquela primeira vez, quando criança, com a turma da escola.

Pelo picadeiro, pelas aulas, também passou gente que brilhou em grandes circos ou apenas seguiu sua vida com boas lembranças daquele lugar. De vez em quando eles aparecem nas redes do circo e registram a saudade.

Quem nesta cidade não tem na memória pelo menos um dia de Picolino?

Desde aquela primeira vez sempre estive envolvido com aquela lona, várias vezes trocada, várias vezes rasgada pelo vento forte da orla.  Às vezes mais distante, às vezes mais próximo. Às vezes trabalho, às vezes ajudo, às vezes sumo, apareço, sou sempre bem recebido.

E sempre me surpreendendo com seus espetáculos. Com a sua produção, com seus resultados.

A Picolino criou um circo com nossa marca, a Picolino tem uma arte com nossa cara, a Pìcolino é o circo baiano. E está espalhada por aí, Bahia, Brasil, mundo afora. E  Viva.

Em Pituaçu, o circo ainda está nu, mas no cirquinho, na barriga quente da lona do cirquinho, no último fim de semana brilharam os movimentos, os sons, os corpos, a alma da Escola Picolino. Era circo, música, teatro, manifesto,  no espetáculo de título sugestivo: Que tal o impossível? 

Luana no comando, com apoio e retaguarda da Escola Picolino, de Anselmo, de Clovis, de Bia, de Márcia, de Jailson, de Carol, de Lucas, de Millenade Apoena. No picadeiro,  15 alunos do Curso Livre de Circo da Bahia, reunidos há pouco menos de um ano, num espetáculo que levantou a plateia. Ali estava também, de algum modo, representada a história da Picolino. Gente diversa, das mais variadas fontes, reunida sob o comando de uma trilha sob medida, conduzida por Beto Portugal.

Circo atual, contemporâneo, música contemporânea, versos como estes de Mautner,  de outros dias, da década de 80, como a Picolino, mas  atuais e necessários para o mundo hoje:

“Quem, quem, quem a não ser o som / Poderia derrubar a muralha dos ódios /  Dos preconceitos, das intolerâncias / Das tiranias, das ditaduras / Dos totalitarismos, das patrulhas ideológicas / E do nazismo universal?”

Veja as fotos de  Mônica Jurberg e de Camila Ribeiro.

 

Uma mostra da trilha:

 

 

 

 


Orquestras

29/02/2016

Quantos anos vive uma orquestra sinfônica? Muitas são centenárias mas a Orquestra Sinfônica da Bahia, a OSBA, está em estado terminal aos 34 anos.Assassinada por estrangulamento lento e contínuo por mais de uma década pelo mesmo Estado que a criou.

Vi essa menina nascer numa manhã ensolarada de domingo, ao ar livre. Cheguei atrasado àquele primeiro concerto em frente ao Iguatemi, um domingo do final de 1982ou inicio de 1983.

Não se mata uma orquestra em um dia. É preciso um garrote de tempo, parar de injetar sangue novo, deixar de recompor, de substituir quem sai em busca de novas oportunidades, quem se aposenta, quem morre.

Ênio se foi, Salomão morreu, Claudia se aposentou, Juracy ainda está lá, Christian também. Sim, há resistentes, daqueles presentes ao concerto no início da década de oitenta, e eles ainda tocam o barco.

***

Precisamos de uma Orquestra Sinfônica da Bahia? Sim, é preciso fazereste tipo de pergunta para entender a atual situação da OSBA. A resposta por quem poderia decidir pela sua existência e continuidade talvez contenha a causa da atual inanição.

Futucando na internet, a gente descobre que há 72 anos alguém respondeu sim a essa pergunta. E também, por dedução, que houve uma primeira morte da OSBA. Vamos então à tecla REW, velhinhos.

– Neste domingo vou a Cachoeira assistir aoconcerto da OSBA, com regência do Padre Mariz, lá no Cine Teatro Cachoeirano. Vamos?Este possível convite se deu em em 12 de setembro de 1948.

Quatro anos antes, o padre jesuíta Luiz Gonzaga de Mariz havia criado a Orquestra Sinfônica da Bahia. O que aconteceu com esta primeira tentativa?

A resposta pode estar no artigo História Musical da Bahia: Orquestra Sinfônica da Bahia, do Padre Mariz, escrito por Bárbara Nunes Brasil e Erick Vasconcelos, apresentado na Reunião da SBPC, em Recife, em 2003. Maestro Erick Vasconcelos, pode nos ajudar a responder?

***

E a sinfônica da UFBA?

Após a execução da abertura de A Flauta Mágica, de Mozart, o maestro JoséMauricio Brandão dirige-se à platéia, menos numerosa do que uma orquestra completa:“Boa Noite, esta é a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia. Temos aqui músicos funcionários da universidade e alunos em prática de orquestração. Nossa orquestra está, literalmente, caindo aos pedaços e a presença de vocês nos ajuda a evitar que ela acabe”.

Falei com o maestro no final do concerto e ele ratificou o desabafo: “Sim, caindo aos pedaços. Criada pelo reitor Edgard Santos, em 1954, esta orquestra acadêmica já foi a melhor do Brasil”.

O apelo e o desabafo foram feitos na abertura da temporada de 2011. Ao que parece, a situação continua aospedaços. Na página da orquestra constam hoje apenas 22 músicos.

***

Mas nós temos o Neojiba!

Sim, no meio de toda a crise da música de concerto na Bahia surge no cenário um músico conquistense de prestígio internacional, um secretário da Cultura antenado, uma ideia que dá certo na Venezuela desde de antes de Hugo Chávez, e a colaboração da iniciativa privada. O modelo .gov passou a .org e assim a nova estrutura e equação financeira viabilizaram o projeto.

Também estava lá no concerto de nascimento e contei mais ou menos assim a experiência, dia 20 de outubro de 2007:

Teatro Castro Alves. Programa gratuito. Eu, Soraya e nossa renca ocupamos cinco poltronas na parte de baixo. No palco, o primeiro concerto do Neojiba. E as lágrimas desceram nos primeiros acordes da música que encheu a sala lotada.

Do palco vinham trechos carimbados de obras conhecidas de Beethoven, Wagner, Dvorak, Brahms, Rossini que todos ali – parentes, amigos, colegas, o governador e o distinto público em geral – ouviram em algum momento da vida, nem que seja num comercial ou desenho animado.

E os meninos mandaram bem. Não tenho como avaliar o concerto, não tenho ouvido nem formação musical, mas minha intuição ignorante diz que aquilo era música da boa. Verdadeira e vital como deve ser qualquer arte. O som saía vigoroso de cada naipe. Muito claro, decidido, seguro. A platéia respondia. Aplaudia de pé e demoradamente a cada finalização. E os meninos agradeciam meio encabulados, quase não acreditando no impacto da sua música.

Teve também o bis divertido do cancã com as palmas da platéia regidas pelo venezuelano Manuel Lopéz Gomes, de 24 anos. Uma figura à parte.

Este concerto já está na história do TCA, na história da música na Bahia. Villa-Lobos, Widmer e Smetak aplaudiriam também hoje, de pé, o nascimento de uma nova geração de músicos na Bahia. Choveu no Sertão da nossa música. E brotou.

Passados quase 9 anos, a triste constatação é que o Neojiba brotou sozinho. Na época, imaginei que ali estava o que faltava no cenário, uma sementeira de novos músicos para recompor as demais orquestras, todos ganhariam, todos ganharíamos.

A realidade é que, no modelo atual, pra ser recomposta a OSBA depende de concurso público estadual, a OSUFBA depende de concurso público federal. Fudeu.

***

Mas derivo, como diz Franciel, um dos meus ídolos quando o assunto é mais de quatro linhas (nas quatro linhas, bem, deixa pra lá).

O assunto é de mais de quatro linhas, a tal crise crônica da OSBA e as possíveis e impossíveis soluções. Preciso derivar porque para voltar a este assunto quero falar em comunicação não violenta, a guerra de palavras na internet e as tentativas vãs de entender e conviver  com um mínimo de dignidade e alguma felicidade com a humanidade,  em casa, na internet, no trabalho,  na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê.

Vejo na estante de revistas da lanchonete a edição deste mês de Vida Simples e compro porque gosto da matéria de capa, sobre a importância da gente se comunicar de forma menos agressiva. Bateu com minha necessidade de conversar melhor com o mundo, principalmente com os meus, com minha renca. E como já me alertaram via ditado chinês, antes de sair para mudar o mundo, dê três voltas dentro de sua própria casa.

Com este aviso e vacina para que o assunto aqui não descambe para a fúria e cegueira político-partidárias, voltemos então à vaca fria neste texto de março de 2011, quando escrevi uma coluna como Wolfgang Berim Bau, no blog Bahia na Rede. O assunto era o mesmo de hoje, o de falta de músicos, problema que ficou todo este tempo incubado e agora ressurge mais agravado. Ao texto:

Orquestra de asteriscos até quando?

Um concerto bonito,  sonoro,  correto. A Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) abriu ontem (16) o calendário de 2011 com novo maestro, Carlos Prazeres. No programa, Wagner, Woolorich e Tchaikovsky.

Quem olha da plateia vê tudo normal. A orquestra é relativamente pequena, cerca de 60 músicos no palco, mas dá conta do recado. É no programa onde aparece o primeiro indício de problemas: os nomes dos músicos seguidos de asterisco. Embora o programa não explique isso, indica que se trata de convidado de outras orquestras.  Nesta condição tivemos no concerto o spalla e mais cinco violinos, três violas e dois violoncelos.

A OSBA completa 30 anos em 2012. Mas em vez de amadurecer e crescer, definha. O último concurso foi há mais de cinco anos e no próximo ano quatro músicos se aposentam. O que fazer para a reversão dessa trajetória declinante? As duas principais orquestras do país, a Osesp paulista e a Sinfônica de Minas Gerais funcionam como Organização Social (OS), o que reduz o cipoal burocrático para o pleno funcionamento. É esta a solução para a OSBA?

O pianista e ex-diretor da orquestra, Ricardo Castro, apostava nessa saída. Houve resistências dos músicos e a coisa desandou. Resta saber quais são os planos do novo regente e do secretário de Cultura para deixar a OSBA novamente de pé.

Antes de voltarmos ao assunto, divirta-se aqui com os comentários que se seguiram ao texto. https://blogbahianarede.wordpress.com/2011/03/17/orquestra-de-asteriscos-ate-quando/

***

Encontro casual com Manuel Veiga

Quando você fica incutido com um assunto, tudo conspira a favor.  Estava eu a trabalho numa assembleia de condomínio, quando reconheço um senhor tranquilo esperando o resultado da votação. Era ninguém menos que o pianista e professor emérito da UFBA Manuel Veiga, 85 anos, parte da memória viva da Escola de Música. Não resisti, puxei assunto, ouvi histórias que transpiravam a atmosfera da vida musical de Salvador nas décadas de 50 e 60.  Ao chegar em casa enviei para ele três perguntas por e-mail, uma breve entrevista.
E não é que ele respondeu?
Pediu apenas que fossem respostas sem pressa. “Vou comentar seus três quesitos da melhor maneira que puder. São boas perguntas que envolvem muita reflexão e por isso não quero correr” , disse.
Mas antes da primeira resposta,  um breve currículo do entrevistado: estudou piano de 1954 e 1957 nos Seminários de Música, que precederam a Escola de Música da UFBA. Venceu o concurso de piano da Orquestra Sinfônica Brasileira e fez sua estreia com a OSB em 1956, sob a regência de Eleazar de Carvalho. É mestre em piano pela Juilliard School of Musica e etnomusicólogo com doutorado pela Universidade da Califórnia (UCLA). É também membro da Academia Brasileira de Música, consultor e estudioso da modinha e do lundu. Ultimamente ainda anda pensado em consertar o mundo, mas já chegou a uma conclusão: “É uma idiotice”.

Qual a principal causa da carência de músicos em nossas orquestras (OSBA e OSUFBA)?

Sua pergunta precisa de alguns esclarecimentos prévios. “Principal causa”, por exemplo, pressupõe que hajam outras das quais uma seja a principal, no singular. Pressupõe também que haja um encadeamento linear entre causa e efeito, na dinâmica das culturas. Isso constituiria uma teleologia, isto é, partir do presente para olhar para o passado e lá encontrar uma causa que não se ramificasse no trajeto.  Não estou negando a história, mas afastando as ilusões.

Outro comentário se dirige a “carência de músicos”, com ênfase em “músicos”. Não há uma definição universal de música que reúna as condições essenciais, necessárias e suficientes, para que algum fenômeno sonoro seja “música” e não outra coisa.

Parece-me que o único axioma que poderíamos tomar como ponto de partida para uma teoria geral de música seria considerá-la como “som humanamente articulado” (J. Blacking). Isso tanto tem de verdadeiro quanto de vago. Mas sua pergunta é objetiva e explicita “em nossas orquestras” e, mais ainda, “OSBA e OSUFBA”.

Se não sei o que é música (espero, sim, reconhecê-la, mesmo que me seja muito estranha), tampouco sei o que são músicos. Na verdade, todos somos músicos, salvo alguma lesão cerebral séria; e em algum tipo e padrão de música somos enculturados no curso de nossa vida. Mas talvez exagere um pouco: sei que músicos “fazem” música e devem refletir sobre ela, não simplesmente apreciar passivamente. Isso dá algum trabalho, às vezes anos e anos de preparação.

Por “orquestra”, poderíamos entender “qualquer conjunto instrumental com características próprias” (Aurélio), como por exemplo a orquestra de pífaros de Caruaru. Um dos pontos cruciais de sua pergunta é que estamos nos referindo a “orquestras sinfônicas”, a conjuntos instrumentais de grande porte destinados à execução fiel de um tipo de repertório de um determinado período da história da música ocidental de concerto, nem sequer necessariamente brasileira. Há uma incongruência embutida no discurso da “carência de músicos” à vista da imposição a priori de um repertório instrumental que exige recursos que não temos, ou que não produzimos, ou que até mesmo não queremos: a velha história do ovo e da galinha… Essa é uma ilusão triunfalista e etnocêntrica. Para isso, uma solução paliativa, mas produtiva, seria encomendar obras do grupo de destacados compositores da Bahia, entre outros brasileiros, para os conjuntos instrumentais que podemos ter. Em adição, que essas obras fossem compatíveis com o nível educacional musical dos ouvintes, ainda que provocativas.

Tentando algumas respostas:

  1. Diante da complexidade do fenômeno musical, o mais prudente seria responder “Não sei! ”. Pessimista, entretanto, teria de pensar em preconceitos que andam pelo mundo há mais de dois mil e quinhentos anos, tomando como exemplo “A Cigarra e a Formiga”. A fábula de Esopo (séc. V a.C.) ensina que quem canta no verão morre de fome no inverno. Ou por outra: diante de um paciente em coma (o Brasil?), o necessário é um médico; a missa de réquiem vem depois. Nesses termos, a economia sempre se faz na área da cultura, sem consciência das perdas irreparáveis para o futuro.
  1. Menos prudente, passar a respostas grosseiras: “Dinheiro, falta de vontade e irresponsabilidade”. Temos quase todos os músicos competentes que precisamos, mas não são contratados e remunerados à altura dos anos e dos esforços que fizeram.
  1. Esperançoso, pensar em Educação, sim, a chave de tudo. Não precisa comentário. Eis aqui, talvez, seu feixe de causas.

Desculpe a prolixidade. Ainda estou pensando em consertar o mundo! É uma idiotice.

Continua

 

 

 

 

 

 


Dito e feito

24/02/2016

Na mata que dá para a minha janela, em Brotas, toda noite, a noite toda, canta uma saracura.
É um canto premonição. De tanto ouvir, decifrei:

Vai, ai, ai, ai
Amanhecer, vai
Vai, ai.

O pior é que a porra da saracura sempre acerta.


Ressurreição

18/02/2016

O telefone já dava sinais do fim próximo. Demorava de ligar, descarregava rapidamente, pegava quase no tombo. Hoje amanheceu morto.
Pedi ajuda aos universitários da área de informática no trabalho, nada. Só outro, talvez outra bateria. Fui de sala em sala atrás de um modelo semelhante para testar a bateria, nada. Na última tentativa, falo baixo com a secretária de uma sala mergulhada no trabalho. Lá do fundo, uma diretora reunida com a equipe me olha entre os óculos e a sobrancelha.
– O que foi?
É uma técnica graduada, pessoa fina, modelo executiva do Bird, já foi secretária de Estado.
Sem graça, aparelho escangalhado, dividido em três, bateria e capa na mão, explico minha necessidade.
– Acho que posso lhe ajudar. Levanta, vai até a bolsa de grife, retira um estojo e dele uma pequena lixa de unha. No melhor estilo MacGyver, toma a bateria da minha mão, esfrega a lixa nos conectores e depois nos conectores do aparelho. Bingo. O telefone ressuscita cheio de energia.
Admiro muito pessoas com habilidades insuspeitas.


Perdeu, nostalgia.

08/02/2016

Sempre defendi que o melhor Carnaval é qualquer Carnaval com os hormônios dos 20 anos. A BaianaSystem me mudou de ideia ontem, na Castro Alves. Aliás, comecei a mudar sexta, ao encontrar Riachão subindo a ladeira do Pelô serelepe, a bordo de quase 95. Reformulo a ideia, o melhor Carnaval é quando o som bate junto com o coração e faz você pular, faz você cantar, faz você dançar, faz você amar. Hoje.
Playsom, playsom. Já ouviu é déjà vu.
E tive um déjà vu ontem ao descer a Castro Alves no mesmo local onde lá no começo dos 80 ouvi pela primeira vez os tambores do Olodum, onde amanhecia com Armandinho. A Baiana colocou tudo isso numa panela, juntou todos os ritmos e serviu no presente, e juntou gente, e chamou gente, e misturou todo mundo, fez renascer a praça. Balançou o chão da praça, da Carlos Gomes.  Ano passado desci com eles e me senti intruso, no meio daquela meninada. Ontem não, estava misturado ao bolo, que só aumenta.

Até sexta não tinha pretensão de ir pra rua. Mas aí Paulinho da Viola chamou, fomos. Aí o Ilê chamou, fomos. E emendamos com a Rumpilezz, com o Gandhy, com a Baiana. A rua tá muito boa, a Praça tá muito boa. Hoje.
Perdeu, nostalgia.

PS. O melhor é que ficou registrado. A partir de -0:28.

Baiana

 


Al-manākh

27/01/2016

Desde criança gosto de almanaques e suas informações curiosas e inúteis. Ao assistir Cosmos (não mexam com o meu Netflix) voltei a sentir aquele prazer Macabéa, de admirar e exibir conhecimento rádio relógio: a palavra desastre tem na raiz astro e deriva dos maus presságios provocados pelos cometas, a plêiade tem sete estrelas e a mais brilhante delas se chama Alcione, que por sua vez começa pelo famoso al, revelador da origem árabe. Falar nisso, o google informa, “La palabra “Almanaque” viene del árabe al-manākh (ciclo anual)…”


João-de-barro

26/01/2016

– Ele dá quanto para ajudar a criar o menino?
– Duzentos reais. Mas eu não ligo porque ele tá construindo a casa.
– Epa, o amor está no ar.
– Que nada, eu quero é sair do aluguel.

(Leitura feminina: – Mentira, ela ainda é a finzona dele.)

 


Conta-gotas

23/01/2016

Publica. E passa a contar o retorno. Como quem conta gotas de mel espremido do favo entre os dedos, os tragos antes de prender a respiração, os sopapos da pelve.
Quer mais, como o artista a contar os lugares já ocupados antes do espetáculo de quarta-feira, as notas no chapéu depois da apresentação. Com a mesma ansiedade do pai a esperar o toque de Brown no botão vermelho do The Voice Kids.
Conta, como um menino feliz conta e reconta suas bolas de gude amealhadas, sua coleção de figurinhas, suas estrelas de estimação. Ou como um menino com frio, a contar as parcas moedas numa noite de sinaleira. Dá um like aí, tio.


O licuri e o diabo

22/01/2016

O menino queria, queria muito, ser o anjo da procissão em Iaçu.

– Onde já se viu anjo homem? Argumentou o padre, irritado.

Dia da procissão, o estouro diante da menina anjo, toda de branco. Nas pernas, o sangue brotava de vários pontinhos vermelhos provocados por estilhaços de licuri.

Pólvora socada no coquinho oco,  bomba construída e acionada pelo anjo. Devidamente excomungado pelo padre.

 

 


Arroz com feijão

22/01/2016

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Às vezes queremos ser ou parecer arroz. Mas não adianta, as transparecias desenganam. E o feijão aparece mais, bem mais do que imaginamos.

Aqui nas tais redes sociais é também assim. A pessoa tem toda a intenção, toda a crença, toda a certeza de postar arroz.  E muitos passam batidos, leem arroz, veem arroz e compartilham como se fosse arroz.

E nesse arroz com feijão a gente segue, crente que tá abafando.

Imagem: aqui

 

 

 


Médico

19/01/2016

10 horas da noite de ontem, uma mulher e um senhor vão de farmácia em farmácia na Graça em busca de um tranquilizante. Ele faz as vezes de motorista,  de segurança, a cidade está violenta. Sempre atencioso, às 10 da noite, depois de um dia extenuante de trabalho. Na hora de comprar o remédio é preciso uma prescrição específica para o genérico, único disponível. Ele prontamente puxa o receituário e prescreve novamente. As atendentes olham curiosas aquele médico e aquela mulher ali, 10 da noite, em busca de um tranquilizante. Eram 10 horas da noite e o médico acabara de fazer sua última visita do dia no Hospital Português,  ouviu pacientemente e consolou sua paciente oncológica que desabara no choro. Sua paciente de mais de 14 anos de batalha. Ele se prontifica a ir com a filha dela  em busca do tranquilizante, de farmácia em farmácia, na Graça, às 10 horas da noite.
Dizem que age assim, cotidianamente, com funcionários, colegas, pacientes.
Dr. Renato existe?


Passu japiassoca assu

07/01/2016

Silencio

-Oh, Ney Matogrosso!, disse Soraya, rolando a tela.
-Que foi, morreu? perguntei.
-Não, tem show dele…

Ando assim, com o pensamento meio Dassanta, a personagem de Elomar parceira inseparável da veia da foice.

A velha da foice é uma conhecida minha recente. Passou longe da minha vida na infância e adolescência, mesmo tendo sido premiado com quase 20 tios e mais de 60 primos.

Talvez por isso tenha cultivado por muito tempo o sentimento de imortalidade, pra mim e pro mundo. A morte habitava os livros, os jornais, a música, a história. As lembranças mais fortes de hospital eram de uma operação de fimose aos 10, 11 anos ou  quando ia visitar os irmãos quando nasciam e ficava impressionado com o cheiro e as caras das moças pedindo silêncio.

Mas de um tempo pra cá, a fila tá andando rápido, as visitas ao cemitério em procissão são frequentes, as visitas aos hospitais idem, as más notícias por telefone também, melhor encarar.

A esperança é que todos nós, assim como Dassanta, nos transformemos pelo menos em  pássaros das asas amarelas, Passu japiassoca assu.

 

 

 

 

 

 

 

 


Três da madrugada

04/01/2016

Sem título
Torquato Neto

…noite alta madrugada
na cidade que me guarda…

Torquato Neto / Carlos Pinto

À espera do dia (in)útil, tropeço na voz de Gal  nesta poesia de Torquato Neto.
Pra quem gosta de ruas, de madrugadas, tudo e nada.

Gal Costa, 1973

Carlos Pinto, 1973

Vereônica Sabino, 1993

Nouvelle Cuisine, 1995

Lu Horta, 2013

Márcia Castro, 2014

Patrícia Mellodi e Zeca Baleiro, 2014

 

Sobre a música e Torquato Neto: http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2012/11/torquato-neto-as-tres-da-madrugada.htm

 


Família, Familha, boatos e apedrejamentos

29/12/2015

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A moça amarrou o cabelo para mostrar a tatuagem nas costas. Foi mostrada pelas costas, alvo de chacota em sites de tatuagem desde 2014 e recentemente, com o incêndio no museu da língua portuguesa, renasceu como piada no facebook: encontrada a suspeita!

Impossível ficar indiferente à foto. Dá agonia, da pena, dá ginge. Mas aí surge uma dúvida. E se não for Português? Uma rápida googlada tradutora informa: Familha é família em catalão. Fico com esta possibilidade.

(P.S: infelizmente  errei, confiado no google tradutor. Vem da Espanha – no comentário de Marcia Cristina Rocha, no facebook, e no inbox, por consulta a Neyse Cunha Lima) – a informação de que família é família aqui e na Catalunha). Então, vale ainda mais a última frase deste texto)

A foto tem todos os ingredientes e descaminhos de boatos, ironias e apedrejamentos na internet.

Boato, porque é verossímil. A gente escreve família mas fala familha, sobrou pra quem tem pouca leitura, ou seja, a maioria de nós, brasileiros. 

O mais grave é o apedrejamento. Num dos comentários da foto alguém ainda riu da qualidade da bolsa da moça. E assim caminha a desumanidade. Saiu fora do padrão, pau.

Como desejo de ano novo, quero ficar mais atento ao que leio, rio e reproduzo.

 

Foto: http://bit.ly/1mgIojl

 

 

 


Top five 2015

10/12/2015

Dezembro gastando, tempo de fazer listas do feliz ano velho. E como boa parte das nossas vidas transcorreu diante desta tela, seguem os meus escolhidos:

1- Sensacionalista

Disparado, o melhor da internet que chegou aos meus olhos. Dá em chico e em francisco sem dó nem piedade. Isento e de verdade.

2 – Jout Jout Prazer

Com vídeos aparentemente despretensiosos, esta garota dá seu recado e segue ganhando o mundo.

3- Clímaco Dias

Escolha dura, entre amigos. Mas Clímaco manda muito bem nas ideias, no humor, com a família, com as divas. um autêntico prosa boa.

4 – Helder Reis

Fotos, fotos, fotos. Inacreditáveis fotos.

5 – Tia Má 

Descoberta recente, o mais divertido guia de comportamento masculino/feminino com delicioso sotaque baiano.

E sua lista Bê?

 


Espelho

22/11/2015

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Fui ao centro hoje e resolvi retornar aos territórios de memória pessoal da cidade. Passei pela casa do Garcia. Não foi uma boa experiência. Gradeada, suja, descascada, não combina com a memória filtrada e cheia de luz daquele lugar de pulsar dos vinte anos.
Olhei pra fachada e me vi no espelho. Atualizado.
Futucando neste coco pequeno achei este texto sobre aqueles dias:

A casa do Garcia e as paulistas

22/07/2010

1981, 1982. A casa era comprida, de rua a rua, da Conde Pereira Marinho à Protestantes, no Garcia. Os quartos e banheiro ficavam diante de um corredor, seguido de uma sala, uma pequena cozinha e um quintal. Última casa da rua, tinha muitas janelas para o vale. A população de moradores era flutuante. Havia um núcleo mais ou menos fixo, mas a rotatividade era grande. Uns trabalhavam, outros estudavam e trabalhavam, tinha quem não trabalhava e nem estudava. Quase todos na faixa dos 20 anos.

Nos quartos, colchões, tatames, araras e baús de vime. Na sala, estante de pranchas de madeira sobre blocos de argila sustentava uma pequena biblioteca, aparelho de som e muitos LPS. The Wall, do Pink Floyd, talvez seja a trilha sonora daquela casa, junto com Trem das Cores, de Caetano.

Tinha também uma gata que se chamava Leila Diniz. E muito incenso.

Num sábado de Verão, alguém chegou com duas garotas conhecidas naquele dia na praia. As meninas iam voltar para o interior de São Paulo porque o dinheiro estava acabando e elas não tinham como continuar as férias hospedadas no Othon. Claro, foram convidadas a continuar em Salvador, hospedadas na casa do Garcia.

Tudo ali era novidade para elas. As namoradas que dormiam na casa, as portas quase permanentemente abertas, inclusive a do banheiro, os papos, enfim, estavam com juízo de meninas do interior de São Paulo e filhas de militares completamente retorcido.

Mas a porrada veio forte à noite, quando resolveram conhecer o Zanzibar, aquele mesmo onde os orixás acenaram com o não/sim. O bar ficava ali pertinho e dava para ir a pé. Numa só noite, viram de perto o que só conheciam de ouvir falar: dois homens se beijando, um grupo fumando maconha e Gilberto Gil.

https://licuri.wordpress.com/2010/07/22/a-casa-do-garcia-e-as-paulistas/

 


E nós?

21/11/2015

As mangueiras de Brotas são imunes às crises. Espremidas entre paredes, cercadas de cimento, seguem cheias, repletas, carregadas. Como os lírios do campo, tão nem aí. Fizeram a sua parte. Estão prontas para janeiro.


14

31/10/2015

Meu Deco faz 14 hoje. Maior do que eu, garoto bonito e muito na dele. Parabéns, filho!


De cima

30/10/2015

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Hoje voltei ao circo Picolino, voltei a integrar uma ficha técnica de um espetáculo de artistas formadas pelo circo, na função de propagandista, máximo que consegui até hoje do sonho de ser trapezista.

E o melhor do circo acontece lá em cima, para onde se dirigem os olhos e os queixos arriados da plateia.

Feliz com este retorno. No circo só havia picadeiro e plateia, o circo está nu mas ali brotando coisas, trabalhos. E em breve, esta é a grande notícia, chegará uma nova lona.

Portanto, senhoras e senhores, respeitável público, assumo meu posto no megafone e engrosso o coro: vem aí  Histórias Contadas de Cima.