Não é só amor. Tem fedor.

Tomei algumas doses deste Carnaval, à noite, depois do expediente.
Terça, chegamos encharcados na descida da Ladeira de São Bento, um dos trechos mais agradáveis do percurso, quando o espreme-gato alivia e a a praça se descortina com brisa, na parada do trio para  passar outro bloco subindo a Carlos Gomes

Talvez já estivesse observando a gente pulando igual no meio da roda da meninada da Baiana, com média de idade pelo menos metade da nossa.

Eu me queixo do meu cheiro.  – É só amor (pra aguentar), ironiza Soraya, no embalo do bordão de Passapusso.
Aí ela entra na conversa, talvez pegando só a última frase.
– Como faz para ser felizes pra sempre?
– Não faz. Não existe feliz pra sempre. É enquanto dura, entre tapas e beijos, responde Soraya.
Os olhos cobertos de glitter marejam.
-Vocês têm filhos?  – Sim, três.
– Eu tenho um, ele outro, mas nos separamos. A última palavra aumentou o brilho no glitter.  Recebeu um abraço de Soraya e o choro veio nos ombros.

No afasta e abraça com afagos, entro também no abraço, agora triplo.

– Tem também muito fedor, argumentei. . Ela concordou ao se afastar um pouco. Fiquei em dúvida se concordou com a metáfora ou com meu ombro.

O triângulo amoroso, que parecia durar uma eternidade, foi interrompido bruscamente por uma mão. Uma garota puxa a menina pelo braço e desaparecem  na multidão, mas antes vem a descompostura:

– Não acredito que você tá chorando com desconhecidos!

 

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Diagnóstico visual

Não faz uma pergunta, não toca a menina, apenas olha de longe e decreta com o olhar, numa consulta de alguns minutos: torcicolo.

Duas injeções, as primeiras que menina toma na vida, um relaxante muscular, um anti-inflamatório.

A menina sai do pronto-socorro ortopédico no sábado pela manhã com um colar cervical e uma receita com mais duas medicações. E muita dor.

A dor não passa.  Fim de semana de agonia.

Uma anamnese da pediatra, numa consulta com perguntas e toques, descarta torcicolo. Gânglio inflamado. O tratamento é outro, recomeçamos do zero.

Três dias perdidos e muita dor em vão.

 

 

 

De volta ao Pratigi

Ao norte, Boipeba. Ao sul, Barra Grande. Entre os dois o Pratigi, um arco, uma enseada,  24 km de praia de areia fina, águas calmas, desde a Barra dos Carvalhos até a Barra do Serinhaém.

Palmilhei por estes extremos nos últimos dias, já há alguns anos volto, desde quando fui a trabalho na inauguração da estrada Ituberá-Pratigi, em 31 de março de 1998, lá se vão quase 20 anos.

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O Pratigi me lembra Barra Grande de há 20 e poucos anos, com suas praias desertas. Lembra o Morro de São Paulo há 30 e poucos  anos, nas caminhadas para a Quarta Praia. Lembra Berlinque, em Itaparica, lá se vão 40 e tantos anos, quando se tomava banho pelado na Ponta de My Friend.

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Pratigi, próximo à Barra dos Carvalhos. Ao fundo, Ilha de Boipeba.

Não quero ser saudosista, mas a sensação é de ter testemunhado nas últimas quatro décadas a ocupação destrutiva do nosso litoral.  A ilha está acabada, o Morro com praia imprópria pra banho, vestido ou pelado.

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Ponta do Apaga Fogo, à direita, Ilha de Kieppe.

Desta vez fomos a pé em direção a Barra dos Carvalhos, 6,5k de ida, o mesmo na volta e uma caminhada de quase duas idas ao Bonfim pela praia. No caminho, só um pescador perto de sua canoa, na espera da maré para puxar a rede, enquanto isso, checa o celular.

Praias desertas, lindas e  paradisíacas, como define o jargão turístico. E o plástico onipresente, em copos, embalagens, misturado às conchas e folhas do mangue.

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Para a Barra do Serinhahém, praia também é pista.

Para o norte a praia do Pratigi ainda é mais tranquila porque a barreira do rio que deságua na praia ao lado da estrada, impede o tráfego de carros. Para o sul a praia é uma rodovia movimentada na maré baixa, por onde trafegam muitas motos, carros de passeio e caminhões em direção à barra de Serinhahém.

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As festas deixam lembranças

Numa das fazendas de coco do Pratigi, na beira da praia, de dois em dois anos é organizado o festival Universo Paralelo. A economia do turismo do lugar gira em torno do festival. Nos intervalos entre um festival e outro, o movimento só acontece no Verão, com alguns turistas e o pessoal da região de Ituberá.

Ladeada pelos famosinhos Boipeba e Barra Grande, cuja ocupação foi no miudinho, o Pratigi está “desocupado”, de olhos e bolsos na engorda, à espera de grandes empreendimentos/investimentos.

Cerca de quarenta barracas de madeira coladas umas às outras  ocupam o final  da estrada de Ituberá, que vai até a praia. Mas de uma ponta a outra conta-se nos dedos os proprietários, dentre eles a Rainha “brasileira” da Suécia, conforme contam os moradores e as notas da imprensa, sobre a resistência do IMA em liberar a licença para um resort. O modelo parecido que encontrou resistência na vizinha Ponta dos Castelhanos, na Ilha de Boipeba.

Seja no miudinho, seja no atacado, a ocupação do nosso litoral não respeita mangue, não respeita a praia, não respeita nada além do que “me pertence”.

A lei do tudo nosso, o coletivo que se lasque, impera desde a ocupação por barracas até os casarões de madeira e vidro, cercados de grama aparada.

Enquanto isso vou voltando ao Pratigi, ainda vale muito a viagem.

Onde fomos bem tratados:
Hospedagem:  Chalé Sabiá, no Pratigi, onde sempre ficamos. Ideal para rencas como a nossa, com fogão, geladeira, ventiladores e utensílios. Contato:  73 9 91993038 chalesabia@gmail.com
Almoço em Barra do Serinháhem – Pousada Recanto da Natureza, com Emerson, ou Sinho.
Almoço em Barra dos Carvalhos: Restaurante do Paulista.
Cocada:  Feitas por Rose, do povoado de  Jatimane, na estrada Ituberá/Pratigi.

Outras viagens com a renca ao Pratigi:

2009
https://licuri.wordpress.com/2009/01/23/azul-e-branco/
https://licuri.wordpress.com/2009/01/27/duas-luas-2/
https://licuri.wordpress.com/2009/01/

2012
https://licuri.wordpress.com/2012/02/01/de-volta-3/

2015
https://licuri.wordpress.com/2015/01/23/mare/

2017
https://licuri.wordpress.com/2017/01/27/eles-envelhecem-muito-rapido/
https://licuri.wordpress.com/2017/01/20/pratigi/