Orquestras

29/02/2016

Quantos anos vive uma orquestra sinfônica? Muitas são centenárias mas a Orquestra Sinfônica da Bahia, a OSBA, está em estado terminal aos 34 anos.Assassinada por estrangulamento lento e contínuo por mais de uma década pelo mesmo Estado que a criou.

Vi essa menina nascer numa manhã ensolarada de domingo, ao ar livre. Cheguei atrasado àquele primeiro concerto em frente ao Iguatemi, um domingo do final de 1982ou inicio de 1983.

Não se mata uma orquestra em um dia. É preciso um garrote de tempo, parar de injetar sangue novo, deixar de recompor, de substituir quem sai em busca de novas oportunidades, quem se aposenta, quem morre.

Ênio se foi, Salomão morreu, Claudia se aposentou, Juracy ainda está lá, Christian também. Sim, há resistentes, daqueles presentes ao concerto no início da década de oitenta, e eles ainda tocam o barco.

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Precisamos de uma Orquestra Sinfônica da Bahia? Sim, é preciso fazereste tipo de pergunta para entender a atual situação da OSBA. A resposta por quem poderia decidir pela sua existência e continuidade talvez contenha a causa da atual inanição.

Futucando na internet, a gente descobre que há 72 anos alguém respondeu sim a essa pergunta. E também, por dedução, que houve uma primeira morte da OSBA. Vamos então à tecla REW, velhinhos.

– Neste domingo vou a Cachoeira assistir aoconcerto da OSBA, com regência do Padre Mariz, lá no Cine Teatro Cachoeirano. Vamos?Este possível convite se deu em em 12 de setembro de 1948.

Quatro anos antes, o padre jesuíta Luiz Gonzaga de Mariz havia criado a Orquestra Sinfônica da Bahia. O que aconteceu com esta primeira tentativa?

A resposta pode estar no artigo História Musical da Bahia: Orquestra Sinfônica da Bahia, do Padre Mariz, escrito por Bárbara Nunes Brasil e Erick Vasconcelos, apresentado na Reunião da SBPC, em Recife, em 2003. Maestro Erick Vasconcelos, pode nos ajudar a responder?

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E a sinfônica da UFBA?

Após a execução da abertura de A Flauta Mágica, de Mozart, o maestro JoséMauricio Brandão dirige-se à platéia, menos numerosa do que uma orquestra completa:“Boa Noite, esta é a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia. Temos aqui músicos funcionários da universidade e alunos em prática de orquestração. Nossa orquestra está, literalmente, caindo aos pedaços e a presença de vocês nos ajuda a evitar que ela acabe”.

Falei com o maestro no final do concerto e ele ratificou o desabafo: “Sim, caindo aos pedaços. Criada pelo reitor Edgard Santos, em 1954, esta orquestra acadêmica já foi a melhor do Brasil”.

O apelo e o desabafo foram feitos na abertura da temporada de 2011. Ao que parece, a situação continua aospedaços. Na página da orquestra constam hoje apenas 22 músicos.

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Mas nós temos o Neojiba!

Sim, no meio de toda a crise da música de concerto na Bahia surge no cenário um músico conquistense de prestígio internacional, um secretário da Cultura antenado, uma ideia que dá certo na Venezuela desde de antes de Hugo Chávez, e a colaboração da iniciativa privada. O modelo .gov passou a .org e assim a nova estrutura e equação financeira viabilizaram o projeto.

Também estava lá no concerto de nascimento e contei mais ou menos assim a experiência, dia 20 de outubro de 2007:

Teatro Castro Alves. Programa gratuito. Eu, Soraya e nossa renca ocupamos cinco poltronas na parte de baixo. No palco, o primeiro concerto do Neojiba. E as lágrimas desceram nos primeiros acordes da música que encheu a sala lotada.

Do palco vinham trechos carimbados de obras conhecidas de Beethoven, Wagner, Dvorak, Brahms, Rossini que todos ali – parentes, amigos, colegas, o governador e o distinto público em geral – ouviram em algum momento da vida, nem que seja num comercial ou desenho animado.

E os meninos mandaram bem. Não tenho como avaliar o concerto, não tenho ouvido nem formação musical, mas minha intuição ignorante diz que aquilo era música da boa. Verdadeira e vital como deve ser qualquer arte. O som saía vigoroso de cada naipe. Muito claro, decidido, seguro. A platéia respondia. Aplaudia de pé e demoradamente a cada finalização. E os meninos agradeciam meio encabulados, quase não acreditando no impacto da sua música.

Teve também o bis divertido do cancã com as palmas da platéia regidas pelo venezuelano Manuel Lopéz Gomes, de 24 anos. Uma figura à parte.

Este concerto já está na história do TCA, na história da música na Bahia. Villa-Lobos, Widmer e Smetak aplaudiriam também hoje, de pé, o nascimento de uma nova geração de músicos na Bahia. Choveu no Sertão da nossa música. E brotou.

Passados quase 9 anos, a triste constatação é que o Neojiba brotou sozinho. Na época, imaginei que ali estava o que faltava no cenário, uma sementeira de novos músicos para recompor as demais orquestras, todos ganhariam, todos ganharíamos.

A realidade é que, no modelo atual, pra ser recomposta a OSBA depende de concurso público estadual, a OSUFBA depende de concurso público federal. Fudeu.

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Mas derivo, como diz Franciel, um dos meus ídolos quando o assunto é mais de quatro linhas (nas quatro linhas, bem, deixa pra lá).

O assunto é de mais de quatro linhas, a tal crise crônica da OSBA e as possíveis e impossíveis soluções. Preciso derivar porque para voltar a este assunto quero falar em comunicação não violenta, a guerra de palavras na internet e as tentativas vãs de entender e conviver  com um mínimo de dignidade e alguma felicidade com a humanidade,  em casa, na internet, no trabalho,  na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê.

Vejo na estante de revistas da lanchonete a edição deste mês de Vida Simples e compro porque gosto da matéria de capa, sobre a importância da gente se comunicar de forma menos agressiva. Bateu com minha necessidade de conversar melhor com o mundo, principalmente com os meus, com minha renca. E como já me alertaram via ditado chinês, antes de sair para mudar o mundo, dê três voltas dentro de sua própria casa.

Com este aviso e vacina para que o assunto aqui não descambe para a fúria e cegueira político-partidárias, voltemos então à vaca fria neste texto de março de 2011, quando escrevi uma coluna como Wolfgang Berim Bau, no blog Bahia na Rede. O assunto era o mesmo de hoje, o de falta de músicos, problema que ficou todo este tempo incubado e agora ressurge mais agravado. Ao texto:

Orquestra de asteriscos até quando?

Um concerto bonito,  sonoro,  correto. A Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) abriu ontem (16) o calendário de 2011 com novo maestro, Carlos Prazeres. No programa, Wagner, Woolorich e Tchaikovsky.

Quem olha da plateia vê tudo normal. A orquestra é relativamente pequena, cerca de 60 músicos no palco, mas dá conta do recado. É no programa onde aparece o primeiro indício de problemas: os nomes dos músicos seguidos de asterisco. Embora o programa não explique isso, indica que se trata de convidado de outras orquestras.  Nesta condição tivemos no concerto o spalla e mais cinco violinos, três violas e dois violoncelos.

A OSBA completa 30 anos em 2012. Mas em vez de amadurecer e crescer, definha. O último concurso foi há mais de cinco anos e no próximo ano quatro músicos se aposentam. O que fazer para a reversão dessa trajetória declinante? As duas principais orquestras do país, a Osesp paulista e a Sinfônica de Minas Gerais funcionam como Organização Social (OS), o que reduz o cipoal burocrático para o pleno funcionamento. É esta a solução para a OSBA?

O pianista e ex-diretor da orquestra, Ricardo Castro, apostava nessa saída. Houve resistências dos músicos e a coisa desandou. Resta saber quais são os planos do novo regente e do secretário de Cultura para deixar a OSBA novamente de pé.

Antes de voltarmos ao assunto, divirta-se aqui com os comentários que se seguiram ao texto. https://blogbahianarede.wordpress.com/2011/03/17/orquestra-de-asteriscos-ate-quando/

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Encontro casual com Manuel Veiga

Quando você fica incutido com um assunto, tudo conspira a favor.  Estava eu a trabalho numa assembleia de condomínio, quando reconheço um senhor tranquilo esperando o resultado da votação. Era ninguém menos que o pianista e professor emérito da UFBA Manuel Veiga, 85 anos, parte da memória viva da Escola de Música. Não resisti, puxei assunto, ouvi histórias que transpiravam a atmosfera da vida musical de Salvador nas décadas de 50 e 60.  Ao chegar em casa enviei para ele três perguntas por e-mail, uma breve entrevista.
E não é que ele respondeu?
Pediu apenas que fossem respostas sem pressa. “Vou comentar seus três quesitos da melhor maneira que puder. São boas perguntas que envolvem muita reflexão e por isso não quero correr” , disse.
Mas antes da primeira resposta,  um breve currículo do entrevistado: estudou piano de 1954 e 1957 nos Seminários de Música, que precederam a Escola de Música da UFBA. Venceu o concurso de piano da Orquestra Sinfônica Brasileira e fez sua estreia com a OSB em 1956, sob a regência de Eleazar de Carvalho. É mestre em piano pela Juilliard School of Musica e etnomusicólogo com doutorado pela Universidade da Califórnia (UCLA). É também membro da Academia Brasileira de Música, consultor e estudioso da modinha e do lundu. Ultimamente ainda anda pensado em consertar o mundo, mas já chegou a uma conclusão: “É uma idiotice”.

Qual a principal causa da carência de músicos em nossas orquestras (OSBA e OSUFBA)?

Sua pergunta precisa de alguns esclarecimentos prévios. “Principal causa”, por exemplo, pressupõe que hajam outras das quais uma seja a principal, no singular. Pressupõe também que haja um encadeamento linear entre causa e efeito, na dinâmica das culturas. Isso constituiria uma teleologia, isto é, partir do presente para olhar para o passado e lá encontrar uma causa que não se ramificasse no trajeto.  Não estou negando a história, mas afastando as ilusões.

Outro comentário se dirige a “carência de músicos”, com ênfase em “músicos”. Não há uma definição universal de música que reúna as condições essenciais, necessárias e suficientes, para que algum fenômeno sonoro seja “música” e não outra coisa.

Parece-me que o único axioma que poderíamos tomar como ponto de partida para uma teoria geral de música seria considerá-la como “som humanamente articulado” (J. Blacking). Isso tanto tem de verdadeiro quanto de vago. Mas sua pergunta é objetiva e explicita “em nossas orquestras” e, mais ainda, “OSBA e OSUFBA”.

Se não sei o que é música (espero, sim, reconhecê-la, mesmo que me seja muito estranha), tampouco sei o que são músicos. Na verdade, todos somos músicos, salvo alguma lesão cerebral séria; e em algum tipo e padrão de música somos enculturados no curso de nossa vida. Mas talvez exagere um pouco: sei que músicos “fazem” música e devem refletir sobre ela, não simplesmente apreciar passivamente. Isso dá algum trabalho, às vezes anos e anos de preparação.

Por “orquestra”, poderíamos entender “qualquer conjunto instrumental com características próprias” (Aurélio), como por exemplo a orquestra de pífaros de Caruaru. Um dos pontos cruciais de sua pergunta é que estamos nos referindo a “orquestras sinfônicas”, a conjuntos instrumentais de grande porte destinados à execução fiel de um tipo de repertório de um determinado período da história da música ocidental de concerto, nem sequer necessariamente brasileira. Há uma incongruência embutida no discurso da “carência de músicos” à vista da imposição a priori de um repertório instrumental que exige recursos que não temos, ou que não produzimos, ou que até mesmo não queremos: a velha história do ovo e da galinha… Essa é uma ilusão triunfalista e etnocêntrica. Para isso, uma solução paliativa, mas produtiva, seria encomendar obras do grupo de destacados compositores da Bahia, entre outros brasileiros, para os conjuntos instrumentais que podemos ter. Em adição, que essas obras fossem compatíveis com o nível educacional musical dos ouvintes, ainda que provocativas.

Tentando algumas respostas:

  1. Diante da complexidade do fenômeno musical, o mais prudente seria responder “Não sei! ”. Pessimista, entretanto, teria de pensar em preconceitos que andam pelo mundo há mais de dois mil e quinhentos anos, tomando como exemplo “A Cigarra e a Formiga”. A fábula de Esopo (séc. V a.C.) ensina que quem canta no verão morre de fome no inverno. Ou por outra: diante de um paciente em coma (o Brasil?), o necessário é um médico; a missa de réquiem vem depois. Nesses termos, a economia sempre se faz na área da cultura, sem consciência das perdas irreparáveis para o futuro.
  1. Menos prudente, passar a respostas grosseiras: “Dinheiro, falta de vontade e irresponsabilidade”. Temos quase todos os músicos competentes que precisamos, mas não são contratados e remunerados à altura dos anos e dos esforços que fizeram.
  1. Esperançoso, pensar em Educação, sim, a chave de tudo. Não precisa comentário. Eis aqui, talvez, seu feixe de causas.

Desculpe a prolixidade. Ainda estou pensando em consertar o mundo! É uma idiotice.

Continua

 

 

 

 

 

 


Dito e feito

24/02/2016

Na mata que dá para a minha janela, em Brotas, toda noite, a noite toda, canta uma saracura.
É um canto premonição. De tanto ouvir, decifrei:

Vai, ai, ai, ai
Amanhecer, vai
Vai, ai.

O pior é que a porra da saracura sempre acerta.


Ressurreição

18/02/2016

O telefone já dava sinais do fim próximo. Demorava de ligar, descarregava rapidamente, pegava quase no tombo. Hoje amanheceu morto.
Pedi ajuda aos universitários da área de informática no trabalho, nada. Só outro, talvez outra bateria. Fui de sala em sala atrás de um modelo semelhante para testar a bateria, nada. Na última tentativa, falo baixo com a secretária de uma sala mergulhada no trabalho. Lá do fundo, uma diretora reunida com a equipe me olha entre os óculos e a sobrancelha.
– O que foi?
É uma técnica graduada, pessoa fina, modelo executiva do Bird, já foi secretária de Estado.
Sem graça, aparelho escangalhado, dividido em três, bateria e capa na mão, explico minha necessidade.
– Acho que posso lhe ajudar. Levanta, vai até a bolsa de grife, retira um estojo e dele uma pequena lixa de unha. No melhor estilo MacGyver, toma a bateria da minha mão, esfrega a lixa nos conectores e depois nos conectores do aparelho. Bingo. O telefone ressuscita cheio de energia.
Admiro muito pessoas com habilidades insuspeitas.


Perdeu, nostalgia.

08/02/2016

Sempre defendi que o melhor Carnaval é qualquer Carnaval com os hormônios dos 20 anos. A BaianaSystem me mudou de ideia ontem, na Castro Alves. Aliás, comecei a mudar sexta, ao encontrar Riachão subindo a ladeira do Pelô serelepe, a bordo de quase 95. Reformulo a ideia, o melhor Carnaval é quando o som bate junto com o coração e faz você pular, faz você cantar, faz você dançar, faz você amar. Hoje.
Playsom, playsom. Já ouviu é déjà vu.
E tive um déjà vu ontem ao descer a Castro Alves no mesmo local onde lá no começo dos 80 ouvi pela primeira vez os tambores do Olodum, onde amanhecia com Armandinho. A Baiana colocou tudo isso numa panela, juntou todos os ritmos e serviu no presente, e juntou gente, e chamou gente, e misturou todo mundo, fez renascer a praça. Balançou o chão da praça, da Carlos Gomes.  Ano passado desci com eles e me senti intruso, no meio daquela meninada. Ontem não, estava misturado ao bolo, que só aumenta.

Até sexta não tinha pretensão de ir pra rua. Mas aí Paulinho da Viola chamou, fomos. Aí o Ilê chamou, fomos. E emendamos com a Rumpilezz, com o Gandhy, com a Baiana. A rua tá muito boa, a Praça tá muito boa. Hoje.
Perdeu, nostalgia.

PS. O melhor é que ficou registrado. A partir de -0:28.

Baiana

 


Al-manākh

27/01/2016

Desde criança gosto de almanaques e suas informações curiosas e inúteis. Ao assistir Cosmos (não mexam com o meu Netflix) voltei a sentir aquele prazer Macabéa, de admirar e exibir conhecimento rádio relógio: a palavra desastre tem na raiz astro e deriva dos maus presságios provocados pelos cometas, a plêiade tem sete estrelas e a mais brilhante delas se chama Alcione, que por sua vez começa pelo famoso al, revelador da origem árabe. Falar nisso, o google informa, “La palabra “Almanaque” viene del árabe al-manākh (ciclo anual)…”


João-de-barro

26/01/2016

– Ele dá quanto para ajudar a criar o menino?
– Duzentos reais. Mas eu não ligo porque ele tá construindo a casa.
– Epa, o amor está no ar.
– Que nada, eu quero é sair do aluguel.

(Leitura feminina: – Mentira, ela ainda é a finzona dele.)

 


Conta-gotas

23/01/2016

Publica. E passa a contar o retorno. Como quem conta gotas de mel espremido do favo entre os dedos, os tragos antes de prender a respiração, os sopapos da pelve.
Quer mais, como o artista a contar os lugares já ocupados antes do espetáculo de quarta-feira, as notas no chapéu depois da apresentação. Com a mesma ansiedade do pai a esperar o toque de Brown no botão vermelho do The Voice Kids.
Conta, como um menino feliz conta e reconta suas bolas de gude amealhadas, sua coleção de figurinhas, suas estrelas de estimação. Ou como um menino com frio, a contar as parcas moedas numa noite de sinaleira. Dá um like aí, tio.


O licuri e o diabo

22/01/2016

O menino queria, queria muito, ser o anjo da procissão em Iaçu.

– Onde já se viu anjo homem? Argumentou o padre, irritado.

Dia da procissão, o estouro diante da menina anjo, toda de branco. Nas pernas, o sangue brotava de vários pontinhos vermelhos provocados por estilhaços de licuri.

Pólvora socada no coquinho oco,  bomba construída e acionada pelo anjo. Devidamente excomungado pelo padre.

 

 


Arroz com feijão

22/01/2016

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Às vezes queremos ser ou parecer arroz. Mas não adianta, as transparecias desenganam. E o feijão aparece mais, bem mais do que imaginamos.

Aqui nas tais redes sociais é também assim. A pessoa tem toda a intenção, toda a crença, toda a certeza de postar arroz.  E muitos passam batidos, leem arroz, veem arroz e compartilham como se fosse arroz.

E nesse arroz com feijão a gente segue, crente que tá abafando.

Imagem: aqui

 

 

 


Médico

19/01/2016

10 horas da noite de ontem, uma mulher e um senhor vão de farmácia em farmácia na Graça em busca de um tranquilizante. Ele faz as vezes de motorista,  de segurança, a cidade está violenta. Sempre atencioso, às 10 da noite, depois de um dia extenuante de trabalho. Na hora de comprar o remédio é preciso uma prescrição específica para o genérico, único disponível. Ele prontamente puxa o receituário e prescreve novamente. As atendentes olham curiosas aquele médico e aquela mulher ali, 10 da noite, em busca de um tranquilizante. Eram 10 horas da noite e o médico acabara de fazer sua última visita do dia no Hospital Português,  ouviu pacientemente e consolou sua paciente oncológica que desabara no choro. Sua paciente de mais de 14 anos de batalha. Ele se prontifica a ir com a filha dela  em busca do tranquilizante, de farmácia em farmácia, na Graça, às 10 horas da noite.
Dizem que age assim, cotidianamente, com funcionários, colegas, pacientes.
Dr. Renato existe?


Passu japiassoca assu

07/01/2016

Silencio

-Oh, Ney Matogrosso!, disse Soraya, rolando a tela.
-Que foi, morreu? perguntei.
-Não, tem show dele…

Ando assim, com o pensamento meio Dassanta, a personagem de Elomar parceira inseparável da veia da foice.

A velha da foice é uma conhecida minha recente. Passou longe da minha vida na infância e adolescência, mesmo tendo sido premiado com quase 20 tios e mais de 60 primos.

Talvez por isso tenha cultivado por muito tempo o sentimento de imortalidade, pra mim e pro mundo. A morte habitava os livros, os jornais, a música, a história. As lembranças mais fortes de hospital eram de uma operação de fimose aos 10, 11 anos ou  quando ia visitar os irmãos quando nasciam e ficava impressionado com o cheiro e as caras das moças pedindo silêncio.

Mas de um tempo pra cá, a fila tá andando rápido, as visitas ao cemitério em procissão são frequentes, as visitas aos hospitais idem, as más notícias por telefone também, melhor encarar.

A esperança é que todos nós, assim como Dassanta, nos transformemos pelo menos em  pássaros das asas amarelas, Passu japiassoca assu.

 

 

 

 

 

 

 

 


Três da madrugada

04/01/2016

Sem título
Torquato Neto

…noite alta madrugada
na cidade que me guarda…

Torquato Neto / Carlos Pinto

À espera do dia (in)útil, tropeço na voz de Gal  nesta poesia de Torquato Neto.
Pra quem gosta de ruas, de madrugadas, tudo e nada.

Gal Costa, 1973

Carlos Pinto, 1973

Vereônica Sabino, 1993

Nouvelle Cuisine, 1995

Lu Horta, 2013

Márcia Castro, 2014

Patrícia Mellodi e Zeca Baleiro, 2014

 

Sobre a música e Torquato Neto: http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2012/11/torquato-neto-as-tres-da-madrugada.htm

 


Família, Familha, boatos e apedrejamentos

29/12/2015

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A moça amarrou o cabelo para mostrar a tatuagem nas costas. Foi mostrada pelas costas, alvo de chacota em sites de tatuagem desde 2014 e recentemente, com o incêndio no museu da língua portuguesa, renasceu como piada no facebook: encontrada a suspeita!

Impossível ficar indiferente à foto. Dá agonia, da pena, dá ginge. Mas aí surge uma dúvida. E se não for Português? Uma rápida googlada tradutora informa: Familha é família em catalão. Fico com esta possibilidade.

(P.S: infelizmente  errei, confiado no google tradutor. Vem da Espanha – no comentário de Marcia Cristina Rocha, no facebook, e no inbox, por consulta a Neyse Cunha Lima) – a informação de que família é família aqui e na Catalunha). Então, vale ainda mais a última frase deste texto)

A foto tem todos os ingredientes e descaminhos de boatos, ironias e apedrejamentos na internet.

Boato, porque é verossímil. A gente escreve família mas fala familha, sobrou pra quem tem pouca leitura, ou seja, a maioria de nós, brasileiros. 

O mais grave é o apedrejamento. Num dos comentários da foto alguém ainda riu da qualidade da bolsa da moça. E assim caminha a desumanidade. Saiu fora do padrão, pau.

Como desejo de ano novo, quero ficar mais atento ao que leio, rio e reproduzo.

 

Foto: http://bit.ly/1mgIojl

 

 

 


Top five 2015

10/12/2015

Dezembro gastando, tempo de fazer listas do feliz ano velho. E como boa parte das nossas vidas transcorreu diante desta tela, seguem os meus escolhidos:

1- Sensacionalista

Disparado, o melhor da internet que chegou aos meus olhos. Dá em chico e em francisco sem dó nem piedade. Isento e de verdade.

2 – Jout Jout Prazer

Com vídeos aparentemente despretensiosos, esta garota dá seu recado e segue ganhando o mundo.

3- Clímaco Dias

Escolha dura, entre amigos. Mas Clímaco manda muito bem nas ideias, no humor, com a família, com as divas. um autêntico prosa boa.

4 – Helder Reis

Fotos, fotos, fotos. Inacreditáveis fotos.

5 – Tia Má 

Descoberta recente, o mais divertido guia de comportamento masculino/feminino com delicioso sotaque baiano.

E sua lista Bê?

 


Espelho

22/11/2015

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Fui ao centro hoje e resolvi retornar aos territórios de memória pessoal da cidade. Passei pela casa do Garcia. Não foi uma boa experiência. Gradeada, suja, descascada, não combina com a memória filtrada e cheia de luz daquele lugar de pulsar dos vinte anos.
Olhei pra fachada e me vi no espelho. Atualizado.
Futucando neste coco pequeno achei este texto sobre aqueles dias:

A casa do Garcia e as paulistas

22/07/2010

1981, 1982. A casa era comprida, de rua a rua, da Conde Pereira Marinho à Protestantes, no Garcia. Os quartos e banheiro ficavam diante de um corredor, seguido de uma sala, uma pequena cozinha e um quintal. Última casa da rua, tinha muitas janelas para o vale. A população de moradores era flutuante. Havia um núcleo mais ou menos fixo, mas a rotatividade era grande. Uns trabalhavam, outros estudavam e trabalhavam, tinha quem não trabalhava e nem estudava. Quase todos na faixa dos 20 anos.

Nos quartos, colchões, tatames, araras e baús de vime. Na sala, estante de pranchas de madeira sobre blocos de argila sustentava uma pequena biblioteca, aparelho de som e muitos LPS. The Wall, do Pink Floyd, talvez seja a trilha sonora daquela casa, junto com Trem das Cores, de Caetano.

Tinha também uma gata que se chamava Leila Diniz. E muito incenso.

Num sábado de Verão, alguém chegou com duas garotas conhecidas naquele dia na praia. As meninas iam voltar para o interior de São Paulo porque o dinheiro estava acabando e elas não tinham como continuar as férias hospedadas no Othon. Claro, foram convidadas a continuar em Salvador, hospedadas na casa do Garcia.

Tudo ali era novidade para elas. As namoradas que dormiam na casa, as portas quase permanentemente abertas, inclusive a do banheiro, os papos, enfim, estavam com juízo de meninas do interior de São Paulo e filhas de militares completamente retorcido.

Mas a porrada veio forte à noite, quando resolveram conhecer o Zanzibar, aquele mesmo onde os orixás acenaram com o não/sim. O bar ficava ali pertinho e dava para ir a pé. Numa só noite, viram de perto o que só conheciam de ouvir falar: dois homens se beijando, um grupo fumando maconha e Gilberto Gil.

https://licuri.wordpress.com/2010/07/22/a-casa-do-garcia-e-as-paulistas/

 


E nós?

21/11/2015

As mangueiras de Brotas são imunes às crises. Espremidas entre paredes, cercadas de cimento, seguem cheias, repletas, carregadas. Como os lírios do campo, tão nem aí. Fizeram a sua parte. Estão prontas para janeiro.


14

31/10/2015

Meu Deco faz 14 hoje. Maior do que eu, garoto bonito e muito na dele. Parabéns, filho!


De cima

30/10/2015

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Hoje voltei ao circo Picolino, voltei a integrar uma ficha técnica de um espetáculo de artistas formadas pelo circo, na função de propagandista, máximo que consegui até hoje do sonho de ser trapezista.

E o melhor do circo acontece lá em cima, para onde se dirigem os olhos e os queixos arriados da plateia.

Feliz com este retorno. No circo só havia picadeiro e plateia, o circo está nu mas ali brotando coisas, trabalhos. E em breve, esta é a grande notícia, chegará uma nova lona.

Portanto, senhoras e senhores, respeitável público, assumo meu posto no megafone e engrosso o coro: vem aí  Histórias Contadas de Cima.


Safra

22/10/2015

A menina desde ontem está encafifada, incutida, incomodada, aperreada, não fala em outro assunto desde que apareceu sua primeira espinha, no queixo. Coloca o dedo, cobre, acha que aquele ponto é a direção de todos os olhares.

Mas  hoje entra no carro radiante, depois da aula. Descobre em quatro colegas a mesma espinha, no mesmo lugar da sua. Voltou a pertencer ao mundo.


20

28/09/2015

Dedico esta página musical a minha Luísa que a partir de agora cabe inteirinha na canção.


Eclipse, tempo, insight

28/09/2015


Retratos

12/09/2015

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“Era uma noite maravilhosa, uma noite tal como só é possível quando somos jovens, caro leitor”.
Esta é a abertura, bela abertura, do conto pretendido para leitura nos momentos de espera antes de receber na veia doses de radioatividade para tirar um retrato do velho coração descompassado.
São duas doses, dois retratos, mas o conto ficou pelo caminho. As conversas no pequeno cubículo com paredes grossas de chumbo, onde se reúnem homens e mulheres não jovens agora radioativos, tomaram conta da manhã. Uns com muitas falas, talvez os mais medrosos, outros no silêncio atento enquanto aguardam a vez.
Estirado debaixo da grande máquina fotográfica de coração eu me sinto um modelo do século retrasado diante do daguerreótipo, sem direito a  mexer nem uma unha, respiração contida. Tomara que este treco evolua como as máquinas de retrato de gente pelo lado de fora.
“Chegou bem amor? Ainda bem, te amo”, diz o médico ao celular enquanto aguardo todo conectado a fios e espetado por uma seringa por onde entrará a segunda dose radioativa durante uma caminhada na esteira. Nesta mesma semana tentei me despedir da médica que me fez um outro retrato do coração, daquela vez sonoro e transmitido diretamente para uma tela de TV. Mas não consegui nem ouvidos nem olhos,tão ligada ela estava à tela do seu espertofone.
É preciso esclarecer que a atenção aos telefones não invadiu o momento da realização dos exames. Estes gestos não me incomodam, vejo-os apenas como sintomas de um tempo, um tempo em que nascem também muitas novas palavras, como essa, espertofone,  até outro dia desconhecida.
Pretendo chegar ao final da leitura do conto na continuação da investigação médica. É um texto pequeno, Noites Brancas, de Dostoiévski. São apenas 97 páginas, quase um bilhete se comparado aos seus grandes clássicos.

 


Adeus, meu prezado!

10/08/2015

Ele se vai aos poucos, sem alarde, sem angústia, sem dor. O coração desacelera, o pulso cai devagar até o corpo ficar completamente em silêncio e frio.  Talvez as palavras mais sinônimas de morte sejam silêncio e frio.

Em volta a vida pulsa. No choro, na dor, no corre-corre para as providências dos adultos. As crianças, o cachorro, o papagaio também participam de alguma maneira do redemoinho, é um momento de quase transe para todos.

Uma morte à moda antiga, em casa, de uma forma a cada dia mais rara. Seu Rubem, meu querido amigo de 94 anos, que me chamava de meu prezado, muitas vezes de meu filho, avô de Soraya, bisavô da minha renca,  foi embora cercado de cuidado, de carinho, dos filhos, netos e bisnetos.

Enterrado ontem em João Amaro, ao lado de sua Ludu. Também numa tarde ensolarada de domingo.
Não casualmente Dia dos Pais.

___

Aqui umas histórias desta convivência: https://licuri.wordpress.com/?s=Rubem+Reis


Não te perdoo por te trair

31/07/2015

Sem título

Ela tem 20 anos, cuida da casa e do filho de 2, em Cariacica, Espírito Santo. Ele tem 33 e é mecânico. Estavam juntos havia cinco anos mas 15 dias se passaram sem um toque, sem um chamego, sem cama.

15 dias é muita desatenção.

Ela então foi à luta e em uma semana tirou por duas vezes o atraso, com  outro, a última vez num domingo, quando os três se encontraram. Ele tentou jogar a moto em cima da moça, ela se esquivou.

Em casa, ela mandou ver de faca, caneta, até tampa de fogão. Brigaram mais uma vez, terminaram na  delegacia.

Na foto do jornal ela veste uma camisa onde se lê  Love Story. É ouvida e  liberada pelo delegado porque ele não quis prestar queixa.

A história está nas páginas do jornal A tribuna, de Vitória. E como bem lembrou  minha amiga Ana Lívia,  a moça não perdoou por  trair.

É a realidade tecendo mais uma trama, superando ficção. Se Gilberto, o corno de Nelson Rodrigues, assume a culpa e pede perdão por ser traído, se o traidor de Chico Buarque, em Mil Perdões, perdoa por trair, nossa heroína não pede desculpa e nem pede perdão.


Não vou me adaptar

21/07/2015

Na Rádio Educadora, Arnaldo Antunes prevê: Não vou me adaptar.

A tarde é de julho de 2014 mas a melodia cheira a anos 80,  lá se vão três décadas.
E a velha canção pós-adolescente cai hoje novamente como um luva nesta pré-terceira idade:

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia…

A cada frase, mais atual…

No espelho essa cara já não é minha…

Não vou! Me adaptar!
Não vou! Me adaptar!

Não Vou Me Adaptar
Titãs

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia

Será que eu falei o que ninguém dizia?
Será que eu escutei o que ninguém ouvia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar

Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
Mas é que quando eu me toquei
Achei tão estranho
A minha barba estava desse tamanho

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar

Não vou!
Me adaptar! Me adaptar!
Não vou! Me adaptar!
Não vou! Me adaptar!


…e eu me sinto melhor colorido

29/06/2015

Sem título

Eita ignorância e falta de memória. Talvez por isso goste tanto da internet, onde diminuo a ignorância e a lembrança é sempre estimulada pelas checadas quase a minuto no google, prótese de memória, HD perdido.

Quando ouço alegria é a prova dos nove, minha cabeça repete musicalmente e a tristeza seu porto seguro.

Até hoje pela manhã, quando li a coluna de Xico Sá sobre o fiasco da seleção na Copa América para ser informado e lembrado que a frase é do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.

É a segunda vez que o manifesto me pega.

Ao me deparar com a frase Só não interessa o que não é meu numa colagem de um tapume do metrô de São Paulo fiquei incutido, fotografei. Também descobri depois  que a fonte era o  manifesto. Santa Ignorância.

sampa2

Fiquei em dúvida quando vi na sexta-feira a campanha deflagrada pelo facebook para mascarar as fotos dos perfis com o arco-íris. Entro ou não entro na brincadeira? Fiz o que muita gente deve ter feito, chequei quem entrou. Gostei de quem vi, vesti meu arco-íris e segui a parada.

Passei então a acompanhar a pipoca na panela. A TL foi praticamente tomada pelas alterações das fotos de perfil. E pra todo mundo que passava eu dava um alô com polegar e era retribuído. Foram 208 acenos de volta. Isso me deixou feliz e me lembrou aquele momento da missa onde o padre ordena e todo mundo se abraça, em clima era de confraternização. Ou os encontros de Carnaval.

Começaram a surgir também as brincadeiras de bom e de mau gosto. E os argumentos mais ou menos  elaborados. Modinha, comportamento de manada, inocentes úteis do marketing do facebook, melhor seria combater a fome no mundo e por aí vai. Não vou chover no molhado. Tá tudo muito bem rebatido duas vezes pelo professor  Wilson Gomes aqui e aqui  e por Rafael Sampaio aqui.

Difícil saber o tamanho do impacto desta campanha. Pra mim pelo menos serviu para reler o manifesto e ouvir novamente Geléia Geral. Toca Torquato:


Curta pra quebrar melhor

26/06/2015


faceO coco pequeno é também página.


Oh! telefonista, a palavra já morreu?

25/06/2015

Nos últimos dias me dei conta da presença de Fernando Brant na adolescência, vida afora. Tentei fazer lista de 10, não consegui diminuir destas 23: Beco do Motta, CaxangáPonta de AreiaConversando no BarSan VincenteCanção da AméricaCanoa, CanoaCredoFeira ModernaGente que Vem de Lisboa/Peixinhos do marItamarandibaMaria MariaMaria SolidáriaMilagre dos PeixesO Medo de Amar é o Medo de Ser LivreO Que Foi Feito DeveráOutubroPaisagem da JanelaPaixão e FéPara Lennon e McCartney, Roupa NovaSentinelaVevecos, Panelas e Canelas.
Ops! Faltou Travessia


Joanita

22/06/2015

“Joanita havia completado dezenove annos, e d. Maria que se casara aos quinze, julgava aquella idade já um tanto elevada para uma menina casadoira.”
Que fim levou Joanita? Qual o desfecho da sua história na página 4 de O Combate, que circulava  aos domingos pela manhã, naquele domingo do São João de 1935? *

As palavras  amareladas no papel ressuscitam hoje  para os meus olhos e os de algumas dezenas de pessoas na página de fotos antigas de Conquista em cristal líquido.  No tempo de Joanita, o texto era  grudado no papel em tinta, na forma do linotipo, os l e os n eram algumas vezes dobrados e com ph se escrevia physionomicos.

A alegria de quem produz um texto, qualquer texto, é ser lido.

Produzo então aqui alegria póstuma e presto  homenagem a este escritor anônimo da primeira metade do século passado numa pequena cidade do sertão.

Que fim terá levado o autor do texto?

P.S: por sugestão de Paulo Galo, lanço aqui o desafio.
A moça vai resistir às pressões da mãe para a aceitar a corte dos “cow-boys”. Ou vai optar por um pretendente “civilizado”?
Enquanto não localizamos a página 4 de O combate, quem se arrisca a completar a história de Joanita?

Joanita1

Texto completo joanita

O S. João de Joanita

Joanita era o encanto da fazenda Páo d’Arco. Não era dessas moças que se fazem bellas, mediante  os enfeites, os atavios da moda, os recursos da arte. Ignorava a maquillage. Despresava o baton.  Sabia’se formosa, dessa formosura natural, cambiante a apenas ás variações do nosso clima  voluvel.
Bem nova ainda fora mandada á Capital, a estudar, interna, no Collegio dos Perdões.
Aos dezeseís annos, achava’se prestes a collar o gráo de alumna mestra, quando lhe morreu o pae.  A viuva d.Maria Vieira, não podera supportar mais, a ausencia da filha unica.
Joanita teve que voltar aos seus penates, sem o diploma de professora. Era o carinhoso genitor  quem fízera questão de um diploma qualquer para a sua adorada filhinha.
-Eu quero minha filha, disséra d. Maria, aos parentes, qundo do fallecimento de seu esposo. Graças  a Deus, temos com que viver. Ella não precisa de nenhuma carta. Eu é que preciso della. Não  poderei viver assim isolada.

*
* *

A inconsolavel viuva entregando a administrração da fazenda, a direcção de todos os seus negocios, a um irmão dedicado, Paulo Vieira, passara a viver quasi unicamente para a filha, que lhe recordava, pelos traços physionomicos, a imagem do defunto esposo.
Comtudo desejava casa-la. Joanita havia completado dezenove annos, e d. Maria que se casara aos quinze, julgava aquella idade já um tanto elevada para uma menina casadoira.
Os pretendentes é que não faltavam. A Fazenda Páo d’Arco era um castello encantado, onde uma pequenina castellã ou fadazinha, attrahia pela sua belleza magica, toda a “nobreza” das enstancias circumjacentes.
E os jovens fazendeiros, por mais esforços que fizessem não podiam desencantar a fada, encantando-lhe o coraçàozinho…
*
* *
Era dia de S. João.
Sentadas ambas na varanda da bella vivenda, d.Maria dissera a filha:
-Porque não acceitas o Everaldo Gomes? Um rapaz que está em boas condições, e que pode fazer’te feliz?
– Não, Mamãezinha. Não me fale num moço que me vem fazer a corte, vestido com um gibão e perneiras de couro! Julgam estes senhores que basta o seu porte de “cow-boys” para conquistar, num olhar, a nossa admiração!… Eu nunca me habituarei a um marido assim. Prefiroum homem civilizado, ainda que seja pobre.
_ Faça o que quizeres, minha filha. Creio, entretanto, que com essas ideias, ficarás para tia. A Bahia, civilizou’te talvez mais do que o necessário… Mas, eu não ponho obstaculos á tua linha de conducta… Seja como quizeres…

CONT. NA 4. pag.

 

Joanita

* Publicado em https://fotosdevitoriadaconquista.wordpress.com/1935/06/23/o-sao-joao-de-joanita/

Conquista na época de Joanita:

rua-grande-1939

Foto: https://fotosdevitoriadaconquista.wordpress.com/1939/09/06/rua-grande-automoveis-postes/

face


Aula

18/06/2015

Sentei num banco de espera, comprei uma paçoquita e puxei assunto. Há alguns anos houve uma campanha para ajudar na sua  cirurgia e aproveitei para saber do resultado. Normalmente calado e concentrado no atendimento aos clientes, me espantei com sua fluência, clareza, e tranquilidade para falar sobre o assunto.

Sabe tudo sobre seu tratamento. Contou como fazia religiosamente a cada seis meses o acompanhamento do PSA. Numa dessas, deu alto. Passou também a fazer biópsias regulares, seis meses PSA, seis meses biópsia. Mas não dava nada. Até que um dia deu e veio a decisão médica. Melhor tirar. Atendeu prontamente à indicação, tirou. Não precisou de procedimento adicional, tava bem no começo. “Tirei logo para resolver, depois não tive mais nada”, diz com uma ponta de alegria e total confiança em tudo que foi feito.

Não economiza resposta. Em alguns minutos soube detalhes de seus 73 anos de vida, como começou a trabalhar de motorista de trator e de caminhão no interior, como foi rebaixado a cobrador nos primeiros meses em Salvador por falta da carteira de habilitação. Tirou a carteira mas deixou a vida de motorista de ônibus para vender balas e doces. Um negócio que combina mais com sua natureza.

Jamais conheci alguém tão resolvido com rotinas médicas. Frequento aquele lugar há quase 15 anos e em todo este tempo poderia ter aprendido mais com o baleiro.


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