Costume e recado

A fila se arrasta da porta da Caixa Cultural até a Rua do Cabeça, coisa de 200 metros de gente.

Bilheteria ainda fechada, todos aguardam por ordem de chegada dois ingressos para o disputado monólogo Processo de Conscerto do Desejo, com Matheus Nachtergaele.

– Epa, esses dois não estavam aí!, diz uma mulher ao funcionário que acaba de entregar as senhas a um casal. Ele até tentou pegar de volta as senhas, sem sucesso.

– Eu marquei o lugar para eles, diz o senhor de óculos e barbicha.
Marcou por telefone.
No bate-boca, prevalece o argumento do fura-fila:
– Ele marcou o lugar pra mim. Isso não é errado, é costume.

Coloquei a situação em debate no carro na ida para escola e o cara foi reprovado no ato por André e Maria.

– É tão errado quanto levar a carteira da filha para comprar meia na Fonte Nova, disse a menina.

O recado é para mim, o indignado da fila.

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Janelas abertas, a internet e o general

Sim, eu poderia falar do general com suas medalhas de papel, general sem guerra e mais o que fazer, desejoso de golpe militar.

Sim, eu poderia falar da internet, do quanto dependo dela para acessar memórias, pensar, estabelecer sinapses.

Mas vou falar de Janelas Abertas e Janelas Abertas 2. Uma de Tom, outra de Caetano. Uma na minha lembrança, outra descoberta ontem.

Sim, o general incomodou. Não basta passar vergonha como país desigual, injusto, corrupto. Tem que ainda conviver com almas sebosas, saudosas da ditadura. E passar vergonha novamente como república de bananas.

Mas além da fala nefasta do general, a música amanheceu na minha cabeça e atende por Janelas Abertas 2. Não lembrava do nome.

Sou apresentado agora à música original de Tom, motivadora do contraponto de Caetano, no exílio. E a ouço também pela primeira vez na voz de Áurea Martins.

“Sim, eu poderia ficar sempre assim, como uma casa vazia, uma casa sombria, sem luz, sem calor. Mas quero abrir as janelas para que o sol possa vir iluminar nosso amor.”

E ouço mais uma vez Janelas Abertas 2, pela primeira na voz de Ana Moura.

“Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília, em cada um matar um membro da família até que a plenitude e a morte coincidisse um dia, o que aconteceria de qualquer jeito. Mas eu prefiro abrir as janelas para que entrem todos os insetos”

Vade retro general.

 

 

Castro Alves

castro alves1 - CopiaAo ver a placa em Itatim, na BR 116, resolvi entrar na estrada de 33 km que me levaria mais uma vez à infância, aos meus 9 a 13 anos, na cidade de Castro Alves. Passei pela Escola Polivalente, cheguei à praça, contornei as quatro ruas onde morei, passei pelo cemitério e cheguei à praça onde brincava de escorregar na base da estátua do poeta. Onde aos 10 anos, em 6 de julho de 1971, no centenário da morte do poeta, recitei Vozes D’África.