Mudo

20/03/2017

olhar,
ouvir,
mudar.


Me achando, na fila do acarajé.

10/03/2017

Quem é você na fila do pão? já tentei responder esta questão social-filosófico-existencialista, muito em voga nestas redes antissociais e de tretas homéricas, e me apertei.

Não é fácil definir nosso lugar. Não é pra qualquer um se sentir bem colocado também entre os orixás do dique, no jogo do bicho ou na fila do SUS.

Mas no meu aniversário eu poderia dizer que fiquei importante e encontrei meu lugar. E me achei na minha fila, vamos chamar de fila do acarajé, só para variar ainda mais e abaianar. Devo este meu dia de localização em grande parte ao robô do facebook, encarregado de lembrar a data.

Depois do café da manhã da renca, dos telefonemas da família e amigos e os abraços dos colegas de trabalho, a  fila cresceu aqui na telinha azul.  Amigos antigos, amigos  recentes, próximos, distantes, amigos apenas de facebook, fizeram um  belo coro de feliz aniversário.

Então eu fiquei todo pimpão. E até agora estou me achando o bem amado na fila do acarajé.


Pré Carnaval é um perigo

21/02/2017

Saí ileso da bagaceira do Furdunço.
Mas nesta terça não escapei. Ao tentar passar sobre  um cabo de computador a 30 cm do chão me enrosquei, dei um pequeno salto de saci à frente e na tentativa de não levar tudo junto ergui o pé preso mais um pouco e perdi o equilíbrio. Levantei também a mão que segurava o celular e então me estabaquei de peito aberto no chão feito um saco de batatas. No baque, tive a sensação de ter quebrado 200 costelas e rompido tudo por dentro. Emergência, radiografia, nada quebrado mas ainda caminho pisando em ovos e estou impedido de rir.

Queda é um perigo para gente vivida.

Lembrei da deliciosa descrição da queda e morte do Dr. Juvenal Urbino, na tentativa de  capturar um louro em um pé de manga, em O Amor no Tempo do Cólera:

“(…) El doctor Urbino agarró el loro por el cuello con un suspiro de triunfo: qa y est. Pero lo soltó de inmediato, porque la escalera resbaló bajo sus pies y él se quedó un instante suspendido en el aire, y entonces alcanzó a darse cuenta de que se había muerto sin comunión, sin tiempo para arrepentirse de nada ni despedirse de nadie, a las cuatro y siete minutos de la tarde del domingo de Pentecostés..(…)”

Quase morri  também sem tempo de me arrepender de nada e nem me despedir de ninguém, às oito e vinte da terça de pré Carnaval.

 


Pré Carnaval?

20/02/2017

Nada mais enganador. O que houve ontem em Ondina foi um domigo de Carnaval, com direto a sensação de sobrevivente no final. E a todas as marcas de sujeira e pisadas do percurso feito duas vezes no contrafluxo, com Leo Santana no meio do caminho, para ter direito  a Armandinho DodÔ e Osmar e Baiana System no mesmo combo.

E quem já pulou nos encontros de trios na década de 70 e inventa entrar na muvuca da Baiana sabe que a única diferença no Déjà vu é a pressão e temperatura ampliada dez vezes, sem direito a ficar parado na hora do Playson, Playson.

Ou sobe ou sobe junto com a turba.

E no meio do calor, da agonia feliz, encontramos quem? A filha.
O CarnAval tem tambÉm a qualidade de misturar o tempo.


Show pa chorar

12/02/2017

Se você viesse me perguntar se eu choraria num show com músicas de Belchior talvez eu risse. Mas as lágrimas desciam silenciosas pelo canto do olho. Soraya chora até agora. Talvez seja o achonchego intimista do Teatro Gamboa, da fila do gargarejo. Talvez seja a vontade enrustida de  chorar por conta da pegada violenta desta vida. Mas com certeza pela interpretação dos dois – JosyAra e Giovani Cidreira. Mesmo aquelas músicas com versões definitivas na voz de Elis Regina ganharam pegada nova, emoção nova. Fiquei ali, a escutar  novidades nas letras, como se elas estivessem escondidas todos esses anos. Belchior anda sumido mas reapareceu diante de nós. Todos rejuvenescidos.


Trunfo

09/02/2017

Cartaz Salvador BAweb (2).pngAs Fulanas me chamaram para um job, como dizem os mais moços, e eu estou aqui a madrugar, não para falar da minha vida, nem da sua, nem da dos outros, mas dos destinos revelados pelas cartas do tarô.

Portanto, agende aí sua consulta para o espetáculo Trunfo, neste sábado e domingo, no Circo Picolino, em Pituaçu, às 17h30, com entrada franca.

Como no livro O jogo de Amarelinha, o grupo Projeto Vertigem, do Belém do Pará, dá ao distinto público a possibilidade de definir o destino, ou a ordem do espetáculo, ao tirar os trunfos, ou cartas do tarô. Quem sabe você não será contemplado?

 

Mas as duas matinês sob a lona de Pituaçu ainda têm mais atrações. No sábado, a programação no Circo começa mais cedo, a partir das 15h30, com o Espetáculo de Encerramento do Curso de Férias da Escola Picolino de Artes do Circo, e prossegue com a participação da Banda SSA Fanfarra Moderna e Bar Fulanas. No Domingo, depois do espetáculo, tem DJ e Bar Fulanas.

As cartas estão lançadas.


Viúvos

03/02/2017
Quem morreu primeiro foi minha avó materna. Nem a conheci. Lembro do meu avô Antônio, da sua solidão, cuidado pelas filhas, na casa de tia Dalva. Quem morreu primeiro foi tia Dalva, os dias estão bem difíceis pra meu tio Adauto. Quem morreu primeiro foi tio Ruguinha. Lembro dos dois sempre juntos na casa de Tanhaçu, que ficou ainda maior sem tia Quezinha. Quem morreu primeiro foi dona Ludu. Seu Rubem cortou um dobrado por quase 12 anos.
As mulheres são mais fortes, cuidam mais, vivem mais. Mas de vez em quando aprontam. Por isso me tocou muito a foto do abraço de consolo entre os viúvos Fernando e Luís.

Eles envelhecem muito rápido

27/01/2017

O tempo voa.png

Maria no Pratigi: jan2009 e jan 2017.

 


Pratigi

20/01/2017

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Nem palavra, nem imagem traduz esse mar do Pratigi. É preciso voltar sempre, admirar o arco de água, areia e coqueiros a perder de vista. Caminhar, mergulhar. Receber no final da tarde o abraço de pele da água com temperatura de gente por dentro.


Feliz maré nova!

29/12/2016

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Em qual ciclo damos a volta em nós mesmos?
Num dia, com sua noite embutida?
Numa semana e seu cabalístico 7? Uma semana do trabalho de Deus e uma lua?
Num mês, com suas quatro luas?
Num ano, com suas quatro estações?

Ou será que o ciclo humano, nossa volta em nossos rasos e profundos, é o tempo de uma maré?
Tudo muda entre a maré alta e a baixa, o cenário é outro, as possibilidades são outras.

Talvez uma das chaves do tempo, dos ciclos, do nosso tempo humano, esteja nas 12 horas e 24 minutos entre o máximo e o mínimo da maré.

Maré que tem a ver com a lua, que tem a ver com o sol, que tem a ver com o movimento em espiral que vai nos levando universo afora.

Então, para ser mais breve, não vou desejar feliz ano novo e sim uma feliz maré nova, seja ela alta ou baixa. Todos os dias.

 

Foto: Barra do Serinhaém, janeiro de 2009.
https://licuri.wordpress.com/2009/02/04/e-no-setimo-dia/

 


Tempo de listas

22/12/2016
10 tarefas possíveis e impossíveis para janeiro de 2017
(aceito dicas e ajuda para tornar todas possíveis)
Tomar banho de mar 7 dias seguidos.

Entender Alepo.
Trabalhar na horta do condomínio.
Saber mais sobre ação das facções que controlam bairros de Salvador.
Brincar com os filhos.
Fazer um caderno.
Dançar com Soraya.
Dar um caderno feito por mim de presente.
Chegar ao fim do mês com saldo negativo de peso.
Terminar de ler O Idiota, de Dostoiévski.
Chegar ao fim do mês com saldo positivo no banco.

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Praia do Pratigi, janeiro de 2012.


Cumeadas

18/12/2016

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Saí ontem caipiroskado de uma confraternização de trabalho. Fim de tarde, temperatura agradável, resolvi voltar para casa a pé.

Andei 3,5km  mas atravessei cidades ao ir do Cidade Jardim, pela ladeira da Cruz da Redenção,  até o Acupe de Brotas. Da perspectiva de pedestre a gente enxerga melhor a cidade, especialmente as pessoas.

Na avenida de vale, só prédios e carros, muitos carros, raros caminhantes, raras mulheres, um cenário definido por  João Ubaldo Ribeiro como Los Angeles de pobre.

Ladeira também semideserta. Mas no topo, a pracinha do Largo da Cruz da Redenção fervilha.

Com Lelé, o arquiteto que gostava de gente, aprendi uma palavra bonita para definir estas partes altas da cidade, onde as pessoas ainda andam pelas ruas e convivem:  cumeadas.


“Con los que te hacen reír quedate toda la vida.”

10/12/2016

amigos

Início de 1976, um amontoado de adolescentes na faixa de 15 anos, sem pais por perto, se organizava em filas para a matrícula. Muitos éramos do interior, havíamos passado no teste da Escola Técnica e tudo ali era uma vida pela frente, hora de fazer novos amigos.

Sentado no canteiro do jardim interno da escola, com um vinil ainda embalado da loja na mão, o garoto atende a minha curiosidade e apresenta sua nova aquisição. Era um disco de Macalé e um pretexto para uma amizade estabelecida imediatamente naquele momento. Ontem a música nos aproximou novamente, num encontro marcado na plateia de Tom Zé, na Concha. Ângelo Sérgio Silva continua com a mesma voz grave, a gargalhada solta. Só mudou na  cor dos hoje poucos cabelos e na escolaridade. O garoto agora é professor doutor.

Alberto Freire Nascimento – mesmo os de memória fraca jamais esquecem o nome completo dos colegas de sala – outro de gargalhada fácil, também acumulou cabelos brancos e também virou professor doutor. Aprendo até hoje com os dois.

Numa das primeiras aulas de português, quase ninguém se conhecia, Betão atendeu o desafio da professora, levantou o braço e levou uns 10 minutos explicando as diferenças no estilo dos heterônimos de Fernando Pessoa. Eu, de queixo caído, mal sabia quem era o sujeito, e o cara já nadava de braçadas nas sutilezas dos muitos ali contidos em um. A admiração de décadas nasceu naquele dia.

Em 1985, fora de Salvador havia 2 anos, fui reencontrar Betão e conhecer sua Luíza, numa noite morna, no largo dos Aflitos, na porta do bar Toalha da Saudade. A conversa  rolou solta e longa ali fora mesmo,  lá dentro estava lotado. Outra de riso fácil, ironia de navalha na ponta da língua, e uma das pessoas mais rápidas no gatilho que conheço.

Ontem, eu e Soraya rimos muito, muito com os três até sermos expulsos gentilmente da única mesa ainda habitada, depois de todos sumirem em volta sem a gente nem notar.

E, sem saber, seguíamos ali o bom conselho de Juan Trasmonte, dado desde a Argentina, aqui nesta telinha, para ilustrar também uma mesa de bar com amigos:
“Con los que te hacen reír quedate toda la vida.”

Por supuesto.


Quase conversão

01/12/2016

Sou agnóstico mas tendo a crer ao ouvir o segundo movimento.


Dia de Josef K.

27/11/2016

vara

Tudo começou mal por causa da diferença de expectativas. Eu me sentia a vítima – fui furtado e levado debaixo de vara, ou conduzido coercitivamente, porque confundi a data da primeira audiência – confundir datas é uma das minhas especialidades. E o juiz estava só aguardando a hora de passar um sabão no fugitivo da justiça: “Tive que botar a polícia atrás do senhor”
 
Colocado diante do sujeito do outro lado do vidro, via nele traços parecidos com aquele que pedia piedade sob o pé de um cara com uma pistola apontada para a sua cabeça, depois de ter roubado o celular na mão de Maria na Piedade, saído em disparada, mas capturado graças ao meus gritos de pega, pega em carreira atrás dele.
 
Mas eu não tinha a menor condição de dizer se aquele ali era o mesmo daquele dia. Tenho uma dificuldade absurda de reconhecer faces, vivo a dar fora nessa vida, por muitas vezes sustento sorriso amarelo e conversa incompleta até descobrir, ou não, quem é aquela pessoa com quem já tive contato mas não faço a mínima ideia de quem se trata.
 
Caí na besteira, por sugestão do policial designado para me conduzir, de enviar mensagem ao doutor juiz por um dos auxiliares, pedindo antecipação do depoimento para não perder um exame marcado do outro lado da cidade, já que eu havia sido comunicado da audiência na noite anterior. “Se tivesse vindo na primeira, até poderia ser”. Este recado deveria ter sido captado como um sinal.
 
Mal comecei a falar, fui interrompido pelo menos duas vezes com a advertência de me me limitar a responder o que ele perguntava, sim ou não. Contive minha habitual verborragia. Não adiantou. Como eu não podia garantir 100% se tratar da mesma pessoa, o juiz perguntou se eu o havia reconhecido no dia da prisão.
 
Na delegacia não houve um reconhecimento formal, expliquei, como havia acontecido há pouco. Havia sido levado na mesma viatura mas ao chegar, ele foi para um lado e eu para o outro.
 
Como se não tivesse ouvido, fez novamente a pergunta, duas, três vezes e eu mantive a resposta duas e três vezes. Aí ele encrespou, passou o sabão dele, citou minha profissão, onde eu trabalhava, e em seguida reafirmou que eu tinha que falar a verdade. Falei novamente.
Ele levantou e saiu da sala irritado. Busquei apoio nos demais ao me queixar da tratamento mas recebi de volta o silêncio do defensor, do escrivão, de uma auxiliar e de um sujeito sentado à frente, numa poltrona, não sei por que estava ali.
 
Senti que se eu tivesse dito uma palavrinha fora do tom, seríamos dois a voltar para a casa de detenção.

 

 

Imagem daqui.

 

 

 


Condução coercitiva pra chamar de minha

23/11/2016

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Nunca vá ao encalço de um ladrão de celular, especialmente se você tem mais de 55 anos  e IMC acima de 32. Ele pode se voltar e lhe quebrar na porrada, pode haver um cúmplice por perto e  lhe quebrar na porrada e ainda pode acontecer o pior de tudo: o ladrão ser preso.

Aí lenhou total. Pra ele e pra você.
Foi o que aconteceu comigo, contei o começo de tudo aqui.

Já havia esquecido da história e recebo em casa a simpática visita de uma oficial de justiça com a intimação para eu ir ao tribunal,  prestar novo longo depoimento, agora perante o doutor  juiz.  A tarde perdida  na delegacia naquele domingo valeu nada.

O problema é que só lembrei da tal audiência no dia seguinte à data marcada. .

Comentei com minha advogada, minha porque senta ao meu lado no trabalho, e ela me aconselhou a  ir até lá e dar satisfação ao doutor juiz, logo. Como ela sabia o que estava falando, coloquei a ida como prioridade, faz uns bons dias. Mas lista de prioridades de procrastinador vive eternamente em idade de crescimento.

E eis que meu hipocampo comprometido pelo DDA  tomou novamente a dianteira e, de posse da informação de que a justiça baiana é a mais lerda do país, calculou que eu só seria convidado a depor novamente lá por 2056, tempo  mais que suficiente para um zignal eterno.

O problema é que nossa  justiça falha mas de vez em quando e logo comigo não tarda.  Fui avisado hoje no começo da noite por um  simpático policial, que amanhã irei  testemunhar na marra neste importante processo de furto de um celular na Praça da Piedade.

De vítima passei a testemunha. E  agora a  réu, quase um Josef K. a ser conduzido coercitivamente amanhã até o senhor juiz.

Logo amanhã de manhã, quando duas tarefas atrasadas e dois procedimentos médicos sairiam finalmente da lista de prioridades…

 

Imagem daqui.


HAM! HAM! HAM! HAM!

23/11/2016

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Esse muro conhece histórias. Registradas nas marcas de cabeças, ombros, bundas e pés, nos papelões que dormem no passeio. Talvez estes sejam os metros quadrados com mais dor explícita da cidade. Na Avenida D. João VI, em Brotas, Salvador, a Bahia pobre amanhece ao relento, em busca de uma chance contra o câncer. E o novembro aqui, e o outubro aqui, e todos os meses aqui não são rosas e muito menos azuis.

A doença nos cerca a todos. Mas maltrata mais, bem mais, muito mais, aqueles que dependem de uma vaga, de uma marcação de uma senha, de semanas entre diagnóstico e exames, entre exames e procedimentos. A urgência aqui é regida pela burocracia antes da necessidade.É pegar e esperar. Não há a opção largar.

Há quase três anos, desde que moro logo ali próximo, passo diariamente pelas palmeiras imperiais perfiladas por trás do muro, por estas letras vermelhas em baixo relevo carimbadas na parede. E elas me chegam como interjeições de dor, repetidas a cada bloco do muro, como uma sequência de um mantra. HAM! HAM! HAM! HAM! HAM!

Máscaras, sondas, muletas circulam no entorno, avançam para fora do muro e buscam seguir a vida, apesar dos pesares, debaixo do sol, do mormaço, da chuva, no ponto de ônibus de um lado e do outro da rua, atravessando a faixa, embarcando nos micro-ônibus e vans de prefeituras, num vai e vem diário também para o interior.

O passeio se transforma numa praça de alimentação sobre rodas, ali nos pequenos carrinhos, lanches são desjejum, almoço e jantar. Nos mais disputados há filas. Subfilas da eterna fila, formada por diagnosticados, parentes, amigos ou por profissionais que vivem de noites mal dormidas por uns trocados pela vaga negociada.

Passar por ali todo dia é como percorrer um corredor polonês de tapas na consciência, com uma pergunta infantil martelando o juízo: por que diabos tem que ser assim?


Made in Boiadeira

18/11/2016

boia

A Boiadeira é um bairro violento, na violenta Iaçu, como a maioria das pequenas cidades do interior. Bairro pobre, de uma cidade pobre, como quase todas as cidades do interior da Bahia.

Mas ao ler rótulo de uma barrinha de cereal Naturita, por acaso comprada na mão de uma amiga que está revendendo o produto aqui em Salvador, tive a surpresa. A barrinha é produzida numa cooperativa de Itaberaba, na unidade de produção da cidade vizinha de  Iaçu, na  Boiadeira,  na beira do Paraguaçu, nas margens da pista  em direção a João Amaro e Itaetê.

E por que eu li as letrinhas do rótulo? Porque eu me espantei com a qualidade. O  design, o sabor, a variedade. De longe a melhor barra de cereal que experimentei nos últimos anos. Aprovada também pela renca aqui em casa.

Dou uma googlada e vejo que  a fábrica é um investimento de R$ 1 milhão do Fundo Estadual de Combate e Erradicação à Pobreza (Funcep), foi inaugurada há um ano e fornece as barrinhas também para a merenda escolar.

Um milhaozinho, troco na ordem de grandeza dos  esquemas cotidianos de corrupção, possivelmente está mudando a vida de centenas de pessoas.

Página da cooperativa no  facebook.
Se quiser experimentar aqui em Salvador: 99920-0262 (Fátima)


Organização, o retorno eterno

05/11/2016

setpubal-em-1990Entrei numas de tentar – mais uma vez –  organizar  cabeça, casa, orçamento, saúde, sonhos, trabalhos, enfim, a vida. Aí, arrumando papéis antigos,  encontrei este cartão de feliz 1991, do simpático e ferino Setúbal, feito num rápido intervalo  enquanto rabiscava sua charge diária na redação de A Tarde.
A gente muda muito pouco nesta vida.


7

02/11/2016

5

7 pecados capitais, 7 virtudes, 7 planetas, uma lua nova, 7 dias. Acontece é coisa em uma semana. Aqui na minha varanda, um milagre. Destes que estão aí em todos os lugares, a todo o tempo, banais até. Mas basta prestar atenção pra gente se espantar. Era só um toco o jasmim manga. De repente, começa a jorrar vida, numa quase explosão. Registrei em intervalos de 7 dias: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10207175790369858?pnref=story

 

 

 


Areal de cima

18/10/2016

Areal de cima.png“Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?”
Eu não converso, eu me espanto com elas. Penso nos nossos dois limites: sob os pés, na areia da praia, e sobre a cabeça, no céu estrelado do sertão. E ao olhar para esta imagem vejo um areal. E me perco nas medidas das coisas. Pequeno e grande se confundem. Minúsculo e enorme. Imensidão pra baixo e pra cima. E viajo nesta imagem, neste vídeo que circula há um tempo. Ele tem um certo efeito terapêutico e gera uma pergunta incômoda. Que diabos de grandes problemas você tem?
Foto: http://www.spacetelescope.org/images/heic1502a/

 


“Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”

03/10/2016

 

 

“Ouço o mundo me dizendo corra pra me acompanhar”. Até tento.
Por exemplo, essa música de Siba e Fuloresta levei 9 anos pra alcançar, conheci nesta semana. E ela veio pelo título repetido como refrão,  isolado: “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”.  E isolado ele tem um sentido diferente, de motivação, de certeza de que os passos de um também movem o mundo. Ótimo pra quem quer sair do lugar, buscar mudar,  confiar no individual para mover o mundo. E ao pesquisar essa ideia, esbarro numa frase semelhante do também pernambucano Chico Science “Um passo à frente e você não está no mesmo lugar.”
Mas aí você ouve com atenção a música e concorda que a viagem não é bem essa. O mundo está também em movimento e seu passo não é nada mais do que uma tentativa, passo de tartaruga no encalço da lebre.
Sigamos pois, sebo nas canelas porque “ouço o mundo me dizendo: corra pra me acompanhar!”

 


Mortes

25/08/2016

Em junho foi Ana, em julho Clodoaldo e hoje  Paulo. Agosto do ano passado, Rubem. Outro dia  mais longe Maria, Márcia, Ludu, outro mais longe ainda, Álvaro, Auta, Dedé.

Primeira vez diante da morte, aos quatro anos, fui levantado por um adulto para ver o rosto do meu avô Antônio no caixão. Associei morte a algodão nas narinas. Depois desse dia foram mais de 20 anos de trégua, vida sem algodão,  éramos todos imortais.

Mas de um tempo pra cá esmaeço  a cada morte. Quem morre é quem fica, a morte leva com os outros  nossa memória, partes da gente.

Mas tudo é um pouco ainda mais cruel. Ontem, por acaso,  vi o filme Invasões Bárbaras. O diálogo do professor em estado terminal e sua jovem parceira nas doses de heroína, usada como lenitivo, comprova:

– O que você tanto amava?
– Tudo. Vinho, livros, música, as mulheres. (…)
– Ainda é um grande sedutor? – Não, não mais. Com a idade não é a mesma coisa.
– Você ainda gosta de vinho? – Infelizmente não. Não com o meu fígado.
– As viagens? – Hoje em dia há turistas por toda a parte.
– Não é o presente que você não quer largar… É o seu passado. Essa vida já está morta.

 

 

 

 


Nostalgia

16/08/2016

Do tédio dos domingos. De beber em avião. De larica. Dos rios da Chapada. De um macaquito vinho do primeiro encontro. Da alegria do primeiro filho. Da noite do nascimento dos três. Da descoberta da 5ª de Tchaikovsky, primeiro vinil Grammophon comprado na Carlos Gomes. Da boleia de caminhão, na carona. Da cidade de Tiradentes. Das escadarias do TCA. Da estante de madeira e blocos da casa do Garcia. Do cheiro de murta da Leovigildo Filgueiras às duas da manhã. De estrada. Do restaurante Grão de Arroz. Do disco de Mautner. Do sonho de mudar o mundo. De uma paulista entre amigos. De uma paulista a dois. De confiar em todo mundo. De chorar copiosamente. Do Rio Neva. De ver as luas de Júpiter e os anéis de Saturno. De vento frio na cara. Do planetário de Moscou. De receber uma carta coberta de selos. Dos círculos na água formados pelo impacto da chuva no jardim aos cinco anos. Da primeira insônia aos seis, depois do Circo Thiany. Do quintal do Hotel Maringá. Da busca por estrelas cadentes na fazenda de Tio Descartes, nas noites sem lua das Minas Gerais. Do arroz de pequi. De mata-burro nas estradas. Do gosto de jenipapo, de gemada e de manga no pé. Do cheiro de gaveta velha cheia de tranqueiras mais velhas ainda. Da gamela  de coalhada  na despensa e do leite espumando no curral, no copo de alumínio com açucar. De pescar acari com saco no barranco do rio. De álbuns de fotografias, com papel transparente, cantoneiras e cordão. De Vick Vaporub, das feiras do Parque de Exposição de Conquista. Da seda azul do papel da maçã. Do quarto do Hotel Lancaster. Da feiraa da Praça da Bandeira. Do Cine madrigal. Da luz que apagava às 10 em Tanhaçu, depois de três avisos. Da padaria, do balcão e da sanfona do primo Aldinho na venda de tio Deoclides. Do balcão da loja de tecidos do tio Ruguinha.De São João. Da Iemanjá num quadro da sala de tia Lurdes. Da cama do Hotel Livramento. Da Via Láctea no céu da roça de tio De Assis. Do cheiro de sargaço do primeiro banho de mar, em Amaralina. Do gosto de picolé salgado pelas ondas e do sanduíche de sardinha no Porto da Barra, seguidos do almoço de domingo com macarrão e pudim de sobremesa. De vela na lata em forma de lanterna quando faltava luz em Castro Alves, pelas ruas com a meninada. Da música O Divã numa vitrola vermelha. De plantar alface. De chacretes. Do banho da vizinha, no quintal. De picolé premiado. De tampinha premiada. Da cachoeira de Mané Roque. Do encontro com Raul Seixas no alto-falante, numa tarde chuvosa, em Conquista. De pescar traíra com anzol. De comer licuri. Do polivalente de Castro Alves. De dirigir um caminhão 608D na madrugada, aos 14. Da camisa azul da ETFBA. Das escadas do Centro Cívico. Do bar do Bio.  De Cássia Eller ao vivo, numa noite quente no Ad Libitum. Do ICBA. De tênis Mal Estar. Do boqueirão em Minas Gerais. Da Pentax que jamais tive. Deste tal pretérito, a cada dia mais perfeito. Mas, principalmente, do tempo em que éramos todos imortais.

(Terceira versão).
Primeira versão, em 3 de março de 2008: https://licuri.wordpress.com/2008/03/03/nostalgia/


Presente gera presente. E riscos.

14/08/2016

Luísa deu de presente de aniversário  a Soraya um curso de fazer caderno.  E hoje recebo de presente, neste dia dos pais, um caderno quase livro da aluna aplicada. No tamanho 9x13cm, o caderno livro é tão bacana que dá pena riscar.A

Tem até epígrafe luxuosa de Nildão.
girado para a esquerda

Mas páginas em branco do miolo são um convite ao risco.
eeeeesquerda
Vou arriscar.


Bola da vez

05/08/2016

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4 razões iniciais para gostar do Pokémon GO
1) É 0800, pelo menos no desembolso. Perdi a conta de quantas vezes morri em 20, 30 dinheiros para joguinhos na internet. Acho que terei uma trégua.
2) Os meninos andavam arredios a idas aos parques. Já se animaram para dar voltas de bicicleta ou caminhar para chocar ovos e conseguir os bichos neste final de semana.
3) A conversa com os dois meus e os outros dois de amigos na carona solidária nunca esteve tão animada. Eu incluído.
4) Eles se interessam mais pela geografia da cidade. Tiram os olhos das telas e começam a  se ligar na paisagem.

Há três dias que o assunto entre eles é monotemático. Pra não ficar de fora, pedi que me explicassem. E André começou bem do começo:
– Tinha um jogo, antes de eu nascer, que se chamava Pokémon.
Explicações dadas, reforçadas pro comentários de Maria, aprendi um pouco mais do pouco que sabia. Aprendi que tem ginásios onde travam batalhas entre jogadores, estações onde buscam as bolas para captura. E que são cerca de 250 tipos de bichos, cada um com características e habilidades variadas.Isso talvez seja mais do que os personagens de Cem Anos de Solidão. Mas a informação final jogou uma pá de cal no meu interesse. O celular que uso está obsoleto para entrar na brincadeira. Somos dois.

 

Foto:  Pikachu,  capturado por Maria no ano passado numa feira de cultura japonesa.

 

 

 


Serra abaixo

04/08/2016

A primeira visão de Vitória da Conquista quando se vai pela BR-116 em direção a Minas é do alto da Serra do Periperi. No acostamento da estrada, por volta de 1969, descíamos a bordo de patinetes construídas sobre três rolamentos como este da foto.

Embarquei de volta a esse tempo da infância dos 8/9 anos ao ir em busca da peça para o conserto do motor da máquina de lavar.

Ouço o barulho do metal sobre o asfalto do acostamento da Rio-Bahia. Ele só é superado pelo ronco dos motores dos caminhões e carretas FNM, Scania e Mercedes quando passam rente, vencendo vagarosamente a serra.

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Crianças presidiárias

03/08/2016

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Nem sei se neste aglomerado, ao lado da Empresa Gráfica da Bahia, no Retiro, existem facções. O que chama a atenção na imagem é a ausência de áreas de convivência, em ruas praticamente porta com porta. Coloque então conflitos armados aí dentro, realidade de muitos locais semelhantes nesta cidade, e você terá uma vaga noção de como anda o cotidiano de milhares de famílias em Salvador.

Ontem foi a vez de Franklin Silva Santos, de 17 anos, mais uma baixa “civil” desta guerra. Morreu porque vivia em território inimigo. Morreu para que outro que também morreu sem saber o motivo, no domingo, fosse vingado.

Talvez você seja capaz de discorrer longamente sobre o Estado Islâmico, sobre o conflito na Síria. Mas seguramente, como eu, saiba muito pouco sobre Bonde do Maluco, Katiara, Caveira, Comando da Paz.

Provavelmente, assim como eu, saiba ainda menos sobre o medo de crianças e adolescentes que vivem como presidiários em suas casas, por conta do toque de recolher, realidade cotidiana destes lugares.

Reduzir todos estes exércitos à denominação simplista de “traficantes” talvez resolva apenas nossa dificuldade de entendimento desta realidade.

Mas o buraco, seguramente, é mais embaixo. E sangra todo dia.

 


Notícias de Salvador, notícias do front

03/08/2016

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Começo o dia de trabalho numa geral pelas notícias de Salvador, via google. E dou de cara com essa, de ontem. E marejo. Já havia visto ontem o filme da chegada da motocicleta, da saída da motocicleta. No intervalo, os tiros. Mas o olhar do garoto hoje me pega. Tem um quê do olhar do meu filho. Leio o lamento dos pais. O que ainda cabe na definição tragédia hoje? E fico aqui, marejado e impotente. Reclamar de quem? Reclamar de quê?


Miseras

24/07/2016

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A primeira notícia bomba que recebi pela internet foi a morte da princesa Diana, pelo UOL, em agosto de 1997. Era um domingo, estava em casa e liguei imediatamente a TV para confirmar e acreditar. Naquele tempo, notícia para ser notícia deveria estar no impresso, na TV ou no Rádio.

Hoje, quase 20 anos depois,  recebi também  no domingo uma notícia bomba pela internet, pelo  WhatsApp. Também não acreditei. Ou seja, a internet continua com a credibilidade baixa.

Como estava na rua, liguei o rádio na Band News e ouvi de Humberto Sampaio a confirmação em rede nacional: havia um sujeito ameaçando se explodir junto com a Unijorge, na prova da OAB.

Tudo isso para dizer que, mesmo sem credibilidade, os grupos do  WhatsApp foram hoje minha principal fonte de informação sobre esta  bomba piada do dia. Vá lá, não deveria ser piada porque envolve a tragédia pessoal de um transtornado mental, mas virou tragicomédia por conta da histeria coletiva alimentada pelo  que vai pelo mundo.

Primeiro vieram os áudios das pessoas que estavam no local, o vídeo da correria, o texto do juiz que negociou a rendição, tudo fonte primária, e,  finalmente, as fotos do sujeito com sua fantasia de homem bomba recheado de bala de gengibre, estas  distribuídas pelas SSP.

O print do Instagram publicada aqui me chegou  também pelo   WhatsApp. Ele chama a atenção pelo espírito de deboche na porta da universidade, mesmo ainda quando não se sabia com certeza se uma pessoa poderia se explodir. Sim, estamos em Salvador e o  ato terrorista virou evento com direito às hashtag #eufui, #eutava. Como bem comentou uma amiga, faltou pouco para aparecer a turma do isopor com água e cerveja.

Não sei se turbinadas pelas galhofa em torno do exagero do Ministro da Justiça naquela presepada com nossos terroristas de internet para mostrar serviço ao mundo, as piadas foram a melhor parte do lado comédia desta história.

Como o motivo divulgado para o ato de desespero do nosso homem bomba seria já  ter tentado 11 vezes sem sucesso passar no teste da OAB, logo apareceram os alertas para o perigo potencial da  torcida do Vitória,  com  frustração semelhante há 117 anos.

A melhor foi o recado do Estado Islâmico, em legítimo baianês: “Alá  mandou você tomar vergonha na cara e estudar pra o exame sua misera”.

Mas tudo isso  mesmo é pra dizer: juízes aloprados, suas miseras, inventem de bloquear saporra nunca mais.