Arquivo mensal: setembro 2006

O guri do sinal e a UFBa

 

 

O carro pára no sinal e o guri inicia seu malabarismo. Professor doutor da UFBA sente o impacto da cena, desce o vidro e dá um real. O guri junta outros reais oriundos da culpa da classe média e compra uma lata de cola, passaporte para seu paraíso artificial. De cada real gasto na cola, cerca de 40 centavos são de impostos. Ali estão IPI, PIS, Cofins, CPMF, ICMS dentre outros do nosso cipoal tributário.

Proporcionalmente, o guri do sinal paga mais imposto indireto por tudo que consome, inclusive por sua droga tributada, do que paga a classe média e mais ainda do que os ricos – caso usassem droga tributada. É conta fácil: quanto pesam 40 centavos no orçamento de quem ganha R$100 e no de quem ganha R$10 mil? Os ricos costumam reclamar, mas encontram um jeito de sonegar, via eufemismo da elisão fiscal. Mas o guri não reclama,  paga seu imposto e nem sabe que paga.

Professor doutor reclama dos salários, do neoliberalismo que promove privatizações, faz greve. Mas os salários são a principal despesa orçamentária das universidades, que por sua vez torram a principal fatia do orçamento da Educação do país. Mas muito professor doutor acha, com certa razão, que ganha pouco. Embora não se aperte. Em vez de doce em ônibus ou malabarismo no sinal, vende a marca da UFBA pela internet.

Recém-formado, acessou o site do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Comunicação da UFBA, interessado em Cibercultura. Sabe quanto? R$5.400,00. Como assim? A UFBA não é uma universidade pública? Ligou para a Fapex, parceira na boa idéia, que explica: não é bem assim, quem dá o curso é uma coordenação. Que contrata professores, que aluga o espaço da UFBA. Como assim?  E quem paga pela marca UFBA, utilizada na operação comercial, anunciada no site como algo que “só o melhor Programa de Mestrado e Doutorado em Comunicação do país poderia oferecer as melhores Especializações da área”? 

Por que os professores doutores não se abrigam em uma marca criada por eles para arranjar estes trocados? Por que não desnudam esta coisa meio enrustida e assumem a privatização de uma vez? Assim ficam liberadas as verbas para as crianças do ensino fundamental, que hoje bancam os  bem nascidos que ocupam as vagas das universidades públicas. Assim, professor doutor poderia se dedicar integralmente de verdade e ganhar mais dinheiro e não os de R$4 ou R$5 mil reais, num emprego onde nem sequer há o medo da demissão.

Pobres professores doutores. Têm que ir à luta porque ganham cerca de quatrocentos ou quinhentos  mil centavos por mês. Centavos pagos um a um por mim, por você e pelo garoto magricela do sinal. Que está fora da escola.

Marcus Gusmão (mbgusmao@uol.com.br) é jornalista formado pela UFBA pública. Também pensou em fazer especialização na UFBA privada. Pensou.

[Publicado em A Tarde de 11/09/06.

Para adequar o texto ao formato da página de Opinião, o trecho reticulado foi suprimido na edição do jornal]

Atualização pós-publicação: dentre os leitores que mandaram e-mail apoiando, um chamou os doutores de phdeuses e outro chamou atenção para as contas (já corrigi): 5 mil reais são quinhentos  mil centavos.

  [Pierre] [pilima@directnet.com.br]

É amigo, voltamos ao tempo que para ter um título de nobreza pagava-se caro. Aqui na USP não tem sido diferente, passei pelo mesmo ao procurar um curso de MBA em Marketing na FEA/USP (Faculdade de Economia e Administração da USP) e ser informado que o curso era pago (R$ 690,00 mensais) por ter o ’suporte’ da Fundace. Pelo menos na nossa área da Comunicação estamos sujeitos a isso, já que tia Patrícia é de ‘outras ciências’ e meteu a cara nos livros para passar por um mega ultra super blaster plus processo seletivo e ‘lograr êxito’ na sua entrada para o mestrado e doutorado na USP.

 

13/09/2006 10:18 

 

 

 

  [Kátia] [borgeskatia@hotmail.com]

Marquinhos, Que bom ver e compartilhar da sua ousadia e coragem de se lançar, tal qual um homem bomba, entretanto, explodindo, alhures, órgãos aparentemente sólidos, mas estruturalmente frágeis. Melhor ainda, constatar o quanto o Licuri tem te colocado no lugar que você merece, que é seu de direito, onde mora sua origem e de onde nasce sua vocação. Parabéns por tudo, e principalmente por ter colocar em sua mira tal alvo (UFBA). K.

 

11/09/2006 20:53 

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Porta-voz de mim

Hoje é um dia especial. Dia em que arremessei meus aviões de papel jornal contra as torres do castelo de empáfia e pedantismo de alguns professores doutores da Facom. Dia em que protestei por ter que pagar duas vezes para estudar na UFBA, que é pública mas nunca foi gratuita.

Quem banca aquilo ali somos nós. Mas aí vem os caras, ocupam e ainda querem cobrar novamente. Tá certo isso?

Já estava desacostumado. Nos últimos anos tenho trabalhado como assessor de imprensa, defendido o leite das crianças portando e transportando idéias alheias, de pessoas, empresas ou instituições. Hoje fui porta-voz de mim.

De quebra, fui alçado à condição de articulista [confesso que ainda não me caibo neste figurino, que considero folgado] com direito a chamada na capa do jornal e ainda ao lado de Osires Lopes Filho, professor de direito da UNB e ex-secretário da Receita Federal, um dos caras que mais entendem de imposto neste país e que involuntariamente virou uma espécie de texto auxiliar, logo abaixo do meu. Explico: utilizo a expressão cipoal tributário e ele em seguida passa a metade do artigo dele explicando… o cipoal da selva tributária deste país. Não é muita sorte?

 

Tudo começou aqui no Licuri, graças ao Licuri. Redigi um post, achei que ficou bom e submeti ao meu conselho editorial de amigos, já com a idéia de publicar em jornal. O conselho gostou, sugeriu algumas mudanças e alertou para o perigo de cutucar as feras. Cutuquei.

 

Mandei o texto primeiro para meia dúzia de doutores que constam no site que vende a especialização em Cibercultura da Facom mas ninguém se dignou a responder. Parti então para o jornal para ver se assim os caras explicam  esta história.

Busquei a ajuda de Berna, jornalista de A Tarde para fazer uma ponte com Vitor Hugo, editor de Opinião, a quem só conheço  de texto. Ele foi super gentil e alertou apenas para o número de caracteres. Botei o texto no tamanho, mandei e… bingo.

 

Eis em seguida o artigo, já que A Tardesó libera para assinantes.

[Pierre] [pilima@directnet.com.br]

É amigo, voltamos ao tempo que para ter um título de nobreza pagava-se caro. Aqui na USP não tem sido diferente, passei pelo mesmo ao procurar um curso de MBA em Marketing na FEA/USP (Faculdade de Economia e Administração da USP) e ser informado que o curso era pago (R$ 690,00 mensais) por ter o ‘suporte’ da Fundace. Pelo menos na nossa área da Comunicação estamos sujeitos a isso, já que tia Patrícia é de ‘outras ciências’ e meteu a cara nos livros para passar por um mega ultra super blaster plus processo seletivo e ‘lograr êxito’ na sua entrada para o mestrado e doutorado na USP.

 

13/09/2006 10:29 

 

[marcia] [marciabr@uol.com.br]

Como membro do conselho editoral de amigos, digo-lhe que fiquei muito orgulhosa de vc. Orgulhosa do texto e da coragem. PARABENS

 

12/09/2006 18:41 

 

[Maria] [www.fabriani.com]

QUE BARATO, Marcus!!! PARABÉNS!!!!! :c))))) Viva! Beijocas!

 

12/09/2006 08:17