Arquivo mensal: setembro 2007

Presente

Luluthica completa 12 anos nesta madrugada. Parabéns filha.

Ontem, sem querer, ela me deu de presente a senha, a me ensinar duzentas vezes como se pronuncia  …`cause every little thing is gonna be all right!.

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Crash

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Tem uma corrente mais recente da historiografia  (veja se entendi, Soraya), que desvitima o escravo. O escravo não era apenas um coitadinho açoitado, submetido, violentado. Era escravo, é claro. Mas dava o zignal, muitas vezes virava o jogo.

Sou um destes escravos. Mas ao contrário dos quilombolas, que fugiam e buscavam a liberdade total, sou daqueles que buscavam  a liberdade dentro da casa grande, no acordo com os seus senhores. Um aparente puxa-saco.

Digo isso para mudar o discurso e parar de me fazer de vítima DDA nestes momentos de crise. E estou em crise. E é forte.

Tenho três compromissos de trabalho formalizados, dois  semiformais e um voluntário. Somados todos, são seis compromissos, seis patrões, seis senhores ou seis grupos de senhores. Estou inadimplente, gravemente inadimplente, com absolutamente todos. Digamos que há neste momento pelo menos  umas 20 pessoas putas da vida comigo. Todas cobertas de razão.

E sofro, e tento, e sofro. E perco noite, e como muito, e não faço a barba, e perco o dentista, e adio tudo. E prometo, e faço de conta que nada está acontecendo. E perco prazos, e furo compromissos. E pago caro. E como bom cafajeste prometo que não vai mais acontecer.

E na insônia blogo, e participo de listas de discussões na internet, e mando e-mails. E faço listas de prioridades, e faço agendas, e perco agendas. E perco as listas. E produzo muito também. Talvez na hora errada, pro senhor  trocado. Produzo o que não preciso naquela hora, o que não precisam e nem pedem a mim. E não posso me queixar de nenhum deles, de nenhum dos meus senhores ou minhas senhoras.

Cheguei a pedir demissão de forma indireta de um deles,  mas minha demissão foi desconsiderada, pelo menos até agora. E ainda sou um cara de sorte. Não sei no que isso vai dar.

Queimação de filme, se é que existe ainda filme a ser queimado, é o mínimo que pode acontecer. Só sei que desta vez, ao contrário das outras, não me sinto um coitado.  

Estou um cara de pau mais forte, mais assumido, mais descarado. Portanto mais forte para dialogar, para receber porrada. E para reagir também. Hoje, nesta madrugada, tenho consciência que não sou apenas vítima. Poderia buscar ajuda médica, isto já me foi franqueado, mas ainda não quero. Tal qual alcoolista arrependido, tal qual estelionatário cheio de agá, vou continuar a tentar fazer novos  acordos de prazos. A começar por acordo conjugais,  familiares e de amizades. Nestas áreas também ando inadimplente.

Como na tirinha do Angeli, exponho aqui as vísceras nesta madrugada.  E tenho uma lunática impressão que tudo vai dar pé, como profetiza aquele velho reggae.  

Fui na semana passada a uma palestra de Mazinho, realizada após a exibição do filme “O Processo”, quando ele expôs para uma platéia formada quase totalmente por um público psi seu método baseado no livro de Kafka, onde o paciente assume o papel do processado, do juiz, do promotor, do advogado de defesa. E funciona.

Não sei se influenciado pela palestra, exacerbo o papel de advogado de defesa, mando a absurda culpa pra casa do caralho. Disposto a pagar o preço me declaro absolvido. E, ao contrário de K., não me entrego. Não me permito a faca no peito.

E absolvo também os meus senhores.

Crio meu próprio método: a licuriterapia. A cura em apenas um post.

E minha trilha sonora é Raulzito: Tente Outra Vez…

 

Imagem: detalhe distorcido de uma tela de Dali.

O sétimo morador

Fefé, o guerreiro. Assim foi batizado por André o sétimo habitante da casa, este sujeito aí da foto. Fefé é um daqueles seres que desembarcam na nossa vida de forma compulsória, não desejada, sacana até (tem presente mais grego do que um peixe num saco plástico?), mas acabam conquistando o seu lugar. Fefé, o guerreiro prateado, chegou nesta sexta a bordo da alegria inocente e contagiante de André.

Vai morrer amanhã. Pensei cá com meus botões. Luísa arranjou uma vasilha plástica de sorvete, primeiro upgrade na morada do condenado. Eliene teve que resistir bravamente aos pedidos de Maria por pão, já que a menina aprendeu que peixe come pão, pelo menos os da lagoa de Pituaçu. Soraya, já empenhada na sobrevida do sem teto, deu a idéia de irmos todos ali no shopping comprar um aquariozinho, dos pequenininhos. Comecei a capitular.
O sem-chances acabou ganhando uma cela de vidro com 17 litros de água, bombinha para oxigenar o seu agora um pouco mais longo futuro, anticloro, duas plantinhas que não morrem jamais, umas pedrinhas coloridas, uma rede  pra transportar prisioneiro do saco pro aquário e um potinho de ração. Tudo isso por módicos $91,43, divididos em duas vezes no Hipercard. Mas a alegria de André e ter escutado Maria cantarolando Peixe Vivo assim do nada me lembraram o bordão não tem preço.
Despreocupado quanto ao futuro, Fefé, o guerreiro, agora dá piques de um lado pro outro, combate a solidão brincando com o próprio reflexo no vidro, sobe, desce, passa apressado pela corrente de borbulhas da bombinha e me deixa com vontade de também ser peixe, de não me preocupar com a morte minha prevista para amanhã cedo, para a qualquer hora.
E me faz lembrar um poema de Ferreira Gullar sobre uma galinha que cisca sem se preocupar com o destino, sem saber que está condenada por Deus. Não achei o poema, mas o google me levou a um outro parecido:  

…Galo, Galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.
                    
De córneo bico e
                           esporões, armado
                           contra a morte,
                           passeia.
Mede os passos.

Pára. Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio:
                          
— que faço entre coisas ?
 

 

 

 

 

 
 
 
 

 

— de que me defendo ?

 Anda.
No saguão.
O cimento esquece
o seu último passo…

 

Veja íntegra do poema aqui.