Inveja

Admiração sempre me pareceu uma definição incompleta. Também não vale a  máscara atenuada pelo complemento boa. Inveja boa não existe. Às vezes, o sentimente vem como  um pouco mais que admiração. Tratei de ir mais fundo. E a sugestão veio de Soraya. Tem que ler.
Fui ao  texto de Renato Mezan, sobre a Inveja, publicado no velho e bom Os Sentidos da Paixão. E aí a leitura acaba trazendo conhecimento, esta praga que diminui nossas certezas.
O cara começa com um conto de Clarice, do livro A Legião Estrangeira, que narra o sentimento de inveja de uma menina ao descobrir um pintinho na casa da vizinha. Ela quer aquele pintinho. Mais. Não serve outro. Mais. Ela quer também tirar o bicho da outra. Mais: “não estivesse eu ali, ela roubava minha pobreza também”, diz a narradora. A inveja quer mais, sempre mais, quer tudo. Quer a nossa alegria.
Mas o melhor do texto até onde eu li é a revelação de que a palavra inveja traz na raiz o verbo ver. E esta raiz está presente também em outras línguas, como o russo, por exemplo em que os verbos ver e invejar têm “vid” na raiz. E inglês e francês têm também o v pelo meio. Do olhar invejoso talvez derive a expressão olho gordo, olho de seca pimenteira. Ou, o que os olhos não veem o coração não sente. Ou seja, o mesmo olhar, fonte também do desejo. Mas aí já é outro livro da mesma série.
Voltando ao Mezan, ele  me assustou com o destino dos invejosos em Dante, em cujo purgatório os invejosos
têm os olhos cosidos com fios de arame.
E ataca de Ovídio:  “A inveja habita no fundo de uma vale onde jamais se vê o sol… Ela ignora o sorriso, salvo aquele que é excitado pela visão da dor”.

Bom, não cheguei nem à metade do texto, mas já encontro uma certa dificuldade em admitir que sou este monstro. Não, definitivamente este tipo de inveja não sinto. Pé de pato, mangalô, três vezes. Sai pra lá olho gordo.

Tudo isso foi para falar que senti inveja da Revista da Metrópole, queria estar ali também. Toquei neste assunto no Blog de Juliana Cunha e o pau quebrou. Não pela minha inveja, mas pela minha defesa de Márcio Meirelles. Fui chamado de puxa-saco. Eu assumi então que sou um puxa-saco nato. Mas que sou um puxa-saco incompetente também, porque puxo o saco errado, da pessoa errada, na hora errada. Este é o meu luxo existencial. Só pedi a moça que me xingava para ela não me confundir com outros puxa-sacos natos, aqueles precisos e cirúrgicos em direção aos sacos certos, nas horas certas. Confira os socos e pontapés no post “Coronel Mostarda e Revista Metrópole”, de 28 de agosto, que até agora rendeu 63 comentários.

Crédito da Ilustração

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5 ideias sobre “Inveja

  1. Washington Carlos

    Ah, esses sincronismos junguianos!
    Estou aqui, “outonando” em casa há várias semanas, no finalzinho de uma pesquisa com um prazo super apertado e caí na asneira de acessar o Licuri. Tentei enganar a mim mesmo: vai ser uma rapidinha.
    Que nada, depois de ler um texto maravilhoso (Veja essa) sobre pai babão e filha expressiva, faço um comentário (que também seria rápidinho) e registro o sentimento de inveja criativa que, entre tantos outros, transbordou no contato com Marcos e Luísa. Tudo bem, depois disso pensei que ia voltar a trabalhar; que nada, logo abaixo do post tinha outro com uma foto linda e abaixo tinha outro sobre…Inveja.
    Vixe Maria! santa coincidência.
    Esse tema tem me empolgado muito desde que li o livro do Carlos Amadeu Byington onde ele afirma que a dificuldade principal em se lidar com a inveja é o seu poder criativo e transformador, que, para ele, “tem uma função estruturante na história da humanidade mais importante que a sexualidade”. É mole?!
    Quando saldar meu débito com o prazo perdido do meu trabalho voltarei aqui pra continuar o papo.
    Parabéns, Marcus, esse Licuri é mesmo retado.
    (Se houver interesse no livro: “Inveja Criativa: O resgate de uma força transformadora da civilização”, São Paulo: Religare, 2002, de Carlos Amadeu Byington)

  2. Dona Preta

    Realmente o problema não é inveja e sim os invejosos…Gostei dessa copiei viu???Vou colocar como referencia no meu blog também…Xero para tu…

  3. Nilson

    Verdadeiramente invejáveis, essa capacidade de dizer as coisas assim, francamente, e este dom de se entregar ao que lhe apaixona, mesmo que seja um FDP. Por falar nisso, me dei conta de que gostamos de eleger aquilo que é invejável, o que já é assunto pra outro livro, concordas?

  4. Kátia Borges

    A relação entre ver e invejar, que está na raiz do “olho de seca pimenteira” de que nossas avós falavam, só confirma que os ditos populares têm uma sabedoria natural incrível. Fui lá ver o debate no FDP e fiquei impressionada. Bjs

  5. Maria Fabriani

    E por falta de algo mais erudito a dizer, contribuo com uma trívia linguística: em sueco, inveja chama-se “avundsjuka”, literalmente a “doença da inveja”. pode-se usar apenas “avund”, que é a inveja propriamente dita, mas normalmente usa-se essa forma mais popular, como doença.

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