Arquivo mensal: dezembro 2008

As Três Marias

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Dizem que não se deve voltar aos lugares das lembranças. Com razão, porque a gente nunca volta ao mesmo lugar. Imagens, sons, cheiros, cores, atmosfera, normalmente decepcionam na proporção direta das expectativas. Mesmo assim gosto de voltar aos lugares e às pessoas. Nesta viagem de Natal, o roteiro  Iaçu-Conquista-Iaçu me levou a lembranças da infância: às roças dos tios, na estrada Conquista-Anagé, e à cidade de Tanhaçu, para a casa de Tia Lurdes.

A casa e o terreiro acima, em foto desta semana, me trazem as férias da infância, quando brincava com os primos, próximos a este pé de eucalipto, onde recolhíamos os pequenos peões/sementes.  Era acolhido pela madrinha, tia Alzira, e nas madrugadas acordava nesta casa, debaixo dos cobertores, com a propaganda dos cobertores das casas Pernambucanas, num diálogo musical entre uma dona de casa e o frio:  – Quem bate? – É o frio!  – Não adianta você bater, que eu não deixo você entrar… Ali perto, na roça de tio de Assis vi pela primeira vez a Via Láctea nas noites sem luar do sertão.

Ao passar por Tanhaçu, veio na memória uma viagem de trem, desde Castro Alves. Minha primeira aventura, primeira vez que viajei sozinho, com 12 ou 13 anos, pendurado na escada do último vagão e intrigado com a perseguição das Três Marias, que me seguiam. E chegaram comigo. Lembro que em Tanhaçu acordei certa vez de madrugada para tentar ver a tal Estrela Dalva e vi. Ou acreditei ter visto.

Anos depois aprendi a ver no céu os planetas a algumas constelações. Gosto muito de planetários mas na nossa triste Bahia só existe um, em Feira de Santana.

Anteontem coloquei as crianças menores no carro e segui para fora da cidade, o suficiente apenas para chegar a um ponto escuro e apagar os faróis para que eles vissem o céu e as estrelas.  E lá estavam novamente as Três Marias.

Elas me seguem até hoje.

Um 2009 de céus estrelados para todos nós!

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Flores de Verão

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Fefé jaz próximo às roseiras da vó Conceição. Pressentia que aquilo não ia dar certo, embora a torcida aqui neste coco pequeno tenha sido forte, sincera e qualificada. Mas o transporte do moribundo foi mais um gesto motivado pela culpa de ter relaxado na manutenção do aquário nos últimos tempos. 
Consegui uma casa para a viúva, que ficou em Iaçu esquecida num canto, em companhia de dois peixes de vidro, pendurados por fios de nylon, num velho aquário ressuscitado da poeira do quartinho dos fundos.
Desde a estrada André já havia começado a cantilena. Queria um pinto. Tanto encheu o saco que mal chegamos estávamos a escolher as próximas vítimas na Casa do Criador. Escolhas feitas, dois pintinhos amarelinhos, Maria com o saquinho de ração de crescimento e André com a caixa voltaram em desfile solene. O séquito chamava a atenção da multidão que se aglomerava na fila da bolsa-família de véspera de Natal e tomava o passeio por uns 50 metros entre a porta da lotérica e porta de vovô Rubem.aaad-licuri

Bichos acomodados entre o forno de biscoito, o chuveirão e o tanque, os meninos ficaram por ali encantados e a gente foi cuidar da vida, do nada fazer de férias. Daí a pouco o alarme: cadê André e Maria? Buscas no quintal, nos quartos, e nada. Vovó Mônica já saía desbandeirada. Chegam então os dois, André novamente com uma caixa de papelão na mão, seguido pela cúmplice Maria. O menino resolveu investir as próprias economias em mais um pinto e foi com a irmã às compras.

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Mas os três bípedes não voltarão conosco. O destino deles já está selado. Se sobreviverem à primeira infância, cairão na panela da casa de tio Mô,  para onde irão depois das férias das crianças, fazer companhia aos parentes criados no quintal como fonte de proteína.

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Primavera?
Bem que a indústria da moda, das vitrines e até Roberto Carlos com seu estranho flamboyant que floresce na primavera, tão bonito que ele era, tentam nos convencer do contrário. Mas a realidade das estradas comprova, basta prestar um pouco de atenção, que a verdadeira estação das flores por aqui é o Verão.

6Tenho boas lembranças dos muitos, muitos livros que já quase li. As primeiras páginas de Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas, por exemplo, traz uma dica preciosa: as melhores estradas são as vicinais. Elas, com suas muitas flores cruzaram nosso caminho numa decisão de última hora.

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Dormi do dia 22 para o 23 com quatro preocupações antes de seguir de Iaçu para Conquista, pela BR 316. Os assaltos no trecho de 50 km de Iaçu a Milagres, blitze no meu IPVA 2004, pane no motor 99/2000 e acidentes, prato cheios dos telejornais de fim de ano. Enquanto enumerava estas preocupações para Soraya, na cama, ouço uma voz do outro quarto, a voz da tia Réia dos meninos, oferecendo um  carro praticamente zero bala para  a travessia (tem coisa melhor do que chuva no telhado e as conversas compartilhadas das meias paredes do inteirior?)
eeeeeee

Contas feitas, o estirão até Conquista ida e volta consumiria cerca de 660 km, a conta certa para ultrapassar os 10 mil da primeira revisão do carro de Réia. Não daria. O jeito foi confiar na revisão de Jaldeck, o melhor mecânico de Iaçu, que recomendou apenas checar diariamente o óleo, já que não houve tempo de trocar aquela junta lá detrás do motor que provoca uma pequena incontinência óleo/urinária no velhote.
Manhã da partida, eis que chega vó Conceição com o pão quentinho e uma sugestão ouvida enquanto esperava a padaria abrir e abria para a fila de espera do pão nosso destino e planos de viagem, como uma espécie de blog oral.
Alguém então sugeriu: por que não ir por dentro, por uma estrada de chão que sai em Planaltino, depois mais um pulo até Maracás, Contendas do Sincorá, Sussuarana, Anagé e Conquista e ainda de quebra economizar 50 Km?
Fui checar então o roteiro alternativo com o autor da idéia e voltei ainda entusiasmado com a informação que o roteiro nos levaria ao  entroncamento de Tanhaçu, a nove quilômetros de minhas melhores lembranças de infância.

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Fomos então na direção da estrada de João Amaro, depois de mais uns quatro quilômetros perdidos para frente e para trás até encontrar a tal estradinha vicinal da vicinal. Em minutos estávamos já comemorando o novo roteiro. Estrada de chão bem melhor do do que a buraqueira até Milagres. Casas, cachorros, bicicletas, árvores floridas. E o sentimento de segurança absurdo. Carro só passava por nós de vez em quando, mas com direito a aceno.

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Menos de 20 KM de viagem, primeira parada na casa de seu José. Convite para entrar. Pés de umbu-cajá floridos e umbus carregados, licuri, siriguela e outras frutas circundavam a casa que tinha no quintal uma vistosa parabólica, item praticamente obrigatório hoje nas moradias do sertão. Maria se encantou com as galinhas chocando no cesto.
Daí em diante foi um pára-pára que transformou os estimados 300 e poucos Km em mais de 400… E mais 400 e tantos de volta…
 

 

Sete viajantes

 

Lembra de Fefé? O sétimo morador? Tudo começou assim:

…Fefé, o guerreiro. Assim foi batizado por André o sétimo habitante da casa, este sujeito aí da foto. Fefé é um daqueles seres que desembarcam na nossa vida de forma compulsória, não desejada, sacana até (tem presente mais grego do que um peixe num saco plástico?), mas acabam conquistando o seu lugar. Fefé, o guerreiro prateado, chegou nesta sexta a bordo da alegria inocente e contagiante de André.

Vai morrer amanhã. Pensei cá com meus botões. Luísa arranjou uma vasilha plástica de sorvete, primeiro upgrade na morada do condenado. Eliene teve que resistir bravamente aos pedidos de Maria por pão, já que a menina aprendeu que peixe come pão, pelo menos os da lagoa de Pituaçu. Soraya, já empenhada na sobrevida do sem teto, deu a idéia de irmos todos ali no shopping comprar um aquariozinho, dos pequenininhos. Comecei a capitular.

O sem-chances acabou ganhando… (veja o resto aqui)

Fefé se deu bem. Ganhou uma parceira, mas se revelou um grande FDP…(veja por que aqui )

A paz conjugal do aquário finalmente foi selada, não sei se pela descoberta de afinidades ou falta de opção mesmo. Eu até tinha filmado os dois nadando tranqüilos, um do lado do outro. Cheguei a ter a impressão de que às vezes iam  juntos pro mesmo lugar do aquário, como se estivessem de barbatanas dadas.

Um ano e quase três meses se passaram e eu tinha até um post pronto na cabeça sobre o dia em que Maria chegou na sala pela manhã e gritou pra mãe: – Quem pescou este peixe?

Era Fafá, que jazia estatelada no piso da sala. Soraya pegou um papel para recolher o cadáver e eis que ele deu um pinote. Continua feliz e serelepe até hoje. A pobre da Maria, suspeita número um de ter aberto o aqário, nega de pé junto que não mexeu em nada. Até hoje a gente não sabe o que aconteceu. Passamos a acreditar na inocência da menina quando Luís, nosso sobrinho de coração,  contou que já aconteceu fato semelhante com um colisa na casa dele.

Mas como eu ia dizendo, estávamos na semana de corre-corre pré-viagem e um dia de repente Fefé foi pro canto do aquário e ficou de lado quieto. Não come e só se mexe de vez em quando já faz uns quatro dias. Resolvemos então ir em busca de ajuda na loja de peixes e voltamos de lá com um aquário portátil e antibiótico. Vamos transportar o morimbundo e sua parceira juntos pra tratamento em Iaçu. André reagiu bem  à possível perda do bicho. De todos os prisioneiros em sacos pláticos presentados naquele aniversário de um ano e três meses atrás, Fefé é o último sobreveivente. Mas um colisa, informou o vendedor/veterinário/orientador  da loja, vive até seis anos. Vamos tentar.

Daqui a pouco segue portanto nossa  camicleta azul 1999-2000, IPVA 2004, com os cinco moradores bípedes mais o casal de nadadeiras,  três bicicletas penduradas no fundo cobrindo a placa. Destino Feira de Santana hoje e amanhã Iaçu. Até lá.