Arquivo mensal: janeiro 2009

Pra não dizer que só falei de flores

Nós andamos iguaais,
nós andamos iguaaaais
prum lado, pro outro/pra frente, pra trás
nós andamos iguaais

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Luísa trouxe esta brincadeira, um caminhada coreográfica, desafio para todos pisarem no mesmo passo, pé direito à frente, prum lado, pro outro, pra frente novamente e pra trás, aprendida por ela no Acampamento Verde de anos passados.

Assim partimos para a praia no domingo, péssimos aprendizes, mas felizes tal qual família de propaganda de margarina.

Claro que o pau quebrou muitas vezes na viagem, mas as fotos até agora foram  feitas nas  muitas “horinhas de descuido” , como disse um dia seu Guimarães, bem lembrado por Bethânia. Ou naqueles momentos da “vida inteira num segundo”, como canta o bardo Odair José  na sua impagável A noite mais linda do mundo.

Interrompo aqui esta transmissão, como diria o ingresiástico Franciel, e paro de falar somente das flores. O assunto agora é lixo e a nossa capacidade de não enxergar o outro.

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Junto à praia estavam estacionados dois ônibus (vieram em excursão de Salvador, dos bairros de Lobato e Tancredo Neves), caminhões, camiontes e tantos outros transportes coletivos. A praia “virgem”  e deserta das fotos anteriores estava lotada no domingão.

Gentalha, gentalha, assim define os passageiros dos ônibus a dona de uma das 25 barracas que se espremem, umas coladas às outras, na faixa de praia liberada para o comércio.

Favela, diz o gerente de uma pousada próxima sobre as barracas.

Criminosos, diz o ambientalista sobre os donos de pousadas que teriam destruído o mangue e vegetação para ali colocar concreto.

No discurso de cada um deles, errado é sempre o outro. Ou seja, como diria dona Ludu, avó de Soraya, todo mundo é bom mas meu capote sumiu.

Meu amigo Josias, que muita coisa sabe há muito tempo, me falou um dia sobre uma palavrinha desconhecida, nem na moda ainda estava, a tal da alteridade. Entendi mais ou menos, mas ao juntar estas visões do outro recolhidas  beira a mar, chego à conclusão de que  tal plavrinha não passa de uma quimera da moda, irreal como a tal Liberté, Egalité, Fraternité –  merci bocu, merci bocu Não há de que (obrigado Madame K, por ter me trazido de volta Ednardo).

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A estrada chegou há 11 anos. No dia 28 de março de 1998 vi esta placa da foto acima novinha em folha. E fiquei espantado com uma estrada que rasgou o mangue, desviou rio em Jatimane e chegou até a areia da praia. Na época via carros trafegando pela praia e censurei. Iriam acabar com tudo.

A praia não acabou, mas também quase nada de bom foi feito. Parece que a interferência pública só foi a estrada mesmo. Ninguém organizou o baba, ninguém tomou conhecimento e o lixo da segunda-feira vira cartão de visita da praia.

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Depois de 11 anos, os únicos benefícios aparentes é o acesso à praia das pessoas de Ituberá, a ponta do dinheiro para o pessoal da região de uma rave chamada Universo Paralelo, que acontece há nove anos durante 10 dias depois do Natal. A praia, perto dali, é isolada por seguranças (fala-se em três mil) e uma multidão (fala-se em 13 mil, 3 mil estrangeiros) se diverte com pulseiras compradas a R$ 350,00, ao som de música eletrônica, ininterruptamente. É quando paraíso natural e paraísos artificiais se encontram, sem traumas.

dsc04507Bar da rave Universo Paralelo, único participante da festa encontrado

Há muito plástico nas areias das praias. Talvez daqui a alguns segundos geológicos (ou seja, milhões de anos) algum arqueólogo encontre por aqui imensos sambaquis de plásitco e batize nossa era de polimerozóica ou coisa parecida.

O lixo aparece em ondas, dizem que trazido pela corrente (sempre o outro), mas grande parte é produzida ali mesmo.

É ridiculo gente como eu. Recolhe o próprio lixo, fica em paz com a consciência,  mas se esquece que o almoço na barraca, os restos da pousada, enfim a economia do lugar gerada pela nossa presença produz e joga ali na praia mesmo sobras e embalagens.  Restos plásticos de festas, de passeios, de alegrias.

Mas vamos deixar de zanga. A era polimerozóica tem também seus momentos felizes, suas horinhas de descuido. Meus, seus, e de muita gente.

E o outrora censor viajou  também na areia, rumo a Barra de Serinhaém. Mas isto é assunto para o próximo capítulo.

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Voltaire, Maria e Verger

Interrompo aqui, extraordinariamente, esta série sobre as férias para registrar um comentário enviado  hoje ao post Sapatadas por  Alex Baradel:

Prezada Maria Sampaio,
li artigo sobre Voltaire Fraga no “Muito” e confesso que gostaria de conhecer melhor a obra dele. Onde é possivel ver mais fotos desse fotógrafo? (além da exposição em São Paulo?)Estou muito interessado por Pierre Verger e sua obra, e não entendo que mal Pierre Verger fez em relação a Voltaire Fraga para a senhora parecer tão amarga contro Verger (é apénas porque Verger é mais conhecido que o Voltaire Fraga? E porque Verger é francês de nascimento? Ele se comportou mal por alguma coisa?).
Li no Muito que Verger teria copiado a obra do Voltaire Fraga. Me interesse muito em saber se os dois fotógrafos se conheceram, fotografaram junto, como o Verger tomou conhecimento da obra fotográfica do Voltaire Fraga, etc…
Agradecendo.”

Repassei o comentário para Maria, mas resolvi dizer o seguinte:

Monsieur Alex Baradel,

Enviei seu questionamento e perguntas a Maria Sampaio. Como foram dirigidos a ela, cabe a ela responder. Mas como eu também sou fã de Verger, de Maria e de Voltaire, me autorizo a responder a algumas de suas questões.

Li a matéria da Muito, um ótimo trabalho do repórter Vitor Pamplona, e não me recordo da afirmação de que Verger teria copiado Voltaire. Também é injusta a atribuição de amargura a Maria. Tai, quem conhece um pouco Maria sabe que amargura é um sentimento distante, muito distante dela.

Não conheço nada desabonador em Verger. Ao contrário. A única pessoa de quem ouvi falar mal de Verger foi eu mesmo. E explico: vi numa exposição sobre sua obra uma linha do tempo em que na primeira foto ele aparece garotinho, de paletó, com a família, na França. E na última, com uma bata africana, já sarcedote. Ou seja, Verger nasceu francês e morreu afro-baiano. Pensei.

Tempos depois assisti a um documentário (aqui relatado) com depoimentos de Arlete Soares sobre sua relação com Verger,  de amiga e produtora.

Acontece o seguinte. A última atitude de Verger foi passar em vida a sua obra para o controle de franceses. Minha nova dedução: o cara na verdade nasceu e morreu europeu. Pensando em proteger seu trabalho, confiou apenas nos seus iguais.

Diante da morte, não confiou seu trabalho aos neguinhos que tanto retratou e amou. Acabou se repetindo a velha história do branco que vem, se locupleta (não é só de bens que a gente se locupleta) e depois dá uma banana para os selvagens, que são, na maioria das vezes,  objetos.

Falo tudo isso com nenhuma amargura ou rancor contra Verger, um grande artista. Continuo fã deste artista europeu.

Duas luas

– Olha pai, tem duas luas. Uma lua assim , disse Maria, girando o dedinho indicador num duplo círculo para a direita. – E tem uma lua assim, repetiu o gesto. Desculpa aí a baba, mas tem definição mais lindinha para auréola lunar?

dsc04051-copia3Igreja do Jatimane

E a lua foi a nossa companheira de tarde/noite do dia seguinte, o quarto dia,  um sábado iniciado com um uma ida à feira de Ituberá para providenciar frutas, um bis na Cachoeira de Pancada Grande, quando o acaso nos levou a uma plantação de guaraná. Soraya apostava numa subida alternativa aos milhões de degraus para se chegar ao alto da cachoeira, porque ele vira um pessoal subindo, e eu teimava. Não havia.

dsc03932-copia3Fruto do guaraná

Pois havia. Mas antes de encontrar a tal subida, também feita a pé, pegamos uma direita errada e fomos parar numa plantação de guaraná. Os frutos pareciam olhos a nos espreitar. São impressionantes a cor e o formato. Deco lembrou então da história contada por Kátia Borges, no Crear, sobre uma lenda indígena. A semente original seria os olhos de um menino.

dsc040352Ponte da saici

Voltamos já noitinha, e lá estava ela novamente por trás da igreja do Jatimane, um vilarejo quilombola. Há dez anos, na abertura da estrada, o povo vivia da colheita da piaçava e da pesca. Tinha uma fita cassete gravada com a mais antiga moradora do lugar e dei de presente para Soraya, apaixonada por história oral. Ela promete encontrar a fita e me emprestar para eu ouvir novamente.

dsc04047-copia3Ponte da Saici, a leste, um pouquinho depois

Hoje o turismo já mudou o perfil do lugarejo, onde não há ainda pousada mas se vê várias placas para aluguel de casas. Quase ficamos hospedados no primeiro andar do restaurante de Jajá, onde, na beira do riacho, são  servidos peixe defumado e galinha da terra. Um dos ilustres fregueses é o Dr. Bernardo.
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