O ferro novo e o colo do capeta

Recuperei o carro em Amélia Rodrigues, a 20 quilômetros de Feira de Santana. Ele havia sido furtado a 50 metros de uma instalação militar que ignora a nossa guerra cotidiana e se prepara com afinco, muito desfile e toque de corneta, para a 2ª Grande Guerra com o Paraguai, o segundo levante de Canudos ou uma provável nova Insurreição dos Alfaiates. Mas sobre isso já falei aqui.

Outros dois carros já foram tomados de assalto no último ano apenas na frente do meu prédio.  O que leva um cara a matar ou morrer, a arriscar-se para furtar um veículo ou colocar a arma na cabeça de alguém?  R$ 1.000. No máximo, R$1.500. Este é o motivo, segundo um policial experiente, que conhece a realidade de Feira de Santana. Retalhado e vendido a granel, o carro dá um lucro bem maior ao atravessador, cerca de R$ 10 mil. E mais ainda a quem compra as peças por ¼ do preço.

Como não há tráfico sem usuário, também não haveria ferros novos se a procura não fosse grande. Numa roda de taxistas, na frente da Rodoviária de Feira de Santana, um deles informa que um colega comprou todas as peças necessárias para remontar um Uno seminovo pela módica quantia de R$ 3.500. Com mais R$ 3.000 de mão-de-obra, remontou um novo veículo com tal  perfeição, que nem um revendedor experiente desconfiaria estar diante de uma perda total.

Chegam carretas e carretas fechadas com carros para desmonte, diz o taxista. Não vi as carretas, mas basta circular pela Rua da Aurora, e adjacências, em Feira, para o cristão se deparar com uma oferta inacreditável de peças seminovas.

E a polícia, não vê?  Vê, claro, diz o taxista, sem conter uma quase garagalhada. – Os delegados que se meteram a desmontar isso aqui foram transferidos rapidinho, rapidinho…

Enquanto dava queixa na delegacia aqui em Salvador observava os muitos cartazes de procura-se. Num deles havia a foto de um fora-da-lei, de 25 anos, com uma cruz feita com caneta na testa. Estava escrito em letras trêmulas: “Este já foi pro colo do capeta”. O epitáfio provavelmente fora escrito por um funcionário público que, mesmo com um magro salário, exerceu com apenas um tiro na testa a função de policial, promotor, juiz e carrasco.

Enquanto isso, continuamos nós – cidadãos não-ladrões e cidadãos ladrões – a mercê de uma arma na cabeça, de uma bala na cabeça, para ir pros braços da Virgem Maria ou sentar no colo do capeta por conta de míseros R$ 1.000.

 

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3 ideias sobre “O ferro novo e o colo do capeta

  1. blag

    Em Brumado, perto de Conquista que também tem quadrilhas assim, ouvi a expressão “matar” o carro. Que depois é fatiado. Eles falam então que o carro foi “matado”.

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