Socorro, Lelé

Lelé

Estive duas vezes com João Filgueiras de Lima, o Lelé. A  primeira vez foi na década de oitenta, para uma matéria sobre propostas de Gil para o Centro Histórico e para Salvador, quando o futuro ex-ministro era presidente da Fundação Gregório de Mattos, publicada em 13 de Abril de 1987. Na matéria tem uma foto de uma maquete para o antigo Aeroclube, uma estrutura leve, suspensa por cabos, criada por Lelé.  A idéia dele era bacana, aproveitava a brisa e o sol, dialogava com a orla.

Como todos sabem, a aeroclube virou o que virou: um caixote esquisito  e um ponto de encontro para sexo  remunerado, nada contra, desde que não fosse só isso.

Mas voltando ao que interessa, estive com Lelé pela segunda vez em junho do ano passado e passei com ele quase uma tarde inteira no Sarah, encontro que me marcou e me deixou mais animado com a vida, com a humanidade, com as possibilidades coletivas, embora o prórpio Lelé transmitisse um certo desencanto.

Pois bem, lembrei de Lelé ao ler ontem a entrevista com o secretário de Desenvolvimento Urbano, Habitação  e Meio Ambiente  de Salvador, um tal Eduardo Abreu. Não sabia se ria ou chorava ao ler as propostas do sujeito, em entrevista a Mary Weinstein. Ria ou chore aqui.

De volta novamente ao que interessa, coloco aqui, como registro e contraponto, o  resultado daquele encontro com Lelé, publicado na Revista da Unifacs. Como a matéria não está disponível na rede, trancrevo o e-mail enviado por mim com a matéria original,  publicada em outubro do ano passado:

O arquiteto português Eduardo Souto de Moura, estrela internacional do Arquimemória 3, encontro que reuniu  na Bahia especialistas em arquitetura e memória, em junho passado, fez questão de duas visitas na sua curta estadia em Salvador: ao Centro Histórico e ao arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé. Foi embora decepcionado com um e encantado com o outro.

A visita de Moura repetiu uma rotina freqüente no dia a dia de Lelé. Receber arquitetos, professores e estudantes de todas as partes do mundo no seu quartel general, o Centro de Tecnologia da Rede Sarah. O Centro funciona na mesma área do  Hospital Sarah Salvador, edificação que sintetiza sua obra, e que lhe valeu o grande prêmio da Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Engenharia de 1988, em  Madri.

Num giro pelo hospital, instalado numa colina rodeada de vegetação remanescente da Mata Atlântica, Lelé  mostra as aplicações práticas das suas idéias, inventos e soluções inovadoras na concepção de um hospital. Conquista o interlocutor com doses altas de ceticismo, temperado com um humor ácido, às vezes auto-depreciativo, muita  simpatia  e humildade.

Lelé trabalha numa saleta austera mas agradável, de não mais que 10 m², paredes de argamassa armada e pé direito alto para dar passagem ao ar e à luz natural, dois elementos fundamentais nos seus projetos. A sala fica no Centro de Tecnologia da Rede Sarah, onde são projetadas e construídas estruturas inusuais, em argamassa aramada, ferro, aço, plástico e fibra de vidro, além de móveis e equipamentos hospitalares, que saem de sua prancheta e das de sua equipe diretamente para os hospitais da Rede Sarah,  que se integrarão aos nove existentes hoje no país, e para prédios públicos construídos com a mesma tecnologia.

Chega a ser meio desengonçado, 1,83 metros de altura, esguio, mãos compridas. Poderia ter seguido a profissão de atleta ou de pianista. O apelido veio da semelhança física com jogador Lelé, atacante do Vasco da década de 40. Queria seguir os passos do pai, que era músico tocava piano em sessões de cinema mudo.  Casualmente, como gosta de repetir, virou arquiteto. Casualmente conheceu Niemayer e participou da construção de Brasília.

Casualmente, um acidente automobilístico com a mulher, em 1963, o levou a um internamento no  hospital de Base de Brasília e  fez cruzar o seu destino com o do cirurgião  Aloysio Campo da Paz. Médico e arquiteto conceberam um novo conceito para  arquitetura hospitalar, que resultou nas inovações da Rede Sarah de Hospitais do Aparelho Locomotor, uma de ilha de excelência no atendimento público de saúde no país.

Casualmente o destino também lhe trouxe a Salvador e não casualmente a cidade convive hoje com a marca de sua inventividade. Reconhecido internacionalmente, representou o Brasil em sala especial na Bienal de Veneza de 2000. Recebeu o grande Prêmio Latino-Americano de Arquitetura da 9ª Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires, em 2001. É professor emérito da Universidade de Brasília e Doutor Honoris Causa pela  Universidade Federal da Bahia.

Ainda não sabe, mas um grupo de arquitetos brasileiros articula sua indicação para o prêmio Pritzker, uma espécie de Nobel da Arquitetura. Mas se você lhe pedir um balanço de vida, diz com tranquilidade. “Extremamente fracassado”. Sonhou alto. É da geração do pós-guerra, empenhada em construir utopias. E seu grande sonho, uma arquitetura a serviço do coletivo, está hoje na contramão. “Sonhamos,  criamos muitas utopias. Utopias construídas em cima de um avanço social. Todas elas fracassaram”

Mesmo cético, Lelé ainda vê a possibilidade de saídas para a enrascada ambiental  que a humanidade se meteu e esta saída está nas idéias dos jovens. Não é chegado a badalações mas fica feliz com a admiração dos jovens pelo seu trabalho. “Fico muito feliz quando eu vou a uma universidade para discutir  minhas experiências. Para mim,  o que me dá uma certa vontade de viver e de continuar é o convívio com as pessoas jovens, principalmente com  aqueles grupos que estão ávidos para  procurar soluções, discutir, mesmo que não aprovem o que fiz. Isto me agrada muito.”

Para Lelé e para todos os que enfrentam o caos urbano,  a cidade do Salvador está inviável, como a maioria das metrópoles desprovidas de transporte público eficiente. O foco nas soluções individuais gerou o colapso vivido diariamente pelos soteropolitanos enjaulados nos engarrafamentos cotidianos.

Dentre seus sonhos para Salvador estava  o “Veículo Leve Sobre Trilhos”, ou VLT, uma espécie de bonde que trafegaria sobre os canteiros centrais das avenidas de vale. O projeto, do final da década de oitenta,  foi atropelado pela descontinuidade administrativa e ressuscitou como Metrô de superfície, que não é nem uma coisa nem outra. Não gosta e não quer falar sobre o assunto, mas classifica a obra como aberração, que não vai resolver a questão do transporte público. Construção  tardia, o metrô de Salvador nasce sem ter para onde crescer. “Os metrôs que funcionam hoje no mundo cresceram junto com as cidades, sob as cidades. Como você vai expandir na superfície, furando montanhas e derrubando casas?”

Soluções  para a melhor  circulação das pessoas nas cidades é um assunto que também interessa a Lelé, que desenvolveu um bondinho para diminuir a distância percorrida por pacientes cadeirantes e seus acompanhantes  do alto do hospital até o ponto de ônibus.  Em vez do carro, eles descem pelo bondinho e percorrem um trecho entre as árvores, numa espécie de passeio numa trilha entre árvores nativas da mata atlântica. A solução poderia diminuir distâncias e facilitar o acesso de  comunidades urbanas de Salvador, em áreas com topografia semelhante.

Curiosamente, uma das soluções criadas para as conexões do  VLT sobreviveu e é hoje o seu xodó. Uma idéia simples acolhida  pela cidade, presente em todas as grandes avenidas: as passarelas para pedestres, coloridas, cobertas, com estruturas leves em ferro e argamassa armada. A idéia inicial era ainda mais completa, com alternativas de conexões em seus cogumelos de sustentações,  que poderiam ser escadas ou elevadores para cadeirantes.

Normalmente a voz de Lelé, baixa e pausada, sobe um tom quando o assunto é passarela. Em sua mesa estão os croquis de mais um conjunto delas, que se integrarão ao projeto viário do Estádio de Pituaçu para atender a grande demanda de público em dias de jogos em direção à avenida Paralela.

É impossível conceber hoje a ligação entre o Iguatemi, a estação de transbordo, também de sua autoria, sem as passarelas. Há inclusive um projeto para um novo conjunto para aquela área, que ficou ainda mais sobrecarregada com a inauguração do templo da Igreja Universal. A implantação depende da iniciativa da prefeitura.

Os projetos de Lelé exigem uma certa cumplicidade de quem usa. São mais econômicos, gastam menos energia elétrica, principalmente com a diminuição do uso de ar condicionado, que num hospital pode representar um custo 10 vezes menor  no consumo de energia e gerar um conforto ambiental maior. Mas há resistências. Com o argumento de que trabalham com processos, e que o vento espalha as folhas, os funcionários do Tribunal de Contas da União mandaram vedar as saídas de ar e colocaram ar condicionado em todas as salas. O mesmo aconteceu com o prédio da prefeitura, projetado com um sistema central sobre o teto, mas que com o primeiro defeito, foi substituído por aparelhos individuais.

O discurso ecológico não se dispõe a pagar a cota individual quando o assunto é mudança de hábitos. “O problema é cultural, as pessoas de um modo geral querem individualizar suas tarefas. O problema das cidades, por exemplo, é agravado porque em cada veículo  cabem cinco pessoas, mas a maioria usa  o veiculo individualmente”. Sua presença no Sarah faz com que as coisas funcionem como projetadas. Lá a circulação de ar funciona perfeitamente. Os amplos espaços de convivência, transformam o ambiente num lugar que nem de longe lembra os corredores apertados e o cheiro característico de um hospital convencional.

Lelé argumenta que a luz natural é mais benéfica e confortável. “Não há uma iluminação artifical que seja superior a esta luz difusa que estamos usando aqui, diz em sua sala. Ela é muito mais agradável, sob todos os pontos de vista ela é muito mais humana. A luz artifical tem uma vibração incomoda, mas a gente se adapta e acaba desprezando uma coisa que e melhor por uma outra pior.

O ar, capturado do ambiente externo por galerias na base do prédio do hospital circula por saídas reguláveis em todos os ambientes e sai pela parte superior, em estruturas aerodinâmicas. A sensação térmica é de quem está sob a brisa da sombra de árvores.

Para Lelé  a saída ainda possível está na educação e na aplicação de princípios ecológicos. “Eu vejo o risco enorme que a humanidade está correndo, de   destruição do próprio planeta. Na escala que estamos consumindo os recursos naturais vai durar muito pouco”. Entende a arquitetura como uma atividade coletiva. Lembra que só em algumas tribos esquimós a construção da moradia é uma atividade individual. E lembra que as soluções coletivas existem em todas as culturas, como a dos  índios xavantes, que encontram soluções engenhosas de conforto ambiental em suas construções,  na escala correta, com um conforto ambiental adequado.

Vê hoje duas vertentes na arquitetura. A espetacular, do grande discurso, da grandiloqüência como símbolo do desenvolvimento.  E uma outra, que busca ser útil à comunidade como um todo, atuar em programas mais econômicos, com sentido coletivo. A primeira, mesmo que não busque resposta para as cidades tem imperado.

Lelé nasceu no Rio em 1932. Dois anos depois de formado pela Faculdade de Arquitetura, da Escola Nacional de Belas Artes, seguiu para trabalhar na construção de Brasília, sob a coordenação de Oscar Niemayer. Seus primeiros trabalhos em Salvador são a igreja, a balança e as plataformas do Centro Administrativo da Bahia, no início da década de 1970. Além do Hospital Sarah, também é de sua autoria o prédio da prefeitura, a Estação da Lapa, o complexo de delegacia dos Barris, a Estação de Transbordo do Iguatemi e a sede do Tribunal de Contas da União.

Como trabalhava para prefeituras e governos, o final de cada mandato significava a interrupção e o abandono de projetos, pelo hábito dos políticos de apagarem marcas do antecessor. Foi assim no final da década de 80, depois do fracasso dos Cieps no Rio, quando Moreira Franco não quis dar continuidade ao projeto de Brizola. A história se repetiu em Salvador, quando Fernando José não quis dar continuidade ao projeto da Fábrica de Equipamentos Comunitários, a FAEC, iniciado na gestão de Mário Kértesz.

O fim da FAEC custou o sonho de uma fábrica de cidades com todos os equipamentos estruturais como escolas, creches, passarelas e infra-estrutura, o emprego de centenas de operários e a dor no coração de Lelé, traduzida por um infarto que resultou na  implantação de quatro pontes de safena e uma mamaria. Mas só foi sair do hospital para enfrentar novo desafio. Convidado pelo amigo Darcy Ribeiro partiu para o novo sonho dos Ciacs, novo tombo. Só encontrou um porto seguro contra  interrupções e distorções da sua obra com os projetos da Rede Sarah.

A decepção do arquiteto português com o centro histórico, citada no início deste texto, foi  revelada com um certo pudor educado em entrevista ao jornal A Tarde. Moura afirmou que o Pelourinho lhe  parecia falso, como uma espécie de cenário para turista,  “um bocadinho embalsamado”. A idéia é compartilhada por Lelé. Junto com Lina Bo Bardi planejou interferências em que se respeitava a arquitetura original, mas com intervenções no interior dos imóveis que possibilitassem moradia e vida social. E lembra que a pintura original sobre argamassa e base de cal não tem nada a ver com os tons berrantes, aplicadas nas fachadas pela reforma recente. E faz uma comparação semelhante à do colega  português: “O pelourinho é uma ave empalhada, com olho de vidro, sem vida”.

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2 ideias sobre “Socorro, Lelé

  1. Pingback: Fuxico na reta final: Marcus « Cartas Bahianas

  2. paulo galo

    Essa entrevista com o Lelé merecia estar nas páginas da Piauí. Exemplar.
    Como exemplar é seu resgate aqui no Licuri, no momento em que o mau hálito da grosseria urbanística insinua-se para a direção da linda península itapagipana.
    Volta o dilema de sempre: por conta da necessária revitalização, requalificação e reordenamento dessa maltratada metrópole, aponta-se soluções medíocres, subalternas a interesses inconfessáveis. Prenúncio de tragédia no ar.
    Veja você, Gusmão, que esse assunto vem a baila no exato instante em que o Porto de Salvador será ampliado no seu vetor norte (alcançado até a praia da Boa Viagem) e que uma profunda intervenção na Feira de São Joaquim está pronta pra sair do papel para. A arquiteta Nahia Alban tem as informações.
    Não temos opiniões convergentes sobre muitas questões urbanísticas, Gusmão. Desejo ardentemente ver o edifício Caramuru no chão; adoraria ver as calçadas de Salvador revestidas de outra forma -sem pedras portuguesas e sem o horroroso cimento-granito colocado na Barra; sonho com uma intervenção radical na Cidade Baixa e no Comércio; não temo ver sepultadas antigas soluções estéticas e funcionais, contanto que as novas defendam o bom gosto, o baixo custo de manutenção, a adequação ambiental e a comodidade dos cidadãos.
    Salvador precisa ser sacudida, de Paripe a Stella Maris. E não pode aceitar dicotomias arquitetônicas e urbanistas esdrúxulas como as que opõem saudosistas e neomodernistas, os primeiros clamando para que não se mexa na “história” e os últimos mostrando-se arautos da modernidade, brandindo seus projetos de péssimo gosto. Um embate cuja soma é zero, nada acontece.
    Essa discussão só tem feito a cidade continuar a viver inerte, sem o charme de priscas eras mas com todas as chagas de um conglomerado urbano com quase 3 milhões de habitantes.
    Pra concluir, o tal secretário é espantosamente despreparado. Aliás, “espantosamente” porquê? quem o contratou pra dar expediente naquela pasta é alguma coisa melhor que ele?

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