Nostalgia, 2ª ed. não revista

30/08/2009

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De Cássia Eller, ao vivo, numa noite quente no Ad Libitum. De Raul Seixas no alto-falante numa tarde chuvosa em Conquista. Do gosto de jenipapo, de gemada e de manga no pé e da busca por estrelas cadentes no peitoril da roça de tio Descartes, nas noites sem lua das Minas Gerais. Da porrada da de Tchaikovsky num vinil Grammophon comprado na Carlos Gomes. Do gosto de picolé salgado pelas ondas e do sanduíche de sardinha no Porto da Barra, seguidos de almoço com macarrão e pudim de sobremesa. De Picolé premiado. De vela na lata em forma de lanterna quando faltava luz em Castro Alves, pelas ruas com a meninada. De comer licuri. Do cheiro de gaveta velha cheia de tranqueiras mais velhas ainda. De beber em avião. Da minha primeira insônia aos seis anos depois de um espetáculo do Circo Thiany. Da Música O Divã numa vitrola vermelha. De Vick Vaporub.  De receber uma carta coberta de selos. Do pátio do Polivalente de Castro Alves. De um macaquito vinho. Da alegria da notícia do primeiro filho. Das noites dos nascimentos dos três. De ver as luas de Júpiter e os anéis de Saturno. Dos rios da Chapada. De dirigir um caminhão 608D nas madrugadas de Conquista aos 14. Das escadas do Centro Cívico da ETFBa. Da padaria, do balcão e da sanfona do primo Aldinho na venda de Tio Deoclides em Tanhaçu. Da cachoeira de Mané Roque. De São João. Da boléia de um caminhão, de carona. Da cidade de Tiradentes. Das arquibancadas do Parque de Exposições de Conquista. Do balcão da loja de tecidos do tio Ruguinha. Da Iemanjá num quadro da sala de Tia Lurdes.

Da estante de pranchas de madeira e blocos de argila da casa do Garcia. De chacretes. Do cheiro de murta no passeio da Leovigildo Filgueiras às duas da manhã. De mata-burro nas estradas. De estrada. Do sonho de mudar o mundo. Do cheiro de sargaço do primeiro banho de mar, em Amaralina. De uma paulista entre amigos. De uma paulista a dois. De confiar em todo mundo. De chorar copiosamente. Da Via Láctea no  céu da roça de tio De Assis. Do frio. Da cama do Hotel Livramento. Do quarto do Hotel Lisboa. Do Rio Neva. Do quintal do Hotel Maringá. Do Cine Madrigal. Da gamela de coalhada na despensa e do leite espumando no curral, no copo de alumínio com açúcar. De falar nie za schtô. Da luz que apagava às 10 em Tanhaçu, depois de três avisos. De pescar acari com saco de estopa no barranco do rio. De pescar traíra com anzol. Das escadarias do TCA.  De vento frio na cara. De plantar alface. De tênis Mal Estar. De tampinhas premiadas. Da seda azul do papel da maçã. Da música Trem das Cores. Do tédio dos domingos. De larica. Dos círculos na água formados pelo impacto da chuva no jardim dos meus cinco anos. Do tal pretérito a cada dia mais  perfeito já falado aqui. Do tempo em que eu era imortal.

Em 03/03/2008

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5 Respostas to “Nostalgia, 2ª ed. não revista”

  1. JOSY Says:

    Olá Marcus,
    Lendo essa sua produção nostálgica tive a impressão de que vivemos “quase” a mesma vida.
    Devo lhe confessar que o meu primeiro beijo aconteceu exatamente na escadaria do Centro Cívico Santos Dumont, na ETFBA, em 1977. Eu era aluna do Básico II. Então para mim esse local, especialmente, será eternamente inesquecível.

  2. kátia borges (Crear) Says:

    Pôxa, Marcus,

    A gente vai acumulando lembranças e histórias e só os (muitos)anos vividos podem nos levar a isso. Eu também tava lá, no show da Cássia Eller… e as saudades são várias!

    Muito boas lembranças e prosa.

    Bjs e inté amanhã.


  3. Emoção. Emoção, emoção. E Saudade.

  4. Martha Says:

    marcus, seu texto lindo me deixou com saudade também

  5. ffdaniel Says:

    “Saudade inté que assim é bom. Pro cabra se convencer. Que é feliz sem saber. Pois não sofreu.”

    A vida é assim mesmo, um show com data secreta para terminar,mas que, como atores, devemos desfrutar e VIVENCIAR.

    O que importa é ser feliz enquanto durar o show.

    Te devo um telefonema para conversarmos sobre o Picolino. Vou fazer isto esta semana.

    Daniel


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