Arquivo mensal: março 2010

Chorar, pode

Aviso na parede do Tabelionato do 9º Ofício de Notas, no Pituba Parque Center

Já comprei um sujeito de cartório por R$ 170. A necessidade fez o ladrão e dois corruptos.

Mas ontem Soraya precisava apenas autenticar cópias,  coisínha aparentemente simples e a que eu suspeitava  não mais precisar desde a época de um  tal de ministro  Beltrão. Qual o quê.

Se você não mora em Marte, não costuma pagar propina e não tem quem faça  conhece o inferno dos cartórios de Salvador,  muito bem descrito pela  Aeronauta.

Soraya enfrentou ontem este inferno. Perdeu o dia.  Saímos do Tabelionato do 9º Ofício de Notas, no Pituba Parque Center às 7 da noite.

O esforço maior dos últimos minutos foi segurar o riso nervoso para não correr o risco de levar 2 anos de cadeia. Mas chorar, podia. Desde que fosse baixinho.

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Caros amigos, o segundo tiro me assassina

Ouço Maninha no DVD Caros Amigos, de Chico,  presente de aniversário de um caroamigoirmão.

Clique na imagem para ver outras homenagens de cartunistas

E  penso  na estupidez da morte de Glauco.

Nunca vi Glauco de perto, mas o Casal Neuras,  o Geraldão, o Geraldinho, a Dona Marta, o Zé do Apocalipse, o Boy George eram chegados meus. Ria com eles todos, sou um pouco o Casal Neuras, sou um pouco Geraldão, todos chacinados por um louco imbecil, com vários tiros.

Ao passear ontem pelos blogs amigos encontrei a dor de Bernardo . Ele perdeu um amigo com vários tiros, assassinado pela mesma cidade que também matou seu irmão de sangue  e amigo de infância.

Prometi aqui falar só de coisas bacanas, mas tá difícil.

Eu era criança e ainda sou, canta  Miucha.

Só contando  uma piada para espairecer, ouvida do meu caro amigo Mário Queiroz, historinha síontese do meu incômodo com este mundo de mortes a tiro e em  acidente de carro, duas das modalidades de morrer mais difíceis  de  acostumar.

Dialogo do mineirinho com um amigo:

– Tem  muié tomando banho nuinha  na lagoa. Corre, vamo vê cumpadi!!!
– Nunca viu mué pelada, não uai?
– Vi, uai,  mas inda num  acostumei.

Pois é, também não me acostumo.

Outro dia foi o irmão de uma outra amiga, morto entre os 14 assassinados pela sede de vingança da polícia da minha cidade, Vitória da Conquista.

Dois anos atrás enfiaram 7 tiros em um artista da Picolino, que passava férias em Salvador e batia um baba com os amigos perto de casa. Também a Polícia. O Estado não deu escola, não deu futuro, não deu nada. O sujeito se virou,  virou artista e vivia bem, contratado por num circo médio. Morreu nas mãos de um assassino pago pelo Estado.

Quando vejo notícias sobre a morte de alguém com vários tiros lembro imediatamente de um vídeo com Clarice Lispector, sua última entrevista, quando ela fala sobre sobre um dos seus  textos preferidos, sobre  a execução de um bandido chamado Mineirinho:

 ” …  há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina – porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.” Veja íntegra do texto aqui.

Clarice fala de Mineirinho por volta dos 2 minutos e 40s do vídeo.