Amanhecente

04/07/2010

Subi para pegar as últimas coisas e checar se não havia esquecido nada. Acabei recolhendo alguns livros, gesto tantas vezes repetido na intenção de ler na viagem. Normalmente voltam quase do mesmo jeito que vão. Entre os candidatos a apenas uma folheada estava ele, com suas 580 páginas no formato 16 X 22 cm: Jacinta Passos, coração militante. Poesia, prosa, biografia, fortuna crítica.

O livro já me havia fisgado. Pelos posts de Janaína sobre a mãe no blog Acreditando no Truque e pelos retratos de época ali contidos.

Ao chegar a Iaçu, o livro caiu primeiro nas mãos de quem de fato lê nesta casa. Soraya então me instigou com o trailer, narrou o último encontro de Janaína com Jacinta, num sanatório, um dos trechos mais comoventes da biografia, falou dos dias de Aracaju, quando Jacinta morou numa lona e mandou de volta para a mãe uma mala recheada de presentes, chateada com a venda do sobrado onde vivera com a família, em Nazaré.

Achei que ia me identificar com a Jacinta no nosso diagnóstico – sim, também já recebi o carimbo psiquiátrico, embora em circunstâncias distintas.  Mas me surpreendi ao me identificar com Jacinta desde muito antes, na perspectiva de quem tem no interior suas raízes, de quem admira o céu estrelado da infância, de quem chega a Salvador e encontra o sol, encontra o mar. De quem um dia acreditou na concepção católica de Deus e no comunismo construído por um partido.

Janaína foi filha, escritora, historiadora, arqueóloga. Expôs seus medos, sua dor, seu amor. Montou paciente e meticulosamente um belo suporte. Como uma curadora e guia de uma exposição, conectou peça por peça, deu sentido, recuperou, colocou sob perspectiva uma época, uma obra, uma vida.

Li o livro como quem vê um filme. A história de Jacinta daria um belo filme. Imagino a cena de uma moça ao lado de um jovem pelas ruas da Cidade Baixa, na Salvador de 1941, a caminho de um endereço por ele ignorado. Ela havia conquistado o moço, decidiu se entregar a ele e emprestou a casa de uma amiga para contrariar o destino das mulheres de então, descrito no seu poema Canção Simples: Mulher que tudo já deu, homem que tudo tomou, é mulher que se perdeu, é homem que conquistou.

Daria também uma bela sequência a negociação com o padre que se recusava a batizar a sua filha  Janaína. Só concordou quando ao nome da rainha das águas foi acrescido o de Maria.

Imagino no filme também o registro de imagens da guerra, sob a perspectiva de uma jovem baiana, que acompanhou com textos precisos o cenário internacional, registrou as batalhas mais importantes até a derrota do nazismo.

E a poeta Jacinta? Fico com o ponto de vista de Ildásio Tavares, para quem a poesia não é um discurso ideológico, tampouco estético ou social: “A poesia é um discurso poético”. Ildásio despe  a poesia de Jacinta  dos rótulos para saudá-la uma das mais significativas da nossa literatura. E no poema Eu serei Poesia, de 1942, Jacinta parece concordar com este ponto de vista:

A poesia está em mim mesma e para além de mim mesma.
Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia
Quando nada mais existir ente mim e todos os seres,
os seres mais humildes do universo,
eu serei poesia.
Meu nome não importa.
Eu não serei eu, eu serei nós,
serei poesia permanente,
poesia sem fronteiras.

Ao ler os demais textos da fortuna crítica, o que se escreveu sobre Jacinta Passos, a gente se depara com o universo paralelo dos especialistas, com suas verdades e comparações, cada um puxando a brasa para sua sardinha ideológica, cada um expondo seus saberes, apontando aqui e ali qualidades e defeitos. O próprio Ildásio Tavares escorrega ao elogiar um verso por causa da troca de um “normal” vou morar debaixo da ponte por vou morar junto da ponte como recurso, “artesania” da autora para não quebrar uma redondilha.  Na verdade, Jacinta foi morar com a família perto da ponte mesmo, nas margens do Paraguaçu, em Cachoeira.

Como diria Freud, um charuto pode significar apenas um charuto. O que vale mesmo é a interpretação de cada um, o que cada um entende e sente. Parodiando uma outra poeta, é mais prudente aceitar que uma poesia é uma poesia, é uma poesia, é uma poesia.

Ganhei de brinde ao fim da leitura uma palavra nova, macia, bacana mesmo: amanhecente. A palavra é utilizada quando Jacinta fala de sua Campo Limpo, das noites estreladas da sua infância, da sua, da nossa vida amanhecente.

Compartilho aqui também alguns dos muitos versos e frases, sublinhados durante a leitura:

Olhos, pés, mãos, boca, sexo, fronte,
que encarnaram os mais fugitivos movimentos do espírito,
que amaram, pensaram, sentiram, viveram,
e a morte, de súbito, petrificou.
Por que esperam os corpos abandonados
na  branca solidão do vasto cemitério?

Morrer não é escolher

Ó! A poesia deste momento que passa,
a grande poesia vivida neste instante
por todos os seres da terra

O sanatório é Bahia ou Bahia é um sanatório?

Cantar a sua dor de eterno insatisfeito,
cantar o seu sonho infinito desfeito,
cantar o mesmo canto que embalou a infância do mundo.

– Casa e comida é detenção?
– Para gato, não.

tão lúcido e tão puro,
insegura!
Nosso amor é como tudo,
um vaivém

Despir as coisas
de suas transitórias aparências

Porque estás triste, Maria?
deixa Manuel xingar,
xingar também alivia:
é uma forma de chorar

Juízo de menino travesso (depois de quebrar um pente em pedaços):
– Quanto pente!

Há em torno de mim muralhas glaciais.
Vivo encerrada dentro de mim mesma,
debruçada
sobre estas profundezas abissais

Uma gota d’água… é água.

nas tuas mãos ávidas tateando o meu corpo como se quisessem guardar nas pontas dos dedos a memória  de minhas formas

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa
Eu digo também a crosta
feita de escamas de pedra
E  limo dentro de ti

Água dos mares da Bahia.
Na sombra aqui destas asas
até um dia

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4798688681874&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

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6 Respostas to “Amanhecente”


  1. […] até um dia” Este texto foi publicado em 04/07/2010 às 22:57, por Marcus Gusmão, no Licuri  […]

  2. blag Says:

    Bela resenha. Tô aqui namorando o livrão, ensaiando encará-lo em meio a duzentas dessas leituras incompletas. O seu texto dá um puta empurrão neste sentido!

  3. Christiana Says:

    Linda resenha, Marcos! Impossível não querer ler. Obrigada pela dica.

  4. Gerana Says:

    É linda a palavra “amanhecente”. Jacinta tem uma obra imperdível, vale a pena ler, desfrutar e reconhecer o trabalho da mãe e da filha.

  5. Bernardo Says:

    se já desejava conhecer Jacinta, agora então! senti não estar com Jana no lançamento mas vou correr atrás do preju.
    abraço, amigo.

  6. Chorik Says:

    Excelente postagem-resenha-depoimento.


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