Arquivo mensal: dezembro 2010

Feliz ano velho, a Deus ano novo.

E o ano novo vem de arrastão pelo mundo. Já chegou em Vladivostok, lá na ponta da Rússia, na Austrália, no Japão. São 15 horas em Iaçu, e ele  se aproxima da Índia. Gosto de imaginar o mundo na  trilha do sol deste mapa (veja como está agora) .  Nesta hora em que escrevo,  já é noite de Réveillon na Europa e em quase toda a África.

Lá vamos então nós para mais um giro do mundo: 2011. Não me queixo de 2010, posso até dizer que foi um feliz ano velho. Oxalá tudo, ou quae tudo,  se ajeite no ano novo.

Vamos torcer para que no fim das contas, como diz Gilberto Gil, tudo, tudo dê pé!

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Soraya está de flerte com outra

Está de flerte com Maria Clara. Já avisei,  não aceito.

Ela  ficou balançada, mesmo consciente de que não há a menor condição. É mais louca do que eu. Mas eu fui claro e com todas as letras,  firme como normalmente não sou.

Nem em sonho.

Maria Clara é a sedução em pessoa. Esperta, falante, articulada. Soraya, ajudadada pelo meu banho de água fria, negou sem rodeios,  olhando nos seus olhos, com mãos nas mãos, que não podia ser sua mãe. Teve de negar, negar e negar em muitos dos assédios da menina.

Maria Clara vem ao trabalho com a tia, que ajuda  quando minha renca chega para encher a casa de seu Rubem Reis.  Sentada à mesa do café, a criatura minúscula  parece só ter olhos e sorriso, Sentencia, olhando para cada um de nós, enquanto aponta o dedinho em riste: Você vai ser minha mãe, você vai ser meu pai, você vai ser minha irmã… E por aí vai, se incluindo.

Maria Clara é a exclusão em pessoa. É o retrato deste país bolsa família. Na sua realidade  não faltam nem comida, nem droga, nem sofrimento. O padrasto vive preso,  a mãe também anda errada e ela só escapou de ir  pra um orfanato,  por decisão do Conselho Tutelar,  graças à sua sedução e firmeza no pedido. Olhou pra tia e suplicou: ” Ô, não deixa eu ir pra lá não, lá eu não conheço ninguém”. A tia, que não tem poucos problemas, cedeu. E a menina escapou do desconhecido, mudou o seu destino. Pelo menos por enquanto.

Maria Clara tem a sedução das crianças pequenas porque surpreende pelo texto, pela vivacidade que a gente não espera daquele corpo miúdo de seis anos. Aparenta quatro. Ela sabe o que quer, sabe pedir, sabe ganhar e tem uma apurada noção de perigo.  Soraya saiu hoje com os meninos para empinar pipa num campo de futebol aqui perto, e Maria Clara foi junto com os dois filhos da outra pessoa que trabalha aqui.

Lá um bêbado fez uma ameaça ininteligível para Soraya, mas um alerta geral para a meninada escolada. “Eu vou pegar o meu 38”.  Maria Clara foi a que mais se apavorou com a ameaça,  apertou o passo, puxou Soraya pelo braço, chegou à frente.

Quando eu vejo Maria Clara eu lembro de Chorik e da sua proposta de presente de Natal, no alto do seu blog. Sim, o que não faltam neste nosso mundo  são Marias Claras merecedoras, batalhadoras e necessitadas como essa daqui. E precisam, suplicam uma saída para escapar de um destino do qual não imaginamos nem um milésimo para nossos filhos.

E Juan se despediu

Ia começar uma rotina de trabalho e acabei ganhando a manhã ao me perder na leitura atrasada dos blogs aí do lado. E ao reler Juan Trasmonte,  me dei conta de que seu último texto  tinha no título um duplo sentido. Desde então mais nenhum dos posts  que costumava  nos presentear com frequência  em português impecável e, raramente, em espanhol, como nesta sua bela despedida de Maria:

“Maria Sampaio fue, entre todas las mujeres que nunca conocí, mi mejor amiga…” Continue  aqui.