Arquivo mensal: fevereiro 2011

Sem rodinha

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Lenitivo

Estava futucando a internet em busca de um lenitivo para este inferno astral. Pensei em José, de Drummond. Achei muito mais. Achei o próprio poeta falando, primeiro numa entrevista a Leda Nagle, em 1981. Depois, no programa arquivo N. E no final me apareceu um trecho do documentário “O fazendeiro do ar” .  Compartilho aqui os vídeos e poemas dos vídeos que ‘bateram’ nesta minha hora.

Poema da necessidade

É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas

e anunciar O FIM DO MUNDO.


Confissão

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
que se esfacelou na asa do avião.

O chão é cama

O chão é cama para o amor urgente, amor que não espera ir para a cama. Sobre tapete ou duro piso, a gente compõe de corpo e corpo a úmida trama. E para repousar do amor, vamos à cama.

Consolo na praia

Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humour? A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros. Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas. Estás nu na areia, no vento... Dorme, meu filho.

Essas Coisas

«Você não está mais na idade

de sofrer por essas coisas.» Há então a idade de sofrer e a de não sofrer mais por essas, essas coisas? As coisas só deviam acontecer para fazer sofrer na idade própria de sofrer? Ou não se devia sofrer pelas coisas que causam sofrimento pois vieram fora de hora, e a hora é calma? E se não estou mais na idade de sofrer é porque estou morto, e morto é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

E finalmente, claro, José:

Tentando ser burro pedrês

O jeito é deixar a correnteza me levar, qualquer hora topo  barranco também.

Um dia tinha que acontecer. Depois de rodar milhares de quilômetros durante 7 anos, ir a Minas, passear pelo Baixo Sul, passar incólume por muitas, muitas blitze, eis que chegou a hora do possante azulão modelo 99/2000,  IPVA 2004.

Foi recolhido ao pátio da PRF em Humildes, após um encontro com a lei hoje, sol quase a pino, na saída do pedágio da BR 324.

Mas foi levado preso com toda a elegância, em cima do reboque da Via Bahia. Lataria nova, parachoque novo, pintura tinindo,  dois pneus zero, amortecedores idem, enfim, enquanto estava caindo aos pedaços vivia solto e livre como um vira lata. Foi só ajeitar, caiu nas garras da lei.

Sentado a beira da estrada, eu, cocos, mamões, pimenta preparada com gosto por seu Rubem, sacolas, malas, 3 peixes de aquário, abacaxis de Itaberaba, banana prata, banana da terra, feijão, farinha, pastas, papeis, sol a pino. A renca no outro lado da pista, pegava sombra na administração do pedágio.

Só uma pessoa no mundo me tiraria daquele aperto, mas como o porta malas de carro nenhum cabe tanta tranqueira, apareceram duas.

Meu irmão, claro, e um cara, João, a quem eu ia ajudar como motorista, já que havia sido flagrado sem carteira. A blitz se desfez, ele acabou voltando ao volante mas desviou o caminho, uns 30 km,  para me trazer na porta,  com a metade da bagagem, antes de ir para Lauro de Freitas.

João é dono de uma oficina de motos em Lauro de Freitas. Recomendo.

Para quem não conhece a história do burro pedrês, ele é o único que se salva numa enchente, justamente porque não nadou contra a correnteza. E salvou, de quebra, o seu cavaleiro  bêbado e um outro que se agarrou à sua cauda na hora do desespero.

Pra completar o clima deixa a vida me levar, só mesmo o timoneiro Paulinho da Viola, que orienta no mesmo sentido: