Arquivo mensal: junho 2012

Fim do primeiro tempo

Você e eu temos ainda 183 dias para as promessas de ano novo.

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Rubem, Joel, Edith, Gabriel.

Rubem Reis, aos 91, chora seu melhor amigo,  o compadre  Joel Barbosa. Sempre que toca no assunto passa a mão nos olhos. Resolvi não perguntar nada. Ofereci novo passeio ao Trapiá. Por uma destas coincidências intrigantes, Joel Barbosa passou para visitar o amigo justamente naquele dia do passeio ao Trapiá. Aquele seria o último encontro dos dois.

Desta vez seu Rubem  pediu para ir ao Faustino.

O Faustino é um dos  povoados de Iaçu, distante 4 léguas ou 14 km de asfalto mais 10 de estrada de chão. No caminho, comentou a seca, lamentou várias vezes a seca,  e soltou uma de suas tiradas. Ao ver dois carros  no sentido contrário comentou: a cidade tá vazia. Diante da interrogação minha e de Luísa, explicou: cabe todo mundo em dois carros.

Uma praça, uma igreja, um bar no centro, bandeirolas e fogueiras ainda quentes da noite de São João. Foi só perguntar por Laureano Rocha ao primeiro e bastou uma indicação com o dedo apontado para o outro lado da praça. Lá estava ele, sentado na porta de um mercadinho, vestido com uma camisa branca de mangas compridas, com o nome Varig bordado no  bolso. Contou muitas histórias. Vive só, numa grande casa ao lado da igreja, aos  84, embora tenha uma pretendente de 28. “Um homem só não vale nada” diz.

A conversa rendeu, seu Rubem ouviu mais do que falou, mas voltou satisfeito do passeio. Encontrara um dos poucos sobreviventes.

Sempre me intrigou a solidão dos sobreviventes de uma geração. Nilson Galvão tem um nome pra isso, pra quem já foi. Chama de a inocência dos mortos. Não podem mais interferir, são poupados das atualizações surpreendentes desta vida.

E o que sobra para os ainda vivos? lembrar. Quinta-feira desço para a roça, para a divisa da Bahia com Minas, onde minha mãe tem vivido feliz e enfurnada nos últimos tempos, talvez sonhando com lembranças. Ela também conta muitos mortos. Pai, mãe, irmãs, irmãos, amigos, meu pai.

Em 2007 provoquei o encontro entre os dois, entre Edith e Rubem. Ficaram esta foto e outras no Rio Paraguaçu como  lembrança. E sempre um perguntando pela saúde do outro.

Pensando sobre tudo isso, revivendo os vários junhos aqui neste coco pequeno caiu como uma luva no meu pensamento a  frase de Gabriel Garcia Marquez, relembrada por Ricardo Viel no seu post no Purgatório:  “A vida não é aquilo que vivemos, senão o que recordamos e como recordamos para contar.”

Prefiro a frase no original. Não gosto dela traduzida na primeira pessoa. Acho bem bacana esta expressão uno, em espanhol. Uno é todo mundo, é qualquer um, é o nosso “neguinho”.

“La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda, y cómo la recuerda para contarla”

Neguinho que vive a solidão dos últimos dias sabe bem o que é isso.

 

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Véspera

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23 de junho de 2009, em Iaçu

A cidade se enfeita, na cozinha o movimento é grande, no quintal o forno está aceso. É véspera, manhã/tarde da noite de São João. E eu torço para que isso fique nos meninos como ficou em mim. Hoje já não sinto nada, só lembranças. Da fogueira, dos fogos, dos balões, da música. Hoje sou apenas memória, que tento reaver em caminhadas pelas ruas decoradas da cidade. São João passou por aqui. Pelas minhas lembranças.

Descrição da imagem: Em primeiro plano vaso de cerâmica pendurado, decorado com bandeirolas coloridas. Ao fundo, fogueira armada em rua enfeitada com fileiras de bandeirolas azuis e vermelhas. Céu azul.
Descrição sugerida por www.facebook.com/pracegover

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