O jogo sujo só está começando

18/07/2012

“Estou me comprometendo em, até amanhã, apresentar esse vídeo em que a servente, chorando, fala da humilhação que sofreu e do orgulho que sente em trabalhar para sustentar os seus quatro filhos”, promete o presidente da ALBA a um site sucursal de um programa de TV mundo cão.

O vídeo é só a sequência desta nota publicada hoje no jornal A Tarde. Todas as armas da guerra suja estão direcionadas para a desmoralização dos professores. Haja estômago.

Mas a professora que mora aqui em casa não se conteve, e mandou seu recado para o colunista:

“Sr. Levi Vasconcelos exijo respeito. Sou mãe de duas crianças e uma adolescente muito bem educados e professora de outros tantos com maior ou menor grau de educação porque lhes falta muito. E não é minha a responsabilidade por esta falta. É ABANDONO. Inclusive desta sociedade que após cem dias de greve e décadas de falta de tudo vem se preocupar com a qualidade destes profissionais. Hoje mesmo conversava com uma colega, que tb é profissional de uma escola privada reconhecida por sua qualidade na formação de educadores e tb professora da rede pública. Ela comentava que em 20 anos de estado nunca havia feito um curso de capacitação. Toda sua formção era proporcionada pela rede privada ou por seu próprio esforço. Digo o mesmo. E, independente do que pensem de nós, há vida inteligente, sensível e responsável na rede pública. E mais do que a maioria da sociedade supõe, comprometida de fato com estes jovens a despeito do descaso e apatia manifestados pela sociedade civil. Mais respeito, por favor, e seriedade ao falar de pessoas. Imagino que na Faculdade de Comunicação os seus educadores tenham tentado lhe ensinar isso. Só uma detalhe, ser profissional da rede pública é uma escolha pra mim e para muitos e não o que nos restou como opção por falta de capacidade. Fosse eu médica, engenheira, arquiteta… estaria na saúde pública, melhorando espaços urbanos coletivos e por aí vaí. Não se enganem, há valores que a gente só pode encontrar nestes espaços públicos. Lá tem gente de verdade, mundo de verdade. Nada tão fake e alienante como a gente vê por aí.

E Soraya Almeida seguiu na sua guerrilha de palavras em outra discussão quando acusaram professores de usar palavras de baixo calão:

“Fique quatro meses sem salário sendo o tempo todo desacreditada na sua capacidade, no seu valor, aviltada por reivindicar o cumprimento de uma Lei que,desde 2008, estabelece que nenhum profissional do Magistério pode receber um “vencimento” e não remuneração inferior ao piso nacional, este ano reajustado para o valor de R$ 1.451 e mantenha o humor. Nenhum palavrão sairá da sua boca, uma vez que tão civilizada…. Sinto lhe dizer, mesmo com meu todo horror aos palavrões, que se me deparar com o sr Jacques Wagner, José Neto, Marcelo Nilo e toda esta corja perderei toda a compostura. Sugiro dez aulas numa escola de periferia, num memo dia, com a remuneração que ganhamos além de toda a lista de adjetivos que recebemos cotidianamente e o sentimento de impotência ao ver as escolas esvaziadas, ao perder alunos pra o tráfico, ao ver que nada do que dizem e lhe ensinaram na sua vida escolar serve ou foi aprendido, ou tem utilidade ou vai mudar a vida das pessoas. Que vc queira tirar seus alunos da escola e levar para a cidade, se apossar dela, interferir, frequentar museus, teatros, concertos, salas de arte e nada disso ser possível. Quando acontece é pra metade da turma, escolhidos de forma excludente- suas notas, “bom” comportamento… Ou então ninguém gosta, acha bonito, quer, deseja…. E vc se sente incapaz. Cada vez mais. O que a sra faria? A mim, se me permitem, posso soltar um impropério, um palavrãozinho, uma palavra de baixo calão… ou é muita falta de decoro, pudor ou sei lá o quê?”

Enfim, 

Também quando li a nota achei um absurdo. Mas fiquei ainda mais indignado quando soube de parte do contexto. Tem uma omissão, uma descontextualização da informação que muda o entendimento do que aconteceu. A notícia tem sido reproduzida no twitter e em sites de notícias do interior ainda mais distorcida, dizendo que a professora urinou no salão. Tenho interesse pessoal em saber mais sobre esta história, saber como de fato aconteceu e como a notícia foi parar no jornal. Este caminho merece ser estudado. Soube de fonte confiável que a coisa se passou de forma diferente. Eis uma outra versão:

1- a professora não urinou no chão e sim dentro do box do chuveiro do banheiro porque não suportou esperar o sanitário ocupado. É uma pessoa já de uma certa idade, toma remédio para hipertensão com diurético e não usou o banheiro durante toda a noite porque a luz havia sido cortada.

2 – A ideia dela era tomar banho em seguida – urinar no chuveiro hoje é pratica recomendada – mas a água ainda estava cortada. A funcionária entrou no banheiro e agrediu verbalmente a professora, que ainda tentou explicar o que havia acontecido. A professora revidou a agressão verbal. Pelo que soube, inclusive, logo depois se entenderam e entraram em acordo sobre a discussão. A professora teve uma crise hipertensiva e foi internada.

Ficam então as perguntas:
Como a notícia chegou ao jornal? qual foi a fonte de informação? Havia assessoria de imprensa envolvida? quem foi o repórter que apurou? a professora foi ouvida?
Sinceramente, eu me incomodo muito mais é com o mau cheiro desta guerra de informação.
Soraya então dá uma versão mais detalhada, ouvida dos professores que estavam com a professora:

“Marcus, não sei se a professora é “de idade”. Sei que toma diuréticos porque é hipertensa e havia ficado na noite da ameaça de invasão da PM, em vigília. Ao amanhecer, não aguentando mais foi ao banheiro que estava ocupado por duas pessoas. Restou-lhe a alternativa de tomar banho e fazer xixi no ralo. A água estava desligada e, vendo o xixi, a funcionária a teria agredido verbalmente e ela reagido no mesmo tom. A todos parecia que a discussão havia se encerrado ali. Não foi o que aconteceu. Hoje, quando fui para a assembleia, soube (vi a movimentação de pessoas à procura de um colega que tem problemas cardíacos e anda c/ seu tensiômetro a postos) que havia alguém chorando e se sentindo mal. A professora diante do estardalhaço e humilhação pública provocados pela notícia estava com a pressão em 18/12 e foi orientada pela assistência médica da ALBA a se dirigir a um hospital para ficar em observação. Parte desta história presenciei: colegas sendo procurados para ajudá-la, medir sua pressão etc. A versão da discussão foi relatada na assembleia por um dos colegas muito comovido, em lágrimas (não quero ser piegas, nem vitimizar ninguém) e pedindo pra que quando ela tivesse alta fosse acolhida por nós. Só pra esclarecer, ninguém que dorme lá conseguiria dormir e aceitaria um xixi no meio do salão. Tem uma colega que nos chama a atenção por viver com a vassoura na mão, a recolher copos antes da gente poder descartá-los no lixo …porque gosta do lugar em ordem. O lugar é cuidado por todos inclusive nos finais de semana quando não há funcionários. Vivemos a carência de funcionários nas escolas e sabemos o valor destes trabalhadores como tb colaboramos com a manutenção dos espaços. A professora aqui mencionada está na assembleia acampada desde o início da ocupação e merece o respeito de todos nós. Tb me comovi. A despeito da imagem que querem passar de professores imundos, desordeiros e destemperados não é o que tenho visto. Tenho presenciado cuidado com o lugar, trabalho em equipe, solidariedade e, como há muito tempo não via nas greves em que participei, a possibilidade de nós, que não pertencemos a partidos ou diretoria de sindicato, nos posicionarmos, nossas propostas serem discutidas pelo comando e o retorno delas. Fato inédito, diga-se de passagem.Quero que todos saibam que sou parte interessada e comprometida até o pescoço mas exijo que todos, indistintamente, nos respeitem. Grata.”

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3502455276849&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

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4 Respostas to “O jogo sujo só está começando”

  1. Soraya Says:

    Só uma correção: exijo. Já nem sei mais escrever.

  2. Emilia Says:

    Gostei pró, temos que ser respeitadas e não humilhadas por esse povo incompetente, desumano , esse povo que está aí,por que nós confiamos e elegemos e hoje tomamos um coice desses animais.Porém tenho fé em DEUS,que ELE vai nos abençoar,e eles vão pagar caro por isso, tem um ditado popular que diz: quem faz aqui, aqui paga. E eles vão pagar caro por isso.
    Que DEUS nos abençoe, nos proteja e nos guarde.Amém.

  3. Márcia Almeida Says:

    Cito correção: O ato de urinar é involuntário….

  4. Márcia Almeida Says:

    Ó meu senhor, vá fazer reportagem de qualidade. Se quer apurar os fatos, deveria ir a ALBA nos dias normais, principalmente nos banheiros que não são utilizados pelos senhores dos aneis deste lugar. A natureza iria reclamar muito com perda de água por torneiras e descargas quebradas(assim como desperdiçam dinheiro público, desperdiçam recursos naturais). PH e toalhas higiênicas, nem pensar. Era de propósito por professores estarem ali?O que teria de curioso por uma pessoa ter urinado dentro do banheiro? E as nossas ruas com mictórios a céu aberto? Gostaria que desse evidência a reportagem de boa qualidade feitas por pouquissimos repórteres ali presentes. Mostrar o descaso com o dinheiro público, com a educação, com a saúde. Estes profissionais que trabalham nos serviços gerais sabem muito bem como são massacrados, oprimidos e diferenciados. Respeitem até essa senhora que deve ter comentado o fato depois de resolvido, mas que tenha sido usada desta forma como massa de manobra. Deveria reportar a força do movimento, da fé, da resistência, da responsabilidade dos professores, acredito que muitos destes profissionais lhe educaram, lhe ajudaram a se formar com ética e idoneidade. Faça uma reportagem limpa, honesta porque o que temos visto é que, muitos profissionais “fichinha” que trabalham com jornalismo barato, aparecem por uns minutos e desaparecem como um rastro de um cometa.
    Espero que o senhor nunca esteja apertado para fazer xixi, sem ter onde fazer, ter que esperar para fazer e ouvir desaforos.
    O ato de urinar é voluntário, não mediado, nem nunca deve ser “oprimido”, diferente do que vemos em seres ditos “humanos” como estes que se vendem por pouco. Se quiser aprender mais sobre isto, vá a escola que aprenderá com muito prazer!!!!!….


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