Música no parque

22/07/2012

Sou fraco de memória mas aquela mulher com uma caixa de isopor não me era estranha. Perguntei se tinha “piriguete” mas ela só vendia água e refrigerante.
– Conheço a senhora de algum lugar.
Apoiou o isopor numa perna à frente, no terreno inclinado, coçou a cabeça e lembrou, e lembrei. Trabalha como servente na Dimas, no subsolo da Biblioteca Central, onde passei uns meses há uns 4 ou 5 anos.

Lembrei vagamente das histórias da sua filha, ela sempre falava desta filha. Agora lembro bem. A filha não conseguia um destes programas tipo universidade para todos porque uma família havia bancado os seus estudos num colégio particular e a regra destes programas é clara: tem que ter estudado em escola pública. E ponto.

Perguntei pela filha. Pronto, destravou a língua. A filha casou, tava dando muito trabalho em casa. Mas já está quase formada. Ela ainda paga a universidade para a filha.
– Abandonou o curso, eu pagava RS 1,080 na Jorge Amado, abandonou e nem avisou. Adolescente dá trabalho. Podia ter dito que não estava gostando. Mas fui lá, conversei e agora tá fazendo enfermagem. Tá perto de formar.

Falou dos caprichos da filha. Do trabalho que dá filho quando tá namorando, da conta de telefone, ó o tamanho. Cocei meu ombro direito e apontei para Luísa que estava do meu lado. Ela riu.

Junta aposentadoria, salário e mais bicos como este no Parque da Cidade em dias de Música no Parque e até hoje ainda paga a faculdade da filha.

Esqueceu as vendas e continuou falando da filha:
– Mas ela precisa descer do salto, entender a vida. Ela é muito vaidosa e tem que ajudar o marido.

Ao mesmo tempo que se queixava da filha, o tom era de orgulho da filha. Falou muito, a gente falou pouco, eu só ria com ela e concordava. Na hora em que falava das dificuldades, Soraya lembrou que estava há três meses sem salário. Este mantra de Soraya é dito a todos os interlocutores, aproveita todo encontro para falar da greve.

– É verdade, moro em Santa Cruz, as crianças ficam em casa sem fazer nada, aí vai fazer o que? Aviãozinho. Mas a culpa não é sua não minha filha, é deste governo que taí, pior que os outros. Sei não.

Não sei se foi pela chorada de Soraya, não sei se foi pela alegria do reencontro. Só sei que antes de ir, pegou uma garrafa de H2O no isopor e entregou para André e Maria. Disse que era presente. E foi embora.

Soraya me obrigou a ir ao seu encontro e insistir no pagamento. Vi quando foi reabastecer o pequeno isopor no outro lado e aproveitei para comprar finalmente minha “piriguete” antes do concerto começar. Precisei insistir muito.
Até agora não sei se agi certo, afinal era presente.

Acho que estou ficando mal acostumado com presentes inesperados.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3516362144512&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Foto: Neojiba – http://tinyurl.com/c89mjtu

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Uma resposta to “Música no parque”


  1. Conheço essa senhora e as histórias de frustração e orgulho que ela tem da filha, eterna adolescente universitária, talvez a única em toda a família. Ficarei feliz no dia em que ela me disser que deu uma sova nessa rebelde sem causa.


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