Rio Vermelho

01/08/2012

“Um fio de sangue passou por debaixo da porta, atravessou a sala, saiu para a rua, seguiu reto pelas calçadas irregulares, desceu degraus e subiu pequenos muros, passou de largo pela Rua dos Turcos, dobrou uma esquina à direita e outra à esquerda, virou em ângulo reto…”

Costumo me esquivar de notícias sangrentas. Mas algumas não desistem, cercam pela tv, aparecem no rádio, no jornal, pela internet, em algum momento a gente acaba sabendo mais daquilo que era desnecessário saber.

E aquela notícia me chamou a atenção porque  a cena descrita, o rio de sangue, lembrou  Garcia Marquez. E também por envolver duas irmãs, ambas Maria. Uma Angêlica e a outra do Rosário.

Aí veio o segundo baque. Enquanto você não sabe quem é, trata-se de uma personagem, parece um filme, parece um livro. Mas aí descubro que conheço uma delas, muitos dos meus amigos a conhecem.

Mesmo que ela não tenha sido tão próxima, mesmo que você não a tenha visto há muitos anos, o baque é forte. Ela continua viva, mas possivelmente vai ser jogada no pior do pior dos três infernos  do mundo, a mistura de presídio e hospício, o manicômio judiciário.

Melhor voltar para a ficção:

” – Ave Maria Puríssima! – gritou Úrsula.

Seguiu o fio de sangue em sentido contrário, e em busca da sua origem atravessou a despensa, passou pela varanda das begônias onde Aureliano José cantava que três mais três são seis e seis mais três são nove, e atravessou a copa e as salas e seguiu em linha reta pela rua, e em seguida dobrou à direita e depois à esquerda até a Rua dos Turcos, sem se lembrar que ainda trazia vestidos o avental de cozinha e as chinelas caseiras, e saiu para a praça e se meteu pela porta de uma casa onde não havia estado nunca, e empurrou a porta do quarto e quase se sufocou com o cheiro de pólvora queimada, e encontrou José Arcadio caído de bruços no chão, sobre as polainas que acabava de tirar, e viu a fonte original do fio de sangue que já havia deixado de fluir do seu ouvido direito…”. Gabriel García Márquez – Cem Anos de Solidão

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3550102307995&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Imagem:  Study for ‘Honey is softer than Blood’,  Salvador Dali

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Uma resposta to “Rio Vermelho”

  1. Chico Muniz Says:

    Vim aqui deixar meu comentário acerca desse drama tão pessoal e agora lardeado, mas já não sei o que dizer. Se para você havia a proximidade do simples reconhecimento, para mim há a quase convivência, pois que conheço ambas desde que vim morar em Salvador, fazíamos parte do mesmo grupo de jovens e os filhos de Angélica cresceram junto com os meus. Baque? Sim. No cemitério, um dos repórteres enviados pela imprensa-urubu pergunta-me, malformada e ingenuamente: “Você esperava que isso acontecesse?”. Eu poderia ter sido irônico e mal educado, mas preferi ser lacônico e devolvi a pergunta a ele: Quem espera por algo assim?


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