O direito de não ser vegetal

Camisa aberta até o começo da barriga de seus cinquenta e poucos anos a brigar com os botões, o desleixo corporal do escrivão é a minha própria imagem e semelhança. Tratei de me identificar como funcionário público para ganhar também o status de colega. Não deu outra. O atendimento na 16ª DP foi simpático, num ambiente de teto descascado, infiltrações pelas paredes, instalações elétricas em gambiarras.

O atendimento foi simpático e demorado. No meio apareceu uma trupe do Sindipoc, o sindicato da polícia civil, a colar cartazes, distribuir jornal e convidar para mais uma assembleia da campanha salarial 2012. Já vimos este filme.

O atendimento foi simpático mas saímos de lá com a certeza de culpa dos otários. Sim, o escrivão barrigudo como eu e em vias de se aposentar enumerou vários argumentos para provar a Luísa de que a culpa pelo assalto foi dela. Quem mandou levar documentos na bolsa, quem mandou levar equipamento eletrônico na bolsa, quem mandou carregar coisas úteis na bolsa?

Além da ocorrência, que não ficou pronta, claro, quem assina nunca está – fomos avisados disso na fila por uma pessoa mais escolada – saímos da delegacia com uma promessa de ocorrência para o dia seguinte. E o aviso sinistro de que tudo vai acontecer de novo. Portanto, tratar de não vacilar.

Mas, afinal, por que este escarcéu todo se devíamos agradecer aos céus por Luísa não ter levado tapas ou tiros? O que afinal roubaram de Luísa? Roubaram uma bolsa, presente do dia dos namorados, roubaram seu instrumento de comunicação com o mundo, um iPod, presente de 15 anos das amigas, roubaram todos os seus documentos.

Tudo isso é material e o que é material é possível substituir.

Mas este terceiro assalto tira de Luísa algo que talvez ela não recupere tão cedo, a possibilidade de andar pelas ruas sem medo. Da última vez andava assustada nos dias seguintes e mudou de calçada para evitar a proximidade com um desconhecido. Recebeu xingamentos pesados.

Perdemos a cada dia mais nesta cidade inviável o direito ao deslocamento, presos nos engarrafamentos, presas de assaltos e do medo nas calçadas.

Esta cidade e seus governos querem nos negar o que nos diferencia dos vegetais, a possibilidade de deslocamento.

E eu só queria este direito básico, o de não ser vegetal.

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Foto: Roberto Viana/Bocão News

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