Andar, caminhar

12/04/2013

Vale a pena ouvir de novo

Ouço uma música zilhões de vezes e ela me chega aos pedaços. Como uma cápsula de efeito retardado, detona pequenos fragmentos de sentimentos a depender das novas (e velhas) circunstâncias.
De repente, assim do nada, um trecho entrava por um ouvido e saia pelo outro e agora  fica retido, faz mais sentido e  diz mais.
Aconteceu estes dias com Se eu quiser falar com Deus, de Gil. Há quase 30 anos ouço os mesmíssimos conselhos mas de repente no trânsito calorento e engarrafado eles vieram assim do nada e me tocaram de novo, ao lembrar da necessidade de folgar os nós dos sapatos, da gravata, de esquecer a data e de perder a conta.
E hoje, ao ouvir muitas vezes no na voz de Elis, Gil, ou num solo de guitarra de um desconhecido, a música bate novamente quando fala desta estrada que ao findar vai dar em nada…

(Post original 24/12/2007  - Esquecer a data, perder a conta)

 

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/398867850221295

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3 Respostas to “Andar, caminhar”


  1. Washington,
    Texto ótimo, tava precisado dele. Futuquei e achei uma versão, talvez a original, aqui: http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=15926&cod_canal=52

    Forte abraço.

    PS: por esse e por outros (re)encontros é que não largo de mão este coco pequeno.
    abs;


  2. Rapaz, por um bom tempo eu fixava em “nesta estrada que ao final vai dar em nada”. Ficava aí, concordava que tudo isso que a gente vive não vai dar em nada mesmo, etc e tal. Acredite, só esta semana, ao ouvir a música mais umas 20 vezes me toquei do complemento: “do que eu pensava encontrar”. E aí o sentido é outro. Saudades e forte abraço.

  3. Washington Carlos Says:

    Nada do que eu pensava encontrar… Pois é Marcus, também em mim, essa música sempre desperta novidades (e velhidades). Na época da casa da Boca do Rio, junto com Álvaro e Josias nos anos 80, essa música provocava muitas idas e vindas… Hoje, perto dos 55, começo a me perguntar o que é, mesmo, que eu pensava encontrar… Já não lembro mesmo como era o começo dessa busca, mas tenho a impressão que vai perdendo a importância o que eu pensava encontrar e ficando interessante o que estou encontrando. Não que esteja cômodo, ou confortável e nem que esteja agradável; mas tem outra referência de Gil que abre a possibilidade de que “o melhor lugar do mundo, é aqui e agora”. Segue um texto sobre a pausa (não sei como colocar anexo – por favor, veja se é possível deixar disponível sem atrapalhar a estrutura do Licuri, senão, pode deletar). Abraços, brother, e mais uma vez grato pelo saboroso Licuri nosso de cada dia. Washington Carlos

    PAUSA Anônimo

    Determinadas idéias têm repercussão universal, extrapolando o vínculo com a cultura que as originam; examinemos a noção de pausa, a partir do shabat na tradição judaica.
    Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino no sétimo dia da Criação. Muito além de uma proposta trabalhista conquistada em vários países, shabat entende a pausa como fundamental para a saúde de tudo que é vivo. A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida, lentamente se extingue. Para um mundo, no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, a pausa se torna uma necessidade do planeta.
    A terra, Gaia, nós e nossas famílias precisamos da pausa que revigora. Prazer, vitalidade e criatividade dependem destas pausas que estamos negligenciando.
    Hoje, o tempo de “pausa” é preenchido por “diversão”, alienação e/ou anestesiamento. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações para não nos ocuparmos. A própria palavra “entretenimento” indica o desejo de não parar. É a busca de algo que nos distraia para que não possamos estar totalmente presentes. Estamos cansados, mesmo quando descansamos. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento (associada com a farmacêutica) só pode crescer nessas condições.
    Algumas cidades tentam parecer, arquitetonicamente, cada vez mais com a Disneylândia e, o tipo de emoções que buscamos, também. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de um dia com gosto de vazio; um divertido que não é nem ruim nem bom.
    Estamos entrando o milênio num mundo que tenta ser um grande shopping. A internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam, fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante.
    Hoje, parece que não se consegue parar a não ser que seja no fim. Mas, as paradas estão por toda caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida aparenta fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. Os olhos não têm muito tempo para ver, e o passado se perde na memória, numa massa indiferenciada de informações. O futuro é tão rápido que nos confunde e não deixa perceber o presente. O ativismo incessante é um dos melhores mecanismos para estar longe do agora e, conseqüentemente, de si mesmo. E o círculo vicioso se autoalimenta: quanto mais longe de si, mais acelerado externamente. E aí, falta tempo para cuidar da saúde, estar com os amigos, aprofundar um estudo/trabalho realmente necessário…
    As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado, a noite de penumbra. Nossos namorados querem “ficar”, trocando o “ser” pelo “estar”. Do escambo por carinho e tempo, “evoluímos” para a compra de carinho e tempo – um dia seremos nossos. Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca corremos tanto e deixamos tanto inacabado. Não percebemos que a produtividade está mais relacionada com a pausa do que com a correria automática. A pausa, com presença, não tem semelhança com acomodação desenraizada – aquela falsa justificativa para não se esforçar e não se comprometer. Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é uma interrupção. Mas isto nos parece difícil de entender. E, assim, o sol não para de nascer e a semana de acabar. O mês passa rápido -menos que o salário- e, quando se viu, o ano já passou. Do jeito que estamos, não tarda muito, o milênio já foi.
    O dia de não se trabalhar não é o dia de distrair – literalmente, “tornar desatento”. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que se fazem as famílias no descanso – “o que vamos fazer hoje?” – é marcada por ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo. Fazer nada é uma categoria pouco compreendida na luta incessante para fugir de nós mesmos. O tempo, por não existir, faz mal a quem quer controlá-lo. E esta é uma doença que envelhece nossa alegria: o sonho de fazer do tempo uma mercadoria. Entretanto, isso não é incurável: depende de ampliarmos nossos referenciais e superarmos nosso olhar acostumado/acomodado.
    Em tempos de milênio, podemos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada. O silêncio é que valoriza o som. A prática saudável/espiritual deste milênio será viver as pausas. Lembrar que a respiração tem pausa é dar-se conta do próprio corpo, é não fugir do aqui e agora. Não haverá maior sábio (aquele que sabe perceber/construir a felicidade no cotidiano) do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar – várias vezes durante o dia. A pausa meditativa possibilita estar no presente. Afinal, por que mesmo que o Criador descansou? Talvez, porque mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.


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