Quero morar nas fotos de família

03/05/2013

– Mãe, eu tava deitada e Deco sentou na minha cabeça! Grita Maria chorando do quarto. Outra hora é o protesto de André. Recebeu um peteleco de Luísa na frente dos colegas. Outra hora é Soraya, mais uma vez a reclamar do meu tempo de tela, da minha pouca ajuda nas coisas de casa. Outra hora é minha indiferença, outra hora é minha brutalidade. Outra hora é Maria a cantarolar a cantiga irritante, ela sabe irritar o irmão.

O normal é a briga, muita briga, pirraça, muita pirraça. E vamos seguindo muitas e muitas vezes brigados, muitas e muitas vezes na amargura do cotidiano.

Mas tem as horinhas de descuido, como Guimarães Rosa chama a tal felicidade. Um reencontro de corpos, um passeio à beira mar, um chocolate na Empada Brasil numa tarde de chuva, uma música no carro a caminho de Feira de Santana. E tem também as fotos de família, essas capazes de revelar a tal felicidade. Definitivamente quero morar nelas. As fotos de família conseguem exalar felicidade mesmo quando capturadas no meio do corre-corre, no dia a dia, no amargo dos problemas cotidianos.

As crianças crescem e nós envelhecemos lentamente. E rapidamente. Olhar as fotos de família é perceber também o tempo, os saltos do tempo. E as horas de olhar as fotos de família entram também no cômputo das horinhas de descuido. Lembro da minha infância em Minas Gerais nas férias na casa dos tios Descartes e Odete, de um álbum marrom, com folhas transparentes entre uma página e outra, um cordão pendente e cantoneiras que permitiam retirar a foto para ver a dedicatória e medir o tempo.
Lembro do álbum lá de casa e da foto do casamento dos meus pais, da juventude da minha mãe, dos primos mais velhos, tempos antes de nós. Lembro do álbum da casa de tia Dalva, este, o mais completo, porque meu tio Adauto era fotógrafo viajante, profissão responsável por parte considerável do acervo afetivo reunido nos álbuns antigos de família.
A fotógrafa Maria Sampaio escrevia em seu blog histórias deliciosas, enredos inventados para as fotos de família produzidas em estúdios no início do século passado. Ela batizava estas histórias de Continhos Photográficos**. Mesmo inventados, estes continhos traziam uma verdade, por mais inverossímil que fossem. As fotos de família são assim como nos continhos de Maria, trazem verdade que nem mesmo a gente desconfia. E se existe um atestado de felicidade, renovável a cada mirada, este atestado é uma foto de família. E quanto mais antiga, mais feliz.

Publicado em http://www.fotografiaecultura.com/2013/04/04/quero-morar-nas-fotos-de-familia/

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4768029595416&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

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