…somos iguais em desgraça, vamos cantar o blues da piedade

Piedadepraca

Tento me esquivar de notícias de sangue. Mas elas me atingem de raspão, no fragmento dos telejornais, nos informes de Alcione, a nossa diarista, no rolar da tela do computador.

O tabloide inglês dá notícia  da guerra em curso nesta cidade desde Tomé de Souza  e a notícia provoca comoção. Vou na memória deste coco pequeno, este diário onde tento jogar luz sobre minhas mini-incertezas e encontro a Praça da Piedade, num post de 10 de abril de 2007:

Esta praça tem um igreja de São Pedro, uma Igreja da Piedade, um instituto  histórico, um prédio de polícia estilo gotan city, um gabinete português de leitura, uma faculdade de economia, umas lojas, um Bradesco na esquina, uma fonte luminosa no meio, um gradil de Mário Cravo Caribé, um resquício do poeta Castro Alves, uns gritos dos poetas da Praça, uns muitos aposentados, um pouco da minha infância, um pouco da minha adolescência, um pouco de mim agora.

Cada um destes uns dá um post. Começo por um pouco de agora, por esta foto… Graças à sinaleira, para o carro na esquina. O display da máquina está queimado. Trago então o visor para o olho esquerdo e disparo à moda antiga, com a máquina encostada no rosto. Deu tempo de esperar o cara que vinha andando entrar na foto, para que ela não ficasse completamente desabitada.

Não deu para conferir o resultado na hora. Sigo então em frente a admirar o céu azul e esta cúpula,  que dá um toque árabe à praça, como um ladrilho no mosaico das lembranças da nossa ancestralidade moura. Este é um post emotivo, feito na madrugada…

Naqueles dias também descobri a ausência do busto de um dos heróis da Guerra dos Alfaites, enforcados na Praça e também escrevi sobre  o sumiço. E sobre a Praça e sua história. Já recuperaram o busto, a praça vive no mesmo abandono, à espera agora de adoção.

E cá estou eu, na véspera do aniversário de seis anos da foto e dos textos, a pensar na praça, na cena de sangue, na guerra cotidiana de Salvador , nas praças de guerra e morte recentes na Piedade e Campo Grande, dois dos principais espaços públicos e  de memória  desta cidade.

Vou en busca da notícia de sangue mais recente  e vejo as imagens da praça de guerra, praça de guerra,  e  lá estão os corpos estendidos no chão. As pessoas andando pra lá e pra cá, outras buscam se aproximar mais, há uma certa banalidade no cenário.

O jeito é cantar o Blues da Piedade.

E na busca pela trilha sonora  destas palavras, rencontro e João Bosco, na leitura poética deste tipo de cena.

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4789882941736&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

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