Chuva, escada

23/08/2013

Chuva

No espelho, as marcas de cinto nas costas. Bem feito. Quem mandou colocar areia no suspiro da bomba de água só pelo prazer de ver o que aconteceria. Aconteceu. O pequeno hotel cheio de hóspedes, a maioria caixeiros viajantes, ficou  sem água, numa época em que não havia água encanada, só cisterna.

A perspectiva é de baixo pra cima, suspenso pelas pernas no banheiro, o cinto alterna um lado e o outro das costas. Falta de ar. O pai arromba a porta, salva o menino da ira materna.

Que tipo de marca uma surra de cinto deixa na memória?

Maringá, Maringá, depois que tu partiste tudo aqui ficou tão triste, cantarola o pai enquanto faz a barba no espelho. O menino de 5 anos sobe numa mesa para alcançar o mesmo espelho e constata a permanência das marcas. Passados três dias as lapas vermelhas ainda estão lá. Passados 70 anos esta memória permanece sem dor, sem mágoa, mas nítida.

De que é feita a memória? Qual o critério de edição para uma cena entrar no filme resumo da vida? A surra, a bomba, o salvamento do pai se misturam à  cena seguinte, de uma dia de chuva, da contemplação dos pingos nas lajotas quadriculadas do pequeno jardim da porta da rua. O menino observa os pingos, os pequenos círculos, os pingos e os pequenos círculos.

Escada

Levou tempo mas consegue finalmente sincronizar. E entender.  Sobe a escada lentamente, tem 75 anos. Presente, diz ao tocar o pé direito no batente da escada. Passado, diz  ao levantar o pé esquerdo. Antes de alcançar o próximo degrau, diz  futuro. Ao tocar novamente o batente seguinte, diz presente.

E sobe cantarolando, devagar quase parando: presente, passado-futuro, presente, passado-futuro, presente.  No presente o pé está sempre no chão. Chega finalmente à porta, ofegante e satisfeito. Pela primeira vez se convence da supremacia  do aqui e agora.

Vive só. Vive de lembranças e das angústias de amanhã. Por isso a experiência da escada trouxe a ele um certo alívio, uma certa distração.

Começa a chover. Fecha a janela e passa  a observar a água  no vidro,  uma parte escorre mais rapidamente, outra espera  por um instante antes de criar volume e descer reto ou pegar um desvio. Lembra do passado. A distância é menor do que um degrau.

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