Casca de ovo, azul

Casca de ovo

Debaixo da cama, crianças. A lembrança é vaga mas o rubor e a temperatura alta permanecem na memória. Ao encostar os lábios no rosto, num beijo quase inocente, a temperatura sobe pelo pescoço, toma a face, seca a garganta.

A música lenta, a vitrola, as frontes coladas, a quase adolescência. Surge a consciência de que o encontro dos corpos altera não só a temperatura, mas o volume percebido e acatado pela partner.

– O que é, o que é, liga em cima esquenta em baixo?

Isso é muito bom, isso é bom demais. Paz de uma varanda. Sol de banda. E a jaqueira dando sombra no quintal.

Na televisão os corpos se movem na abertura de Chico City, na poltrona o rosto quente, a mão trabalha.

Lá fora o subúrbio gelado, tem neve. A dança faz tocar os rostos, o sutiã casca de ovo roça a camisa, a vodka aumenta a temperatura do rosto. Numa só noite cura a solidão de mais de ano.

Azul

Larga o livro. Achou curiosa esta história de temperatura, tem 75 anos e nunca sentiu desse jeito. Pega o telefone, consulta uma agenda amarelada, corre o dedo e escolhe um dos números conhecidos. Liga. É terça-feira. Há anos cultiva este hábito, acha que na terça as meninas estão recuperadas, mais limpas, menos usadas. Acha.

A temperatura é uma questão secundária para ele. Tudo é rápido o suficiente para manter a rotina. Campainha toca, porteiro nem barra mais, rápida conversa, dois goles. Prefere as de cabelos longos e soltos. Só faz questão dos cabelos, manejar os cabelos, trazer pra perto de si. Não é mais rosto no rosto. É uma conversa de cima pra baixo.

Mas numa sexta-feira teve uma surpresa. No estacionamento de um shopping saem dos carros no mesmo momento, um de frente pro outro. quase se batem. Sorriem, perguntam pelas vidas um do outro. Ele não se queixa, esconde as dores, os exames, tem uma súbita vontade de reviver um dia, não mais que um dia, aqueles vinte e tantos anos, há mais de 20 anos. Cria coragem e convida com a intimidade ainda viva, apesar da distância e do tempo.

Prepara o vinho, a música e enquanto corta os cubos de queijo vem a dúvida: o que sente por ela depois de tanto tempo?

Toca o interfone. Sente uma certa ansiedade. Sim, vai dar tudo certo. Ensaia abrir a porta e as primeiras palavras. Sim, vai dar tudo certo. Toca a campainha.

Por precaução, só por precaução, vai à geladeira, pega água, corre rapidamente para uma gaveta e escolhe uma das caixas. Com um rápido movimento, meio atrapalhado, retira o comprido azul, o primeiro da cartela, joga rapidamente na boca, quase engasga.

Corre para porta. A campainha toca novamente. Espera um pouco antes de abrir, respira. Vai dar tudo certo.

 

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