Tão mais fácil quando o preconceituoso é o outro

Justo e necessário atirar pedras no preconceito, nos preconceituosos.

Mas o que acontece quando a merda é flagrada no seu próprio inconsciente, ali, vivinha da silva, agindo na surdina  ou nem tanto?

Tenho um amigo, é doutor, mas nunca vai de sandálias havaianas e bermuda ao shopping para não ser assediado por seguranças. Tenho uma amiga africana, morava numa cobertura em Salvador e me disse certa vez que passou a se arrumar em casa para não viver sempre a mesma situação com empregados novos do condomínio. Quase sempre eles pediam para chamar a dona da casa diante da porta aberta por ela.

Aqui em casa já fomos vítimas algumas vezes. Uma madame quase despediu Soraya numa sala de espera de consultório médico porque ela falou de forma enérgica com Maria. A criatura soltou essa, de forma arrogante e ameaçadora: – Por que você não chama a mãe dela?

Fomos testemunhas de cochichos, comentários maldosos e olhares espantados das pessoas em Iaçu, diante de Luísa e seu namorado, por causa do cabelo rasta do rapaz.

Eu também já entrei na roda da classificação prévia. Ao desembarcar com quatro auditores da Secretaria da Fazenda num estacionamento, todos eles devidamente engravatados e eu barrigudo e em mangas de camisa para cobrir um evento como assessor de comunicação, fui orientado por um porteiro a encostar o carro em outra vaga. Nada errado ser motorista, o problema é a forminha que habita a cabeça das pessoas, a cabeça dos outros, esses escrotos.

Mas um belo e ensolarado dia você se flagra no meio do mesmo pântano.

Cheguei para a hora marcada com a moça da empresa onde fui tratar um assunto comercial. Na minha vez, ela apareceu na porta e chamou pelo meu nome. Seguimos até uma pequena sala para o atendimento. Antes de entrar, perguntei confirmando seu nome. Sim, era ela. Fui atendido de um maneira das mais competentes como poucas vezes na vida.

Foi uma cena normal, ninguém notou nada, talvez nem ela, mas durante os longos 5 ou 10 segundos quando atravessamos a grande sala, pensei estar sendo conduzido pela moça negra do apoio para falar com a funcionária com quem eu havia marcado o horário.

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