Arquivo mensal: janeiro 2014

Nossas caixas, nossa vida, um aceno

O simples é o estado mais difícil. O simples requer clareza, desapego, funcionalidade, inteligência, combinação. Organizar  uma casa é como construir um texto. O alfabeto é o mesmo, as palavras as mesmas, o segredo está na combinação, na economia, na disposição.

Casa nova, desafio de arrumar. Com quase dinheiro nenhum. Na casa só caixas e móveis renegados. O desejo de Soraya seria começar do zero, cama de tatame, dura caminhada.

Mas somos cinco. Muito papel acumulado, muita tralha. O sanitário da primeira suíte da vida do casal está de caixa até o teto, sem previsão de liberação para uso. O que fazer?

Um aceno

Vimos primeiro a criança, colega das escolas dos meninos. Em seguida os pais, um casal de arquitetos conhecido de oi, oi e de alguns papos na praça e na escola. Eles em busca  lanterna na seção de ferramentas da loja de construção para o acampamento da pequena, a gente por uma chave de fenda adequada para desarmar uma estante.

Conversa vai, conversa vem, vai, vem e de repente o convite.

– Vamos lá em casa, é aqui perto, vocês vão ver como resolvemos.

Tomamos um susto com o convite. Abriram a casa para a gente, franquearam a intimidade, numa generosidade absurda.

Adepta do faça você mesmo, ela conseguiu com estantes de aço, destas de escritório, moduladas, mais caixas organizadoras, construir um ambiente bacana, absolutamente personalizado. Nada ali lembrava nada já visto nas lojas, quase tudo material simples, mas combinados com sofisticação.  Mesa e camas foram feitas de portas revestidas. Cada móvel, cada canto tinha a cara do casal. Um  apartamento pequeno como o nosso, mas absurdamente acolhedor. 

Pronto, é por aí. O problema é como fazer. Soraya leva jeito, mas sou absolutamente analfabeto em arrumação de casa. Não adianta usar os mesmos materiais se não há habilidade na combinação. Tivemos  com esse encontro um aceno da ajuda, de orientação, mas o corre-corre da mudança e a viagem para pegar os meninos no interior interrompeu o contato.

Retomaremos.

Tentar fazer é a única saída para quem tem pouco dinheiro e quer fugir da padronização. 

Esse Licuri agora só pensa em mudança e casa nova. Vamos quebrar esse coco.

Anúncios

Mudanças

mudanca2

Falar em mudança, relembro aqui texto antigo, publicado neste coco pequeno ainda no tempo do Uol Blog ( http://bit.ly/1mTaeuK ), em 27 de setembro de 2006, quando mudamos do Pau da Lima para a Pituba:

Felicidade na alma. Vou mudar. Gosto disso. Sou por natureza mutante de corpo, casa e alma. Lembro da primeira mudança aos seis anos, abraçado a dois travesseiros, atravessando a praça da Bandeira, do Hotel Maringá, onde nasci, para o Hotel Lancaster onde vivi até os oito anos, em Conquista. Depois fiquei viciado em mudança, experimentando sempre, voluntária e involuntariamente em mais de duas dezenas de endereços: Salvador, Castro Alves, Manoel Vitorino, Conquista, Salvador, Moscou, Salvador. O lugar onde vivi mais tempo é onde viverei até sexta. Fecho um ciclo de oito anos dos 45 de vida, com a chegada do segundo e do terceiro filho. Saio do apertamento próprio, cercado de verde e pobreza. Vou para o apertamento alugado, cercado de concreto e classe mérdia, como dizia o poeta revoltado de antigamente. Vou acampar ao lado da escola dos meninos. Estou me sentindo como o pai que sai do interior e vai para a capital levar os filhos para estudar. Os meninos perdem os amigos, o pai ganha a alforria do volante na Avenida Paralela engarrafada quatro vezes ao dia, e a mãe perde o sonho da reforma. Todos perdemos e ganhamos, como o macaco da cumbuca.

Em tempo: em vez do golpe de machado na testa do senhorio, tive vontade de tascar um beijo na careca dele depois do contrato assinado. Deu tudo certo, o resto era agonia.

 

Ilustração: http://bit.ly/1d6lpL9

 

Vistoria

Meu senhorio se revelou uma pessoa chata, muito chata, desde o primeiro contato, há pouco mais de sete anos. Na época, tive ganas de virar Raskolnikof, quando ele desdenhou de nossa pressa de mudar. 

Nossa relação começou errada. Na ansiedade de alugar o apartamento, localizado perto das três escolas das crianças,  aceitamos tudo, um contrato que dizia estar o apartamento todo ok, com descrição de todos os itens no detalhe, até de um varal de alumínio.

Só que não estava. Os armários já apresentavam pó de cupim desde o começo, tudo ali era muito elegante e antigo, muito perfeito na década de 70. O tempo passou, a PDG me sacaneou e eu fui renovando o contrato sempre a favor do senhorio, não tinha argumentos, na hora h amofinava, enfim, sempre fui um péssimo negociador. O resultado é que depois deste tempo todo pagava o maior aluguel do prédio.

E agora, como entregar um armário de aglomerado destroçado, sem uma das portas, um armário do banheiro sem um vidro, um suporte de tanque de área de serviço todo despedaçado por um vazamento, um par de porta de box quebrada, piso arranhado, maçanetas soltas, portas quebradas? Enfim, tornar novo o velho só com mágica. Conseguida por Cardoso, marceneiro de Cajazeiras, sukgerido por Elias, um faz tudo especializado em pisos, indicado na lista de e-mails de novos vizinhos. Nesta lista, que além de amaldiçoarem a PDG em 9 de 10 mensagens, os moradores trocam também informações preciosas sobre prestadores de serviço.

Gastei mais no velho apartamento do que no novo, Cardoso fez mágica, recuperou os armários, trocou portas, arranjou até um velho vidro jateado, igual aos demais. Fui na Ladeira da Soledade e renovei as portas de box com se Antônio, com preço 1\3 menor do que na Barros Reis. Mas depois de todo este esforço, a tensão sobre a aceitação dos consertos permaneceu. Nem tudo ficou perfeito, uma gaveta foi esquecida e colada às pressas na véspera, por nós mesmos. 

9 horas em ponto de segunda chega ele com sua gravata, paletó maleta e contrato na mão. Começou dando parabéns por Luísa, viu o nome dela no jornal, na publicidade do Oficina. Disse que a filha também é arquiteta, em todos os encontros fala desta filha moradora da Áustria, um típico pai babão, mas nisso empatamos. Tem orgulho também do filho, que passou em primeiro lugar no concurso federal na frente de outros quatro mil candidatos. 

Entrou, começou a testar as janelas, se queixou da pintura que respingou no rodapé, fez várias perguntas, eu e Soraya, moídos pela faxina da véspera, começamos a pensar no pior.

A medida que a vistoria avançava, a interrogação aumentava. A conversa sobre filhos misturada a detalhes em falta não nos garantia se a reforma seria aprovada ou se teríamos mais uma dívida pela frente, sem falar do aluguel e condomínio do mês ainda em aberto.

Estávamos prontos para o pior. Fizemos o possível para não criar problema com o senhorio nem dor de cabeça para meu cunhado e fiador, uma pessoa correta que não merece ser importunada. Mas se aquele senhor fizesse mais exigências acionaríamos nossos advogados juniors porém competentes Dr. Victor ou Dr João, ambos de prontidão para reaver parte do prejuízo provocados em nossa vida pela  PDG.

Suspense no final, entreguei todas as chaves e esperei o pior. E aí?

– Tudo certo, cumpriram o contrato.

Alívio geral.

– E o aluguel deste mês, perguntei, na intenção de engatilhar um pedido de parcelamento.

– Vocês não me devem nada, sou um pessoa correta, e gosto de incentivar pessoas corretas como vocês.

E tirou dois cartões do bolso, onde se lê Manoel Vitorio da Silva, Advocacia e Consultaria. Se precisar de qualquer coisa, é só me procurar, considero vocês meus amigos, pessoas admiráveis e de bem.

Olhei para Soraya, quase marejamos, quase demos um beijo na careca do sujeito, quase pedimos perdão. Ele, que havia sido sacaneado pelo inquilino anterior, sempre foi inflexível conosco. Mas na última hora se revelou outro.

E se revelou outro  por ter transportado e plantado com as mãos as árvores da rua em 1972 (recentemente envenenadas), por prezar pelos jardins e pelas áreas comuns, enfim, se revelou, de verdade, uma pessoa que jamais havíamos conhecido nestes sete anos de embate. Uma pessoa muito bacana, não pelos R$1400 de presente, absolutamente não previstos no contrato nem na nossa mais otimista previsão, mas pelo gesto.

Um forte abraço Dr. Manoel Vitório. Estamos gratos, muito gratos por tudo. Até pela oportunidade de revermos nossos conceitos.