Só dou se for para beber

25/01/2014

O dia começou antes do amanhecer, ruas vazias, eu rumo à antiga morada para pegar as últimas caixas, resolver os últimos reparos nas coisas que capengaram em sete anos de uso e quase nenhuma manutenção. Na hora de entregar ao dono do jeito que encontrou é que a gente se dá conta do estrago.

Subo e desço umas 355 mil vezes as escadas, encho o carro com as últimas tralhas, mas cadê as chaves? Subo, procuro no apartamento inteiro. Desço, tiro tudo do carro, nada. Só restou procurar no porta-malas. Fechado.

Ando até a esquina e negocio com o chaveiro. 50. 40. 50. 40. R$45.

O cara abre uma sacola mais variada do que a instrumentação de um cirurgia, enfia daqui, pinça dali, torce daqui. E nada. Liga para o mestre. Recebe instruções. Nada. Chega o mestre de moto, meia hora depois. Abre outra sacola, mexe daqui, dali. Nada.

Ligo para Soraya e aviso que não vou poder levar a cunhada nossa hóspede, no curso, já são quase 8 da manhã. Ela sugere fazer uma cópia da chave com o miolo, justamente o que ele já estava fazendo. Esta minha cunhada está se perdendo como dentista. Devia ser chaveira.

Primeira vez que vejo uma fechadura dar 1xo no chaveiro. Em dois chaveiros. A ideia da dentista quase resultou. O problema é que o miolo da tampa do tanque de gasolina tem 2 segredos a menos. Vira daqui, lixa dali, finalmente o mestre consegue. A primeira coisa que vi no porta-malas foi a chave olhando pra minha cara, rindo, em cima de uma caixa.

Quase 9 da manhã de sábado quase perdida. Vou à Barros Reis em busca do conserto da porta de box quebrada e acabo na Ladeira da Soledade, se quisesse para hoje. Volto pra comprar mais tinta, o carpinteiro atrasa, nada parece dar certo.

Finalmente, 11 da manhã quase tudo resolvido. Paro então na barraca da esquina e lá só tem aquela cerveja aguada que deu nome feio à minha Fonte Nova. Mas nem tudo está perdido. O cara, ao ver minha aflição, me apresenta como alternativa duas últimas  garrafinhas de Heineken.

Depois do gole da sede, o dia começa a parecer perfeito, alguém já disse que a gente nasce com duas doses a menos. Ou duas garrafinhas de cerveja de verdade consumidas em 5 minutos num dia de calor.

Sigo mais feliz com dosagem certa. Encontro um trapo humano que pede qualquer moeda. Dou uma cédula de 2, o troco da cerveja, e recomendo: – Não vai comprar cachaça.

A caridade me torna mais cretino. Melhorei meu dia à custa do álcool e fico a exigir retidão de quem está um pouco pior.

Mas vou me tornar uma pessoa melhor. Dá próxima vez só dou se for para beber.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: