Solidariedade feminina

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Sou do tempo do discar. O 1 voltava rápido. O zero era uma eternidade no retorno com barulhinho de catraca contrariada, bem anos 70. Depois evoluí para a tecla, mesmo assim meu tempo é do telefone para telefonar. Máquina fotográfica pra fotografar. Filmadora pra filmar. Computador pra computar.

Comprei ontem uma máquina fotográfica e filmadora acompanhadas por telefone com duas linhas e um computador com acesso à internet e 16 gigas de memória.

Resisti bastante à mudança. Defendia e até me “exibia” com meu telefone peba. Mas meu erro fatal foi mudar do peba Nokia para o peba Alcatel. E quando você junta um peba Alcatel com a TIM o resultado pode ser desastroso.

A gota d’água aconteceu na sexta, quando no meio de uma conversa crucial com a chefia, a primeira demanda importante no retorno das férias, o Alcatel ficou mudo. A bateria acabava duas vezes por dia sem se dignar a avisar.

Mas o pior eram as ligações ignoradas. Nestes dias de muita pressa e muitíssima carência, não retornar uma ligação em 3 segundos pode ser interpretado como lerdeza ou desprezo.

Como não queria os amigos magoados e nem ser despachado do trabalho por incompetência,  fui em busca da marca Sansung. Já havia definido  também há muito meu futuro ingresso na tribo Androide. Tenho uma antipatia inexplicável por iPhone mesmo sem jamais ter usado um. Mas também uma simpatia absurda pelo Mac, um dia ainda terei um.

Entrei na loja perguntando pelo Sansung Duo. Mas fui na concorrência checar a novidade alternativa oferecida pelo primeiro vendedor. Voltei e saí com um Moto G nas mãos.

Como assim Moto G? Motorola não era aquele marca do tijolão da pré-história da telefonia celular?

Era, mas foi comprada pelo Google. Já havia ouvido falar vagamente sobre isso e do lançamento do aparelho no final do ano passado. Mas os dois vendedores me informaram os detalhes, da procura maior, do sistema operacional com garantia de atualização, da rapidez, da máquina que faz foto apertando em qualquer lugar da tela e da possibilidade de fotos em sequência, da bateria potente e toda a lista de vantagens na ponta da língua de todo vendedor.  Acreditei.

Mas pesaram mesmo na minha decisão duas palavras: Google e Androide.

Pode falar, pode rir de mim, até me chamar de besta, mas sou bastante grato ao Google, até fã.Teria largado há muito a profissão  caso não surgisse uma fonte de pesquisa como essa, rapidíssima e confiável quando bem feita. Além da quase ausência de memória, defeito grave em quem trabalha com comunicação, necessito sempre confirmar a existência de muitas coisas. E não tem ferramenta melhor para constatar a existência das coisas do que o Google.

Com a aquisição, resolvi praticamente todos os meus problemas de comunicação e ainda ganhei o bônus de passar a pertencer depois de séculos ao mundo desconhecido dos que usam Instagran e whatsApp.

Mas ganhei também três problemas:

Nunca me roubaram um celular peba. Devo ter sido muitas vezes revistado com os olhos e liberado. Com esse bonitão no bolso, corro sério risco de virar estatística nesta nossa guerrinha muitas vezes fatal pela posse de bugigangas tecnológicas. Soraya disse que na porta do Luís Viana, aqui perto, quase todo o dia ouve berros de alunos chorando a perda depois do ataque de pequenas gangs,  de tocaia nas cercanias do colégio.

O segundo problema é que estou com sérias dificuldade para operar  tanta tecnologia concentrada. André e Maria já são íntimos, já pegaram no bicho resolvendo tudo com seus polegares opositores afiados de nascença e se oferecem piedosamente para me ensinar a dar os primeiros passos. Ando tão  lerdo que demorei até para acertar a atender a primeira ligação.

O terceiro e mais grave é que perdi todos os argumentos para adiar a compra das  muitas coisas que faltam para a casa. Sempre fui contra prestações, mas o ser humano se trai no desejo e terei longos 10 meses sem argumentos.

O pior é que a contradição é mais visível do que eu pensava. Ao receber nossa primeira visita, de um casal amigo, Soraya teve a solidariedade feminina. Foi só eu encontrar uma oportunidade de me exibir com o novo aparelho para nossa amiga, testemunha  ocular da bagunça da casa por conta da ausência de suporte para as coisas, soltar imediatamente e quase indignada a perguntinha travada na garganta de Soraya há quase 48 horas:

E os armários?

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