Arquivo mensal: março 2014

Cadeira

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Calção, camiseta, havaianas. Fui até o cinema da UFBA buscar Luísa no estacionamento mas por conta de um desencontro acabei na antessala do cinema. Com a roupa que costumava assistir aula ali do outro lado do vale. O dobro da idade e quase o dobro do peso não pesaram e eu não me senti deslocado com esta roupa inadequada, como não me sentia na época de estudante. No cinema acontecia um debate depois da projeção do filme Iara e da sala saiu um candidato a reitor, meu contemporâneo. Estou velho, um contemporâneo pode ser reitor. Mas eu ali de calção e havaianas me sentia um aluno convidado, me sentia bem, de bem com a atmosfera. A universidade está um pouco mais miscigenada mas continua predominantemente branca. Encontrei André Santana, encontrei o artista gráfico Marcos Costa, eu me senti em casa apesar dos muitos anos depois. Agora Luísa tem aula ali. Fui um cara privilegiado, tive aula no primário numa escola pública, num curso técnico público, e numa universidade pública. Foi bom ver a universidade viva, com alma, com viço e ainda acolhedora. Como esta cadeira da antessala do cinema.

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Chuva

Foi à feira naquele sábado de chuva já desconfiada. A melhor amiga confirmou, sim estava sendo traída. Naqueles dias de 1930 no interior da Bahia, domingo era dia de missa. Mas ela separou as horas em metades e das 9 às 19h30 passou em revista todos os amigos e alguns inimigos do marido. Na segunda-feira, ainda chovia. Embarcou para o Rio de Janeiro, casou novamente e, segundo contam os netos, foi feliz e nunca mais traída.

Lúpi deambula

Ele  veio para nossa casa como viemos ao mundo, sem nenhuma possibilidade de escolha.

Talvez pior porque de asas cortadas para não voar.

Se fosse humano, teria as pernas quebradas para não fugir.

Pior ainda, veio como compensação pelo veto a um cachorro. E veio doado pela segunda vez, esta é sua terceira casa.

Está muito bem tratado, tem atenção constante das crianças, reclama e quer ir atrás quando todos saem para a escola.

Mas quando o vejo caminhando pela casa, cambaleante, deambulando (obrigado Ângela Vilma), sinto culpa, como se eu fosse o furador dos olhos do Assum Preto.

Filosofia vai, filosofia vem, na mesa do almoço a discussão é se vale a pena aceitar Dóris, a parceira para Lúpi, omo forma de amenizar sua solidão de bicho igual. Na natureza, as calopsitas vivem em bandos.

Dóris já está prometida pela tia Conceição, mas a irmã maior argumenta que aceitar a parceira  é colaborar para a continuidade do negócio de aves presas e de asas cortadas.

O dilema é: resolve o problema individual de Lúpi e colabora com a continuidade deste tráfico de sofrimento animal ou sacrifica Lúpi pelo bem do futuro das calopsitas na terra?