Arquivo mensal: abril 2014

Um bom lugar

palacio - Cópia

Seu Ari, ontem neste lugar só faltou você. Pessoas, música, poesia. E tudo quase por acaso, do meu ponto de vista, é claro. Dizem, texto adjetivado e repetitivo perde a força. Mas eu preciso completar: pessoas fantásticas, música e poesia absurdamente boas e da mais alta qualidade, papo gostoso. Uma tarde de sábado inesquecível. Só faltou você.

E tudo quase por acaso, do meu ponto de vista, é preciso repetir.

Foi uma tarde de muitas designorâncias pra mim. Aprendi, por exemplo, que Sábado em Copacabana é de Dorival Caymmi. E não é que a letra cabe direitinho ali?

“Depois de trabalhar toda a semana
Meu sábado não vou desperdiçar
Já fiz o meu programa pra esta noite
E sei por onde começar”

Cheguei atrasado para a homenagem a Manoel de Barros, mas a ponto de ouvir o último poema. Bem sacaninha:

“Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.”

E as pessoas reclamam muito da falta de homenagens a Caymmi no centenário. Mas é nestes pequenos encontros, neste formato intimista é que as homenagens são mais verdadeiras.

E para ficar no lugar comum, Alexandre Leão deu um show, ali na voz e violão, botando o público pra cantar, falando sobre as músicas.

Gosto muito da casualidade destes eventos pequenos, sem muita pompa, sem ingresso, sem multidão. São uma boa forma da gente ter nosso imposto revertido em serviço.

E este formato parece mais com a vida cotidiana. Ali sentado, tomando um vento, olhando as árvores e diante de pessoas talentosas, produtivas, vivas. Depois um papo com os amigos, sem ter marcado, sem compromisso, falar mal da oposição, falar mal do governo, falar mal e bem dos outros, conversar sobre as crianças, sobre a vida.

Aqui em Brotas, no Engenho Velho, temos um espaço parecido e sinto a mesma coisa quando vou lá no Parque Solar Boa Vista. O lugar é ocupado pelas pessoas do bairro, tem sempre alguma coisa acontecendo.

Enfim seu Ari, ou Meu Rei, seu súdito aqui agradece e muito a tarde de sábado no seu, no nosso palacete. Estou acompanhando seu cronômetro, quando passar a maresia, quero ir de novo num sábado qualquer neste bom lugar pra gente jogar conversa fora.

 

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A maldição da coruja

Sou agnóstico mas busco Deus em tanta bala, tanta morte matada, mais de cem neste abril. Escuto pipocos, mais de cem. Conto as mães, mais de cem. Mais de cem é a  metade de mortes da boate incendiada no Rio Grande do Sul. E menos de um milésimo da atenção minha, sua, de todo o mundo.

Afora aqui e ali, os jornais silenciam, as pessoas silenciam. São todos “malas sujas”, gente que não presta, aprendi esta nova definição em Feira de Santana. E mala suja não é gente, não merece a minha e a sua empatia,  não é notícia. A não ser nos programas e sites e blogs  do chamado jornalismo abutre. É só dar um google  pra sua tela sangrar.

Mas acredito piamente na reverberação de toda esta dor. Ela volta pra gente, mais cedo ou mais tarde. Ela também nos cabe.

Também não acredito nos maus presságios das corujas. Mas Iaçu, cidade de menos de 30 mil habitantes, uma das muitas Macondos da Chapada Diamantina,  teve ontem mais um assassinato e duas crianças baleadas.

Mas os maus presságios de uma coruja  e uma piada do cantor de trio Bell sobre Iaçu repercutiram muito mais do que o assassinato e duas crianças atingidas por balas na Portelinha, conjunto habitacional com nome de bairro de novela, na  margem direita do Paraguaçu, perto da coruja.

E repercutiu muito menos ainda uma acusação de estupro, também na Portelinha, no início do mês. Acusação seguida de julgamento e morte do acusado dentro de uma cela da delegacia da cidade, rito sumário. Detalhe: o exame de corpo de delito, soube de fonte confiável, não confirmou o estupro, mas o trapo humano executado teve as pernas amarradas para caber no caixão.

E o  que eu e você temos a ver com isso?

Pressinto, creio que vai sobrar pra gente. Já sobrou. Sobrou conviver com a reverberação de toda essa dor, com a reverberação deste ritual praticado na delegacia por gente de 18, 20 anos. Ou pelo menos com a tal banalização, talvez mais grave ainda.

Estamos todos no mesmo barco. Eu, você, os moradores acusadores da Portelinha, o delegado de Iaçu, os jovens carrascos, as crianças baleadas. O barco é um só e muita gente não entendeu ainda.

Não disseram que estamos todos juntos nesta linda passarela de uma aquarela que um dia enfim descolorirá?

Tá acelerado este processo.

Infância em Macondo

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Iaçu, em 17/04/2014.

Como tenho pouca imaginação, ao ler um livro faço a locação da história em lugares conhecidos. Macondo, por exemplo, fica em Tanhaçu, cidade da minha infância. As chuvas eternas, o sangue que escorria e escorria e escorria, escorria pelos morros do interior de Minas da minha infância.

Ao conhecer Iaçu, também tive a sensação de estar em Macondo, embora seja lugar comum essa comparação com cidades pequenas, calorentas e ermas.

Pois a morte de Gabriel García Márquez me pegou nesta tarde em Macondo / Iaçu. E me pegou mesmo, me trouxe a sensação de movimento, do mundo andando para o fim.

O fim do mundo é em câmara lenta no sumiço das pessoas, dos próximos e dos conhecidos.

De alguma maneira sou conhecido de Márquez. Eu o conheço, apresentado talvez pelo meu amigo irmão Josias Pires,  que não tem mais nenhum exemplar de toda a bibliografia simplesmente porque emprestou todos, sem retorno.

De alguma maneira conheço Márquez decifrado pelos amigos colombianos Ernesto Diaz e Dario Campos, a quem perguntava o significado de algumas palavras na tentativa de ler no original.

Mas sobretudo conheço pelos 6 ou 7 livros dele que li. Muito pouco, deveria ler todos, mas meia dúzia já é um recorde para minha pouca leitura.

Gosto do exagero de Márquez, da força dos seu exagero. Ficou na minha fraca memória para sempre a cena do encontro tardio do casal do Amor Tempo tempo do Cólera quando, num barco,  ele esperava tocar a mão  desejada na juventude mas encontra a flacidez da velhice, o amargo do hálito da velhice.

Sinto a morte de Márquez  também porque  tenho a convicção de que morremos na morte alheia. E a cada dia temos morrido mais, com mais frequência.

 


Em 37:57: “Todos tienen tres vidas: Una vida pública, una vida privada y una vida secreta.”